Achei que uma boa maneira de dar continuidade àquela discussão sobre artista e público do último texto era falar da relação entre artista e imprensa. Pensei em falar no jornalismo cultural, e não ficar muito na crítica de arte, por exemplo. Não porque não seja importante, mas porque tem muito pouco dela na imprensa brasileira e, por várias razões, me parece que tende a ter cada vez menos. Bom, e o que é esse jornalismo cultural? Pra me ajudar a esclarecer isso, eu conversei com duas pessoas, que eu escolhi por razões mais ou menos particulares.
Eu já trabalhei, e eventualmente ainda trabalho, como assessor de imprensa. Comecei prestando esse serviço pra mim mesmo e, ao longo do tempo, fui pegando outros freelas na área e a minha relação com o assunto foi ficando mais complexa.
Por um lado, era muito comum eu receber dos artistas uns releases sem pé nem cabeça, umas fotos que não dava pra publicar, uns vídeos pra lá de amadores, tudo desorganizado, em cima da hora, e tinha que traduzir aquele material pra mandar pra imprensa e implorar de joelhos pra entrar na pauta no último minuto. Pensava: “Artista é muito sem noção”.
Por outro lado, como artista, quantas vezes eu não me senti traído ao dar uma entrevista e ver que tinham transformado completamente o que eu falei, ou que reproduziram o release sem mexer em nada. Ou às vezes mexiam, mas faziam alguma modificação irrisória que tinha o poder de estragar tudo. Pensava: “Jornalista é muito sem noção”.
Então, pra este texto agora, resolvi fazer umas perguntas pra duas pessoas que, de certa forma, me ajudaram a pensar sobre esse assunto em outros momentos da minha vida.
Uma delas é o Alessandro Martins. Ele é jornalista e durante alguns anos foi editor do Espaço 2, o caderno cultural do Jornal do Estado. É um jornal que circula principalmente aqui no Paraná, com uma distribuição relativamente pequena, mas que sempre me surpreendia e ainda me surpreende pela qualidade dos textos e pelo espaço que dá para a produção local independente e pra arte contemporânea de uma forma geral. O Alessandro não trabalha mais no jornal, que hoje tem como editora de cultura a Adriane Perin, também excelente. Mas pensei nele por saber que, de certa forma, foi o responsável por construir essa política editorial no caderno.
A outra pessoa é o Marcelo Evelin, um artista que vive entre Brasil e Europa, é diretor do Teatro Municipal João Paulo II (TMJP2), em Teresina, professor da Amsterdam School of Arts, na Holanda, entre várias outras coisas. Pensei no Marcelo por estar circulando nesses dois mercados, brasileiro e europeu, mas também porque eu conheço um pouco da postura dele em relação à imprensa. Quando ele esteve aqui em Curitiba com o Bull dancing (clique aqui para conferir a galeria de fotos do espetáculo), espetáculo que ele dirigiu, eu fiz a assessoria de imprensa. Eu ficava impressionado com a facilidade que ele tem pra dar entrevistas, muitas vezes explicando pacientemente pro jornalista o que tem que anotar, o que tem que frisar.
A outra coisa é que, quando estive em Teresina, percebi que tem se construído uma relação forte entre a produção que passa pelo TMJP2 e a imprensa de cultura da cidade.
Pensei também que essas duas cidades, Teresina e Curitiba, têm em comum o fato de não contarem com jornais e revistas locais que tenham uma grande distribuição nacional, o que seria uma outra situação bem diferente.
A idéia deste texto é colocar em jogo as idéias de um jornalista, de um artista, e as minhas, que entro aqui nas funções de artista, assessor de imprensa e deus, porque eu mando na parada.
Com as respostas do Alessandro, achei que precisava fechar mais ainda a discussão e, em vez de falar de imprensa como um todo, ficar só com o jornal, e mais especificamente com o caderno de cultura. Apesar de talvez parecer meio limitado, acho que esse foco pode criar ligações com várias outras questões. Então, bora lá.
O caderninho espremidinho de culturinha
Não sei se é coisa minha, mas os cadernos de cultura não tão encolhendo? Às vezes é uma página só. Eu achava que era só aqui em Curitiba, mas depois fiquei reparando e comecei a achar que isso tá acontecendo, em medidas diferentes, no Brasil todo.
Perguntei pro Alessandro o que é o caderno de cultura dentro de um jornal. Ele não foi o primeiro a me chamar a atenção pra uma crise que, eu acredito, não atinge só o jornalismo cultural, mas a imprensa brasileira como um todo. Tem cada vez menos grana e menos jornalistas que, por conta disso, têm que cumprir mais funções. Não é raro constatar que o jornalista escreve ao mesmo tempo pro caderno de cultura e de esportes, por exemplo. Acho que não é o caso aqui de especular sobre as razões disso, mas observar essa situação pode dar uma noção mais concreta de como se encaixa o caderno de cultura nesse contexto.
Sobre a experiência dele, conta que nos anos em que trabalhou na editoria de cultura, de 1998 a 2005, viu a equipe passar de sete pessoas para apenas uma, que era ele mesmo. Falou o seguinte: “O caderno de cultura sempre será aquele que sofrerá cortes primeiro. Pelo menos aqui no Paraná, embora existam bons jornalistas, pessoas competentes e interessadas, elas não são valorizadas pelas administrações dos jornais. Mas não é porque são más pessoas. Apenas não acham coisas como literatura, dança e teatro realmente importantes e, quando se trata de sobrevivência econômica, talvez não sejam mesmo. É uma questão de prioridade.”
Como artista, eu quero sempre discordar desse argumento. Acredito, e procuro difundir essa idéia, que arte muda um país. Não só pelo entretenimento, que já é mais aceito pelo senso comum como um produto de primeira necessidade pra, sei lá, aliviar as tensões do dia-a-dia. O que eu digo é que o conhecimento produzido em arte gera outros conhecimentos, muda as pessoas de verdade, e isso pode gerar, inclusive, crescimento econômico. Mas entendo, de certa forma, que a administração de um jornal priorize outras coisas, já que é relativamente comum considerar arte como supérfluo, não só por parte deles, mas principalmente da maioria dos leitores.
“Quando você pensa em um grupo relativamente grande que adquire um certo volume de jornais, não pode imaginar que ele está interessado em todas as editorias”, disse o Alessandro. E é fato. Conheço gente que só lê esportes, só lê classificados, economia. Eu, por exemplo, nem olho essas coisas.
Agora, se já tem pouco espaço para a cultura, que espaço existe nos jornais para a arte dentro da cultura, para a produção local dentro da arte e para a produção contemporânea dentro da produção local?
O Alessandro não acha certo privilegiar a produção local, acha que isso deixa o artista acomodado. Ele acredita que o critério principal deva ser a qualidade. Aí novamente eu discordo dele.
Em primeiro lugar, porque qualidade em arte, putz, o que seria isso?
Em segundo lugar, eu definitivamente não acho que a imprensa teria como julgar essa qualidade, mesmo que fosse possível usar essa palavra. Porque geralmente não vai até os eventos, porque muitas vezes a informação que os artistas enviam não é suficiente, e porque tem muito jornalista na área que não se interessa nem minimamente por arte.
Em terceiro, porque talvez essa preferência pela produção local pareça boba, assim de cara, mas depende em relação a quê. Se pensar em relação a outros eventos que vêm de fora da cidade, talvez até seja. Mas se pensar em relação ao privilégio que a TV e o cinema internacional têm nos poucos espaços que a imprensa reserva pra cultura, aí eu acho relevante. Não que cinema e televisão sejam menos culturais ou menos artísticos, mas porque têm mais verba e, conseqüentemente, outras possibilidades pra chegar ao conhecimento das pessoas. No caso da TV então, ela própria se divulga. Falo nisso não só pra defender o artista, mas também o leitor do jornal, que tem direito de saber o que está acontecendo na própria cidade, no próprio estado, mesmo que não queira.
Mas o Marcelo Evelin falou uma coisa que me fez pensar que não dá pra reclamar tanto do espaço no jornal. Eu, na maior cara-de-pau, pedi pra ele fazer uma comparação entre o jornalismo de cultura em Teresina e Amsterdã. Ele, porque é camarada, se prontificou a responder e falou o seguinte: “Na Europa não temos muito acesso ao jornalismo cultural. Tem muita coisa acontecendo, e esse jornalismo só enfoca grandes grupos e espetáculos, do tipo Pina Bausch, William Forsythe, Bob Wilson. Nós, pequenos mortais, só temos crítica, e aí não temos mesmo nenhum controle. Quase nunca temos matérias, artigos ou TV. Não sabemos se vai sair crítica ou não. Não dá pra contar com isso”.
E, em certa medida, no Brasil esse canal de comunicação entre o artista menos conhecido e o jornal até existe, pelo menos parece isso. Mas o que se escreve e como se escreve?
