(N.R: Quatro solos que se destacaram dentro do projeto – O Peixe, Vela a Pilha, Tempo Líquido, Eles assistem e eu danço – vão ser reapresentados de 13 a 16 de abril no Teatro Ginástico).
O carisma e a força que a juventude e a técnica do jovem bailarino Rafael Gomes dão como ponto de partida não mereciam, da parte da coreógrafa carioca Deborah Colker, um trabalho tão literal em O Peixe. Deborah, em seus próprios espetáculos, já mostrou que pode inventar situações de movimento mais inesperadas, mas se acomodou na espetacularidade do intérprete e, apesar da boa solução cênica de Gringo Cardia para um espaço compartilhado e por definição simples como é o proposto pelo projeto Solos no Sesc, deixou seu peixe na superfície da mímica e da coleção de movimentos de repertório assolados pela música de Vivaldi.
A segunda peça da primeira noite,???, é embalada também por carisma e técnica, mas do tipo que vem da maturidade de um intérprete. Steven Harper tinha nas mãos, com a diretora Stella Miranda, a possibilidade de realmente, ainda que num pequeno solo, questionar, como dizem no texto que apresenta a peça, os estereótipos do sapateado. Mas o resultado, mesmo com a forte presença e técnica de Harper, apenas desenha um tipo de espetáculo metaligüístico comum hoje na dança contemporânea. Fica a sensação de um resultado que gera o processo, não o oposto e essa direção que parece perguntar para obter as respostas desejadas acaba por enfraquecer a brincadeira e a ironia de Harper.
A peça seguinte, Por dentro, Rodrigo Néri para a bailarina Ana Amélia Vianna, é um exemplo concreto de como as informações recolhidas em anos de colaboração com um criador não são fáceis de se modificar. A peça escapa pouco ou quase nada dos desenhos coreográficos reconhecíveis de Márcia Milhazes, de quem Ana Amélia foi colaboradora. De novo, em cena o que se vê é uma grande intérprete, mas pouco se destaca a coreografia ou as idéias por trás dela.
No extremo oposto e claramente a melhor peça das duas semanas de projeto, Maria Alice Poppe encontrou em Mauricio de Oliveira um parceiro capaz de dialogar com suas habilidades talhadas em uma década de parceria com o coreógrafo Paulo Caldas, de forma a estabelecer em Tempo Líquido um novo jogo criativo e refrescar sua atuação como bailarina.
A segunda semana foi marcada pela repetição de fórmulas de solo muito conhecidas e uma falta de espaço para a invenção, com peças que parecem querer se adequar a públicos pré-existentes, se enquadrar em modelos consagrados, quando o espaço do projeto é justamente o do risco e a idade da maioria dos artistas, a da ruptura.
Houve um pouco de ousadia, ainda que muito calculada por seus efeitos cênicos esperados, marcação de luz e figurino, na utilização do imaginário sacro-profano popular na peça Abaixo do Equador, de Airton Tenório para Jean Gama. Houve um pouco de humor, ainda que cercado de idéias não realizadas e desgastadas sobre o feminino, no trabalho de Paula Águas para Fernanda Cavalcanti. Rui Moreira e João Paulo Gross se perdem em O.P.N.I, um emaranhado de experimentação de movimento sem resultado em cena à altura dos envolvidos. E no último trabalho da noite, Curta-metragem, da jovem Ana Andréa para Fernanda Reis, uma seqüência de clichês baseados no cinema mudo se mistura com uma encenação fraca e movimentos que mesmo Ana Andréa já tinha mostrado melhores em seu trabalho anterior.
No balanço final, a certeza de que estamos todos falhando. Os formadores e professores, os apresentadores, os co-produtores, os curadores. De alguma forma, vivemos hoje na cidade uma cena carioca onde todo mundo é coreógrafo e as noções do que seja esta arte se esgarçaram a um ponto muito preocupante. Colocar uma dança em cena é tão mais que encadear passos, mais que uma boa idéia de performance que poderia funcionar num happening, mais que desenhar um resultado de dança pós-moderna sem passar pelo processo que nela resulta.
Na estréia da segunda semana, eram muitas as vozes se perguntando como chegamos a esta safra espetacular de bailarinos em paralelo a uma safra ainda tão imatura de coreógrafos. Será a praga do intérprete-criador – uma opção artística transformada em imposição de mercado e inclusive tema de acalorado debate no último Panorama?
