Nosso interesse neste artigo é olhar para os projetos selecionados nos editais para a dança. Os editais foram: PAC número 4 – “Concurso de Apoio à Produção de Espetáculos de Dança”, PAC número 5 – “Concurso de Apoio à Difusão e Circulação de Espetáculos de Dança” e por fim o número 25 – “Desenvolvimento de projetos de pesquisa e investigação em dança”, respectivamente abertos nas datas de 26 de junho, 27 de junho e 13 de setembro do ano passado.
Só a título de informação, as áreas tidas com “dificuldades comerciais” tiveram os seguintes editais-oportunidades: Edital PAC número 1 – “Programas de Áudio para Promoção da Literatura”, Edital PAC número 3 – “Produção Artística de Hip Hop”, Edital PAC número 6 – “Promoção da Continuidade das Culturas Tradicionais”, Edital PAC número 8 – “Produção Inédita de Espetáculo de Teatro”, Edital PAC número 9 – “Produção e gravação de CD, circulação de espetáculos musicais e realização de festivais de Música”, Edital PAC número 10 – “Projetos de Produção de Números Circenses”, Edital PAC número 11 – “Projetos de Apoio a Grupos Circences”, Edital PAC número 12 – “Produção de Obra Cinematográfica Brasileira”, Edital PAC número 13 – “Circulação de Espetáculos de Teatro”. Para saber mais, acesse a página da secretaria (http://www.cultura.sp.gov.br).
Hesitei em listar os grupos selecionados, uma vez que esta informação se encontra disponível no site da secretaria. No entanto, como nosso debate vai ao encontro diretamente da necessidade em acessar e debater estes dados, penso que tal lista seja de extrema importância (obrigada aos colegas que me incentivaram a fazê-la!). Note, não me deterei aqui em discutir esteticamente os trabalhos e sim situá-los dentro daquilo que idealizamos ser uma política cultural coerente no contexto dos trabalhos coreográficos no estado de São Paulo.
Os resultados foram divulgados nos dias 14 de novembro do ano passado, para os PAC 4 e 5, e no dia 23 de novembro para o edital número 25. Logo após o nome da coreografia, o artista e/ou a companhia, segue o teatro que esteve em cartaz nos últimos meses (a maioria na grande São Paulo e muitos no interior do Estado). Como muitos tiveram a chance de dançar em teatros e cidades diferentes, algumas dessas estão aqui citadas.
PAC n 4. produção de espetáculos de dança
Foram cinco projetos no valor de R$ 30.000,00:
1) “Récita… De Um Movimento Só” de Wellington Duarte (Teatro Itália ou Teatro de Dança)
2) “Lado B” de Sérgio Rocha e Cláudia Christ, Companhia Repentistas do Corpo (Centro Cultural São Paulo)
3) “Hana” (quantos anos?) de Key Sawao, (Dança em Pauta, no Centro Cultural Banco do Brasil)
4) “In-cômodo-ser-eu-só tanta-gente” de Estela Lapponi (Galeria Olido)
5) “El Puerto” de Marcos Sobrinho, contemplado também pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2006 (Teatro Itália)
Os 10 projetos de R$ 60.000,00:
1) “Alumeia!” de Irineu Nogueira (Sala Crisantempo)
2) “Lacuna,” Cia. Domínio Público de Holly Cavrell (Lugar, sede da Cia. Corpos Nômades)
3) “12 Mentiras sobre a mesma Garrafa” do Quadra Companhia de Dança (Sala Pequena, no Núcleo de Dança de Votorantim, depois em Campinas e Botucatu)
4) “Enluaradas” de Mirtes Calheiros, Cia Artesãos do Corpo (Galeria Olido)
5) “Compêndio para Infância” de Lu Favaretto, Cia. Oito Nova Dança (Sala Crisantempo, em São Paulo)
6) “Crendices… Quem disse?” de Ana Bottosso (Teatro Clara Nunes, Diadema)
7) “Por Enquanto…”, com novo nome “Carne Santa”, Cia. Borelli de Dança (Teatro da Dança)
8) “Valsa Crua” de Patrícia Werneck, Cia. Nos lá em casa (Teatro de Dança, Centro Cultural São Paulo, Galeria Olido)
9) “Jardim de Rosas Mudas”, Wasu. Cia, de Carolina Callegaro, Clara Gouvêa e Gisele Petty (Casa das Rosas)
