Projetos têm propósitos diversos e funcionam como ferramentas de transporte entre uma quimera e sua execução. No dicionário Houaiss, projeto significa idéia, desejo, intenção de fazer ou realizar algo no futuro. Etimologicamente, a palavra vem do latim projectus e significa ação de lançar para a frente. Projetar, portanto, exige antecipação, planejamento e implica em se estender no tempo. Projeto tem começo, meio e fim, objetivos a serem conquistados, coordenador (ou equivalente) responsável, previsão de resultados e recursos (físicos, materiais, humanos e/ou financeiros) alocados à sua consecução. É a concretização de idéia(s) de maneira planejada, com o intento de efetuar uma inovação ou uma alteração em um ambiente.
Quer dizer também o esboço de um texto, um esquema ou a descrição escrita e detalhada de um empreendimento, como um projeto de pesquisa, um projeto gráfico ou um projeto de governo. Pode ser ainda um plano para a construção de qualquer obra, com plantas, cálculos, orçamentos etc. Os esboços de helicópteros, submarinos, pára-quedas, teares, máquinas voadoras, pontes etc do genial artista-cientista italiano Leonardo da Vinci são exemplos interessantíssimos.
Embora possamos pensar em aspectos indispensáveis para integrar qualquer projeto, cada edital fornece o roteiro de informações que julga necessário. Sem a pretensão de esgotar um assunto com tantas variações em tão poucas linhas, busquei comentar os componentes habituais na direção de colaborar com aqueles que têm diante de si o trabalho de alinhavar uma proposta.
Cartão de apresentação
A introdução de um projeto, qualquer que seja a sua meta ou assunto, precisa dar conta de dizer ao leitor do que se trata o seu conteúdo, contextualizando-o e provendo dados que possam facilitar o entendimento de sua importância e sua razão de ser. Por isso, é crucial e serve mais ou menos como um cartão de apresentação.
Especificidades à parte, apresente sua idéia, como pretende realizá-la, com que objetivo, quando, onde, com quem, em quanto tempo e com quais recursos. Quatro ou cinco parágrafos são suficientes para introduzir sua instituição/grupo/artista/pesquisa, descrever o projeto e registrar o seu valor.
Se fosse um projeto de pesquisa acadêmico, o estudante deveria explicar os fatos que o levaram a criar uma hipótese de trabalho. Algo, aliás, que exige dele conhecimento sobre o tema que aborda. Um procedimento que costuma ser eficiente é deixar a introdução para ser feita ao final, no momento em que o projeto estiver pronto e você conseguir olhar o todo e chegar numa síntese.
Justiça seja feita
Junto com a introdução, um dos itens mais problemáticos e precários na grande maioria dos projetos que leio é a tal da justificativa. O papel dela é tratar com justiça o seu objeto. Quer dizer, deve demonstrar que o projeto é justo e necessário (se o for). Do ponto de vista de um avaliador, uma boa justificativa é aquela que mostra o quanto a proposta (ou objeto de estudo) tem pertinência, tem ‘cabimento’. Para tanto, dê fundamentos. Explique. Forneça argumentos a favor e encontre causas válidas para legitimar a importância de sua idéia.
Como exercício, encontrar respostas para as perguntas que seguem, pode ser uma boa estratégia: Por que seu projeto merece ser premiado? Que lacunas preenche? Quais benefícios promove? Que demanda pretende atender? Por quais motivos um investidor (seja governo e/ou iniciativa privada) apostaria recursos financeiros (ou de outro tipo) nele?
Focando o alvo
Originada do latim escolástico objectívus, objetivo significa ação de colocar adiante. Em outras palavras, um propósito ou aquilo que se deseja alcançar por meio de um procedimento. Objetivos se dividem em gerais ou específicos e a pergunta-chave aqui é: o que se pretende (ou pretendo) atingir com esse projeto?
Um objetivo geral pode ser, por exemplo, publicar um livro, circular um espetáculo, consolidar uma rede de contatos entre pesquisadores e artistas, mostrar a importância do cultivo de camarões para evitar a pesca predatória numa dada comunidade, criar uma obra coreográfica, desenvolver uma residência artística e assim por diante.
Já o objetivo específico diz respeito a uma particularidade complementar ao geral tipo: realizar pesquisa iconográfica em arquivos públicos e pessoais, contribuir com o aumento de público para espetáculos de dança, coordenar um grupo de discussão virtual, ensinar a técnica do cultivo de camarões para pescadores e seus filhos, investigar a sintaxe de movimentos através da improvisação, capacitar jovens profissionais e por aí vai.
Como assim?
