O fato de que a maior parte da nossa comunicação se organize em estruturas de linguagem nos faz recair sobre um erro de hierarquizar a linguagem verbal sobre outras formas, ou ainda de tomar a dificuldade das palavras como empecilho de falar de algo que esteja sob ação do tempo. Como muitas coisas estão sob esta ação e a linguagem é uma das estruturas recorrentes e disponíveis, não podemos deixar esse equívoco atrapalhar o jeito de fazer ou falar de dança. O estudo da dança vem mostrando que isso não somente é possível como necessário. Isso é visível quando observamos a extensão de cursos de graduação, pós e especialização, os críticos cada vez mais especializados, os curadores e outros profissionais que se envolvem com a divulgação e propagação de novas idéias em dança.
O corpo é o meio ideal para compreendermos um primeiro tópico importante nesta discussão: a possibilidade de organizar informações, corporificando-as. É do/no corpo que é possível verificar o fluxo incessante de informações que se organizam em tempo real, como os leitores farão agora lendo o texto ou mesmo depois lembrando de alguma idéia aqui presente, mas colocada noutro contexto. Dessa forma, devemos partir do ponto que lidamos com um organismo complexo de troca informativa (o corpo), de modo que a(s) linguagem(ns) aqui gerenciadas estão em constante fluxo, modificando corpo, informação, e vale acrescentar, o jeito que nos movemos. Não há compartimentos independentes que estanquem nossa necessidade de mutabilidade, inclusive quando falamos de aprender dança, ler dança, discutir sobre dança. Se nosso corpo não é preservado nessa troca contínua, o que dizer da dança ao longo do tempo?
Desse fluxo podemos destacar configurações diversas: coreografias, artigos, livros, fotos, vídeos, relatos cumprindo o papel de formular idéias sejam elas descritivas, críticas, investigativas, hipotéticas ou indutivas. São retratos provisórios que se desenham de várias maneiras. O que faz um coreógrafo diferente do dançarino, de um crítico ou de uma foto ou vídeo são os tipos de ajustes em materialidades diferentes. E para lidar com esta materialidade, desenvolvem-se ferramentas próprias: o treinamento com o corpo, o espaço, a palavra ou a luz.
Curiosamente, é a um corpo que nos referimos para a dança de Pina Bausch, mas é um corpo completamente diferente daquele que se apresenta para dançar William Forsythe _ cuja companhia, o Ballett de Frankfurt (foto) esteve mês passado em turnê no Brasil. Num outro paralelismo, vale dizer que há um grupo de palavras com as quais podemos falar do trabalho de Pina Bausch e de William Forsythe, mas as relações presentes num e noutro trabalho merecem outras formas de representação textual também bem distintas. Este artigo propõe, portanto, pensarmos que as várias maneiras que temos para falar de dança nasce da própria necessidade do corpo de organizar informações de diferentes naturezas: palavra, movimento, imagem, som. E a dança é uma possibilidade fértil de verificar como este trânsito pode acontecer e no que ele muda o jeito de fazer dança.
Pois aí se encontra a preciosidade de poder acessar um site, ler uma revista, ver um espetáculo e poder falar dele, explicando, descrevendo, discutindo, levantando pontos de vista de algo do que certamente nunca tomaremos o todo, mas é mesmo das partes e de um fluxo contínuo de transformações que o corpo trata. A importância de estudar, publicar, fotografar, filmar e ler dança é tão evidente quanto a de fazer dança, uma vez que suas possibilidades de representação modificam ela própria, assim como seus intérpretes.
Salutar lembrar que expressões como “se atualizar” e “se manter informado” ganham outra acepção: sobrevivência. Refiro-me a necessidade de falar de dança por causa da dança mesmo, da idéia dança, como necessidade inerente de ser representada de várias formas. É então no corpo que se pode falar, pensar, ver e perceber o quão diversas são estas representações que co-habitam o mesmo organismo, ao mesmo tempo.
Nas palavras do coreógrafo alemão Thomas Lehmen, “entender é, antes de tudo, um estado de aceitação. Não somente aceitar o outro, mas também aceitar que as definições que se criam e seus signos não tem necessariamente equivalência na estrutura interpretativa do outro”.
We can detect various configurations in this flow: choreographies, articles, books, pictures, videos, and reports playing their part as idea formulators, whether they be descriptive, critical, investigative, hypothetical or inductive. These are temporary portraits, designed in multiple ways. What makes a choreographer different from a dancer, critic, picture or video are the types of adjustments in different aspects of materiality. Particular tools are then developed to deal with this materiality: body training, space, word, or light.
Interestingly enough, we refer to a body when analyzing the dance of Pina Bausch. Yet this body is completely different from the one presented by William Forsythe, whose company, the Frankfurt Ballet (picture), performed in Brazil last month. Furthermore, there is a group of words we could use to describe Pina Bausch’s and William Forsythe’s work, but the relations in each work deserve other, very distinct textual representations. The idea of this article is that the various ways to discuss dance stem from the very need of the body to organize information of different natures: word, movement, image, sound, etc. Dance itself is a fertile possibility of confirming how this transit can happen and how it changes the way we dance.
It is there that one finds the treasure of being able to access a web site, read a magazine, see a performance and then speak of it – explaining, describing, discussing and showing points of view about something that we certainly will never seize completely. It is indeed about the parts and the steady flow of transformations that the body speaks of. The importance of studying, publishing, photographing, filming and reading about dance is as evident as creating dance itself, given that its possibilities of representation modify both the dance and its performers.
It is worth noting that being “updated” and “informed” added a new meaning to the word survival. I am referring to the need to discuss dance because of dance itself, of the idea of dance as part of an inherent necessity to be represented in diverse ways. Then it is in the body that one can speak, think, see and perceive how varied these representations can be; the very representations that co-inhabit the same organism at the same time.
In the words of German choreographer Thomas Lehmen, “to understand, above all, is a state of acceptance. Not only accepting the other, but also accepting that definitions created, together with their signs, are not necessarily equivalent in the other’s interpretative structure.”

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É muito pertinente falarmos do estudo que a dança proporciona no corpo por si só. Dançar para nós pesquisadores não é mais uma reprodução de passos mas sim estar nesse transito de idéias que passam por nossos neuronios milhoes de vezes ao dia e que nos faz chegar a lugares jamais vistos…Enteder o corpo e como ele age de acordo com cada situação é parte de nós artisitas e temos a plena consciencia que esse corpo é capaz de fazer coisas inesperáveis e que ele nos surpreende a cada passo que damos buscando soluçoes nteligentes para que ele mesmo se organize e esteja pronto para qualquer boa nova.