10) “A Estrela que Virou no vento”, grupo Danceato, de Uxa Xavier e Ana Botosso (Centro Cultural Heleny Guariba, em Diadema)
PAC número 5 circulação de espetáculos de dança
Primeiramente, os cinco projetos de R$ 30.000,00:
1) “A pé – Walking the line”, Key Zetta e Ricardo Iazetta (Galeria Olido)
2) “Ambulante”, Cia. República Cênica, de Ana Carolina da Rocha Mundim, Fernando Manoel Aleixo (Teatro de Dança e centros culturais da cidade de Campinas)
3) “Três tempos num quarto sem lembrança” de Juliana Moraes (Projeto Sala de Visita do Caleidos Arte e Ensino e SESC)
4) “Disseram que eu era japonesa” de Letícia Sekito (apresentado no interior do Estado de São Paulo, além do apoio do PAC, tem realização da Fundação Japão, em parceria com o SESC-SP e Espaço Cultural CPFL de Campinas; inclui Votorantim, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Catanduva, Araraquara e Campinas)
5) “Rimas no corpo”, Cia. Mariana Muniz de Teatro e Dança (SESC Avenida Paulista)
Então, os dez projetos de R$ 60.000,00:
1) “Escuta que dança”, Patrícia Werneck e Celso Nascimento (apresentado em Mogi das Cruzes, Votorantim, Araraquara, Botucatu e Ilha Bela, com intérpretes diferentes)
2) “Histórias da ½ noite”, Cia. de Dança de Jorge Garcia (Teatro de Dança)
3) “Experimentações inevitáveis”, Cia Nova Dança 4, de Tica Lemos e Cristiane Paoli Quito (SESC SJ Campos, SESC Rio Preto, Jogando no Quintal [São Paulo] e na UNICAMP [Campinas])
4) “Corpoemas”, Cia Repentistas do Corpo, de Sérgio Rocha (SESC e Teatro de Dança)
5) ” Projeto ‘Totem’ ” de Emilie Sugai (Espaço Cultural Pés no Chão)
6) “Ascese, Pequeno Tratado sobre o Abismo ou o Jardim das Roxas” de Zélia Monteiro, Wellington Duarte e Marcos Sobrinho, Espetáculo vencedor do Prêmio Estímulo 2005 (Teatro da Dança)
7) “Pop”, Virtual Companhia de Dança (Teatro de Dança, depois Ribeirão Preto, Araçatuba e São José do Rio Preto)
8) “Circuito 1,2, 3 portátil SP” que compõem os trabalhos “Estudo para Macabéa” (Vera Sala), “Células Satélites” (Mara Guerrero) e “KHI” (Gícia Amorin), produção de Dora Leão (São José dos Campos, Ribeirão Preto, entre outros)
9) “Calçada Plugada”, de Fernando Lee, Cia. Omstrab (Galeria Olido, SESC Ribeirão, entre outros)
10) “Fuga da mosca”, P.U.L.T.S. – Teatro Coreográfico de Germano Melo e Marcelo Bucoff (Teatro Fábrica de São Paulo)
PAC número 25 – pesquisa e investigação
O módulo 1 é de pesquisa teórica e teve cinco projetos contemplados com R$ 10.000,00:
1) “Teatro Galpão – Caminhos Cruzados”, Inês Bogéa
2) “A Profissão do artista da dança: influência dos Cursos Técnico e Superior em Dança no Interior do Estado de São Paulo”, Lilian Vilela
3) “Ruth Rachou – Pioneira da Dança Moderna em São Paulo”, Maria Bernadette Fornasaro de Figueiredo
4) “Danças Brasileiras na cena Contemporânea: Propostas e Sentidos para Investigação do Movimento”, Marina Souza Lobo Guzzo
5) “Investigando a dança Inclusiva”, Michel Fernandes Manso
E o módulo 2 apresenta uma pesquisa coreográfica. Estes são dez projetos de R$ 15.000,00:
1) “Lucíola”, Patricia Noronha
2) “E Agora, Alice?”, Lara Luciana Lima Pinheiro
3) “Swan”, Andreia Vieira Abdelnur Camargo
4) “Pequenas Mortes de cada Dia, nos Dai Hoje…”, Vera Maria Sala
5) “Aquele que come a si Mesmo”, Letícia Doretto Gonçalves
6) “Versos da Última Estação”, Vanessa Freitas de Paiva Macedo
7) “Joy Lab Reserch Danceability”, Alessandra Giaffone Zarvos
8) “Lavanda”, Luciana Sanchonete Brites
9) “O Corpo – o Rosto”, Izadora Prates Dias Coutinho
10) “Dream – se sonhando o corpo Fosse”, Elenita Borges de Queiroz.
Como se vê, foram 45 trabalhos de dança, sendo que alguns repetem os artistas, outros são compostos de mais de uma coreografia, fatos que não excluem uma reflexão com o olhar mais apurado acerca da produção, circulação e pesquisa propostos por estes contemplados.
