Espadas / Foto divulgação

Cartas que sangram

Um espetáculo que se intitula Desplante deve, ou deveria, ter o poder de provocar atrevimentos em quem entra em contato com essa obra. E foi justamente esse comichão que me mobilizou a escrever essas linhas e jogar com suas cartas.

Desplante teve estreia e temporada em janeiro no MAM – museu de arte moderna da Bahia, espaço cultural de grande importância em Salvador que, desta vez, para além das artes visuais, se abriu para a dança. O espetáculo, que tem concepção e coordenação geral de Laura Pacheco, propõe “traduções” contemporâneas do flamenco e ganhou em complexidade com a presença de performers criadores com trajetórias distintas. Tiago Ribeiro e Isaura Tupiniquim, performers que desenvolvem investigações autorais, Cacá Fonseca e Pedro Britto, arquitetos interessados no diálogo entre dança e arquitetura, Mateus Dantas, músico e performer que desenvolve pesquisas sobre criação de instrumentos e sons microtonais, além da artista convidada em dupla participação (produtora e artista), Paula Carneiro, performer que desenvolve uma série de criações com interesse em mestiçagem.

A mesma diversidade desse agrupamento que possibilitou “traduções” tão instigantes como a luz, feita pelos artistas com a assessoria de Miliane Matos, completamente inserida e necessária nas ações, gerou também muitos objetos e equipamentos em cena. A presença marcante desses elementos demanda dos artistas maior atenção aos detalhes no seu uso e deslocamento.

Assim como experimentamos nesse espetáculo uma série de ações que podemos agrupar, deslocar, recombinar em associações diversas como cartas de baralho, proponho aqui também que o leitor recombine criativamente as cartas e, caso sinta-se motivado, escreva as suas próprias cartas/percepções sobre a obra.

Ao entrarmos nesse espetáculo, ganhamos uma carta de baralho como bilhete de entrada, para além da sua funcionalidade de controle já recebo essa primeira informação. Porém, à medida que assisto ao espetáculo posso dizer que a carta era uma espécie de senha anunciadora do universo nômade, cigano e flamenco que estava por vir e também um possível modo combinatório na fruição das ações performadas.

Por ser uma obra que nos convida a participar de forma ativa e sensível, me senti à vontade para jogar com as ações que pude me relacionar e, obviamente, convido a todos a assistirem e jogarem suas cartas produzindo outros sentidos e associações conhecendo o espetáculo ao vivo.

Espadas / Foto divulgação

Espadas, sons sutis e metálicos, uma mulher (performer Isaura Tupiniquim) golpeia com os sapatos na altura das orelhas dois pratos de bateria suspensos no ar. Ao fundo, uma outra pessoa (Tiago Ribeiro) gira uma lâmpada em círculos que marcam a retina, fico com os rastros de luz nos olhos. As ações circundam os fruidores, centro da grande roda das ações. Mais adiante, em outro momento, outros rastros marcam também minha percepção, a exemplo da areia escorrendo na lâmpada remetendo a uma noção de tempo ampla, tal qual areia escorrendo por uma ampulheta. Porém, ao cair no chão, a areia segue em linha reta, contínua, demarcando uma fronteira que será borrada mais tarde pelos pés que deslizam e lançam areia para trás deixando rastros na parede.

Esses padrões circulares recorrentes, quando colocados em relação a essa linha limite que é borrada, me fazem pensar a respeito da noção de espaço/tempo que a obra suscita. A própria disposição das ações no espaço e o formato de alguns objetos nos trazem uma ideia circular muito presente. A princípio, círculos concêntricos, nos quais os fruidores são/estão no centro. Entretanto, devido justamente a essa posição central dos fruidores – sujeitos reorganizadores das ações –  a noção espaço/tempo ganha outra configuração espiralada. Ao fim, são muitas espirais possíveis, muitas veredas produzidas por esses sujeitos-fruidores-nômades.