O caderno virou agenda?
Eu comecei o texto falando que não ia tratar da crítica de arte, porque quase não tem isso no Brasil. Espero não estar mal informado, mas realmente tenho observado que são poucos os jornais brasileiros que dedicam um espaço permanente à crítica. E que muitos críticos estão migrando para outros espaços, como blogs e portais voltados a uma área específica. Sobre isso, vou falar mais adiante.
Mas, por enquanto, eu acho importante perguntar: Se no Brasil o jornalismo cultural não é crítica, é o que afinal?
Eu tinha falado também que eu acho péssimo quando eu mando um release pra imprensa e publicam do jeitinho que chegou, sem mudar nada. Mas, se fui eu que escrevi, não deveria ficar satisfeito? Afinal, a informação que eu queria que fosse divulgada tá lá. Mas acho que sempre tem uma expectativa de que o jornal faça um pouco mais que divulgar, que traga algum tipo de reflexão, mesmo que não se proponha a fazer crítica.
O Marcelo, apesar de considerar que nos jornais do centro do país isso é diferente, comenta que no Piauí “é só cortar e colar, só pra divulgar e nada mais. Reflexão zero, articulação de idéias zero. Nem sei se poderíamos falar disso como jornalismo cultural”. Ele fala dessa situação por lá, mas eu vejo isso acontecer também aqui em Curitiba, e em várias outras cidades pelas quais eu tenho passado. E, mesmo nos jornais do centro do país que ele menciona, acredito que se referindo aos grandes jornais – Estadão, Folha, O Globo -, não me parece que seja tããaaao diferente, guardando as devidas proporções.
Acho que entre nós três tem um consenso de que os jornais brasileiros – é claro que generalizando – têm usado o caderno de cultura principalmente pra anunciar o que está em cartaz. Diz o Alessandro: “por conta do espaço, recursos humanos e tempo, nossos[1] cadernos culturais ganharam mais e mais um tom de mera agenda cultural. O editor precisa fazer um esforço enorme para, de vez em quando, sair disso”.
E sair disso seria o quê? O que é que o jornalista pode falar se, na maioria das vezes, não consegue – e em muitos casos não tenta – ir aos eventos, conversar com os artistas, entender do que se trata?
Perguntei pro Alessandro também sobre isso e ele me respondeu assim: “Não há tempo para cobrir todos os eventos. Tenho certeza de que o jornalista de cultura gostaria de ir a todos, mas pense em uma editoria com um editor e três ou quatro repórteres. Um editor, no caso do Jornal do Estado, sem repórteres. Não é viável ir a tudo e ligar para todos os realizadores. Quanto a ler e se informar sobre arte, tenho certeza de que isso acontece, mas os jornalistas são tão abrangentes quanto possível.”
Mas o próprio Jornal do Estado, desde que ele trabalhava lá e também hoje em dia, me parece que tem contornado isso de uma maneira legal. Tenho visto matérias que dão conta de criar algumas relações interessantes entre a informação que recebem dos artistas e a realidade local, trazer referências de outras áreas. Mas, mesmo pra isso, precisa conversar com os artistas, pesquisar sobre o assunto e freqüentar a cena de arte. Eu falo desse exemplo, mas tenho visto alguns casos, não só aqui como em outros lugares.
Aí o jornal pode ganhar uma função da maior importância, que é a de intermediar essa comunicação entre a produção artística e o grande público. O Marcelo conta de uma entrevista que deu pra uma jornalista de Fortaleza que, segundo ele, “ajudou enormemente a traduzir o Bull dancing, por meio de questões e observações pertinentes. Porque o jornalista pode fazer isso, tornar acessível para o público em geral um assunto especifico”.
Me parece que, pensando nessa tradução, a gente começa a falar de uma possibilidade concreta, mais do que a crítica. Quando falamos desse jornalismo de cultura, estamos falando de profissionais que geralmente não têm uma formação específica em arte[2], mas que se especializam na atividade de comunicar e, no caso dos jornais, para um público anônimo, amplo, também não especializado.
E, se essa comunicação entre jornalista e público a princípio funciona – vamos tomar isso como pressuposto, porque não é bem o nosso tema aqui – dá pra investigar como está o outro lado, que é a comunicação entre artista e jornalista.
Curso básico de reciclagem
Acho que antes de mais nada é preciso explicar, porque não é todo mundo que sabe, como acontece na prática essa comunicação entre o evento de arte e o caderno de cultura, seja esse evento uma peça, uma exposição, um encontro, uma palestra, um festival, qualquer coisa.
Quando é uma produção que envolve mais dinheiro, o mais comum é que tenha o intermédio de uma assessoria de imprensa contratada pela produção do evento ou por alguma instituição relacionada. Essa pessoa se encarrega de enviar releases e fotos pros jornais e portais, vídeos pras TVs, contactar blogs da área e às vezes algumas publicações específicas. Às vezes o assessor de imprensa só escreve o release e quem cumpre essa função de fazer chegar aos lugares é um produtor.
Existem também os raros casos em que a iniciativa parte do outro lado, e o jornalista descobre e se interessa pelo assunto, entra em contato com a produção e resolve fazer uma matéria. Mas, na maioria das vezes, considerando a precariedade de recursos em que vive a produção artística brasileira, é o próprio artista que tenta dar conta de elaborar um textinho, juntar as fotos que o amigo fez com a câmera digital e mandar um e-mail pra imprensa com o título Sugestão de pauta.
Aproveito o ensejo pra explicar que só isso não adianta nada. Mandar o e-mail e esperar que publiquem é quase pior que não mandar. Mesmo que nada esteja acontecendo na cidade, pode contar que a redação recebeu mais 9237492387239 sugestões de pauta, que talvez o e-mail não chegue, talvez vá pra pessoa errada. O bom é mandar e telefonar logo em seguida. E perguntar: “Recebeu? As imagens chegaram? Como tá a pauta essa semana? Rola de colocar alguma coisa?” Também não adianta mandar com dois meses de antecedência nem em cima da hora. Duas semanas, dez dias antes do evento tá de bom tamanho.
O Alessandro menciona mais algumas coisas que ajudam: “Os melhores releases são os mais objetivos, que explicam claramente do que se trata, onde vai ser e a que horas. E quanto vai custar para o público. Releases com muitas viagens conceituais não servem atualmente para o jornal. É necessário pensar em uma editoria pequena com pouco tempo para decifrar informações obscuras e com pouco tempo para ligar para a produção para checar um dado tão básico quanto o preço do ingresso. Mandar o release sem uma fotografia em boa resolução anexada é perder uma boa chance de ter a imagem publicada.” E eu acrescento: fotos feitas por um profissional ou um amigo muuuuuito competente, em 300 dpi, preferencialmente coloridas, e pelo menos duas opções: uma horizontal e uma vertical.
Estou falando disso tudo não só pra prestar um serviço à comunidade artística independente, que muitas vezes não tem grana pra pagar assessoria de imprensa, mas também pra falar de como o artista brasileiro, de forma geral, ainda tá despreparado pra lidar com tudo o que envolve a veiculação do seu trabalho. Esse despreparo, é claro, tem a ver com muita coisa, desde os cursos de formação em arte até uma série de práticas de mercado, que vão acostumando o artista a se considerar amador ou a confiar que um terceiro vai se encarregar desses probleminhas de ordem prática. E no Brasil, sinceramente, isso não tem o menor cabimento. Mas é questão pra outra hora.
Aqui, acho importante dizer que os dois lados precisam de mais preparo pra elaborar essa informação que, em última instância, precisa chegar ao cidadão comum. A falta de conhecimento também por parte de alguns jornalistas – repito, alguns – às vezes é medonha, e o artista precisa ter tato pra sacar se é hora de sorrir, de repreender gentilmente, de mudar de assunto.
O Marcelo, respondendo a uma pergunta minha, fez alguns pedidos à imprensa de Teresina que eu estendo à imprensa daqui e de outros lugares, porque falam de atitudes que não são nada incomuns: “Que eles viessem ver os espetáculos, de vez em quando, pra poder falar melhor da próxima vez. Que eles pensassem 10 vezes antes de fazer ctrl+C ctrl+V com os releases. Que não achassem que a imprensa é a salvação dos artistas, que fazemos qualquer coisa para sermos descobertos por eles, e que estamos eternamente gratos por um momento de atenção”.
Esse último me lembrou de muitas vezes ter observado essa postura, tanto em mim quanto na imprensa. Lembrei de um jornalista me falando uma vez: “Olha, eu vou te conseguir uma capa, mas tenho que fazer essa entrevista agora”. Chovendo, eu no meio da rua, desesperado em época de estréia, cheio de pepino da produção pra resolver, carregando um monte de equipamento pesado, tentando achar um táxi e dando entrevista no celular. Só pra não perder a capa do caderno de cultura. Será que valia a pena?
