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O tema escolhido, de abordagem tão complexa merece ser iniciado com uma interrogação, para deixar claro a nossa posição face ao dinamismo conceitual que o objeto de estudo traz consigo durante vários séculos. O que é o corpo? Difícil responder sob um método matematizado, pois há de se tentar superar, pela noção de intencionalidade, as profundas distorções que o envolve em especial a idéia de corpo-espírito, para estabelecer interrelacionalidade entre as dicotomias consciência-objeto e homem-mundo, descobrindo nesses pólos relações de reciprocidade.
O próprio corpo, não se identifica às coisas, mas é enriquecido pela noção de que o homem é um ser-no-mundo, que se manifesta corporeamente, revendo as noções de facticidade e transcendência, pois o corpo é facticidade no sentido de estar lá com as coisas, mas nunca é facticidade pura, pois é também acesso às coisas e a ele mesmo.
Segundo Riviere (1996, p. 183), “não há ritualização da vida cotidiana sem ritualização das modalidades corporais”, entretanto falar sobre o corpo ainda é tabu, especialmente pela estratégia armada para o “abandono do corpo”, como forma de privilegiar o espírito, ou seja, a prerrogativa do sapiens em detrimento do habilis.ABSTRACT
Vale dizer que esta estratégia de negação do corpo, no Ocidente, como forma de supervalorizar o “espírito” em detrimento do físico, atingiu aos limites de estimular o sacrifício do corpo como forma de purificação espiritual, mesmo que haja a morte física. Esta é o reconhecimento do sacrifício, para “sobreviver à tragédia carnal” e atingir a imortalidade.
É neste dilema que o tema “corpo” ainda causa espécie, mesmo nos meios acadêmicos mais progressistas, quando ainda persiste a dúvida: a quem servir ao corpo ou à alma?
A dúvida passa a ser revelada, em vários momentos do pensamento filosófico moderno, e, tem em Michel Foucault, um dos pensadores que trata de mostrar como se deu a construção do corpo nos vários períodos históricos. A partir do século XVII, destacou as maneiras de ajustá-lo a imperativos temporais, e a necessidade de ter esse corpo é iniciada pelo regimento militar que descrevia o modelo de homem, sujeito com características físicas adequadas, devendo ser treinado e adestrado para se tornar obediente.
Foucault (1984), ainda nos mostra que essa maneira de lidar com o homem era também existente em conventos e oficinas, passando de um século para outro com características de dominação; organizar esse homem internamente, discipliná-lo controlar seus movimentos através de treinos para ser eficiente em dar respostas rápidas na execução de tarefas.
A necessidade de controlar as atividades quanto a horários, elaboração temporal de atos, correlação de corpo e gesto, articulação corpo-objeto e utilização exaustiva, foram técnicas utilizadas pelo rei Frederico II consagrando-o virtuoso e por isso mesmo imitado por toda Europa. Foi de grande relevância militar e que deveria ser observado em papel da atividade humana.
Foucault (1984) mostra-nos também como se deu a organização e a criação de uma prática pedagógica, em todos os segmentos das atividades para controlar todos os passos do homem em função de uma obediência produtiva para maior e melhor aproveitamento do tempo.
No século XVIII utilizou-se um tipo de aprendizagem onde ao final do tempo a relação mestre-aluno fosse compensada. Assim, surge uma escola com uma nova organização de tempo bastante diversa, sempre voltada para o corpo, com exercícios específicos onde cada indivíduo tinha uma série que definia sua categoria, todos postos em fila. O espaço escolar virou um local de vigiar, hierarquizar e de recompensar. Foucault (1984), citando La Salle, afirma ser a escola um local de classificação, sob a observação do professor e com isso nos revela uma metodologia pedagógica do medo.
Em vários momentos da história da humanidade, o corpo se apresenta como vítima, e como tal não tem salvação, devendo submeter-se à moral, à religião, ao Estado e ao disciplinamento. Entre nós, reacende a discussão da realidade corporal enfatizando a necessidade do corpo. Mesmo à alma é necessário um corpo para se manifestar no planeta terra, haja vista que ele, corpo, é uma síntese e como tal é atividade motora.
Mesmo no processo educacional a questão corporal estabelece uma intrínseca relação presumida, entre aprender e estar sentado. Mais uma vez o corpo que aprende não pode se expressar. Estar sentado implica em atenção, cuidado, silêncio, disciplina e acomodamento, significando alunos capazes. A agitação corporal presumem os educadores, referendam o desleixo do aluno “que não quer nada”.
