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Lost in Dance – Episódio I
by
Airton Tomazzoni
• 5 July 2007
•
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Caro Airton,
Sou coordenadora da Escola do Grupo Corpo (Corpo Escola de Dança) e gostei muito do seu artigo. Já há algum tempo escrevi um texto, onde sitei outro artigo seu que li neste site.
O texto começou com uma brincadeira sobre os “releases” da dança contemporânea. As fórmulas aparecem não só na dança, mas no que tentam dizer sobre ela. No fundo, pode ser que tudo seja a mesma coisa, os tais “discursos monocórdios”, como você diz.
Penso que há muitos planetas a serem visitados sem arrogância nem preconceito. Há sempre muito a aprender e aprender é trabalhoso. De fórmulas para tudo, a sociedade de consumo já está cheia! As questões a se abordar, sejam individuais ou coletivas, precisam ser genuinas para realmente dizerem algo. Achei oportuno comentar seu artigo com a “brincadeira” que fiz. Segue o meu texto e aproveito para agradecer pelas suas boas reflexões.
A DANÇA CONTEMPORÂNEA E O TEXTO
Se você estiver precisando de um estímulo para começar a criação de um espetáculo de dança contemporânea, ou se ele já está pronto e você precisa escrever sobre ele (para releases e programas), penso que é possível facilitar a vida de um tanto de gente – e provavelmente a minha também:
A criação de um Guia de Textos para esse fim!
Digo isso porque, ao ler os dito cujos, parece que eles todos (ou quase todos, graças a Deus) podem se aplicar a qualquer espetáculo ou “performance”.
Resolvi sugerir algumas frases, baseadas no que ando lendo por aí:
- Questionar os cheios e vazios que se traduzem em movimentos.
- Preencher as lacunas do ser que se desloca no espaço opressor.
- A dança que atravessa frestas da angústia do ser contemporâneo.
- Desnudar a essência do movimento puro.
- Capturar o cerne do gesto cotidiano.
- Propor um movimento que se desintegra e transmuta ao contato com o outro.
- Desconstruir o movimento provável para propor um novo patamar no gestual da dança.
- Trabalhar com a sugestão espontânea do bailarino que se revela como agente promotor da inquietude.
- Dialogar com uma música não óbvia, no sentido de transgredir o próprio sentido do diálogo.
- Partir do princípio delimitador do caos para revelar uma dança que renasce na negação da própria dança.
- Resgatar a expressividade primitiva do homem ainda não adulterado pelo massacre capitalista vigente.
- Espelhar o vazio que se preenche na sugestão de um deslocamento que surpreende e que se desdobra no reflexo obscuro do indivíduo que o realiza.
- Transcender a dança na busca obsessiva do movimento primal do ser que se revela ao não ser.
- Permitir que o gesto ou o movimento sejam instrumentos do acaso, para que traduzam uma verdade liberta do tempo e do espaço em que atua.
- Despertar os canais de percepção no sentido de promover o fluxo do espontâneo, revelando uma memória corporal atrelada a um mover-se ainda inexplorado pelo corpo que se permite à intensidade dessa vivência.
- Desvendar os limites do improvável ao trazer a possibilidade real como fomentadora de uma movimentação que se constrói no espaço cênico, ao mesmo tempo em que se desfaz ao deparar-se com a probabilidade em si.
E por aí vai…Você pode perceber que dá pra misturar as frases, trocar os verbos e fazer a festa!!!
Ironia à parte, navegando pelo site http://www.idanca.net (vale a pena visitar), li um texto muito interessante do jornalista e coreógrafo Airton Tomazzoni, escrito originalmente para a revista Aplauso (número 70), no qual ele fala da “tal de dança contemporânea”, com muita propriedade, pelo que pude perceber.
“Num mundo de tantas conquistas e descobertas sobre nós, seres humanos, seria no mínimo redutor ficar tratando a dança como apenas uma repetição mecânica de passos bem executados. Fazer tais passos, na música, ursos, cavalos e poodles também fazem. Creio que o ser humano pode ir mais longe que isso. Talvez este seja o incômodo proposto por esta tal de dança contemporânea. O de que podemos ser mais e muitos.” – assim ele conclui o texto.