Para colocar em prática um projeto é preciso pensar COMO o ditocujo será desdobrado no decorrer dos acontecimentos. A parte da metodologia (ciência que estuda os métodos) e ‘materiais e métodos’ (como aparece freqüentemente em projetos científicos) é responsável por mostrar que o proponente tem plenas condições de executar o que submete e que sua estimativa está coerente com o tempo determinado e com os recursos disponíveis. Somado, o cronograma organiza visualmente essas atividades, normalmente usando tabelas.
A palavra método tem origem grega, descende de méthodos, onde metá significa atrás, em seguida, através e hodós quer dizer caminho. Nessa etapa, então, cabe imaginar as atividades que envolvem o acontecer da proposta. Quais caminhos e que atitudes traçar para implementá-la? Quanto tempo é necessário para cada atividade?
Alguns financiadores, dependendo do tipo de projeto, além de documentos, podem solicitar itens como plano de mídia (comunicação e visibilidade associadas à marca do patrocinador), público-alvo (previsão do alcance do ‘produto’ em números, faixa etária, cidades/regiões), referências bibliográficas (e/ou outras, como videográfica, cibergráfica etc), orçamento (tabelas com todas as necessidades do projeto, com suas quantidades, valores, impostos etc), entre outros.
Sobrevivendo a editais
Edital é uma espécie capaz de provocar a felicidade em alguns poucos e a frustração em muitos tantos. Eu mesma já fui vítima várias vezes. Com isso, aprendi que são muitos participantes para uma verba insuficiente e que se trata, portanto, de uma concorrência, de uma competição. Para dar uma noção, no edital da Funarte acima citado, 193 propostas de todo o Brasil concorreram para ganhar 30 prêmios em dinheiro, ou seja, 15,54% do total.
Para o Rumos Dança 2005/2006, bolsa de estímulo à criação e produção da dança contemporânea brasileira, a porcentagem de agraciados foi proporcionalmente menor. De 514 inscritos, 53 foram pré-selecionados (10,31%) e 25 premiados (4,86%). Diante da atual demanda, a carência de oferta compatível acirra ainda mais a disputa, na medida em que o número de concorrentes aumenta e se concentra.
Outro aspecto a considerar é a formação das equipes julgadoras, que nem sempre são compostas de especialistas nas áreas e nem sempre também encontram um bom nível de entrosamento, o que reverte muitas vezes em resultados desbalanceados. Vale citar como exemplo o Programa Petrobrás Cultural para Memória das Artes que, lamentavelmente, não inclui nenhum profissional de dança em suas equipes de seleção.
Assim sendo, como você não está lá para se defender, precisa caprichar no que vai enviar. Não mande seu projeto em folhas soltas, sem uma ordenação mínima, como dezenas que recebi. Comece a trabalhar com antecedência e quanto mais claro e organizado estiver, mais chance seu sonho terá de estar entre os finalistas.
Mãos à obra e boa sorte!
*Caros leitores, ao longo de 2007 publicarei textos sobre jovens criadores de qualquer parte do mundo. Se você tem até 30 anos, já desenvolveu pelo menos 2 projetos em dança contemporânea, videodança (ou arte contemporânea com foco no corpo) e gostaria de ver seu trabalho comentado aqui, envie um email para mairasp@uol.com.br com a palavra “novos criadores” no campo assunto. Participe!

Eng



Olá Maíra,
Parabéns e obrigado pelo texto.
Parabéns pela iniciativa de escrever o texto, e obrigado por disponibilizar detalhes de um processo público de avaliação como o “edital 2006 da Caravana Funarte Petrobrás de Circulação Nacional da Dança”, pois é mais que um exemplo útil.
Desde o inicio das leis de incentivo no Brasil com o governo Sarney, temos sido forçados a nos organizar em termos de “projetos”. Isso não quer dizer que não era necessário antes, mas como o Estado não exigia uma organização dessa natureza, e a iniciativa privada praticamente (como ainda hoje) não possuia o habito de patrocinar com recurso direto. Não tinhamos, portanto que nos dedicar a aprender a escrever projetos/propostas.
Atualmente com a definição “no Brasil” das leis de incentivo como a principal forma de intervenção do Estado nas artes, nas diferentes estâncias municipais, estadual e federal – além é claro, dos Editais lançados no final do primeiro mandato Lula. Nos vimos obrigados a aprender de alguma forma a elaborar projetos.
As leis de incentivo têm vários problemas e já sabemos disso, talvez um que pode ser citado seja o tempo de execução da proposta, geralmente o processo de escrita, aprovação, captação, execução e prestação de contas acontece em um ano. Esse tempo é no mínimo impróprio, já que uma Cia., Grupo, Festival ou programa não existe apenas em um ano, é preciso dar continuidade, e dessa forma todo o processo de escrita, aprovação, captação, execução e prestação de contas se acumula de uma forma que no mínimo atrapalha, e no frigir dos ovos impedi a existência continuidade da proposta. Afinal são poucos que já conseguem ter uma estrutura que dê conta dessa lógica de atuação, ou mesmo talento para driblar as armadilhas.