Na coluna dos artistas com uma carreira formalizada, tais como Zélia Monteiro, Wellington Duarte, Mariana Muniz, Vera Sala, Patrícia Noronha e artistas experientes como Key Sawao, Ricardo Iazetta, Patrícia Werneck, Marcos Sobrinho, Wellington Duarte, Emilie Sugai, Juliana Moraes, Jorge Garcia, Letícia Sekito, Mara Guerrero e Gícia Amorin, lembramos o fato de que alguns deles desenvolveram seus trabalhos na época da Bolsa Vitae ou dos prêmios-estímulo. Alguns mais novos e não menos engajados em pesquisas de improvisação, de linguagem cênica e de criação interdisciplinar, outros entretidos com investigação de movimento e ainda outros preocupados em novos formatos entre criadores, intérpretes e linguagens artísticas afins.
Uxa Xavier aplica sua pesquisa em sala de aula com crianças em cena; Estela Lapponi traz seu primeiro trabalho solo de dança/teatro; Irineu Nogueira é diretor da Abieié Cia. de Dança Negra Contemporânea. Do interior, o Quadra Pessoas e Idéias (Votorantim) faz uma proposta para 12 artistas do interior com mentiras enviadas em garrafas; a Cia. Wasu (Campinas) é a união de graduadas da UNICAMP em dança e teatro e a Virtual Companhia de dança (São José do Rio Preto) trabalha com técnicas de artistas de circo.
Na coluna das companhias, temos as Cias. Nova Dança 4 e 8, Cia. Osmtrab, Cia. PULTS, Companhia Repentistas do Corpo, Cia. Artesãos do Corpo, Cia. Borelli de dança, Cia. Nos lá em casa, Cia. Domínio Público e Cia. República cênica, sendo as duas últimas de Campinas. Para quem quiser conhecer, alguns destes artistas ou cias tem sites na internet.
Retrato interessante, não?! Condiz com a realidade de quem produz nos últimos 10 anos ou mais na cidade de São Paulo e no interior. Reflete a diversidade de tipos de dança ou de jeitos de entender o que é o “produto” da dança (discutirei isso mais adiante), bem como a generalidade que abarca o nome de dança contemporânea. Demonstra novas formas de trabalho, inserindo artistas em projetos coletivos, assim como enfatiza a organização já bem estabelecida de companhias independentes que criam seus trabalhos acerca das idéias dos coreógrafos.
E daí, me pergunto: suas pesquisas atuais podem dimensionar suas carreiras? Com melhores condições de trabalho, é possível verificar um aperfeiçoamento de suas produções? Ou simplesmente, um ou mais editais nessas condições vão somente refletir anos de escassez na produção e circulação dessas companhias? Os coreógrafos estão interessados em produzir/circular com “grana” (entre aspas porque edital é uma realidade particular, discutirei mais adiante) ou de fato estes editais podem fomentar pesquisa e investigação entendidas como aprimoramento, discussão e avanço nas formas de trabalhar e nos modos de entender dança? Os pensamentos que a dança discursa ganharam complexidade? Ficou mais evidente as perguntas que já vinham sendo feitas por estes artistas?
Para a satisfação de muitos artistas e pensadores da área, inclusive os que estiveram fora desta edição, a resposta para algumas destas perguntas é sim: muitos deles estão interessados em re-dimensionar, avançar e evidenciar suas questões de criação em dança, bem como entendem a oportunidade em tornar público a maneira de fazer dança. Ainda que estejamos distantes de uma formação ampla de público ou mesmo de uma compreensão do que é dança contemporânea por parte de um público mais extenso, o Teatro de Dança, a Galeria Olido e outros espaços da capital e do interior já começam a sinalizar um tempo no qual a dança pode ocupar um espaço de produção e circulação.
Mas, paro um instante e volto a perguntar: qual é mesmo a finalidade de produzir e circular o bem imaterial de obras artísticas dentro do contexto de uma política <pública> cultural? Qual lugar ocupa o “produto” da dança? Como o edital, anual e seletivo, nutre o bem cultural, igualmente para os artistas da dança e para o público? E na guarita panoptíca de todo o processo, como as comissões entendem a seleção e a reverberação destes trabalhos na sociedade?
Daí, voltamos às perguntas anteriores para verificar quais devemos problematizar: primordialmente, os editais ainda refletem um tempo de seca artística. Embora desejáveis em solo árido, a mentalidade do poder público representada nos editais ainda não oferece condições de articular estes bens artísticos. Isso porque o modo de inserir estes trabalhos carece de novas compreensões, como a diferença entre comissão e curadoria, talvez a principal responsabilidade, que neste caso ainda tem um agravante: é coisa pública.