Pra colocar na parede
O que eu queria mesmo era ter dito assim: “Beleza, queridão, não precisa então, tá? Beijo, tchau, fica com deus”. Mas não disse. Não disse porque não queria queimar o meu filme. Não disse porque era importante garantir, talvez não tanto aquela capa, mas aquele canal de comunicação com o público não especializado. Hoje já não me parece que esse canal seja o único e começo a pensar se é o mais eficaz.
De fato – agora falando de forma mais genérica – quando a gente consegue espaço em certos jornais impressos, em certos sites e programas de TV, isso ajuda a trazer público, sem dúvida. Talvez não aumente tanto a quantidade, mas ajuda a levar outras pessoas que não são aquelas que já iriam normalmente. Mas não é sempre que isso funciona. O Marcelo disse uma coisa legal: “Às vezes o e-flyer ou o boca-a-boca funcionam mais. [O jornal] não traz necessariamente um público, mas deixa o público saber que está acontecendo, e serve pelo menos como fator de insistência”.
No caso específico do jornal, esse espaço talvez tenha ganhado tanto valor nos últimos anos também pela oferta e procura. O espaço vai ficando cada vez mais restrito, diante de uma produção mais numerosa, e isso aumenta a cobiça por aqueles centimetrozinhos de papel.
Os dois, Marcelo e Alessandro, lembraram também do jornal como registro histórico. Quando a gente elabora os nossos portfólios e currículos, sempre junta os recortezinhos de jornal. Quando vai mandar projetos, tentar participar de um festival ou qualquer outro evento, manda os recortezinhos de jornal. Eles provam que o trabalho realmente existiu, que teve ação no mundo, que constou na história, que teve algum valor.
O Alessandro disse o seguinte: “Infelizmente uma publicação em jornal impresso ainda tem uma aura de valorização do produto cultural divulgado, mas essa aura já não corresponde à realidade. Digamos que essa aura ainda tem uma inércia residual.”
E que alternativa a gente tem? Ele, que hoje trabalha na edição de seis blogs, acha que esse suporte é uma boa saída. “As publicações on-line e a divulgação na Internet têm muito mais chances de atingir um público bem específico de uma forma mais barata, eficiente e abrangente”, ele disse e eu concordo plenamente. Isso, é claro, se for pensar em chegar ao nosso público de sempre, aquele que já freqüenta os eventos de arte. Pra chegar ao cidadão comum, acho ainda têm que se construir outras alternativas.
Pensei num negócio agora, vejam se é uma idéia idiota. Achei que, se a gente quer atingir outros públicos, pode ser uma boa perverter um pouco essa especificidade que ele menciona. Encontrar na Internet jeitos de chegar também em outras pessoas.
Talvez não dê pra divulgar uma montagem de Hamlet-Máquina num blog sobre pesca. Mas eu lembrei de uma história verídica.
Bom, eu faço parte de um coletivo de artistas chamado Couve-flor e a gente tem, ou tinha, sei lá, uma comunidade no Orkut (eu não entro no Orkut, tenho medo). Uma vez uma mulher entrou em contato com a gente, era de uma comunidade chamada Eu amo couve-flor, que tratava do vegetal mesmo. Eles trocavam receitas, essas coisas. Ela se interessou pelo coletivo, se ofereceu pra ajudar a divulgar o nosso trabalho por lá. Não sei se algum de nós respondeu ao e-mail dela, mas eu pelo menos não dei a mínima. Poxa, e era uma oportunidade legal. E devem ter tantas outras oportunidades aí que eu nem imagino.
E também esses dias aí, desde que eu publiquei o outro texto, teve tantos comentários falando em alternativas pra chegar em segmentos diferentes, se interessando mesmo. Tô otimista, acho que tem jeito de construir isso. Seja na Internet mesmo, pessoalmente, panfletando em lugares diferentes, fazendo os eventos acontecerem em lugares diferentes, criando parcerias com pessoas e instituições diferentes.
Não como um modo de boicotar o caderno de cultura, mas de inaugurar outros espaços pra conseguir aquilo que a gente procura no jornal: fazer o trabalho existir, agir no mundo, constar na história, ter algum valor. Acho que isso, inclusive, pode contribuir pra criar mais espaço pra arte na imprensa.
Mas reforço aqui que é igualmente necessário melhorar a conversa entre artista e jornalista, ou entre artista, assessor de imprensa e jornalista. Por parte de muita gente no jornalismo cultural, que precisa realmente se informar melhor, mas também por parte de muito artista que, por não ter idéia, e às vezes nem procurar saber como a coisa realmente funciona, não assume a sua responsabilidade nessa relação.
Epílogo: dicas do Marcelo Evelin pra dar entrevistas
Eu pedi pro Marcelo passar umas dicas de como dar entrevistas. Tá meio fora do assunto agora, mas eu achei ótimo e vou colocar algumas aqui, pra finalizar:
“Se for pra TV tem que pensar que o segundo vale ouro. Então, tem que engatar uma dinâmica de falar e ir direto ao assunto, sem titubear. Pro jornal tem que fazer pausas e tentar acompanhar o repórter escrevendo. Se for gravada, também não dá pra disparar. Quando falar o nome de alguém, principalmente estrangeiro, tem que se oferecer pra ajudar na grafia. É importante pensar no que pode funcionar como divulgação e falar disso, o que às vezes significa responder a uma coisa que não foi perguntada. A melhor matéria quem faz é você, que sabe do assunto, que tá vendendo o peixe.”
[1] Ele se refere aos jornais paranaenses, no caso.[2] Considerando que formação não é só acadêmica.*
Gustavo Bitencourt mora em Curitiba, Paraná. É performer, designer gráfico, programador, redator, tradutor, entre outras várias coisas. Em 2004 foi bolsista da Casa Hoffmann, onde foi co-curador e co-organizador do Ciclo de Ações Performáticas. Em 2005, dirigiu Hamlet, Príncipe da Dinamarca. É integrante do coletivo Couve-flor Minicomunidade Artística Mundial. Em 2007 integrou dois projetos de pesquisa recebedores do prêmio Klauss Vianna: O que me move a mover, em colaboração com Michelle Moura e Elisabete Finger, e o solo Bife, com a colaboração de Wagner Schwartz, Octávio Camargo, Fábia Guimarães e Ricardo Marinelli, que estreiou em 2008.

Eng
Gustavo, um primor seu texto!
Bem, sei que não é só um texto. Afinal, o assunto dele me diz muito. Uberlândia e Goiânia, por onde trabalhei, e atualmente Salvador, são muito próximas do caso curitibano do qual você fala.
Em meio a tantas explicações racionalizadas, respira ler um texto tão aproximado do fênomeno de que se fala, e apontando outro foco: amor e generosidade. ;)
Sem querer ser pessimista, esse ponto não é só um problema da ‘arte contemporânea’. Parece que temos aí um ‘tempo’ disso (ou um ‘mal tempo’). Inclusive até aquele sociólogo líquido já fez sérios apontamentos sobre isso.
Mas eu ri muito (num ótimo sentido)!
Se não mudar muita coisa, enfim… para mim, já é um texto forte candidato pra compor minhas aulas.
Já fico curioso para os seus próximos.
Gustavo, eu acho que você disse tudo. Eu já tentei me interessar por dança contemporânea, mas sempre saí “sem entender nada”. Simplesmente, por não ter parâmetro para avaliar, como você disse no comparativo com a dança flamenca. E fiquei achando que a dança “contemporânea” está mais para “futurística”, muito além da compreensão do público atual.
Tomara que esse diálogo com o público prospere e eu consiga entender alguma coisa.
Abraço,
Marcos
Fala Bitencourt !!!
Bacana.
Pensei em te mandar um link, de uma artista com quem trabalhei…Paz Rojo….ela tem uma lecture performance chamada: “gesture 1: this is love”.
Para o publico, do publico, com o publico.
Vê la !
Beijooooo, cris
http://www.associationlisa.com/paz/works/
:
Scroll down for this is love !
:D
Ei, Duto, valeu. Sei que essa situação é comum em boa parte das cidades brasileiras fora do eixo. Claro que isso também tem muito a ver com o pouco incentivo público e privado a programas culturais nesses locais. Só comparar a programação dos Sescs de Curitiba e de São Paulo, por exemplo.
Viu, quem é o sociólogo líquido?