A autoridade, em sala, está sempre em pé, supervisionando o trabalho dos alunos, estes sempre sentados. Estas duas posturas, radicalmente diferentes, marcam a diferença de status entre professor e aluno. De pé, parado ou em movimento é privilégio do professor; os alunos devem estar sentados, ocupando no espaço, um lugar que lhes permite contemplar a realidade do saber, em atitude iconofílica, que os remete aos futuros anseios da pantofobia, que permite observar a realidade da autoridade apenas “de baixo”.
Alunos que tomem atitudes contrárias, já nas séries iniciais são imediatamente chamados a atenção, ameaçados com punição e invariavelmente a punição é corporal: o isolamento, como se houvesse risco de contágio daquela posição pelo resto do grupo.
O aprofundamento deste estudo, com certeza, nos levaria a concluir que a realidade corporal tem a difícil missão de resistir aos séculos de tradição da farsa intelectual que forjou a grande mentira da divisão corpo/mente.
E, desta ruptura, tem-se nos dias atuais a grande contribuição da mídia, que colabora com a divulgação de produtos nocivos ao corpo e dota-o apenas da capacidade de consumo, ignora a emanação da sua essência de conter e estar contido no cosmos, agindo, interagindo, produzindo e reproduzindo o próprio homem.
A mídia em nome do consumo e de uma estética global seciona o corpo em fragmentos erotizantes: coxas, quadris, bíceps, olhos, nariz, boca, orelhas, pés, barrigas, seios, unhas, cílios, etc., um verdadeiro shopping de desejos e fetiches, tornando a imagem do corpo uma espécie de “parque de diversões” para as mentes, que vêem no corpo o objeto de desejo para os instintos do prazer individual e imediato.
A estética, como parte integrante da ética do belo, à luz da mídia adotou o corpo como veículo de propaganda e da erotização do cotidiano. Cada imagem exibida, cada artista em cena não possui um conteúdo artístico, sob o olhar estético, ao contrário, quem ali está vendendo um produto foi escolhido por possuir em seu corpo um componente que prenda a atenção do espectador.
Um dos exemplos mais próximos é a “bundalização”, instituída pela indústria cultural, que no afã de vender suas músicas, tem levado ao público cada vez mais um produto de qualidade duvidosa. As músicas possuem um amontoado de vogais, de erros gramaticais, de cacofonias de mau gosto, perdoado pela exibição das indulgentes bundas de “dançarinas” e bíceps dos “dançarinos”, escolhidos nas academias de malhação. E, nos palcos dos programas de auditório, vestindo roupas minúsculas, exibem uma coreografia cujos movimentos revelam toda a estética da “bunda”, e os demais ingredientes eróticos do corpo. E, a dança como componente estético desaparece da cena, dando lugar à bunda, aos seios, às barrigas sem gordurinhas e aos bíceps.
A mídia e a indústria cultural criam assim um novo paradigma da estética corporal. A dança erotizante não é uma mera abstração que aguça o imaginário, ela em si é o próprio erotismo pela exibição frontal de corpos em movimento, lembrando a perversão sodomizadora do ato sexual, enquanto que as manifestações verdadeiras de carinho, afeto e sensualidade foram esquecidas. Vale a banalização do corpo e das mentes.
Assim, jovens de ambos os sexos, principalmente das camadas de baixa renda, tentam através de exercícios físicos tornarem-se “dançarinos”, para exibirem seus corpos em busca da fama e do sucesso, ratificando as profecias de Andy Wahrol [1] e Marshall MacLuhan [2].
O simbolismo das imagens ganha a dimensão de uma espécie de sinfonia inacabada do ato corporal. Inacabada, sim, pois apenas o ato corpóreo passa a simbolizar o viver, e viver passa a ser simbolizar, representar num grande palco, para atender aos anseios de um voyeurismo. A vida é o palco da simbolização corporal, que adquire hoje, com as questões midiáticas, maiores proporções. Nosso consumo de imagem é infinitamente maior do que nos momentos históricos anteriores, e na mesma proporção deste voyeurismo vem ocorrendo a coisificação do corpo, num total processo de narcisismo corporal, rompendo todos os códigos de tentativas de dimensionar o corpo em seu aspecto transcendente, que integra e é integrado pela consciência, emanação das inteligências que residem em todos os pontos e centros da razão humana.