Tornar evidente as questões de cada artista não é só dar oportunidade de produzir e circular, mas tornar possível uma articulação do pensamento que suas obras geram.
Selecionar não é só gerar oportunidade, como uma lógica de mercado. É, sobretudo, direcionar e alimentar complexidade para quem faz.
Ver os teatros apresentando dança é tentador para dizer que nossa realidade melhorou. De fato, é primoroso ver tantos espetáculos e tanta gente circulando. O assunto <dança> pode ser mais comum, ou deveria dizer, público.
Contudo, fazer política cultural é uma atitude pública. Isso quer dizer que, como toda política, quem faz e participa, evidencia escolhas, mas também costumes estéticos e éticos.
Para a segunda edição do PAC (2007, com edital já publicado), já há um sinal de mais circulação e menos articulação entre os dados do jogo. Pesa, portanto, sobre as futuras comissões, a responsabilidade em repensar modos de seleção nos quais uma curadoria aja com uma atitude articuladora, no campo estético e ético.
Do mesmo modo, os artistas, com maior engajamento e com projetos cada vez mais ousados nas novas formas de criar, também não estão isentos da oportunidade de usar o edital, e não ser usado por ele.
E por fim, ouvi Patrícia Werneck e Patrícia Noronha, infelizmente, não outros artistas desta edição do PAC (aqui fica o espaço para seus comentários). Werneck me fez pensar em continuidade, em como uma carreira se desenha em novos desafios, como o que ela propôs ao chamar dançarinas novatas para criar junto com ela em cena. E também reforçou o fato de que não se trata de atender ao edital, e sim sinalizar um diálogo entre o que o artista está pensando e o público. Noronha trouxe caros apontamentos sobre o PAC pesquisa. Apesar de ser uma boa idéia (tem dois módulos, teórica e coreográfica, sendo o da artista o segundo), o edital não esclarece a diferença entre pesquisa e resultado. Não foi ainda lançada a segunda edição. Patrícia Noronha, também no trilho de uma extensa carreira que se renova em um projeto formalizado para o edital, esquenta o debate das necessidades, prioridades e formas de pesquisar dança.
Termino com uma pergunta dela: qual é mesmo a importância da arte? Tentaria responder que representar a realidade de maneira crítica não destitui o caráter político das coisas públicas, e pode, de fato, fortalecer os modos de entender a arte.

Eng



Olá,
Meu nome é Andréia, tive meu projeto contemplado pelo PAC-25(módulo de pesquisa coreográfica), no ano passado. Não tenho o tempo de experiência de muitos artistas que foram contemplados e desde que me formei em dança na Unicamp, em 2004, tenho galgado espaço para sobreviver de dança na minha cidade, Sorocaba-SP, interior de São Paulo, a 100 km da capital.
Vejo que a questão chave, no caso do edital de pesquisa(PAC-25), reside não só na questão da articulação entre o que é avaliado e cedido, como forma de bem imaterial investido publicamente, mas no prórpio entendimento do que é esse bem imaterial. Como disse a Nirvana, os editais de 2007 parecem centralizar suas forças na circulação(há exigências na quantidade de cidades que devem ser visitadas com os espetáculos, nas distâncias e também na formação de público, já que um número x dos ingressos deve ser doado a escolas públicas). Bom, acho que são muitos lugares postados nessa série de editais que, de alguma forma, precisam ser revisitados. O primeiro deles, na minha visão, seria clarear alguns conceitos como: o que é circular com dança?Ou melhor, o que é circular com uma informação?Se avaliarmos cada ambiente dado(cidades com mais de 100 km de São Paulo por exemplo- falo assim, pois esse tipo de exigência, de cidades percorridas, existe no edital de circulação de 2007), veremos que qualquer informação emergente ou nova terá de efetuar trocas com esse ambiente e, assim, adaptar-se. O que fazer então se os ingressos cedidos aos alunos das escolas públicas não forem utilizados?O que fazer se não houver mais de três pessoas na platéia?Que tipo de ação é essa que vê circulação de dança como um grande aparelho de ar condicionado, que renova e impulsiona “ar novo” para todo lugar? Enfim, se não há fecundidade, espaço fértil para que a dança circule, será que a melhor medida é jogá-la, mesmo assim, para todos os cantos, como se seus artistas fossem pregadores de alguma igreja?O segundo ponto confuso que vejo é a idéia que se tem de pesquisa. Na verdade, quando fui contemplada, pouco me preocupei com isso, pois foi meu primeiro edital, minha primeira oportunidade de pesquisar sem ter