Cristian, vou colocar aqui uma tradução livre da descrição da performance que você mencionou. Deve ser bem bonito. Gosto muito desse hábito explicar no release o que acontece:
“Nós entramos no palco com um pacote de envelopes nas mãos. Nós os colocamos no chão. Nós começamos a ler. O texto é traduzido para a língua do local em que a performance é apresentada. Nas duas línguas (a minha e a outra) a carta é destinada ao público. Ela faz uma reflexão sobre o fenômeno do teatro. Fenômeno que fala, cria, silencia e transforma o encontro. Como uma oferta, o que eu procuro é um caminho para a proximidade no processo de olhar e ouvir e a posição que assumimos em relação à nossa memória: nosso passado, nossa história e nossa memória coletiva. This is love (Isto é amor), como ato público, reflete sobre um momento ético no qual não devemos lembrar o silêncio, mas, ao invés disso, fazer dele um jogo de permanecer em silêncio.”
Tinha um outro comentário aqui, de um Marcos Paulo, que eu queria responder, mas sumiu. Marcos Paulo, posta de volta?
Gustavo
Primeiro queria dar as boas vindas aqui no idança, nesta saudável tarefa de dialogar sobre dança, como colunista.
E logo dizer que prazer enorme doi ler o teu texto, seja pela linguagem direta e saborosa, tão fundamental para dar ritmo aos papos e por ser generoso com nossos possíveis interlocutores. Enfim, longe dos discursos retóricos e afetados, nas quais preferem se agarrar as verdaediras conferências sobre dança contemporânea na maioria das instâncias.
Mas, tal opção só é possível porque recuperas esta tal coisa chamada amor, que me parece gerar tanto incômodo em termos de se pensar arte.
Só desta forma podemos enfrentar os complexos desafios que coloca, sem tirar literalmente “o nosso da reta”. Governo sim, mídia sim, mas nossa postura enquanto criadores também faz parte disto e tenho tentado pontuar por aqui estas questões, nem um pouco fáceis, mas urgentes pra não ficarmos conversando apenas com nós mesmos e acreditando que toda culpa é do mundo que não nos compreende.
Comunicar sim, e isto implica em uma ação comum. Ação da qual se pode gostar apenas e não necessariamente explicar.
Abçs, com amor e desejo de mais bate papo!!!
com amor
Reapareceu o Marcos Paulo. Então, Marcos Paulo, só queria dizer uma coisa. Acho que você não precisa também ficar esperando isso acontecer. Se você tem algum interesse, pode muito bem tentar ir conversar com o cara, perguntar, falar o que achou. Não acho que exista um conhecimento além da nossa capacidade, às vezes só falta algum ponto de conexão, mas a capacidade existe.
E tem também a gente se colocar com disponibilidade e a curiosidade. Você pode ir fazendo a tua parte. E quanto mais dança contemporânea você for ver, mais referenciais vai ter, e maior a probabilidade de assistir a coisas boas. E tem muitas, é sério. Abraço.
(Tô me sentindo psicóloga de programa feminino)
Bom, eu tenho que dizer que seu texto explica exatamente a realidade da arte contemporanea, sou bailarina em formação, quero levar isso como profissão e sei o quanto a dança contemporanea é abstrata, mas acho que ela se torna legal quando le a sinopse e faz relação com a apresentação, nem todas as apresetnações que fui assistir foi legal, saí de lá apatica, como vc diz em seu texto, mas tem outras que fui e sái de lá super feliz, dois casos: A Cia.de Dança de Diadema e Ballet Stagium, esse ultimo sinceramente, lotou e todos pediram bis, é uma pena mas as companhias pequenas nao são bem sucedidas.
querido gustavo, q prazer ler esse texto!
se vc esperava alguma coisa acontecer com o público ou artista em algum momento, acho q o seu texto pode ser uma avaliação, um ideário para facilitar esse encontro. entre minhas muitas risadas, fui entendendo como vc consegue tratar de coisas sérias sem ser frívolo — apesar q sua escrita dialoga esteticamente com esse segundo adjetivo (não seria essa uma forma de lidar diretamente com os «problemas da nossa civilização»?, sem constrangimento?).
eu me senti na mesa de um bar com vc e com os outros amigos.
vc fez um convite erótico, é o q nos aproxima.
me lembrei de uma frase da patty smith que pode ir de encontro à yerbabuena e às outras questões citadas por vc:
“a apresentação física numa performance é mais importante do que o que vc está dizendo. qualidade dá bom resultado, é claro, mas se a sua qualidade intelectual é alta, seu amor pela platéia é evidente,
e vc tem uma forte presença física, pode fazer qualquer coisa impunemente.”
isso era 1970.
oi, Gustavo!
que bom ler seu texto, bom em todos os sentidos: bem escrito, numa linguagem “longe dos discursos retóricos e afetados, nas quais preferem se agarrar as verdaediras conferências sobre dança contemporânea na maioria das instâncias” e falando de algo que está urgente e pulsante para se conversar.
acrescento aí só mais uma indagação: para quem estamos fazendo nossas obras? acho que isso também pode dar pistas do comportamento dos gatos pingados.
tenho pensado muito nisso… porque eu realmente quero fazer pesquisa, mas quero com isso um dia ir pra um teatro grande e lotar de gente, como a dançarina flamenca aí. to viajando? acho que não…
beijos e saudades!
Gus, muito bom o texto, eu entendi tudo e conheco a situacao.
Aqui em Teresina tem um agravante, o povo acha que danca contemporanea (ou qquer uma dessas linguagens que vc cita) nao e’ mesmo pra qquer um, e me recomendaram comecar por algo do tipo “chapeuzinho vermelho” pra educar a plateia.
Essas questoes que vc coloca tao claramente e que nao deixam de arrancar de mim umas boas risadas pensando no absurdo da situacao, na verdade me deixam noites e noites sem dormir.
Talvez seja mesmo resistir, resistir com amor, resisitir com generosidade ou resistir ficando puto, mas resistir.
Bem vindo ao idanca, bom ter vc por aqui.
beijo, marcelo.
Oi,
Partindo da minha vivência com dança em Salvador à 15 anos, penso que sempre vimos nos foyers dos teatros o mesmo público, artistas, amigos e alguns curiosos. Hoje o fomento à criação e pesquisa está maior, mas o público(aqueles poucos que iam) está ficando de fora dos experimentos propostos pelos artistas. Houve um evento durante alguns anos em Salvador o Ateliê de Coreógrafos que chamou muita gente, enchendo o TCA, que é o maior teatro da cidade. Acho que este fenômeno aconteceu devido a um fator preponderante: este evento dava uma garantia ao público de ver “coisa boa”, com uma grande divulgação (em todos os veículos e de boa qualidade) chamando para ver dança contemporânea. Não colocarei em pauta a qualidade de todos os trabalhos envolvidos, mas houveram espetáculos de terem duas sessões, pela quantidade de público que havia para assistir.
Então será que estamos sendo intimistas demais? Acho sim que os artistas precisam pensar e trabalhar na finalização, em como chegar ao outro, na construção estética e precisamos apostar numa boa produção, em mostrar que vale sair de casa para ver algo de qualidade.
Enfim, é gratificante ver esta discussão, por que todos nós já estávamos incomodados com toda esta situação.
Flor
Oi, Airton. Obrigado pelas boas-vindas e pelo comentário. Vamos conversar mais sim. Abração.
Gustavo,
grande prazer ler seu texto. Foi especialmente bom, neste momento, acessar estas idéias. Depois de 15 anos fazendo “dança contemporânea”, agora faço também a curadoria do centro cultural são paulo e me deparo com todos os lados desta moeda: estou do lado de quem cria, pensa, discute, pesquisa, assite, gosta, desgosta, entende, não entende, programa, abre a porta, estimula, encaminha, etc, etc e acho que, no fundo, todos nós sabemos quando a pessoa na nossa frente (lado, atrás, em cima ou embaixo, no caso dos contemporâneos..) têm “assunto”, aí, mesmo que sejam 6 gatos pingados assitindo, vale a pena. Os outros “sem assunto”, dificultam o acesso -às vezes sem querer- oferecendo releases que tentam esconder o “truque”. Infelizmente, a “arte contemporânea” é passível de maneirismos, e fica fácil dar um truque. O público, mesmo os gatos pingados, sabe disso.
abraço
Nossa ! Gustavo, eu bebi seu comentário, bem escrito e de uma forma verdadeira retrata o que se passa hoje no cenário da dança contemporânea do país. Acredito que os artistas dessa dança investigativa e de vanguarda também devem saber que seu público sempre será mais restrito pois sua mensagem e abordagem são direcionadas à uma platéia que se pretende informada e que
deveria ter condições de análise e crítica do que está sendo apresentado. Talvez seja esse um ponto -
Acharmos a formula de informar esse público. – Como? – Melhor deixar para uma próxima. Um abraço Yara De Cunto
Gente, valeu por todos os comentários.
Wagner, bem pessoal, mas enfim: JURO que eu tava ouvindo Patty Smith na hora que eu li a sua mensagem ontem. E não é algo que eu faça com freqüência. Sábia mulher. Beijo enorme e saudoso pra você.
