Este texto foi originalmente escrito para a revista Aplauso (nº 70)
– Tu faz dança? Que legal! Mas que tipo de dança?
– Dança contemporânea.
O sujeito fica parado e depois de vencer o constrangimento:
– Mas o que é essa tal de dança contemporânea?
Daí o vivente, que faz dança contemporânea e sabe bem o que faz, se vê em apuros para dar uma resposta clara. Afinal, dança contemporânea não é uma técnica ou método que vem com rótulo. Então, ele arrisca:
– Sabe o Quasar Cia. de Dança? – que o vivente acha referência no país e crê ser bastante conhecida.
O sujeito permanece na mesma.
– E o Grupo Corpo? – ele lembra, já entrando em desespero. – E Deborah Colker? – ainda que não fosse o melhor exemplo que você quisesse dar.
– Ah, já vi na televisão, responde o sujeito finalmente com um brilho no olhar de quem agora pode encerrar a conversa.
E o vivente, com a certeza de que não conseguiu explicar e que melhor que explicar era sugerir que assistisse a um espetáculo.
A realidade é esta que o suposto diálogo acima ilustra. A idéia de dança contemporânea não consolidou uma referência para a maioria do público (e mesmo para a comunidade de dança), ainda mais num Estado que vê com desconfiança aquilo que não é tradição. E isso vale muitas vezes para quem produz, ou acha que produz, dança contemporânea. Basta ver a confusão em tantos festivais competitivos. O território da dança contemporânea é um vale-tudo. Passos de jazz com música experimental. Neoclássico ao som do diálogo dos bailarinos. Dança de rua com um toque de vanguarda. E a obra, nesta lógica estapafúrdia, é avaliada por especialistas de toda ordem, menos de dança contemporânea.
Esta realidade tem como origem a rara circulação de informações e o consumo de informações descontextualizadas e superficialmente elaboradas. A qualidade dessas informações é essencial e precisa ser difundida a quem pretende preparar um treinamento, criar, julgar e apreciar a dança contemporânea. Não dá para saborear morangos e reclamar de que não têm gosto de figos. Ninguém curte uma partida de futebol sem conhecer as regras do jogo. Nesse sentido, é preciso apresentar alguns fatos, ainda que de forma sintética, para que eles possam falar desta tal de dança contemporânea.
Fato 1. A dança contemporânea não é uma escola, tipo de aula ou dança específica, mas sim um jeito de pensar a dança. Forjada por múltiplos artistas no mundo, teve nas propostas da Judson Church, em Nova York, na década de 60, sua mais clara formulação de princípios. Dentre eles, o de que cada projeto coreográfico terá de forjar seu suporte técnico. E que ter um projeto é percorrer escolhas coerentes, como o fez Trisha Brown – e também, longe dali, na Alemanha, Pina Bausch, com sua dança-teatro, nos anos 70. Tal princípio implicou tanto a preservação de aulas de balé nutridas por outras técnicas e linguagens quanto o abandono do balé e a incorporação, por exemplo, de técnicas orientais. Assim, passou a se constituir uma infinidade de alternativas, como o teatro-físico do DV-8 (companhia inglesa composta só por homens, que aborda a homofobia e que recorreu ao uso de corpos que expressam força, agressividade e sexualidade, coisa que o balé não podia fornecer).
Fato 2. Não há modelo/padrão de corpo ou movimento. Portanto, a dança não precisa assombrar por peripécias virtuosas e nem partir da premissa de que há “corpos eleitos”. Na dança contemporânea, a máxima repetida por pedagogos ortodoxos de que “não é tu que escolhes a dança, mas a dança que te escolhe” não tem sustentação. E, dessa forma, pode-se reconhecer a diversidade e estabelecer o diálogo com múltiplos estilos, linguagens e técnicas de treinamento.
Fato 3. Dança é dança. A dança contemporânea reafirma a especificidade da arte da dança. Dança não é teatro, nem cinema, literatura ou música. Apesar de poder ganhar muito com a cooperação dessas artes. A dança não precisa de mensagem, de história e mesmo de trilha sonora. O corpo em movimento estabelece sua própria dramaturgia, sua musicalidade, suas histórias, num outro tipo de vocabulário e sintaxe.
