Convite para o Grupo de Estudos do Projeto estadosDEpassagem

Um manifesto do corpo para o corpo.

“A dança pensa. Não é MEU corpo. É EU corpo.” Rudolph Laban

Isso é um manifesto, escrito pelo corpo, corpo este que não mais suporta viver de editais. Um corpo poético e não burocrático. Um corpo que age da forma que ele sabe agir, conforme sua história, conforme seus aprendizados, de acordo com o seu passado-presente (simples não?). Ele então pode se valer de estruturas modernas, retrógradas, ou mesmo de citações que estão fora de época, mas é o corpo, ele mesmo, nele mesmo, por ele mesmo. Simples para quem lê, porém complexo para quem realmente vive.

Tenho voz, sentidos, estados. Há 1 mês estou parado, no último semestre trabalhei tanto que não tive tempo de cuidar de mim mesmo. Trabalhei sem ganhar nada, corri atrás de oportunidades, sucumbi a escrita de pelo menos dez editais, não entrei em nenhum. Mesmo com um vasto currículo e experiência em dança, teatro, arte-educação e produção cultural, meus esforços foram inúteis; e foi a partir desse momento de hiato criativo, de ser obrigado a parar, que me coloquei em estado de reflexão.

Sou corpo rua, corpo casa que transborda para o outro. Corpo que segue em atravessamento. Corpo ainda jovem com relação a alguns conceitos, porém ancião de inquietações. Corpo, que mesmo caminhando há um bom tempo, não é re-conhecido no ambiente em que insere ou que pretende se inserir. Parece não haver espaço. Assim como a cidade. Não há mais espaço. O corpo não habita mais a cidade, pois não há espaço. Foi retirado o corpo do espaço e o espaço do corpo. Cada vez mais a dança é retirada dos corpos, e os corpos da dança. E eles afrouxam para outros.

O corpo não suporta mais sua casa, não lhe cabe, mas a rua também não recebe sua voz. É, abafado então, por alguns corpos em ascensão, corpos que habitam o mesmo espaço. Habitam? Convivem? O mesmo espaço?

Procuro a rua, procuro a multidão, procuro a alteridade, procuro o convívio, o diálogo das inquietações, ações que possam de fato construir novos caminhos para a sobrevivência dos corpos na dança e em outras linguagens artísticas, todas em co-labor-ação. Ações que transbordem para outras esferas, onde a dança e as artes possam ser construídas de outras maneiras, a não ser somente pela lógica e pela burocratização de processos criativos, colocando-os em casas sem portas, sem janelas, sem cavidades. O corpo precisa respirar, trocar, ser corpoambiente.

Estados de reflexão do mês de julho: um corpo anêmico e inativo não soluciona os problemas de uma linguagem artística, mas são esses estados de passagem que nos convocam a refletir sobre a atual situação daqueles que estão ainda nascendo e construindo a contemporaneidade.

Se hoje tratamos o corpo como pensamento/ação, digo que sou um corpo-ação-político. Um corpo que não se contenta em apenas dialogar sobre novas formas de colaboração na contemporaneidade. Precisamos agir. Precisamos tomar as ruas. Precisamos ser corpo-ação, dança-ação, arte-ação. O corpo precisa ser palavramento, colocar a tal da palavra em movimento.

Frente a essa situação, o corpo político daqui convida o corpo político daí para sair dessa inércia e participar do nosso primeiro encontro do grupo de estudos do Projeto estadosDEpassagem. Porque tem sido necessário conviver com inquietações, respostas, ações, com construções colaborativas, com dança, teatro, performance, música, artes plásticas, artes visuais e qualquer outra forma de arte possível. Não queremos fazer grandes travessias sozinhos? Queremos? Não queremos que nossa arte seja colocada em caixas, embaladas, etiquetadas e vendida para um ótimo comprador. Queremos? Podemos ser corpos nômades, corpos itinerantes, corpos casas, corpo ambiente, corpo pensamento, corpo ação, podemos ser corpo sistema.

O manifesto está lançado, só falta agora a manifest-ação.

*Por Danielle Greco: vulgo turismóloga, dançarina, atriz, arte-educadora e mais outras mil funções, e ainda assim, formanda no Grupo de Risco do curso de Comunicação das Artes do Corpo da PUC/SP.

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