Jana, acho que é possível sim. Tenho minhas dúvidas quanto a ter isso como meta, talvez seja mais o caso de se preocupar com a construção dessa aproximação. O resultado vai ser o que for. Mas sempre acho bom pensar grande.
Marcelo, você toca numa questão que eu deixei de lado, confesso, por medo de mexer com ela nesse texto curto, que é isso que tem se chamado de “formação de público”. Essa concepção da qual você fala eu tenho visto muito, tanto no poder público, quanto nos próprios artistas. Foi bom você mencionar isso, pra eu poder dizer que não é disso que eu estou falando. A própria idéia de “formar público” eu acho bem equivocada, tenho preferido falar em “aproximação”.
Uma coisa é a necessidade que a gente tem no Brasil de ter uma boa formação pra todo mundo, que inclui não só educação na escola, mas formação mesmo, acesso a cultura, pra poder ter instrumentos pra pensar sobre arte, política, ciência, vida. A outra coisa é esse erro de achar que tem que preparar especialmente o público pra alcançar um conhecimento que ele não alcança sozinho, e o erro pior de achar que isso se resolve se o artista produzir coisas mais fáceis. É uma forma bem estúpida e superficial de pensar essa relação. Aí é de ficar puto mesmo, como você diz. Mas amor inclui ficar puto.
Flor Violeta (nome bonito!). Acho que nas capitais esses grandes eventos ajudam a abrir espaço na mídia e, conseqüentemente, criam mais proximidade com o público. Uma coisa semelhante acontece aqui por conta do Festival de Teatro, e talvez seja parecido em Belo Horizonte com o FID e o FIT, no Rio com o Panorama e o Rio Cena, etc. O que permanece um mistério pra mim é por que esse povo todo, que aparece tão disponível e curioso durante esses eventos, e vai assistir a coisas que nunca assistiria normalmente, some totalmente assim que acaba o evento. Acho que a gente tem como pensar e trabalhar na continuidade disso.
Lara, você estar vendo na prática como tem gente truqueira. Concordo com você que não está na quantidade, cinco, seis, uma pessoa pode ser bom. O ponto é criar canais de comunicação e, como curadora, você está numa função crucial pra isso.
Yara, estou pensando em escrever sobre a relação entre artista e imprensa na próxima coluna. Acho que é um dos pontos importantes dessa questão. Se tiver sugestões, avise.
Sabe o que é engraçado? É que eu, msm sendo bailarina, e talvez seja isso que me leve a assistir a um espetaculo de dança contemporanea, me sinto totalmente leiga quando estou na plateia vendo esse “contemporâneo, independente, mais ou menos das artes cênicas, interessado em pesquisa etc”. Danço ballet, jazz, sapateado, já fiz algumas aulas de contemporâneo e assiti a um número consideravel de apresentações dessa área. Algumas me deram sono, outras eu entendi, outras eu gostei, outras até me deram vontade de dançar essa modalidade e a maioria delas me fez achar que eu não gosto de contemporâneo. Mas o que eu percebi com certeza foi que existem diversos estilos, diversas linhas do contemporâneo, métodos talvez como no ballet, não sei ao certo, mas eu não desisto de entender, semana passada msm eu fui na noite de ballet e contemporâneo do Festidança… alguns eram bem abstratos, outros faziam movimentos “estranhos” e outros tinham certa semelhança com o jazz. Agora eu me coloco no lugar do público mais leigo, ou eles gostam desse “chocar”, desse “impacto”, ou boiam……..
Olá Gustavo.
Meu nome é Clarissa, sou estudante do quarto ano de dança da FAP-Faculdade de Artes do Paraná- e ao ler o seu texto dei muita risada. Você disse aqui tudo o que eu discuti com duas amigas da minha turma da faculdade dois dias atrás numa mesa de bar.
Entre todas as questôes que você levanta no texto, o que mais me deixa alerta, é o grande problema do povo curitibano ir apenas ao famoso espaço chamado “Teatro Guaíra”. A grande massa, essa que paga 100 pilas pra ir ver Yerbabuena, só vai ao teatro pois a propaganda que passa na Rede Globo no intervalo do Jornal Nacional é o que leva essa informação para eles.
O grande público curitibano só gosta das coisas que vem de fora do Paraná.
Aliás, agora temos um novo e famoso espaço, o Teatro Positivo, onde a elite curitibana pode se esbaldar com espetaculos que vem de fora de Curitiba, com ingressos bem salgados e podem desfilar os sobre-tudo e os casacos de pele com esse frio que está por aqui.
Enfim… não desista… eu não desisti, e como boa leonina que sou, nunca desistirei de mudar o pensamento das pessoas que moram aqui de que apenas espetáculos com ingresso caro, aqueles que passam propaganda na Rede Globo em todos os intervalos do “horário nobre” tem qualidade.
Sobre o problema de comunicação… sobre a propaganda dos espetáculos…
Boca a boca é o que eu mais faço.
Quando eu vou dançar ou quero indicar alguma apresentação de dança para amigos é sempre a mesma coisa…
Falo com um amigo que estuda letras (que já fala leva a namorada, que leva a irmã e o cunhado…), um que faz arquitetura (que leva seus companheiros do estágio), um que faz administração (e leva seus amigos do futebol semanal), um que acabou de prestar a OAB (que leva o irmão mais novo), com o meu visinho de cadeira do estádio de futebol (que leva a namorada e a cunhada), com minha sogra que é dentista e fala com todas as suas amigas de consultório, com minha cunhada que faz terceirão e leva todas as suas colegas…
enfim… aquela rede de amigos.
Bom, vou ficando por aqui pois ainde tenho muita coisa para ler.
Aproveito este espaço para divulgar o blog que minha turma criou para postagens sobre os nossos temas de pesquisa que estamos desenvolvendo para o artigo e o trabalho prático que apresentaremos no final de novembro.
Se vc quiser fazer alguma propaganda sobre suas performances por lá… me mande um e-mail, ok?
Essa está sendo uma ótima forma de diálogo entre nossa turma e os outros anos do curso de dança da FAP.
Aquele abraço!
Clara
O artig
Gostei bastante do texto Gustavo!
generosidade sim!
e quero dizer:
- precisamos do público e ele não vem até nós?
ENTÃO VAMOS ATRÁS DELE!!!!!!!!!!!!!
porque se somos performer, designer gráfico, programador, redator, tradutor, (no meu caso: webdesiger, cabelereira, artesã e dona de casa) entre outras várias coisas, podemos muito bem ser
CAPTURADORES DE PÚBLICO!
(pelo sentir, de preferência)!
Bárbaro texto Gustavo!!! Sou bailarina de Porto Alegre e cada frase que lia do teu texto sentia essa triste realidade entre o público e a dança contemporânea. Por se tratar de arte contemporânea acredito que o público tenha realmente a dificuldade de assimilar, pois trabalho em outra área que é bem exata e meus colegas de trabalho pedem que eu explique o que significa o meu “estilo” de dança, mesmo depois de já terem assistido. Aiiiii!!! Tudo bem! Não dá para desistir.
Valeu.
Gustavo
seu texto é ótimo!!!!!!!!Vc traduziu o que penso.E pelo visto é o que muita gente pensa!!!Estou engatinhando na área da dança,por falta de oportunidade pelo trabalho e estudo, enfim.MAs ela me tomou de vez ha dois anos.E nesse periodo, confesso, eu era a namorada do bailarino, que ia assistir a espetaculos de dança contemporanea e saia c cara de nada, dizendo que naum entendi nada…Em pouco tempo eu ja estava em discursoes em casa, na mesa do bar, na universidade ou em qualquer lugar sobre arte contemporanea, sobre como o publico quer as informações mastigadas,uma dança que conte uma historinha com começo, meio e fim. Hoje, a dança contemporanea ja me pegou, ensaio, lei, pequiso e qto a apresentar…bom, aqui na paraiba a questao do publico ou da falta dele tbm persiste. E agente pensa em como atrair, despertar curiosidade desse publico. O orkut tem sido uma boa ferramente para divulgar, com a nossa falta de recursos. Inclusive para receber os “simpaticos scraps” dos amigos (dei muita risada com isso). Isso qdo agente naum apela para leis de incentivo a cultura, que da pra produzir alguns cartazinhos para divulgacao. O que agente discute muito é como formar plateia, se fazemos tudo bem explicadinho ou abstrato demais que provoque e gere questionamentos. O meio termo é bem complicado de se alcançar…
No mais, só tenho que parabenizar pelo texto, com a linguagem bem direta, acessivel. Disse tudo!!!!
Bem sou tambem aluna do mesmo curso de bacharelado e licenciatura de dança da faculdade de artes do paraná de ctba(da msm sala da Clarissa ai em cima) e tenho que confessar a tamanha curiosidade em relacao a seu já que se inicia com um titulo digamos popular.
