A programação do Rumos Dança no Teatro Gazeta se encerra hoje, mas não os espetáculos. O público confere, nesta terça-feira, duas performances na Sala Crisantempo, espaço na Vila Madalena voltado ao estudo e pesquisa da dança.
A primeira performance da noite, no Gazeta, fica por conta de Roberto e Gustavo Ramos, que juntos fundaram o projeto D.A.M (Desenvolvimento Anímico do Movimento). Com uma estrutura simples, eles trabalham em Spiro (foto) a experimentação sensorial do movimento em relação ao meio interno (psique) e externo (realidade). “Não partimos de uma narrativa, uma história. Nosso método de criação tem muita semelhança com o método científico de observação”, explica Roberto Ramos. A obra lida com grandezas como tempo, graduação, gravidade, através de objetos que tem um comportamento cinético no espaço e também geram sons. As impressões cinéticas somadas aos sons gerados pelo objetos confluem no que Roberto chama de “corpo sonoro”. “Toda essa movimentação define o comportamento do corpo no espaço e a construção da obra. O processo se faz por si só. Apenas seguimos o seu fluxo”, completa o diretor.
A próxima parada é na Sala Crisantempo, onde os baianos do coletivo Dimenti e os paulistas Helena Bastos e Raul Rachou se apresentam.
Em O Poste, a Mulher e o Bambu, os bailarinos do Dimenti constróem um imaginário crítico sobre a baianidade e discutem a confissão na obra de Nelson Rodrigues. Na pesquisa, o foco é a livre associação de idéias como forma de construção da dramaturgia da dança. Segundo o diretor Jorge Alencar, todo o tempo o corpo dialoga com ações abruptas, realizando múltiplas funções em estados variados. “Temos o princípio do corpo borrado, que problematiza noções como originalidade e citação, estado de cena e estado de coxia. E isso está presente nos elementos de desenho animado que utilizamos, passando essa idéia de nonsense”, completa Jorge.
Já Helena Bastos e Raul Rachou, fundadores do Musicanoar, vêm com uma dramaturgia que se constrói a partir da questão do controle. Em Vapor, Raul manipula o corpo de Helena com as mãos, tendo a cabeça da intérprete como ponto-chave. “Com essa ação, ele traz uma série de problemas que meu corpo é obrigado a resolver de algum modo. Mas não é um corpo morto, é um estado de prostração. Estou sempre no aguardo do que pode vir”, explica Helena Bastos. Com a direção da bailarina, coreógrafa e professora Vera Sala, o espetáculo aborda questões como vulnerabilidade, violência e riscos. “É uma estrutura que obriga o intérprete a viver o instante e dialogar com o momento. Os corpos são quase como esculturas. Trabalhamos com vazios e vácuos, por isso a idéia de que podemos remodelá-los a qualquer momento. Um corpo é extensão do outro, um responde às ações do outro. Quanto mais conexão entre eles, seus estados vão se alterando num fluxo contínuo, mas com uma idéia de porosidade”, finaliza Helena.
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