que “pagar” por isso. Outra coisa que me deixou muito feliz, foi a possibilidade de ampliar minha pesquisa de mestrado(que é extritamente teórica) para um outro lugar de investigação prática. Bom, quando o trabalho ficou pronto, eu apresentei. Fim…todo o tempo de pesquisa ficou retido num processo “umbigocêntrico”, do qual ninguém ficaria sabendo se eu não fizesse um esforço para divulgar fora do espaço do edital. Claro que é muito bom ganhar um dinheiro para pesquisar, mas novamente vem a questão conceitual acerca disso: de que pesquisa estamos falando?Será que as coisas não deveriam estar mais conectadas umas com as outras, será que a pesquisa fica pronta em algum momento e depois disso ela é considerada madura o suficiente para circular?E quem circula não pesquisa, só circula? Talvez a questão da articulação entre todos os dados que se aprontam na gerência da complexidade de se fazer arte com dinheiro público esteja justamente na possibilidade de se borrar esse tipo de fronteira. Por outro lado, acho que a postura conformista- que muitos de nós artistas temos- de sonhar com uma comissão superior que, um dia, organizará as novas demandas,ou com um poder público que vai se tocar e modificar seu modus operandi atrapalha bem o desenrolar dessa discussão. Quando, a exemplo de meus vizinhos de Votorantim, começei a pensar em ações mais integradas, com o Coletivo KD(meu grupo de trabalho aqui em Sorocaba), vi que é preciso fazer uma forçinha extra além de se trancar numa sala e investigar com o corpo e é nesse grau, acredito eu, que a pesquisa se apronta, em sua utilidade e relação com alguém, em algum lugar do mundo. Falar em utilidade e relação , no caso da dança, é falar num público, ou, pelo menos, num ambiente. Será que toda essa complexidade pode ser contemplada com alguns R$ e parâmetros reducionistas e cartesianos de regulamento? Infelizmente, não consegui enquadrar minhas ações atuais(de 2007) no edital de 2007, pois não se encaixavam na quilometragem proposta, então, fiquei a ver navios e não me inscrevi.Espero que no ano que vem, algo mude(daqui ou de lá)!
Parabéns pela discussão proposta Nirvana!
Nirvana levanta a bola de uma boa discussão. Por falta de espaço alinho alguns pontos:
Fala-se muito em política cultural mas a discussão começa antes, se pensarmos política cultural como um conjunto de ações COORDENADAS com objetivos claros e sistemas de avaliação de resultados, entre outras coisas.
Em primeiro lugar a estrutura da gestão pública do Brasil é arcaica, excessivamente burocrática e de avaliação pouco transparente. Não pode haver uma efetiva ação ampla e coordenada com esta estrutura. Pode-se apenas fazer algo dentro do “melhor possível”, trazendo avanços, produzindo efeitos em cascata, multilplicadores. Neste sentido destaco algumas das inúmeras ações que estão sendo levadas a cabo em varias partes do Brasil e estão diretamente ligadas à mobilização dos profissionais da dança, por um lado, e à percepção dos gestores públicos, por outro, de que o fazer cultural está se colocando em lugar central nas sociedades deste início de terceiro milênio: imperfeitos e limitados, os editais ampliam a transparência e o acesso aos recursos e permitem, se bem utilizados (como destaca Nirvana) o desenvolvimento de uma serie de ações da própria sociedade civil (aqui principalmente territorializada no setor artístico e dos “fazedores de cultura”).
Alguns exemplos são os editais do Ceará e sua capital Fortaleza, a participação de profissionais da dança na analise dos projetos que receberão incentivos em Pernambuco, os editais em Belo Horizonte, os PACs do Estado de São Paulo mas principalmente a Lei de Fomento à Dança do Município de São Paulo (que o Brasil deveria observar mais atentamente, por estabelecer um precedente em lei que pode servir a outras cidades), a modesta lei de renúncia transformada em editais em Santa Catarina, os novos editais recém lançados na Bahia, entre outros varios exemplos.
Podem não ser uma Política Cultural estabelecida, mas dão conta de certa massa crítica que vai se formando e certamente se comparadas ao vazio anterior, opino que se pode dizer: saímos de uma pré-história e estamos começando uma história, ainda por fazer…
Mas não haverá Política Cultural efetiva sem uma reforma ampla no sistema gerencial público do Brasil, que diminua a burocracia, simplifique tributos e amplie os mecanismos de avaliação e transparência. É o mesmo que reclamam outros setores do país e cada vez mais acho que é a bola da vez na luta pela cidadania plena.
Oi, Nirvana!