Eu nao era uma das garotas que discutia com a Clarissa na mesa de bar sobre este assunto.Mas sem duvida alguma é um assunto bastante abordado em disciplinas academicas como dança contemporanea e composicao coreografica,o que faz desse mesmo algo quase desesperador.
Estando eu no ultimo ano existe a famosa pergunta:O que iriei fazer depois?que se complica ai mais depois de debatermos sobre isso que voce traz nesse artigo e ate mesmo em discussoes paralelas/em grupo pelos corredores e salas da faculdade.
Quando iniciou seu texto, mais pensei ser um desabafo(o que n deixa de ser) com uma linguagem ate mesmo bastante coloquial em determinados momentos mas acima de tudo acessiivel a todos.Isso é otimo!Por que sendo um site de dança,que as pessoas nao tem tanto interesse e ainda mais com bastantes coisas contemporaneas,podemos sim encontrar artigos como os seus.
Mas voltando ao assunto central e fazendo uma relacao com a acessibilidade e praticidade;a mesma coisa que fez aqui nesse site penso eu,seria o que nos artistas contemporaneos deveriamos fazer para assim quem sabe obtermos publico suficiente para se formar aquele “burburinho’de determinada performance/apresentacao.
Sim é uma questao muito complexa a ser resolvida e que inclusive estou tentando encontrar solucao para meu trabalho de conclusao de curso.Fazer uma pesquisa, estudar, pensar,discutir, unir tudo o que voce encontrou ou acredita e por no palco é relativamente simples.Mas podemos fazer isso de tantas formas e organizacoes…por que nao encontrar a melhor forma/organizacao a fim de que o pesquisador, seu orientador, seus pais, a vizinha,a tia, a vó e ate o seu amigo q estuda fisica um mundo total diferenciado,tenham curiosidade(estando eles assim inteiramente abertos) e sejam cativados assim por uma linguagem acessivel?
Escrevendo assim quase parece ser facil por em pratica, mas deixo aqui apenas uma sugestao para tentarmos caminharmos juntos com a finalidade de construirmos e juntarmos elementos para uma melhor divulgacao e apreciacao da dança contemporanea.
Abraços
Daiane C.
Gustavo parabens!!!!! o seu texto é memorável!!!!
dança contemporânea esta mudando através dos anos assim como uma sociedade que não é estática. não sou dona da verdade e muito menos “a melhor de todas” apenas fiz graduação em dança contemporânea,tive formação completa em ballet classico e coreografo e dou aulas de ballet e…. contemporâneo. então o dançarino contemporâneo entra no palco sem referencias. A !ia esquecendo ensino historia da dança e historia da arte. vamos combinar: esqueçamos Isadora duncam,Ruth saint denis,Kurt Joos,Mary Wigman,rudolf Laban,martha graham,maerce cuningham,alvin ailey,twila tharp,alvin nikolay,pina bausch. vamos criar sem referencias só por que somos “contemporâneos”. entra um(a) dançarina,artista no palco e começa a jogar-se no chão,rastejar,pular feito louca ,gritar,lambuza-se com cuspe(saliva).por ultimo sai do palco dando um pulo e um grito. isto é dança contemporânea? então não é necessário pesquisar e estudar todos estes grandes icones da dança. Vamos dançar o que der na cabeça e denominar isto de “dança contemporânea”;não vai ficar mesmo ninguem para asssistir. alias vão todos que dizem colocar um trabalho em cena deste tipo morrendo de fome,por que a sua arte não é vendável.Não adianta,mesmo um dançarino contemporâneo tem que escolher uma linha coreográfica a seguir,tem que saber utilizar o espaço cênico,adequar a musica ao movimento performático. não adianta querer filosofar ninguem vai entender e o essencial que é formar uma platéia participante ,isto não irá ocorrer. a arte tem que comunicar. sucesso para voce gustavo.
Gustavo!
Texto muito bom, gostoso de ler! Com tantas questões importantes e com a leveza de um bom bate-papo num bar.
Bem, estas questões nos afligem de toda a maneira. Olha só o meu caso: acabamos de estrear o mais novo trabalho do ¿por quá? grupo experimental de dança, no Teatro Goiânia, com lotação esgotada nos dois dias. Estamos até agora anestesiados de tanta felicidade, mas cá de volta ao meu cotidiano de pesquisa, estudo, ensaio, fico pensando, em se tratando da realidade da dança contemporânea, se os comentários que ouvimos são bons ou ruins, mesmo sendo a maioria positivos e empolgantes: “Nossa, consegui entender tudo!”, “Até meu pai gostou!”, etc.
Tivemos um público bem variado, bem legal, formado principalmente pelo cidadão comum, incluindo aí toda a parentada, claro! Então me veio um pensamento: será que as pessoas entenderam tudo porque conseguimos nos comunicar ou porque não fomos tão complexos quanto a arte contemporânea se diz ser? Será que fizemos arte contemporânea? O que os críticos e “entendidos” da dança contemporânea vão achar?
Porque parece que lidamos com dois públicos e um completo abismo entre eles. Geralmente, quando as pessoas “comuns” gostam, os críticos dizem que foi muito “óbvio”. Quando os críticos gostam, o público fica “boiando”. Em qual lugar estamos e em qual lugar precisamos e queremos estar? Nós estamos investigando e descobrindo o nosso, principalmente querendo dançar, e dançar para as pessoas todas!
Mas que fica sempre um medinho, fica!
Obrigada pela discussão.
Luciana Ribeiro – Coordenadora do ¿por quá? grupo experimental de dança
Goiânia/GO
gente, muito bom ler tantas respostas positivas. esses dias encontrei com um amigo, que comentou que tinha discordado de muita coisa no texto. eu falei “poxa, então comenta lá”. só pra dizer que o espaço também tá aberto pra quem discordou, não gostou, etc.
agora, relendo e vendo alguns comentários, eu mesmo já estou em dúvida com algumas coisas. uma delas é usar a palavra “abstrato” pra fazer a comparação entre dança contemporânea e o flamenco. eu usei ali pensando em reproduzir um discurso que eu ouço com freqüência, mas acho que deveria ter tomado mais cuidado. dá a impressão que eu to dizendo que toda dança contemporânea é abstrata, ou que tem algum julgamento de valor, que mais abstrato é melhor ou pior, que comunica mais ou menos.
to falando nisso porque achei que eu preciso esclarecer alguns pontos.
daisy, achei muito engraçado o teu comentário porque você usou um exemplo que praticamente descreve o meu último trabalho. eu rastejo, pulo feito louco e cuspo. aí eu fiquei pensando nisso: a partir do meu texto, você desenvolveu uma crítica a um formato que tem muito a ver com coisas que me interessam esteticamente.
pra ver como uma questão pode produzir desdobramentos muito diferentes, dependendo de quem processa a informação.
aí achei que eu devia ter sido mais cuidadoso com isso: não dá pra saber de antemão que cara pode ter essa dança que pretende se comunicar com outros públicos. acho que o texto partiu, antes de mais nada, de uma intenção de trazer um pouco mais pra nós artistas a responsabilidade de ter o olhar do outro como uma questão no nosso trabalho, uma questão que passa por tudo, concepção, criação, produção, divulgação, apresentação. isso, é claro, se o artista tem interesse em se comunicar com essas pessoas, não é nada obrigatório.
concordo com você sobre a importância de se informar. não só sobre dança, mas conhecer sobre arte em geral, política, ciência, lei, religião, o que for do teu interesse. a informação tá muito ligada com a comunicação. agora, fico com muito medo de a gente começar a usar esse “não comunicar”, pra excluir coisas que não cabem no nosso gosto. tipo começar a dizer “isso não comunica” pra definir coisas das quais a gente simplesmente não gosta.
ter a comunicação como questão pode gerar infinitos resultados estéticos, conceituais, formais, dependendo de quem lida com isso, em que condições. isso é a grande vantagem da arte contemporânea, que efetivamente tudo pode. e que bom que é assim.
não vou responder vou responder a cada comentário. mas fiquei empolgado de ler as respostas de várias pessoas que tem pensado sobre isso, e tem mobilizado seus familiares e amigos. acho que é aos pouquinhos que a rede vai se formando. (clarissa e daiane, bem possível que a gente acabe se esabarrando, a cidade não é tão grande. bem legal o blog.)
luciana, que coisa isso né? eu tenho passado um pouco por isso também esses tempos.
agora, talvez fique uma tarefa mais simples se a gente desencanar de tentar agradar. acho que não precisa agradar nem o público especializado nem o público comum. acho sim que tem que buscar saber do que tá falando e, se há o interesse de chegar nesses dois públicos, pensar em como essa coisa que você quer fazer, e acha necessário colocar no mundo, se relaciona com essas pessoas todas tão diferentes, com expectativas tão diferentes. mas sempre vai ter gente que gosta, gente que detesta, gente que fala mal só por falar mal. minha opinião bem pessoal é que, como artista, a minha responsabilidade está no que eu busco comunicar e em como eu faço isso, mas não em como o outro reage, isso seria arrogância tentar prever.
e também me parece que você também não precisa ficar se equilibrando pra lidar com todo mundo o tempo todo. de repente, ao longo da tua história, você pode ir descobrindo interesses diferentes que são orientados a pessoas diferentes. mas, enfim, é complicado, eu sei disso.