Portanto, é necessário compreender a dimensão de facticidade do corpo e não o desvinculá-lo da possibilidade de transcendência, pois o corpo não é coisa, nem obstáculo, mas é parte integrante da totalidade do ser humano.
Por estas razões, este tema é senão o mais complexo, pelo menos um dos mais fascinantes das ciências humanas e por extensão da própria Filosofia. Por um lado um grande tabu, especialmente pela estratégia armada para o “abandono do corpo”, como forma de privilegiar o espírito, por outro pela noção de que o homem é um ser-no-mundo, que se manifesta corporeamente, revendo as noções de facticidade e transcendência, pois o corpo é facticidade no sentido de estar lá com as coisas, mas nunca é facticidade pura, pois é também acesso às coisas e a ele mesmo.
Não há como negar a importância do corpo, tampouco adorá-lo com um fim estético em si mesmo, pois o homem enquanto ser é transcendente e imanente à sua condição triunívoca de corpo, mente e espírito, formando um intrincado e indivisível complexo que ascende às estruturas superiores em busca da perfeição no mesmo plano: corpóreo, mental e espiritual.
Não há porque submeter o “corpo” apenas aos anseios religiosos, estéticos e materiais, pois se assim o fizer estar-se-á tentando a interpretação do gesto, e este não é apenas manifestação físico-corporal, ele é significativo e nos remete imediatamente à interioridade da pessoa. O corpo é a manifestação do “outro”, do irmão a quem devemos amar como a nós mesmos.
Nós educadores, pais, intelectuais, temos nos conduzido com relação a questão tão bela e ampla de forma passiva. Nos comportamos como os prisioneiros citados por Platão no “Mito da Caverna”, que aprisionados em seu interior não conseguem vislumbrar um mundo inteligível e passam a tirar conclusões a partir das sombras vindas do exterior e desprovidas de verdades.
Talvez sejamos mais incapacitados e cegos que os personagens de Platão, pois em plena era da comunicação e da informação, somos aqueles que olhamos e não vemos, voyeures também, experimentadores passivos de sensações, sem a vontade e o desejo de analisa-las, de procurar a relação das coisas, na tentativa de transcender a uma maior perfeição na busca de um conhecimento ampliado.
Em conclusão, diria que em sua obra, Boff (2001) traz à tona uma categoria ética das mais simples e humanas: o cuidado com o “outro”, que habita e compartilha o planeta com o “Eu”. Essa chave decifradora da essência humana, cuja transcendência “viola todos os tabus, ultrapassa todas as barreiras e se contenta apenas com o infinito”. E, a sua imanência se encontra situada num planeta, enraizado num local e plasmado dentro das possibilidades do espaço-tempo. Ele tem algo da Tellus/Terra dentro de si; é feito de húmus, donde se deriva a palavra homem. É este cuidado que imprimiu sua marca registrada em cada porção, em cada dimensão e em cada dobra escondida do ser humano. Desta forma, também, sem o cuidado com o corpo, o humano se faria inumano.
Por estes motivos descritos, a obra de Boff (2001) se revela de suma importância para os intelectuais, para os profissionais liberais, para o ser humano, pois a sua mensagem nos remete ao valor e noção do “outro”. Assim, que o seu desejo nos toque profundamente e nos inspire na (re)construção de cuidados, e, que o mesmo aflore em todos os âmbitos, que penetre na atmosfera humana e que prevaleça em todas as relações, inclusive na relação com o “corpo”.
O cuidado com o “outro”, com o corpo em sua síntese da aprendizagem para a transcendência, salvará a vida, fará justiça ao “outro” e resgatará a Terra como pátria e mátria de todos.
Precisamos parar de nos comportarmos como o camelo, que, carregando barris de água pelo deserto morre de sede, por não saber a preciosidade da carga, e, mesmo sem o desejo de aliviar o peso para buscar o oásis, apenas tenta cumprir a sua jornada e chegar ao destino final.
O corpo, pois, na sua transcendentalidade está a exigir de nós um despertamento à sua essência tão preciosa, a fim de que não fiquemos como o animal camelo que, pelas limitações da espécie não consegue ultrapassar as barreiras do desconhecido, na busca da inteligibilidade de suas ações.
Notas:
[1] Vanguardista da pop arte vislumbrou que “no futuro todos terão seus 15 minutos de fama”.