Ou será a sobrevida daquela noção muito ultrapassada de que ser coreógrafo é a aposentadoria natural de um bailarino? Ou ainda que se você for um excelente intérprete de muitos criadores durante décadas, automaticamente está habilitado a criar espetáculos?
Embora sejam vários os casos em que estas aproximações deram certo, é claro que normalmente são becos sem saída. Os Solos do Sesc cumprem seu papel de instigar o debate e mostram, em seus oito resultados, que seus excelentes intérpretes mereciam melhores solos.
Para ler os comentários sobre os Solos de Dança do Sesc dos críticos Roberto Pereira e Silvia Soter, acesse o serviço gratuito de clipping produzido pelo curso de dança da Univercidade clicando aqui.
Port
Eng



o que está acontecendo realmente, poderia ser a falta de intercâmbio entre bailarinos e coreográfos, unificação entre ambos, porque o movimento do corpo como arte é resultante da essência, do
SER individuo, espirito, ou seja, comunicação (mensagem) através da energia transmitida pelo som e conjuntamente com o físico. Percebo que o Ego vem em primeiro lugar e a realidade (o que é)fica distante. A sua observação e análise é sensata quanto a este assunto.
Concordo com a crítica e acredito ainda que o esse projeto mais confunde do que direciona a um questionamento sobre a dança atual. Se a banalização da arte de coreografar está em alta pelo Rio, o projeto Solos do Sesc é responsável por parte do estímulo dessa displicência. Repensar o formato desse evento no calendário cultural do Rio é de extrema necessidade.
Olá Nayse,
Estive lendo seu texto “poucos coreógrafos e muitos intérpretes”. Sou de Salvador, estudante de dança da UFBa… um jovem coreógrafo que insistentemente tenta burlar as barreiras de “reconhecimento e notoridade artístico” – principais críterios de avaliação em editais para montagem ou o recente “manutenção de grupos” do FUNARTE.
Me pergunto as vezes se realmente estamos vivendo uma explosão de intérpretes-criadores (ou praga como cita) como uma fulga dos coreógrafos ou uma maior flexibilidade permitida pela dança contemporânea… acredito que o “fenomeno” intérprete-criador fomenta uma nova “leva” de coreógrafos mais dispostos a dialogaR com seus bailarinos ou intérpretes (entendendo que todo intérprete é um criador tb e por isso não precisamos desse “-criador”).
No grupo que tento dirigir e dialogar com meus companheiros (Grupo CoMteMpu’s – Linguagens do Corpo) não temos sinceramente o compromisso em está reproduzindo o novo e sim em levantar questões – sem traçar respostas definitivas. Toda resposta que parta do corpo em relação ao que discutimos é válida. Um “espirro” as vezes é mais valioso que uma movimentação q tenha o compromisso com a novidade.
Sinceramente não acho que a dança tenha que vim surpreender o público com aparentes impossibilidades corporais, buscando os possíveis “urros” vindos da platéia: “fantástico!”; “surpreendente!”; “meu deus!” (pra isso existe o circo). Também não estou levantando bandeiras contra o virtuosismos, a final a pesquisa de movimento tb é importante, mas ela não pode ser elemento de maior relevancia de análise ao criticarmos uma obra, ou até mesmo os rumos que a dança vem tomando.
Talvez td que diga aqui seja descartável, mas sinto-me na obrigação de encaminhar este e-mail, não com o tom de refutar a critica que vc teceu a respeito dos solos do Sesc (até porque não os assistir e qualquer coisa que dissesse seria insustentável). Coloquei-me a escrever porque fico um pouco confuso ao ver centenas de artigos em busca de novidades na dança, enquanto os editais ou programas de apoio cultural continuam a solicitar de seus proponentes notoridade artística, fato que é fortemente apoiado pelos críticos de dança. Fica a pergunta: “e o espaço para o novo?” Digo que seria impossível alguém que está começando a coreografar construir um currículo instantâneo que lhe permita alcançar o tal “reconhecimento na praça”… mas digo que é também totalmente possível que esses mesmos novos e desconhecidos coreógrafos consigam construir trabalhos bem elaborados.
Não é a toa que vemos muitos grupos se corrompendo e colocando em suas “fichas técnicas” nomes que apenas carregam a responsabilidade de dar “respaldo” a um trabalho – a quem acredite chegar assim ao tal reconhecimento, mesmo de forma maquiada.