Gostei da possibilidade de poder refletir novamente sobre a questão. Quando realizamos a circulação em março/abril deste ano, escrevi depois algumas impressões que tive desta primeira experiência que tive com PAC circulando pelo interior de São Paulo, envolvendo uma parceria com o SESC e o apoio da Fundação Japão. A seguir segue meu depoimento, um pouco longo, mas talvez possa contribuir para a discussão.
Impressões sobre a Circulação do espetáculo de dança “Disseram que eu era japonesa”
Umas das minhas expectativas para a circulação estava na experiência de levar pela primeira vez o espetáculo para fora da capital de São Paulo, sem saber qual seria a receptividade por parte do público `as questões levantadas pelo trabalho.
Aqui em São Paulo, sinto que há uma maior circulação de espetáculos de dança contemporânea, há o trabalho desenvolvido pela Fundação Japão, no que diz respeito a se pensar, conhecer e refletir sobre a cultura japonesa.
No interior de São Paulo as ações em favor da dança contemporânea estão se tornando cada vez mais presentes, mas eu não sabia se haveria um interesse por parte das pessoas sobre a relação da dança contemporânea e a cultura japonesa. E particularmente não estava preocupada em atingir somente o público “da colônia japonesa”, mas a todos que pensam sobre identidades culturais, pertencimento e memória cultural também.
Em todas as cidades que fomos, havia sempre descendentes e/ou imigrantes japoneses ou interessados em cultura japonesa, mas não havia um público uniforme, no que diz respeito a faixa etária, sexo ou atividade profissional. Tivemos a cobertura da imprensa em todos os locais por onde passamos, sobretudo dos jornais locais. Fomos muito bem recebidos e apoiados também pelas instituições e artistas das cidades por onde passamos.
Durante os workshops, como nas conversas com o público após o espetáculo, eu pude me aproximar de algumas questões que eu não tenho muita familiaridade. Por exemplo, saber da importância que o movimento Shindô Remmei teve no interior de São Paulo, como mencionou o diretor da unidade SESC Catanduva, Hideki Yoshimoto, e também como uma participante do workshop em Araraquara mencionou, que devido `a guerra e presença americana, a colônia japonesa tinha se dispersado/expulsada e a comunidade que está atualmente fixada na cidade é de um período mais recente.
Percebi que em relação `as expectativas do público em ver “algo japonês” (já que o título “Disseram que eu era japonesa” sugeria algo em torno disso) se configurava de várias formas: algumas pessoas tinham referências mais estreitas da cultura tradicional japonesa (leques, gueixa, samurai, dança tradicional); outros, normalmente mais jovens, tinham ligação maior com o universo dos mangás e animês e havia outros que tinham um contato maior com a cultura japonesa pelo convívio com amigos imigrantes ou descendentes e/ou familiares “japoneses”.
Senti que seria importante estimularmos continuamente a difusão da produção de arte contemporânea japonesa, não só no interior de São Paulo (bem entendido) para podermos ampliar a nossa visão da cultura japonesa e não ficarmos somente restritos `a imagem de cartão postal do Japão.
Acho que posso agora falar um pouco de cada cidade que estava no roteiro.
Em Votorantim, no Teatro Municipal, fizemos uma parceria com o Quadra Pessoas e Idéias, um coletivo de artistas da cidade. Apesar da cidade ser pequena este coletivo tem fomentado a dança de uma forma muito inteligente. No workshop foi interessante apresentar aos dançarinos o trabalho da “Respiração pelas solas dos pés”, um tipo de prática um pouco diferente das técnicas que estavam acostumados. Perceberam mais claramente ou até “descobriram o que seria o centro do corpo”, o “tandem” e como utilizá-lo na dança e perceberam as possíveis modificações da organização do corpo e do movimento.
A maioria do público no teatro era composta de dançarinos de dança contemporânea, mas havia o público local e tive a alegria de reencontrar amigas da minha infância, da época em que morava na cidade vizinha de Sorocaba e que comentaram estarem surpresas com as minhas atitudes em cena. O referencial que alguns tinham com a cultura japonesa era com o universo dos desenhos animados passados na televisão.
Pudemos ver que na cidade de São José dos Campos, onde já sabíamos de antemão que a colônia japonesa era forte e bem articulada, estabelecemos um contato com a Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, que ajudou na divulgação do espetáculo trazendo um bom público ao teatro e com a Fundação Cultural Cassiano Ricardo e a Produção em Cena.
Tivemos a presença do Diretor Geral da Fundação Japão Nishida Kazumasa e do Diretor de Projetos Culturais Jo Takahashi que fez a mediação da conversa com o público. Jô Takahashi teceu um comentário muito preciso sobre a simbologia do “Godzila”, presente no espetáculo, com o período pós-guerra no Japão; a construção das espirais, na cena com o isopor, presente durante todo o trabalho na qualidade de movimento e finalmente, a relação de imobilidade/impossibilidade de movimento do meu corpo na cena final em simultaneidade com a avalanche de imagens superpostas em vídeo.