Um amigo recentemente me expôs sua preocupação “estamos nos tornando fazedores de projetos, e isso me preocupa porque pode atrapalhar a nossa atuação como criadores”. Eu entendo a sua preocupação, acho que em alguma medida ele tem razão, mas por outro lado, vejo que algum beneficio as leis de incentivo tem nos propiciado, pois, tem exigido o mínimo de organização aos artistas, uma previsão orçamentária, tempo de execução, uma clareza de proposta e conseqüentemente tem nos pressionado na direção de uma profissionalização que se faz necessária.
Eu sinceramente não acho que esse método de aprendizagem seja o melhor, mas é o que nos acometeu. Acredito que esse processo de formação deveria se dar em graduações ou em cursos técnicos com uma base curricular que incluiria uma boa formação em biomédicas, humanas, metodologia de pesquisa, música, história da dança e das artes, sonoplastia, iluminação, técnicas corporais, vídeo, informática, línguas e por fim “gerenciamento de carreira ou formação profissional”.
Acredito que a administração de uma carreira caberia também a formação de uma escola ou universidade, e não da forma como tem acontecido aprendendo fazendo.
Maíra mais um vez obrigado pelo texto, tenho certeza que o seu manual de instrução será muito útil no trajeto.
bjos
Olá Maíra
Não sei se você lembra de mim, nos falamos algumas vezes em torno da minha pesquisa sobre Graciela e o Grupo Coringa, acabei não indo a São Paulo como havia planejado.
Seu texto é muito útil e foi muito bom lê-lo!
Espero manter contato com você!
Giselle Ruiz
Mesmo antes da separação de Xuxa (a mulher que subia numa nave cor-de-rosa) e Marlene Matos (o ser que desenhava o projeto da carrareira da loira na nave), parece que cabe ao artista uma postura mais planejada e propositiva. Tenho discutido muito em Salvador junto à produtora Ellen Mello e o Grupo Dimenti sobre como esses “projetos técnicos” podem, de fato, nortear a ação do trabalho em arte, não se tratando apenas de um truque verborrágico-retórico. No nosso caso realmente têm ajudado. Contudo, esses editais como ações pontuais para folgar a gravata é uma coisa que precisa ser pensada para não continuarmos nos estapeando por tão pouco espaço. O texto de Span contribui e é um ótimo retorno sobre essa experiencia de curadoria com verba pública.
Humm… Maíra
Sim sim, discutir projetos (desde sua elaboração), de fato, torna-se necessário. Além de seu texto, li os coments aqui deixados… para dá continuidade à discussão:
acredito mesmo que temos que pensar sobre o “artista-empresario-produtor-fazedor de projetos-etc” levantado pelo Laka e JRg. Aqui, acredito, que não há um problema quanto ao “fenômeno” em si, mas sim como ele se dá algumas vezes (querendo dizer “quase todas as vezes”). Manter uma pesquisa de grupo, ou individual, no que se diz respeito à verba, por muitas vezes só é possível por meios desses editais. No meu restrito campo de acesso a atuação de profissionais da dança vejo que os projetos de pesquisa tem que se submeter aos critérios (absurdos) exigidos em edital… pontuando alguns:
***contrapartidas sociais: onde surge o fenômeno dos meninos de ONGS e escolas públicas na platéia, ou doação de bilheteria para entidades, etc. Não digo que não é importante democratizar o acesso à arte, mas justificar a importância de uma pesquisa por esse viés acredito ser arriscado. Um exemplo rápido q me vem agora é que critérios como esses justificam grandes Cias apoiadas pela PETROBRAS (e daí surgem milhões por ano em suas produções) vir a Salvador cobrar $ 50 no ingresso, e dizer que está democratizando o acesso pq colocou 150 crianças na platéia. Não procuro aqui dizer que a obra não valha os “cinquentinhas”, mas e os milhões anuais da manutenção dados pela Petrobrás, vão pra onde? a intenção não é democratizar o acesso? formação de platéia? (muito ‘cinquentinhas’ com tão poucos…). Essas CIas chegam aqui, apresentam e vão embora – cumpriram seu papel.
*** as benditas OFICINAS: Acredito que é sim importante o grupo ou pesquisador solo gerar zonas de intercâmbio para avaliar suas pesquisas. Em algumas vezes que participei de encontros como esses, que geralmente acontecem depois da estréia do espetáculo, eu ficava tentando encontrar a conexão com a maneira de organizar a dança apresentada na noite anterior com as seqüências super elaboradas, ágeis, rolamentos, saltos, e um corre-corre, um participante cai por cima do outro e se machuca, e “vum bora”, continua… (?)(?)