Onde quero chegar, é que bem sei que não é nada fácil escrever sobre um trabalho de dança contemporânea, mas há de se ter cuidado para não cair numa teia de fórmulas que, no final das contas, gastam muitas palavras, mas dizem quase nada.
Se não há objetivamente o que dizer, é mais prudente dizer o mínimo e mostrar o máximo do que se pretende, dançando!!! (e assim, nos poupe de ler e tentar decifrar mais um desses releases chatérrimos.)
Eh! Airton Tomazzoni, essa sua interpretação e compreensão relacionado ao seriado perdidos no espaço, é simplesmente fabuloso e real, comparando ao consciente/insconsciente do ser humano atual, seja na dança contemporanea e também no cotidiano, observamos que a maioria das pessoas estão perdidas em si mesma, querem diferir do passado, o presente e o futuro, que no final torna-se semelhante e repetitivo.
Embora eu não tenho um conhecimento profundamente prático em relação a dança contemporanea, apenas provisório e superficial, pude constatar e averiguar, algumas nuances representativas de espetáculos criativos e outros apelativos e robotizados.
Acredito que a tentativa da evolução do passado, para o presente, dentro de uma perspectiva futura, surte apenas o medo do desconhecido. Porque viajar além do que está habituado a executar é encontrar as possibilidades impossiveis de suas potencialidades criadoras ou talvez o contrário.
Não sei se a minha compreensão está errada, mas percebo que a finalidade da dança contemporanea é viajar além da base terrestre e encontrar no espaço do seu Ser desconhecido para si mesmo, as suas potencialidades criativas e realizá-las num movimento coreografico.
Infelizmente, nos perdemos por tentar buscar algo, simplesmente para fugir da realidade.
Porque o encontro não precisa de busca, é apenas o entendimento, sentimento e atuação do que é real e verdadeiro à vida.
Prezado Airton,
Com leveza vc aborda um fato importante presente em muitas produções de dança contemporânea: a reprodução acrítica de pressupostos e de reultados estéticos típicos de outras culturas e originários de contextos próprios, que limita o surgimento de novas possibilidades para a dança brasileira.
Percebo que esta questão é uma consequência de um quadro ainda mais constrangedor: a ineficácia dos processos de ensino-aprendizado em dança contemporânea para a solução criativa da dança que se deseja apresentar. Nestes, subsiste acriticamente metodologias que reproduzem os motes de um fazer e pensar que a própria dança contemporânea deseja reinventar. Portanto, em vários casos, o produto artístico que se almeja é sabotado pelos meios escolhidos para sua realização. Como não cair na convenção, na repetição esvaziada de sentido, se o processo experimentado não possibilita bifurcações na rota de criação? O perigo é anterior à produção. Ele habita as salas de aula e de ensaio das escolas e cias de dança, onde resiste, inconscientemente, a tendência à adaptação, uma espécie de conformismo aos procedimentos conhecidos, testados e verificados, mas que não correspondem às necessidades de uma dança crítica, enraizada culturalmente e dialógica com o mundo e o homem contemporâneo.
querido airton e afins,
a alegria (ainda) é a prova dos nove?
Grande Airton.
Seu texto me transportou pra uma cena que vivi a alguns dias atrás, divido-a com voce aqui:
Cheguei no Lumiara Zumbi do Mestre Salustiano, viajava com a caravana funarte e levava no meu matulão uma meninada ávida pelo “novo”, minha Cia Vatá. Escolhi o “novo” do Lumiara Zumbi e Mestre Salustiano, que sentado em sua varanda de sombras de grandes arvore, peito desnudo, pes desclasos, uma calça surrada pelo tempo, olhar firme no onibus que adentrava seu espaço, nos recebeu já com sua rabeca em punhos, e em segundos tomou conta da cena, um corpo firme em movimentos precisos dançava na Rabeca, e nos transportava pra um estado de corpo que nao teria palavras pra expressar, e se as tivesse, mesmo assim, não dariam conta dessa “dança” que se instaurou, em formas e sentidos diferentes, em cada um de nós ali buscando o “novo”.