Posso mencionar também a presença do escritor Júlio Myazawa que presenteou-me com o romance “Yawara! A travessia nihondin-Brasil”. Também contamos com um público espontâneo que estabeleceu conexões bem interessantes com o espetáculo, refletindo sobre a sua própria experiência com a cultura japonesa e se familiarizando com a linguagem da dança contemporânea. Nesse encontro a iluminadora Ligia Chaim e o Vj Jaime de Toledo, representando o iluminador André Boll e a vídeo artista Kika Nicolela, participaram da conversa sobre a relação da “Dança, luz e vídeo – parceiros de mesma cena”.
Em São José do Rio Preto, na unidade do SESC, pudemos desenvolver uma atividade específica com a equipe de programação de atividades culturais e esportivas, em que procuramos reconhecer como cada um se relacionava ou se relacionou até o momento, com aspectos da cultura japonesa ( alguns pelo cinema, outros pela convivência no dia a dia, por exemplo).
No workshop tivemos a presença dos bailarinos da Companhia de dança de São José dos Campos, dirigida pelo coreógrafo argentino Marcelo Zamora, que também participou da conversa final do espetáculo. Marcelo comentou sobre a importância da profundidade e continuidade da pesquisa para podermos ter qualidade artística e profissional e sobre a relação dos diverso elementos da coreografia, dança/cenário/vídeo/luz. Nesse encontro a iluminadora Ligia Chaim e o Vj Jaime de Toledo também participaram da conversa.
Em Catanduva, cidade pequena, quente, plana e ensolarada, fiquei refletindo muito sobre o papel da cultura de cana de açúcar e dos bio-combustíveis e também no perfil das atividades de entretenimento da cidade. Parece meio fora do propósito, mas acho que as atividades comerciais/econômicas/educacionais do local estão interligadas com a cultura e a arte. Havia vários shows de duplas sertanejas que viajam em suas carretas e micro ônibus personalizados.
No workshop havia pessoas de dança e de teatro semi- profissional, todos conheciam o “butô”, por causa de uma companhia brasileira (acho que é a Ogawa Butoh Center) que se apresentou lá e deu workshop. Alguns tinham visto alguns filmes de samurai e de lutas marciais (aqui via-se a confusão de identificar o karatê/kung fu/lutas marciais como sendo lutas japonesas, quando algumas são chinesas ou japonesas) ou o filme comercial “Gueixa”, recentemente lançado.
No público do Teatro Municipal havia um grupo de mulheres da terceira idade, vários descendentes e imigrantes japoneses. Para mim foi uma surpresa, mas há também associação cultural japonesa em Catanduva. Como disse anteriormente, o diretor da unidade SESC Catanduva, Hideki Yoshimoto estava presente e comentou que o trabalho tinha generosidade, havia momentos de maior acessibilidade (cena pop cor de rosa) e que isso era importante.
Percebi pelos comentários do público que realmente há uma certa carência de hábito em ver dança (não só) contemporânea e que o SESC acaba por desempenhar um papel importante na difusão de arte, educação e formação de público na região, como acontece em outros lugares também, contrabalançando a não ação cultural efetiva das prefeituras.
Na cidade de Araraquara, dançamos no teatro do SESC e pudemos verificar como faz diferença as atividades contínuas que têm se concretizado tanto na programação do SESC para a dança com workshops, espetáculos seguidos de debates, como o projeto da Escola Municipal de Dança “Iracema Nogueira” e da FUNDART (Fundação de Arte e Cultura do Município de Araraquara) e sobretudo, da classe da dança contemporânea.
Tivemos um dos maiores públicos da circulação, sendo este público variado, não somente artistas, mas a família, com filhos pequenos, casal da terceira idade, por exemplo, pessoas que escolhem ver dança em vez de ficar em casa assistindo TV. E na conversa mediada pela dançarina do Kranya Diaz, do Grupo Gestus, direção de Gilsamara Moura, que discorreu profundamente sobre as questões de mestiçagens e hibridismos na dança e em relação ao espetáculo. Pudemos observar como o público que estava presente está mais acostumado e instrumentalizado a falar sobre o que viu na dança.
No workshop, apesar de ser gratuito tivemos poucos participantes no dia do workshop, apesar de ter tido fila de espera para a inscrição. Fenômeno curioso e que me põe a pensar sobre acessibilidade de informação/gratuidade/participação efetiva nas atividades culturais. Mas as pessoas que vieram eram da área de pedagogia e também havia uma senhora da terceira idade descendente de japoneses que sempre participa das atividades de dança promovidas pelo SESC. Seu depoimento foi bem interessante, como mencionei anteriormente, sobre a presença da colônia japonesa em Araraquara.