Enquanto isso, os que não se corrompem, sobrevivem de produções independentes que muitas vezes morrem, não por falta de qualidade mas por falta de apoio pra divulgação ou manutenção do grupo.
Sendo assim fica a pergunta: será que estamos sofrendo com uma escassez de novidades e coreógrafos, ou sempre estamos procurando os “mesmos novos” nos “mesmos coreógrafos”?
Um abraço,
sRg_andrade
Salvador – Bahia
Penso ser pertinente este debate e que justamente o nome que nos persegue insistentemente – coreógrafo-intérpretes – está contextualizado onde mesmo? Lembro não somente de fatos históricos, mas também de grupos, pesquisadores e realidades nas quais tal idéia foi ganhando espaço (posso infinitamente citar nomes e cias.). Continuo o debate a partir da leitura do artigo: e hoje, o que esta denominação significa? Quem coreografa organiza idéias da dramaturgia estimulado por quem interpreta; tal definição bruta é suficiente? É suficiente entender quem faz o que e de quem se espera o que, ou ainda existe a chance de subverter estes lugares pré definidos e insistir na prática da investigação destes encontros? Não tenho respostas, mas fico com a opção que me dê, como dançarina e pesquisadora, a opção política de rever o lugar no qual me insiro.
Galera, em primeiro lugar super obrigada pelos comentarios. é uma ferramenta nova aqui no site e estamos muito felizes com este monte de comnetarios mesmo antes de a gente divulgar oficialmente!
Para o sergio, que foi o primeiro a comentar o texto via mail e foi generoso de abrir seu comentario aqui para nos:
sai pra la com gritos de urra! tou fora, para isso nao precisamos nem do circo, temos a nossa deborah colker.
Nao estou preocupada com o tal “novo”, no sentido estetico ou de movimento. O que me espanta é a falata de idéias artisticas novas. O solos do sesc nao causa (viu, tiago?) acho que apenas reflete a tendencia de todo mundo querer se assinar coreografo, como se ser interprete fosse, e uns tempos para ca, coisa menor.
Nao acho que a gente esteja em busca de uma espetacularidade, ou uma encenaçao que seja diferente para ser diferente, Sergio. O que me incomoda é ver justamente a falta de risco, jovens artistas se enquadrando em formulas muito batidas e faceis de justamente arrancar esses urrah! do publico.
É genial o pensamento aqui traçado, e muito oportuno nesse instante. Como coreógrafa também me pergunto a cada dia como lidar com os “interpretes criadores” que habitam minha companhia de dança. Os comandos e vocabulários já se misturam aos seus e o corpo, agora ávido por criar, já não “entende” com sabedoria o coreógrafo e este acaba por se perder na criação por ele pensada, se deixando invadir pelo “novo”.
Como coreógrafa, acho que estamos “engessados” num “tempo” que nos pegou desavisados. Criar não é simples, escolher é mais difivil ainda, e acertar na escolha é talento e sorte.
Mas a tendência é piorar ainda mais, não temos tido oportunidades nenhuma de “reciclagem de coreógrafos”, mas ai me pergunto: como reciclar um criador?
Talvez os “interpretes criadores”, como citados nessa fala, sejam a resposta.
Talvez estejamos num tempo, em que esse “gesso” venha a ser quebrado por essa juventude, que atropelando, ou não as “normas” e “rotulos” de olhares, talvez ainda não prontos pra pra isso, venham a través dessa inquietude gerada, quebrar paradigmas e renovar esse “tempo”.
É inquietante esse momento em que coreógrafos, com a “invasão” de interpretes criadores se encontram. As dificuldades de se manter uma companhia que invista em pesquisas de linguagem e experimentações é enorme, não se tem verba e mesmo com tantos talentosos interpretes criadores, o tempo que se tinha pra pensar uma “criação” não se tem mais. “Solos” nesse instante é o que tem como viável. Talvez cheguemos a um tempo que não mais existam companhias e nem coreógrafos, mas interpretes criadores pensando suas proprias coreografias…
Tomara que esteja errada….
I am in need of Airton Tenórios e-mail address. Can you help me?
Thank you very much – Christoph
Nayse
Faço comunicação na UFRJ e to me formando em dança pela UniverCidade. precisava do teu contato pra conversarmos um pouco sobre dança e entretenimento, gostaria de te entrevistar para a monografia. muito obrigada!
abraços