Fato 4. The Mind is a Muscle, proclamou Yvone Rainer quando a dança pós-moderna norte-americana abalava o estabilishment. Pensamento e corpo, tão separados na tradição ocidental, não são entendidos como lugares estranhos um ao outro. Até mesmo a ciência já traz evidências de que razão e emoção não são opostos. O pensamento se faz no corpo e o corpo que dança se faz pensamento. Isso não implica uma cerebralização fria, no caminho de uma dança conceitual, nem na biologização vazia da dança. Tal princípio não exime a qualidade técnica, nem o sabor e o prazer de dançar. Ele ressalta a complexidade que precisa ser compreendida.
Tais fatos precisam começar a ecoar, se o objetivo é saber o que é esta tal de dança contemporânea, que as pessoas insistem em dizer que fazem e que insiste em permanecer em cartaz em teatros, calçadas, estúdios. (Não foi à toa que Fato. se chamava o recente e provocante espetáculo da coreógrafa gaúcha Tatiana da Rosa.) Fatos que estão se estabelecendo em obras sensíveis e inteligentes, construídas dentro destes princípios na temporada 2005, em Porto Alegre, como In-compatível, de Eduardo Severino, ou Bu, da Meme – Centro Experimental do Movimento. A mesma qualidade está no trabalho de Nei Moraes, em Caxias do Sul, e Luciana Paludo, em Cruz Alta.
A partir desses fatos, pode-se muito (mas não se pode qualquer coisa). A liberdade trazida pela perspectiva da dança contemporânea não dispensa idéias fortes e a inventividade das grandes obras de qualquer forma artística, nem um domínio técnico (ainda que isso não caiba mais apenas nas esfera do aprendizado de passos corretos). A dança contemporânea evidencia que escolhas estéticas revelam posturas éticas. Numa época de tantas barbáries impostas ao corpo, é preciso recuperar esta ética quando se escolhe fazer arte com o corpo – seja o seu, seja (principalmente) o dos outros.
A dança contemporânea parece ter aceitado a provocação, com ecos de contemporaneidade, de Jean George Noverre. O mestre de dança, em 1760, ao falar sobre o balé e as rígidas regras da dança da época, afirmava: “Será preciso transgredi-las e delas se afastar constantemente, opondo-se sempre que deixarem de seguir exatamente os movimentos da alma, que não se limitam necessariamente a um número determinado de gestos”. Num mundo de tantas conquistas e descobertas sobre nós, seres humanos, seria no mínimo redutor ficar tratando a dança como apenas uma repetição mecânica de passos bem executados. Fazer tais passos, na música, ursos, cavalos e poodles também fazem. Creio que o ser humano pode ir mais longe que isso. Talvez este seja o incômodo proposto por esta tal de dança contemporânea. O de que podemos ser mais e muitos.
Port
Eng
Olá,
Só uma correção!
Faltou o nome do ¿por-quá? Grupo Experimental de Dança, que participou também do evento promovido pela Cia Quasar.
obrigado
Pôxa Airton! Bacana o seu texto sobre a Quasar! Gostoso e leve como a própria companhia é com suas obras. Só faltou o nome do ¿por quá? junto aos outros grupos de dança da cidade que mostraram sua produção naquele dia de bate-papo. Aproveito para agradecer publicamente e nacionalmente a Quasar pela generosidade e oportunidade aos grupos locais e muito mais por sua dança que tanto (pre)enche a nós goianos!
Luciana Ribeiro – Coordenadora do ¿por quá? grupo experimental de dança
Goiânia/GO
QUeridos Sacha e Luciana
Obrigado pela correção. Inda mais pelo inquietante e já promissor resultado do trabalho do ¿por quá? apresentado por vocês.
Olá Airton,
Obrigado. Verdade, a estréia foi muito boa.Agora queremos divulgar o trabalho e rodar com ele.
abraços.
sacha
Olá!saudações Airton pelo belo texto que expõem muito bem o perfil desta companhia!Apesar de conhecer a pouco tempo o trabalho da Quasar ,já me sinto envolvido por sua linguagem…
Aproveitando o momento de ressaltar o quão importante foi o espaço que a Quasar deu aos grupos de Goiânia!!!E em nome dos DANÇADEIROS que participaram do espetáculo do ¿por quá? fico na expectativa de ver o cenário da dança em Goiânia crescendo cada vez mais!!!