Essa reflexão sobre espaço/tempo presente em Desplante é importantíssima, especialmente numa proposta artística que pretende se relacionar com uma informação tradicional em dança que, nesse caso, trata-se da dança flamenca. Esse entendimento em espiral, que se abre a re-combinações criativas, funcionou como uma cartada certa para não cair no carteado viciado de fórmulas flamencas de dançar, agir, vestir… Com esse entendimento, outros flamencos são possíveis, inclusive os mais tradicionais, colocando a inquietação e a atualização artística como antídoto para a preguiça que se contenta com as cartadas que deram certo no último jogo.

Paus e pregos, uma pessoa (performer Tiago Ribeiro) apoia um dos pés numa mesa e dispara golpes de martelo nos intervalos entre os dedos dos pés. Num outro momento e por uma outra via, o performer Mateus Dantas  dispara mais golpes só que agora nas cordas presas aos pregos da mesma mesa de madeira das marteladas. Abrem-se outros espaços na forma de nos relacionarmos com a mesa e com a escuta. Desta vez outros espaços intervalares se abrem nos fruidores ao serem estimulados por sons microtonais, nos espaços-entre tons e semitons, aberturas sutis e violentas se transformam inesperadamente como numa virada de cartas ou melhor como numa queda de cartas que indefine o seu naipe.

Copas, coração, pulso, antigo sapatear flamenco nas novas teclas de um computador, uma mulher (performer Laura Pacheco) digita um texto enquanto uma outra (performer Cacá Fonseca) se aproxima para filmar e projetar esta imagem na TV. Na busca por acompanhar o texto e o seu sentido, desviei para o som das teclas que cada vez mais chegavam a mim como pisadas, sapateado de mãos no teclado… Um outro entendimento possível se abriu: o sentido rítmico, sonoro, recurso antigo e fundamental no flamenco, com as suas pausas inusitadas e dinâmica surpreendente, deixava um rastro pictórico verbal na televisão; a ação milenar de bater os pés no chão, dividir ritmicamente com o chão a pulsação do movimento, ao ser transferida para as mãos e o teclado, para ação contemporânea de digitar, re-configura o sapateado flamenco e me chama a atenção novamente para a potência rítimica-sonora desse gesto. A atualização de um possível sentido para o sapatear, bater os pés no chão, devolve um sentido milenar, ancestral, a um objeto contemporâneo como o computador. Os rastros de texto deixados na tela são tão antigos e atuais quantos os hieróglifos das cavernas no seu desejo de reter, comunicar e produzir sentidos.

Ouros, amarelo quente, vivo, cruel em seu brilho fascinante, sensação experienciada nas ações paralelas que acontecem com os movimentos e vocalizações espasmódicas de Isaura, a ação de Mateus lançando pregos nas cordas do violão, rolando imprevisivelmente pelo braço do violão e Tiago filmando Laura pintando seus olhos. A tensão dessas ações cresce a tal ponto que leva a pintura a um ato de tortura. Esse clima de tensão me fez re-olhar os tacos amarrados uns aos outros como uma espécie de colcha de madeira quando suspensos ou mesmo um pedaço de couro esticado ao sol…

Coringa

O som ao fundo de uma buzina de bicicleta se aproxima e vemos cruzar no espaço da performance um homem (performer Pedro Brito) pedalando no escuro com sua lanterna presa a cabeça. Uma imagem que propõe uma rota de fuga, algo que irrompe repentinamente e vaza, para onde? Ninguém sabe, ou melhor, cada qual deve ter o desplante de inventar um possível a seguir…

Leonardo França é performer e dançarino – atualmente se interessa pelas relações entre dança, intervenção urbana e design. Sua performance mais recente, Brecha, foi apresentada recentemente no Panorama – Rio de Janeiro 2010 e FIAC – festival internacional de artes cênicas – Bahia 2010. Graduando da Escola de Dança da UFBA.