Romântico? Ludico? Tradição? Raiz?
Inspirador, sim senhor, e que ultrapassa as paredes que ainda nos divide entre arte e vida.
Sou dessa filosofia…quero um pé na tradição e a possibilidade de voar e ultrapassar fronteiras sem perder a sombra das raizes e sem ter medo de revisita-las e habita-las cada dia mais.
Ali no Lumiara Zumbi, no meio do sertão pernambucano, me sinto viva e cheia de sentidos. E pronta pra enfrentar os sentidos que nos levam a “seres de danças contemporâneas”.
Acho que estou em busca dessa dança que me traga de volta aos sentidos do diálogo com outras fronteiras dessa biblioteca corpo que me habita. Romântica? Que seja.
Valeu Grande Airton…. Que os deuses dessas raízes continuem te instigando a questionar, e nos fazer tambem questionar…
Valeu
Um beijo carinhoso
Val Pinheiro
Oi Airton!
por enquanto apenas um pequenino aparte:
não acho possível dizer que Yvonne Rainer estava propondo não ao movimento, pelo contrário. Os atos parados e pequenas danças de Steve Paxton tentando estar despidos de espetacularidade são justamente a busca de um possível marco zero (uma busca modernista já morta de véspera, como aqueles artistas souberam perceber) para a dança, para o movimento. E ali estava a experiência deles testemunhando que não há não-movimento, e que não há dicotomização possível.
Talvez esse seja um detalhe/fundamento que passe ao largo na contrução que todos fazemos do fenômeno por ti apontado. Tomamos a forma pela experiência.
Acho interessante tambem apontar a ligação entre os artistas contemporâneos que tu citaste e os judsonianos. São dados importantes para compreendermos isso tudo, ne?
Nos falamos por aqui mais tarde?
Olá Airton!
Parabéns pelo seu artigo! Que bom que vc o escreveu!! hehe!
Tenho observado que um sentimento de menos valia, impresso talvez no inconsciente de muitos artistas brasileiros, levam numa direção equivocada, transformando influência em tendência e até mesmo em condição de existir nesse planeta-dança contemporânea.
Viva a liberdade!!! Que saibamos ser generosos habitantes de palcos e platéias!! E que o público possa também ser livre para fazer suas escolhas!
a reprodução de qualquer padrão é uma ingenuidade. as vezes uma referência artística com falta de maturidade resulta nisso, em “cópia”. modismo faz receita e faz modismo e deixa qqer produção artística científica superficial e rasa. isso é fato! o texto reflete sobre uma questão importante no que diz respeito a produção em dança, ter informação e tempo de experiência/experiemntação são fundamentais para se chegar numa obra coreográfica “justa”, que não é nem isso nem aquilo, mas a necessidade do artista. Esse me parece o ponto crítico.
Meu caro Airton!
Perdidos no Espaço chegou em boa hora! Nada como reutilizar passagens para refrescar a memória, tanto mais num momento em que tédio parece ser o único sentimento acerca da dança nos últimos tempos (com exceções, é claro!). A desconfiança e o desencantamento estão por um fio, e os bidis bidis bidis ficam ecoando a presumir que o perigo está à solta.
Não perdia nenhum capítulo do seriado. Aguardava o alerta do B9 com a seqüência destrambelhada dos braços e giros piscantes do tronco, atravessando a linearidade lúdica da personagem do Dr. Smith em direção à fluidez da narrativa. Deste ponto para frente tudo era permitido, menos dispersar a atenção dos espectadores. Pronto!!! Vale citar, que a receita de perfeição da família Robinson (monorcordia familiar) abre espaços e visibilidade para os presságios do B9; assim como as receitas da dança chata, expõem à luz, as mais instigantes.
Como abriste a porta Airton, deixo os sapatos do lado de fora e aproveito para entrar com o corpo todo! Sapatos de fora porque assumo aqui, o papel do espectador, aquele que é o fim da minha obra.