Abraços!
É bom receber notícias do meu (?) Goiás. Ainda que parece, que eu seja de ‘qualquer lugar’.
O assunto: Trata-se do percurso de uma Cia. cuja complexidade de abordar o corpo para produzir, não só uma grafia muito particular, bem definida e transversalmente conquistada e inscrita em sua história nesses tantos anos, mas também os universos particulares de cada obra (especial Henrique Rodovalho).
Não tem como pensar na trajetória da Cia., mesmo eu que estive só por 2 anos, pelo Espaço Quasar, e não retomar memórias tão pessoais e ao mesmo tempo tão expostas desse canto de dança que tanto reverbera.
Não somente pelo já citado trabalho de Rodovalho, mas também as possíveis aberturas e empreitadas concedidas e apoiadas por Vera Bicalho. Ou mesmo pelas inquietudes de bailarinos – criadores também – que construíram essa história, e que de algum modo, entre distanciamentos e aproximações ainda garante vivo esse espaço: Kléber Damaso, João Bragança… Além de ícones corpo-imagéticos que desenharam sensações nessa história de corporificar um estado Quasar de encenar a dança: Lavínia Bizzoto e, nossa gigantesca pequena, Gica Alioto (espaço de saudade pra tanta gente).
Tantas outras ‘gentes’ com quem estive e com quem esse espaço esteve… e olhei… e vi… e aprendi…: Letícia Ramos, Érica Bearlz…
Eu era de uma gente tentando se achar: Núcleo de Pesquisa (o NP). Acho que ainda não me achei, de fato – se que isso exista. Mas encontrei muita gente, que não só dividiu espaços de aprendizagem e de criação de dança, mas também dividiram sua respirações, suas inquietações… desejos tão pessoais e tão necessários para fazer que qualquer coisa torne-se algo: Priscila Basile (parceirona), Karine Frattari (amor e admiração, ainda que na distância), Mari Baleeiro – tanta loucura interessante (d.i.v.e.r.s.i.d.a.d.e.), ainda que num desabrochar da potência criativa demandando encontrar os produtos artísticos em sua elaboração e sofisticação. Lembro de todos, com as idiossincrasias que pude perceber e registrar – não vou continuar as citações para não me perder nessa pieguice em que me meti.
E claro: um espaço [QUASAR] móvel. Que não olha só pro umbigo. Se move no mundo e faz mundos se moverem lá e por lá passarem. Em diversos formatos, diálogos possíveis são criados, não só com a dança, mas com outras linguagens artísticas, com projetos educacionais, dentre outros, fazendo a informação circular.
De um ponto, ver tantos outros… grupos citados por Tomazzoni, e sem dúvida, o ¿por quá?. Pelo engajamento epistemológico, crítico e político de Luciana Ribeiro, com quem também pude trocar e generosamente receber muito. E também, por gerações de ´porquarianos´ que juntos a ela têm encontrado condições necessárias para ressignificarem o corpo, seus corpos, a dança, suas danças.
Ana Paula (copium), Giselle, Lóis… e também Ana Célia – porque, afinal, existe um ‘behind the scenes’… algumas figuras de antes e outras ainda de agora, como tantas em todas as histórias.
Eu sou qualquer um… somos, né? nos fazemos nessa história passante. De qualquer modo me faço u.m., numa (essa) narrativa autobiográfica de tantos (nós)!
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Trago isso__________________ aqui!
AIRTON, OBRIGADA PELO ESPECIAL CARINHO.
Olá Airton, ótimo texto que expõe de forma muito clara parte da trajetória de uma das grandes e competentes Cias. de Dança Brasileira. Iniciativas como esta valorizam a visibilidade e a importância da dança Nacional nas diversas dimensões. Parabéns!!
Olá querido. Seus artigos são sempre reacheados de aprendizados sobre a dança brasileira.E para quem está no Norte do País, isso é bom demais para ampliar o saber local em universal. Parabéns pelo fluente texto, e votos de muito mais sucessos ao Quasar. E vamos torcer que a Cia, venha mais para Belém, aliás, esta rota por aqui é sempre esquecida nas agendas das companhias brasileiras, porque ser?