Ótimo texto. Apesar de suas desculpas no final, não teve nada de cansativo, passear pelas divertidas linhas da sua narrativa.
Bem, estou me formando na FAP_ em Dança, e tomo como minha sua aflição também.
Lendo seu texto me peguei pensando: Poxa vida, será que não somos reclamões demais. Parece que esse assunto de público versus arte/pesquisa já nos assombra a tanto tempo. Mas conclui que não. Enquanto os pontos de interrogação não forem substituídos por pontos, ou até mesmo vírgulas, se torna muito difícil parar de falar nisso.
Precisamos de um retorno sim. Só nós sabemos a que duros golpes nós vamos abrindo caminho pra que nossa arte possa entrar. Acredito realmente que a grande massa espectadora (ou pequena em tantas vezes), não está preparada para o “confronto”. Mas porque uso esse termo? Confronto é o que acabamos causando. O ser humano não gosta de não ter respostas. Não gosta de não entender. Não gosta de ser colocado em conflito com seus próprios medos, amores, segredos, transtornos. Enfim. Acabamos pisando na ferida e isso gera a repulsa que somos acostumados a lidar.
Gosto quando você fala sobre a generosidade. Creio realmente ser a palavra de ordem. Não é ir ao teatro, rua, espaço alternativo por compaixão, mas sim no intuito de SE DAR a oportunidade de experimentar o novo (sem julgamentos). Talvez seja isso que precisemos enfatizar e brigar mais.
Nós nos abrimos para a arte um dia. Que seja assim com eles também. Tenhamos paciência…… e fé….
Abraço e parabéns.
Thamy – 4º ano (*)ança – FAP
Olá Gustavo, sou artista da dança, residindo em Curitiba há quase três anos, sou de Votorantim, interior paulistano. Compartilho com você a questão da ausência de público para a dança, considerando que o mesmo fato não é privilégio de Curitiba, acredito que outros espaços urbanos compartilham das mesmas questões levantadas por você em seu texto, incluindo outras áreas, mas não quero entrar nas especificidades dessas linguagens artísticas, porque acredito que as questões que as regem são outras.
Fiquei refletindo antes de escrever, porque queria, realmente, entender o processo proposto por você, dando olhares gerados pelos dois lados. Confesso que não foi tarefa fácil, colocar-me nestes dois lugares, foi algo extremamente complexo, mas agradeço pelo exercício de transitar entre diferentes olhares.
Sobre a questão levantada por você, pensei que seria interessante se pudéssemos fazer a análise partindo de uma contextualização histórica. Acredito que Curitiba tenha elementos importantes que devem ser considerados nesse tipo de debate. A presença do Teatro Guaíra ocupando um espaço no centro da cidade, com toda a sua estrutura de concreto, vidros, estúdios, pessoas, tipos de idéias em dança e tipo de política escolhida para o seu gerenciamento é algo que de certa maneira força a organização de outros espaços ao seu redor, que nem sempre terão sua subsistência garantida. Quando falo da interferência da arquitetura do Teatro Guaíra na cidade, chamo atenção para a idéia de que durante muito tempo se desenvolveu uma determinada linguagem da dança. Podemos contar aí uns cinqüenta anos no mínimo e que seu povo foi educado para esse olhar. Ainda é “status” freqüentar as instalações de um prédio como aquele. Podemos ver pessoas de vestidos longos, ternos e gravatas, o que influencia em muito as pessoas ao sair de casa para ver um espetáculo em Curitiba, talvez não queiram ir a lugares ou assistir a trabalhos artísticos que não possam oferecer o mesmo tipo de sensação, o de ver e ser visto.
Outra questão que acredito ser relevante, é a idéia de que artistas curitibanos ou de qualquer outro lugar, com seus trabalhos necessitam compreender, que é preciso esbarrar nas coisas da cidade, nos objetos da cultura, no seu povo, é preciso compreender que é extremamente necessário formar um público que possa se fazer presente em outros tipos de espetáculos, afinal público não dá em árvore. O que acontece é que lavamos nossas mãos como se isso nada tivesse a ver com a nossa realidade, e formar público é um exercício diário, aprendendo sim qual deve ser a real função de um edital público quando se é aprovado, tendo um compromisso com o dinheiro que, é público, e financia, muitas vezes, nossos trabalhos. Temos que parar de nos ausentarmos de nossas funções enquanto artistas no mundo. Temos de entender que nossos trabalhos devem conquistar espaços dentro de nossas cidades e isso não significa que nos colocando em cena de um lado, com espectadores do outro estejamos encontrando esse lugar. O buraco é mais embaixo, se não tivermos um olhar atento a essas questões, logo não teremos nem familiares para compartilhar nossas idéias.
A questão para mim em Curitiba, e esta realidade pode ser a mesma em muitos outros lugares pelo que percebo nos comentários acima, é muito clara. Precisamos nos contaminar pela cidade. Nossos trabalhos ou interferências devem ser apreendidos pelo público, nascidos muitas vezes das relações, dos interesses ou questões que emergem da cidade ou alimentados pela sua participação. Não é uma receita para se resolver problemas do mundo, mas pode ser uma possibilidade de construção onde questões individuais do artista dialoguem com as questões coletivas, a cidade.
Clayton Leme
Artista da Dança
Olá Gustavo!
Sou aluna do último ano de dança da FAP e converso muito com algumas pessoas sobre essa dança que fazemos e que ninguém vê… mas será que a maioria de nós ao fazer sua pesquisa em dança ou qualquer outra linha das artes cênicas contemporâneas pensa no público?
Será que pensamos que a maioria deles não fica o dia pensando em dança e que quando vão ver alguma coisa do gênero querem pelo menos fazer alguma relação com sua rotina??
Escrevo isso não condenando nossas pesquisas e dizendo sim ao entretenimento barato sem conteúdo, mas acho que esse distanciamento existe porque o público não vê relação no que vê em cena com a vida que levam.
Estamos sempre pensando em relação em coesão, só que muitas vezes nossa pesquisas são apenas para quem faz esta arte, porque são estes que talvez vão conseguir dialogar conosco e aí, onde está a relação que uma pessoa que não é da área faz?
Não adianta um médico querer fazer um discurso para leigos em medicina utilizando conceitos técnicos da medicina, da mesma forma nós, se queremos um grande público e se queremos que eles assistam, entendam, falem sobre nosso trabalho, precisamos fazer relação com o mundo deles e ir com calma lapidando o gosto da platéia e assim fazer um público…
Abraços
Manoela de Paula Ferreira
Oi Gustavo,
Sou paulista residente em Rio Branco-AC, há bons anos… achei seu texto muito interessante e quis fazer um comentário, pois pouco (muito mais pouco que o público da arte contemporânea) se sabe sobre o Acre em suas manifestações e recepções artísticas. Nos últimos 5 anos ocorreu 1 único espetáculo de dança contemporânea (uma companhia carioca através do Palco Giratório do Sesc) aqui no Estado e pasme: lotou tanto que as pessoas estavam sentadas no chão do teatro. Creio que também nao tenham entendido muita coisa ao final, mas permaneceram ali, assistindo. Pode-se afirmar, “lotou porque nunca tem nada lá, quando tem alguma coisa todo mundo vai”. Mês passado teve um grupo de teatro de bonecos com lindos espetáculos adultos e infantis – todos lotados e, contemporâneos. Sabe, acho que o povo vai, nao por falta de opção, pois 8 espetáculos em um mês nao é falta de opçao, embora 1 espetáculo em 5 anos seja. O que eu quero dizer é que nao existe aqui 17.896 opçoes, existem algumas opçoes e interesse suficiente para “consumir” estas opçoes. Eixos já consagrados de veiculaçao artística do Brasil estao como a prateleira de biscoitos do supermercado, uma variedade enorme de marcas, diversos preços e sabores semelhantes, uma delícia! mas o biscoitinho da vovó é sempre mais apreciado, justamente porque tem amorzinho, carinhozinho e estas coisinhas aconchegantes e familiares. Um artista que acaba vindo aqui pra estas bandas longínquas do país é recebido como o biscoitinho da vovó, não é mais uma foto desfocada de um pé com um texto neopsychopoético.
abraços
Natália
Olá Gustavo. Sou aluna do 4º ano de dança da FAP e gostari de compartilhar alguns pensamentos com você. Gostei muito do seu texto. Confesso que no começo pensei: Lá vem mais uma reclamação vaga… Mas no decorrer da leitura me identifiquei com várias bandeiras levantadas por você. Acho muito importante esta discussão que você levanta e acredite: não é só sua. Há tempos venho pensando qual o “vilão” da dança contemporânea (hahahahaha)
Acho que começa por ai: “não é só sua”. Será que nós artistas estamos preocupados em compartilhar com a “sociedade” idéia que não são só nossas? Também somos sociedade. Tudo que me afeta, pode ter certeza que também chega para outras pessoas.