***NOTORIEDADE E RECONHECIMENTO ARTÍSTICO (esse daqui é ótimo!): “Vamos fomentar a dança, novas pesquisas, etc!” – quase um hino. como? Localizando a coisa>>> o CoMteMpu’s por exemplo, grupo que faço a direção onde também iniciei meus trabalhos “autorais”, pouco tempo (2 anos) desenvolvendo pesquisa em dança… temos procurado traçar caminhos coerentes e no entanto, na maioria dos editais nem podemos nos inscrever, ou então (quase)sei que provavelmente que meus projetos nem chegarão à mesa dos curadores. Ai me pergunto como traçar um currículo instantâneo? Seremos um eterno marginal ao menos que o metiê nos apadrinhe?
(e ai poderia escrever outras coisas, mas reservarei o espaço para que outros possam gritar tb. rs)
Dando alguns desdobramentos: a arte precisa se disfarçar de “projeto social” (rai ai) para se legitimar? Aqui não ocorreria um repasse? O governo não investe em educação (por exemplo: corta pela metade o orçamento das universidades públicas) e quer contribuir para formação de jovens dando a eles bilhetes de acesso?
Fazer projetos é uma fórmula? “Etimologicamente, a palavra vem do latim projectus e significa ação de lançar para a frente.” – então vamos montar um monte seqüências difíceis (pensando na citação da Maíra, manda todo mundo se jogar para frente de repente, né?) e aí estamos contribuindo para circulação de idéias fomentando novas discussões. Isso talvez seja de responsabilidade dos artistas que propõe as oficinas… mas como avaliar então uma proposta pedagógica aliada a um projeto artístico?
Será que só as páginas lendárias da dança, os notórios, os amigos podem elaborar propostas coerentes? Entendo que as carreiras dos proponentes não devem ser dispensadas no momento da avaliação do projeto, porque esses se tornam tão unicamente-intocáveis , unicamente-legítimos? Acredito que qualidades de propostas estão desprovidas de temporalidades…
[enquanto isso, continuarei eu insistindo com muita “cara-de-pau”. Uma hora a coisa “broca”...]
É isso Maíra. Espero ter contribuído com a discussão, muita bem iniciada, (aqui) por vocÊ. Aproveito a oportunidade para dizer que o idança tem sido um espaço de trocas interessantes. Às vezes (quase sempre) não dou conta de tantas coisas que chegam.
Abraço
sRg_andrade
Maíra
Excelente idéia de escrever um texto sobre elaboração de projetos. Esta prática por vezes parece ser um bicho de sete cabeças, para o artista da dança, sobretudo para os alunos e jovens intérpretes-criadores.
Waldete Brito
Belém-Pa.
Bastante válida essa discussão sobre essa proliferação estimulante de editais em que poucos são aqueles que conseguem ter acesso a esses recursos, muitos dos nossos melhores criadores atualmente estão se auto gerindo, pois apesar de muita informação ainda se há muito pouco comunicação e intercâmbio que favoreça esclarecimentos, troca de conhecimentos e mesmo cursos especializados em projetos para artes. Mesmo os orgãos interessados quando mandam cursos de projetos para outros estados restringem o máximo o número de participantes, somente vemos ainda as grande corporações fazendo parte desses contextos, e quando falo “grandes corporações” me refiro também a grupos e cias de dança e teatro que direta ou indiretamente estão ligados a cias contratadas pelo governo estado e que tem acesso a informação e aos mecanismos financeiros para se desenvolver um projeto por exemplo que seja beneficiado por leis complexas de incentivo à cultura ou editais com critérios repletos de abstração e excludentes.
Agnaldo Martins
Manaus-AM.
Estou elaborando meu Trabalho de Conclusão de Curso da FAP e estava precisando mesmo de uma reflexão à cerca da elaboração de um projeto e de como se dá esse processo. …”antecipação, planejamento e implica em se estender no tempo.” Depois que vc se antecipa, resolve o que quer fazer ou pelo menos traça metas, o resto fica mais fácil. Realmente fazer um projeto é mesmo trabalhoso, mas não é difícil. Organizado as idéias e refletindo sobre o que significa cada item do projeto, dá pra fazer algo sólido. Muitas pessoas se desesperam na frente de uma proposta como essa, de ter que elaborar um projeto (eu sou uma delas). Mas pesquisando e levando à sério, a coisa toda funciona. Adorei o artigo, me fez entender muitas coisas, refletir sobre outras e me sinto mais segura.
Caroline Louise/ Curitiba-PR