Estamos num tempo em que estas fronteiras se estabelecem, ainda que provisoriamente, contingentemente, flutuantemente, descentradamente, o que me parece apontar para a necessidade de se tentar pensar nos trânsitos possíveis. Para começar esta reflexão, passo a entender o conceito de fronteiras de maneira simplificada, mas talvez não menos válida para a reflexão do universo da dança, como aquele limite de passagem para o território do Outro, aquele lugar que não domino ou que me interesso em me aproximar ou ainda por onde desejo me aventurar.

Portanto, o que gostaria de pensar é como se estabelece o trânsito pelas fronteiras que se colocam para a dança. Sejam elas fronteiras entre linguagens, como a da dança e a do teatro. Fronteiras entre estilos e gêneros, como o jazz, o balé, a dança de rua, a dança contemporânea (se assim esta pode ser caracterizada). Fronteiras entre saberes, como os da arte e da ciência. Tenho me deparado com os impasses que estas fronteiras suscitam em vários eventos em que o tema se coloca em debate, como a Bienal de Dança do Ceará, o Festival de Dança de Joinville, o Brasil MoveBerlim e o Festival de Dança de Recife. Em todos eles, ficam evidenciadas as preocupações e inabilidades que aparecem de norte a sul do país ou mesmo do outro lado do Atlântico. Em algumas falas nestes eventos, procurei levantar algumas alternativas para se pensar as relações com estas fronteiras, pontuando quatro delas: a guerra, a importação, o turismo e a residência.

A guerra é uma das alternativas para estabelecer a relação com o que está do Outro lado da fronteira. Ela parte do princípio da discórdia e do conflito com o Outro lado. O objetivo é fazer com que o Outro lado siga as mesmas regras do lado de cá da fronteira, seja eliminando as fronteiras ou não, já que o que importa é que, dos dois lados, a mesma ordem seja estabelecida.

A relação com o Outro lado da fronteira pode ser de importação. O território do Outro conta com recursos que interessam ao lado de cá, que não se importa em estabelecer a mesma ordem, mas de poder usufruir destes recursos.

Já o turismo costuma ser mais pacífico (ainda que nem sempre). O princípio que o regula é o da descoberta e do desfrute. Atravessar a fronteira é uma aventura da qual, de preferência, deve-se retornar repleto de lembrancinhas, de souvenirs. É uma relação de curto prazo e, portanto, rápida e fugaz. Por isso a importância de sair carregado de badulaques e registros pra provar que se esteve lá do Outro lado.

A última alternativa que aponto é a da residência. Nesta modalidade, digamos assim, a travessia da fronteira tem como objetivo vivenciar, experimentar, conhecer (e não apenas descobrir). Tal alternativa exige um prazo maior e uma relação mais intensa e aguda. Vai além de um petisco ou meia dúzia de palavras. Pode-se começar a dominar o idioma, preparar pratos, entender condutas. Pode haver nesta possibilidade um intercâmbio enriquecedor para ambos os lados, no exercício do convívio com a diferença.

Mais do que estabelecer uma classificação de modalidades de relação de trânsito pelas fronteiras, meu objetivo é o de refletir de que maneira estamos enfrentando os desafios das fronteiras da dança. Neste cenário é possível ver guerras declaradas ao funk. É possível ver o vocabulário da dança de rua, que aparece a torto e a direito como penduricalho turístico que enfeita coreografias de quem passeou por uma vídeo-aula de poucos minutos. É possível ver batalhas por tudo aquilo que juram desvirtuar a essência (sic!) desta ou daquela dança. É possível ver o bombardeio moralista contra os corpos requebrantes e o próprio bombardeio dos corpos requebrantes sobre os corpos tranqüilos e silenciosos, e, nem por isso menos dançantes. É possível ver a importação ingênua que acredita que tudo do primeiro mundo é melhor, ou ainda o protecionismo tacanho que precisa defender com unhas e dentes o que é da sua terra.

Mas este trânsito também tem revelado o sabor e o valor de se “perder tempo” com o Outro lado, explícito nas trocas que nutrem e alimentam os processos artísticos. Na possibilidade da street dance, valer-se da dança contemporânea e a dança contemporânea da street dance a ponto de não sabermos mais onde esta fronteira ficou. Da dança clássica aprender com a capoeira. Do samba namorar a vídeo-dança. Do pensamento não agarrar-se a uma atitude sisuda e também divertir-se no carnaval. Das diferenças construírem redes de colaboração e solidariedade.

Enfim, nem tudo são flores e a idéia aqui não é de uma manifesto (ou talvez seja) na defesa da garantia de todas as fronteiras. As guerras nunca cessam, a importação muito menos, e o turismo vai a galope em tempos de globalização. Mas em meio a equivocadas alternativas a curto ou longo prazo, o espaço está disponível para reinvenção e inauguração de modos de transitar por estas fronteiras estética e eticamente. Não cruzar a fronteira fica cada vez menos vinculado à nossa vontade, mas como lidar com estas entradas e saídas depende de escolhas nossas.