[2] Visionário da comunicação definia o conceito das redes de comunicação que chamou de “aldeia global”.
Bibliografia:
BOFF, Leonardo. Saber cuidar. Ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 2001.
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix.
DELEUZE, Gilles. Foucault. Trad. Claudia Sant’Anna Martins. São Paulo, Brasiliense, 1991.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade III: o cuidado de si. Trad. de Maria Thereza da Costa Albuquerque. 4. ed. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1985.
_____. Microfísica do poder. Org. e trad. de Roberto Machado. 10. ed. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1992.
_____, Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Trad. Lígia M. Pondé Vassalo. 11. Petrópolis, Vozes, 1984.
_____,História da sexualidade I: a vontade de saber. Trad. de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 10 ed. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1990.
_____, História da sexualidade II: o uso dos prazeres. Trad. de Maria Thereza da Costa Albuquerque. 5. ed. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1988.
FREIRE, João Batista. De corpo e alma: o discurso da motricidade. São Paulo: Summus. 1991.
LAPIERRE, A.; AUCOTURIER, B. Fantasmas corporais e prática psicomotora. São Paulo: Manole, 1984.
LE CAMUS, Jean. O corpo em discussão: da reeducação psicomotora às terapias de mediação corporal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.
RABUSKE, Edvino A. Antropologia filosófica. Petrópolis: Vozes. 1986.
RIVIERE, Claude. Os ritos profanos. Rio de Janeiro: Vozes, 1996.
VECCHIATO, Mauro. Psicomotricidade relacional e terapia. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.




ola! Catarina e Luciene, antes de falar alguma coisa a respeito sobre o tema ora citado, quero indicar-lhe dois livros que irá visualizar ainda mais a compreensão de ambas.O Grande Arcano (Eliphas Levi) O Problema da Cultura Humana (krishnamurti. Eu compreende essa relação de corpo-espirito, que a expressão como forma de dança, na maioria está liga
completando o comentario, que a expressão como forma de dança, na maioria está ligado o Desejo, A Busca e por fim o Eu, não há o trabalho real da energia que nos sustém, que na yoga se chama (chakras). Na dança sulfi eles trabalham essa energia, como forma de manifestação e integração, que todos sentem e isso e transcender-se está alem, acima, elevar-se.
Olá Fábia,
Agradeço a indicação das fontes. Estmos finalizando uma pesquisa nesta área que findará num livro para fonte de pesquisa. Novas notícias iremos divulgar.
Abraços, Catarina
Olá, Catarina e Luciene
Eu me interesso muito por esse tema, pois acho que a questão da compreensão do corpo é um viés para se abordar questões tão gritantes hoje, que pertencem a ética, a filosfia e propria cultura humana. vimos que um discurso apenas em uma das areas de estudo não da conta de alcançar a complexida que envolve as construção e concepções atuais. As criticas a banalização do corpo esta inserida na banalização da vida humana como um todo, e sempre esbarramos nas motivações econômicas da construções. Parece que carecemos de uma abordagem mais abrangente que entrenda o fenômeno humano na atualidade, afinal, o terreno para a proliferação da ganancia, do capital e do consumismo já é um terreno fertil residente no ser humano. Será que podemos compreender tudo partindo do externo, dos meios de comunicação? acho que deve haver outra via, onde residem elementos e razões mais sutis, preparando e influenciando as pessoas e sociedades para determinadas tendencias.
Há no oriente um conhecimento e concepção diversa do ser humano, do corpo-alma e da mente, talvez encontrassemos mais subsidios por lá.
As yogas, e as artes marciais antigas, por exemplo.
Se nós tivessemos condições de detectar as dicotomias do mundo moderno, antes de realmente vivê-las, poderiamos trilhar caminhos menos árduos quando o assunto é corpo. Sofremos por nos deixar levar pelo pensamento ocidental que insiste em separar, separar, e separar.
As coisas nasceram e sempre serão interligadas, intrinsicamente conectadas.
Ainda há quem se pergunte porque os orientais vivem tanto, ou porque eles adoecem menos. As explicações estão nas relações. Na capacidade de relacionar corpo, mente e espírito de maneira harmônica. É o segredo.
Nos tornaremos seres realmente presentes e conscientes no mundo, quando não apenas soubermos da importância dessa corelação, mas vivê-la intensamente.