Creio que começa por ai. Tudo pode ser dito, mas percebo que muitas vezes o que assisto é uma situação que coloca o público de fora deste “sentimento”, realmente só como espectador e o artista como o único capaz de articular a proposta. Muitas vezes até a “classe artística” não compreende, sai apática como você mesmo diz, de uma apresentação. O não entendimento não é mérito apenas do público OAB e etc.Talvez um dos vieses (penso que não existe só um lado responsável, é todo um sistema: mídia, imprensa, público, artista, etc.) seja um individual = coletivo dentro da dança.
Você menciona uma questão de assimilação. Acho que este é outro fator colaborativo para o sim ou não entendimento da obra. Talvez a assimilação seja a chave. Algo que faça sentido de alguma maneira para quem assiste. As coisas têm de ser mais claras, porém não óbvias. Só acho que não dá pra ficar no próprio umbigo…
Se arte, entre outras coisas, é comunicação, então é preciso uma mensagem que transite entre o seu proponente e o receptor. Não adianta reclamarmos (eu também reclamo) que não tem público para assistir se não tem o que ser dito para alguém, apenas pra si. Concordo com você quando ninguém quer sair de casa pra não entender nada. A generosidade, que é uma palavra da qual você se utiliza e acho imprescindível, parte do artista enquanto consciente de que é comunicador, expositor de uma idéia para com seu público sem mesquinharia de se achar um ser superior. Também do público de saber o que vai assistir, que estética e diabo a quatro se trata, sem querer compara água com vinho. Não é uma via de mão única, mas sim dupla, tripla …
É isso ai. Essa não é uma discussão fácil de esclarecer. Tão pouco de resolver. Não é simples convencer as pessoas daquilo que elas não estão acostumadas, acomodadas. Assim creio ser com a dança contemporânea, que causa por natureza um estranhamento, uma dificuldade de enquadrá-la em um “lugar conhecido”. Mas ainda tenho esperança de que as coisas acontecem aos poucos, não do dia para a noite. No entanto nós artistas temos que usas a liberdade da qual tanto falamos para quebrar e/ou modificar estruturas. Adorei sua iniciativa e aproveitamento deste espaço para isso. Comecemos por nós mesmo…
Oi Gustavo,
Nossa você tirou as palavras da minha boca… Primeiro que dei boas risadas lendo seu texto e me identificando com suas indagações, mas tua forma de colocá-las foi realmente admirável.
Vivo por aí na faculdade, nas discussões, com amigos, no ônibus, no meio do mato, fazendo a seguinte pergunta por que insistimos em fazer arte pro umbigo. E confesso que esta questão me persegue, pensando sobre isto e tentando responder a “eles” como você colocou que por muitas vezes também me questionaram sobre isto, tentei buscar algumas soluções.
Acho que precisamos mesmo dar mais ferramentas para o público, sem banalizar o trabalho é claro, mas criar condições para que a informação chegue. Creio que isto também deva fazer parte da nossa pesquisa. Penso em nossas escolhas enquanto criamos podem ser bastante simples e simplesmente geniais. Enfim há também outros modos, mas este é um que me agrada. Por que não usar um figurino, um objeto, sei lá algo que dê uma pista. Enfim mas estes dias também fui questionada por uma amiga: Por que a dança precisa se explicar por textos ou por alguma música?” respondi por que não, se infelizmente a familiaridade que as pessoas tem com outras linguagens é maior do que com a nossa por que não usa-los….
Bom, familiaridade é outra palavra que vem me perseguindo, por que todo mundo escuta Zeca Baleiro, por exemplo, canta suas músicas, mesmo quando sua letra não faz o menor sentido para muitos. Mas gostam, repetem, compram CDs, vão aos shows, será que só por que ele está na novela? Às vezes penso que não, percebo que as pessoas nunca pararam para realmente ouvir o que estavam cantando, mas aí penso que entra a familiaridade, o ritmo, o embalo, a música enfim é uma linguagem mais bem aceita.
Fazer o que? Reclamar, elencar aquele monte de culpados. Acho que não, precisamos só pensar o que realmente estamos fazendo e qual a finalidade disso tudo.
Parabéns pelo texto!!!
Thábata Liparotti (4º ano-FAP)
Olá, Gustavo!
Seu texto causou muito furor na turma do 4º ano de Dança da FAP. Nos deixou contentes ao ouvir que ao menos um artistinha contemporâneo está preocupado com nosso chefe que é quem paga nossos salários, O PÚBLICO. Pelo fato de ser nosso chefe, não digo que temos que fazer o q ele manda, o q ele quer se não ele fica brabo. Mas uma coisa que parece estar sendo perdida por aí é que a arte, como muitas vezes vc disse, é forma de conhecimento; comunicação. Portanto, o questionamento é o seguinte: “QUAL É A FUNÇÃO DO ARTISTA CONTEMPORÂNEO BLÁ BLÁ BLÁ” vc mesmo responde quando diz: “arte contemporânea, em que aparece mais forte esse discurso de libertar, quebrar fronteiras, de levar arte pro cotidiano, cotidiano pra arte, questionar, mudar o mundo com arte. ”
A função então seria: Comunicação + pensamento contemporâneo + respeito ao público na forma. (este último é o seguinte: como já disse não é para fazer uma coisa que seja sempre bonita ou legal, mas sim fazer alguma coisa que seja passível de se estabelecer algum tipo de relação.
Sr(a). artista contemporâneo da dança, comunique o q vc se matou de estudar para seu público lembrando de suas funções para com ele. Se “eles” querem entretenimento, ofertemos a eles. Mas será que todo entretenimento tem que ser desprovido de assuntos com maior grau de complexidade? entretenimento têm que apenas fazer rir? Dentro dos formatos podem ter elementos que possibilitem familiaridade com o espectador, mas o conteúdo não precisa ser alterado nunquinha!
Oi, Deborah, Thábata, Thaís, Natália, Manoela, Thamy,
Fiquei bem contente em ver a participação em massa das pessoas da FAP, não só comentando esse texto, mas tenho visto muito mais pessoas participando aqui no site, mas também envolvidas nos eventos que têm acontecido pela cidade, produzindo, atuando, discutindo. Me parece que é um momento importante para a faculdade, de gente que está com vontade de romper os limites da
formação curricular e testar e vivenciar as coisas na prática.
Conversei pessoalmente com a Thábata, que me contou que a publicação do texto coincidiu com um momento em que essa discussão tava eclodindo por lá, e isso, por si só, já me parece uma coisa bem legal.
Clayton,
Acho legal você pensar na importância da construção histórica dos espaços cênicos da cidade, e como isso se relaciona com a nossa produção artística. Tem muito pouco registro sobre a produção contemporânea na cidade, e a maior parte sobre a produção mais recente, de 2000 pra cá, talvez porque seja quando as coisas começaram a ser produzidas com verba, inclusive pra registro. Me parece que no campo das artes visuais já existe uma certa tradição de estudar alguns movimentos locais dos anos 1970 e 80, até porque muitos participantes desses movimentos hoje são professores de cursos de formação na área, e isso de certa forma facilita essa conexão entre academia e essa compreensão da história local, da qual você fala e que é realmente tão importante.
Concordo plenamente com você, investigar esses pontos é fundamental e dá pano pra manga, porque ainda tem muito a ser explorado.
Natália,
Muito legal saber notícias do Acre. E que bom você ter trazido essa tua impressão. Acho que outro aspecto pra se pensar, e que de certa forma tem a ver com essa discussão, é como achar alternativas pra se fortalecer essas outras redes de circulação de trabalhos de arte. Tem uma série de cidades que ficam de fora quando a gente pensa em viajar com um espetáculo, simplesmente porque falta interlocução. Eu já elaborei alguns projetos de circulação e nunca tinha pensado em Rio Branco, porque não conheço ninguém por aí, porque seria longe paca, porque mesmo que eu pensasse, talvez não corresse o risco. Agora, você falando isso, me deu muita vontade de ser biscoitinho da vovó no Acre. Vamos conversar mais? Me escreve: gustavobits (arroba) gmail.com