Para fechar o circuito, estivemos na cidade de Campinas, no Espaço Cultural CPFL. O teatro era um auditório aconchegante, bem equipado e com uma produção que trabalha bem. Campinas, em relação as outras cidades que visitamos, é uma cidade grande e rica.
No Espaço Cultural há uma regularidade de programação para a dança (1 vez por semana) e como há várias atividades também durante a semana (exceto segunda-feira) está se criando um público “cativo” para todos os eventos ali programados. Me faz refletir novamente sobre a ausência de política pública, já que um grande teatro municipal da cidade (Convivência) está “as moscas, caindo aos pedaços”, infelizmente.
Devido `a disposição mais próxima entre público e palco, durante a apresentação pude sentir mais de perto a reação do público e percebi como faz diferença sobre o timing da performance e da comunicação que se estabeleceu entre eu e as pessoas. Me lembrou a situação da estréia no palco do Centro Cultural Banco do Brasil. As trocas são mais rápidas e pude explorar movimentos mais diminutos e/ou detalhados em algumas momentos.
Na conversa com o público, contamos com a presença da bailarina Lilian Vilela, doutoranda em Educação pelo Laborarte, na UNICAMP, abordou a questão da mestiçagem, hibridismo e identidade cultural e a relação com a dança, o corpo e o espetáculo propriamente dito. Havia uma pesquisadora e antropóloga na platéia que estava interessada na questão da imigração japonesa no Brasil. E pudemos tocar na questão sobre identidades, e uma mudança de visão ao escolher o “estar” (estou dançarina, estou mestiça, estou mãe, estou bancária) , em vez de o “ser” (japonesa, ser brasileira, ser dançarina), mais mobilidade e menos congelamento, se assim posso dizer.
Tenho que mencionar que pessoalmente foi muito especial a apresentação, porque além de ser um fechamento de um ciclo intenso e prazeroso, foi a primeira vez que meus tios, primos paternos e amigos, que residem em Campinas, viram meu trabalho, puderam ver o que seria isso de dança contemporânea e tiveram uma relação mais íntima com as referências das imagens autobiográficas do solo.
Em termos de produção, logística, qualidade técnica e artística durante a circulação do projeto “Disseram que eu era japonesa”, envolvendo espetáculo, workshop e conversas com o público, percebemos que foi fundamental o apoio das instituições envolvidas (Secretaria de Estado da Cultura, Fundação Japão, SESC São Paulo e Espaço Cultural CPFL) e do comprometimento dos profissionais que acompanharam o processo de circulação: Dora Leão, Ramiro Murilo, André Boll, Kika Nicolela, Ligia Chaim, Jaime de Toledo, Adilson Silva, Edson Silva, Jefferson Antônio da Silva Costa, Júlio Saggin, Kranya Dias, Marcelo Zamora e Lilian Vilela. Agradeço a todos!!!!!
Para concluir essas impressões sobre a circulação, acho que foi fundamental experimentar a situação de turnê, verificando como o espetáculo pode alcançar diferenciados públicos, servir para estimular trocas e crescimento pessoal tanto entre o público e o artista, como entre a equipe toda envolvida no processo. Mostrando também, que apesar da dança ser um arte efêmera enquanto acontecimento (durante sua concretização na apresentação), ela pode deixar seus rastros de conhecimento nos corpos que dela fazem ou fizeram parte (artistas e público).
Letícia Sekito.
olá,
eu não fiquei muito satisfeita com essse site ,pois voces não tem o que estou precisando
agora já vou me despedindo
beijokassss
de quem entrou no seu site e não ficou muito satisfeita
clarissa aparecida raymundo ferreira
olá ,
ao contrario de minha amiga
adorei seu site
beijokassss
Diretores e atores interessados na produção de “PROSTITUTA POR AMOR” contate-me. Para conhecer o texto entre em http://www.recantodasletras.com.br/autores/adilidossantos
Deixo meu registro, um pouco atrazado demais, é verdade, mas antes tarde do que nunca, à Leticia Sekito que me contatou para a produção local em SJCampos , do seu espetáculo DISSERAM QUE EU ERA JAPONESA.
Agradeço também à EStela Lapponi, que me contatou este ano de 2009, como produtor local emSJCampos e Taubaté, para o espetáculo IN-COMODO-SER-EU-SÓ-TANTA-GENTE.
Me coloco a disposição de otros artistas que precisem de produção local na região do VALE DO PARAÍBA.
julio saggin
12 8122-1527