Mesmo que sempre motivada pela máxima da escolha; curiosa e farta de espaços disponíveis, sinto fome. Fome de um cardápio que não seja chocolate da Suíça, vinho da França ou sorvete de vanilla da Alemanha, sem contar com o revolucionário Mac Donald’s!!!
O não ao movimento, a musica, ao cenário, à teatralidade e etc…colocam o SIM como impossibilidade, fechando os espaços para leveza do pensamento, e por conseguinte, livrando o sujeito do imprevisto. Livre dele, entra em cena a dança fast food contemporâneo…dieth!!, que com receitas destemperadas e em geral, sem gosto algum, acaba por deixar o público esfomeado por um bom prato de feijão, arroz e mandioca.
Parece que a originalidade persegue o centro da mesa, como a única saída para satisfazer o apetite voraz dos espectadores.
Ser original, inventivo, ter algo de novo ou de velho para dizer é o que se pode naturalmente, mas o que fazer com isto e como, é decisivo. Tanto é assim, que a validade da obra se define no momento da troca instantânea, e não no discurso que fundamenta suas razões, que suponho, chegue para interpretar o fenômeno.
Somos complexos!!! queremos compromisso com a tradição, cujas técnicas nos absolvam da responsabilidade de as termos criado (pois quem somos nós…não é mesmo???); e ao mesmo tempo, a independência da linguagem original.
E assim entre o que quer e se pode, surgem as receitas aos moldes out/in da jornalista Adriana Pavlova, referência muito bem lembrada por Airton; sem contar a sofisticada relação de palavras notórias, senhas de acesso ao circuito estelar de uma galáxia que pode confinar-se à total in-comunicação. Cuidado!!!
Se a dança se preocupasse menos com a conquista do misterioso “paraíso”; lembrasse que os pliês, os contratempos, os lunges, rodopios e barrigadas são do corpo; quem sabe voltaríamos para casa com o sabor e o aroma de uma aventura!
Parabéns e avante Airton!!!
Airton, há tempos atrás acreditava que seria ingênuo apostar em algo que não tivesse uma ligação direta com alguma fonte já existente… Depois de tantas danças, tantos questionamentos e algumas respostas delineadas, passei a perceber que isso tem uma (singela, até pode ser…) importância para a arte. Ao darmos espaço para que nossas configurações surjam de maneira “sincera/autêntica” (talvez me falte o termo exato), estamos colorindo, ou dando um tom outro para o meio em que vivemos. Apostar na intuição e ir fundo no que realmente acreditamos soa como clichê… Mas, talvez o clichê se estabeleça justamente no contrário, no “não apostar…”. Então, estamos aí, apostando na dança enquanto processo existencial, visceral. Acredito que essa aposta possa render algumas cenas interessantes.
A função de certas palavras é nos fazer parar… Pensar em possibilidades e nos propor uma verificação das formas vigentes – olhar para elas de outro ângulo talvez já produza alguma reflexão que não esteja “viciada”…
Continue escrevendo; estou aguardando o episódio II!
Lu Paludo.
Oi Airton, Maravilhoso artigo. Tem o episodio II?
Parabens pelo artigo, aguardo proximos…
Episodio II, III…..E gostoso demias ler teus atrigos.
Beijo
Marcia Coelho
Airton, querido, que alegria ler seu texto. Viva a liberdade que a dança permite, principalmente por ter a condição de chegar onde a palavra nem sempre chega. Adorei. Estarei em Porto Alegre amanhã, e falaremos pessoalmente. Um beijo Suely Machado.
fico muito feliz por ver que nao estou sozinho nesse planeta e que ainda estamos vivos….viva a alegria.!..viva a liberdade de criar…parabens joinville por ter te escolhido…as portas da criação vao ser abertas novamente sem medo! finalmente…viva A todos os criadores …
parabens Airton.texto obrigatorio em todos os lugares de dança…(ja esta no mural do THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO…)
depois te mando as 10 REGRAS BASICAS E OBRIGATÓRIAS da dança “catporanea”,
so p/ relaxar um pouco…