by Isabella Motta • 13 May 2010
A obra 'Lecture', no Museu Reina Sofia / Divulgação: Galeria Fortes Vilaça
The English version will be available tomorrow.
Tags: corpo, Helena Katz, José Damasceno, Márcia Milhazes, seminário
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Tenho acompanhado as produções críticas de Helena Katz e me parece que falta a ela entender que os coreógrafos e bailarinos estão colocando as questões ali, mesmo numa “produção regida por editais”.
Os corpos, ou mais artisticamente, as coreografias ou apresentações de dança estão correspondendo exatamente ao processo produtivo e cumprem, algumas melhores que outras, o papel a que foram destinadas. A arte desempenha, hoje como noutros tempos, a funcionalidade que a sociedade lhes exige. Porém a arte hoje, diferente de outros tempos, vive para ser vendida. Este não é um caminho escolhido por alguns artistas atuais. Este é o único caminho possível para a arte existir. Negar o mercado como elemento da arte, hoje, é dissolver gradativamente os últimos valores sociais das estruturas de linguagem de cada gênero que fazem, ao menos, as obras serem apreendidas por um público.
Caberia esclarecer, portanto, quais critérios a crítica usa para avaliar uma obra de arte, já que o mercado tende a vulgarizar todo o aspecto produtivo e não caberia falar somente de “qualidade artística”. Os editais também não são em si problemáticos, já que cumprem democraticamente a distribuição de verbas para as expressões culturais, deixando que o mercado atinja só indiretamente as obras. As companhias e as danças solucionam os problemas de recursos, temas, produção, reprodução e continuidade da forma possível. Mercadologicamente cumprem o seu papel.
Achar que os artistas da dança “não estão mais colocando suas questões ali” significa 1)ou não querer ouvir que se as próprias danças não estão falando destes problemas é porque os artistas da dança adquiriram uma cumplicidade com estas “leis de incentivo”; 2)ou há um desfalque da análise crítica das danças, as quais precisam, urgentissimamente, serem inseridas num contexto social e por isso consideradas possuidoras de qualidades que dizem respeito a problemas sociais; 3)ou de fato os artistas e a crítica de modo geral acabam ganhando com tamanha especulação econômica.
Para Helena Katz “precisamos inventar um novo caminho” e a “arte tem papel libertador, ela deve lutar contra esse processo de obsolescência constante. As pessoas precisam se ouvir, identificar questões em coletivo. Enquanto procurarmos o caminho individualmente, não conseguiremos enxergar nada, não vamos perceber o que está faltando”. Nesta, como em outras posições da pesquisadora, podemos verificar a importância que sua crítica teria para acabar com a “obsolescência constante” do “momento de hiperconsumismo” que vivemos.
Contudo, os problemas de “referências saturadas”, de “literalidade”, de “desajustamento entre texto e corpos”, etc… são exatamente elementos que serviriam para “identificar questões em coletivo” e não acabar de vez com qualquer possibilidade de comunicação. Alimentando um sonho de uma arte libertadora ou consolidadora de cidadanias, visando uma crítica estética sem critérios e portanto a seu gosto, Helena Katz, professora e crítica de dança, não entende a sociedade.
O texto expõe questões que sempre estiveram presentes no campo das artes/dança. O mérito desse encontro entre pesquisadores e artistas de diversos campos, me parece, é justamente atualizá-las ao nosso tempo, e o texto traz isso com muita propriedade. A discussão sobre os problemas dos editais, das empresas de fomento e das leis de incentivo devem ser permanentemente discutidas, porque a realidade está muito longe de ser a ideal. As políticas culturais do país engatinham. Me sustento desde 2005 basicamente com recursos vindos de editais de fomento à dança de diversas naturezas. E acho que posso afirmar que, a experiência de pesquisa artística é muito diferente daquela vivida na correria dos editais. A pesquisa pode até ser mencionada no projeto a ser proposto em edital, mas há com certeza uma quebra bastante sensível da lógica da pesquisa, da ideia de pesquisa/processo propriamente dita, e, por fim da rotina da pesquisa. Esta última, a mais importante porque é do trabalho diário que as coisas vão SENDO feitas, vão sendo construídas e vão tomando forma de conhecimento, de troca, de diálogo. A rotina de escrita de projetos pra editais passa a ser uma faca de 2 gumes: se correr o bicho pega, se pegar o bicho come. Mas a auto-crítica e o olhar crítico pra realidade devem estar bem presentes, senão, é impossível fazer-viver arte.
pra ajudar a entender o conceito de “vida nua” de Agamben: http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2792,1.shl (“Vida nua, vida besta, uma vida”, por Peter Pál Pelbart, em Trópico)…