Algumas questões, quando evitadas, parecem ressurgir cada vez com mais urgência, como que insistindo para que, senão respostas, pelo menos novas perguntas sejam produzidas.
A questão do uso das danças populares ou danças sociais na cena de dança contemporânea é um desses assuntos que me perseguem. Talvez porque no Recife, onde me criei, uma grande variedade dessas danças se reveza durante o ano no cotidiano dos eventos públicos; talvez porque venho percebendo que as informações dessas danças compõem minha corporalidade de tal forma que ignorá-las não as retira da cena; talvez porque o sentido de prática ritualística, coletiva, sinalizadora de questões da cultura, me interpele e me mova como artista-cidadã-pessoa. O fato é que, seja questionando teoricamente, seja tendo que lidar com vestígios de movimentos e intenções na minha prática artística, os elementos desses dançares me interpelam e exigem atenção.
Digo isso para sinalizar que esse artigo não parte de uma artista que, ao ver as danças de tradição popular e se encantar com elas decide colocá-las em cena, mas de alguém que por diversas formas teve contato com essas danças durante sua formação e, ao escolher a arte da dança como profissão, se vê obrigada a refletir sobre essa presença. Minha intenção é sinalizar o trajeto que permite o olhar que proponho e o lugar de onde falo.
Outra questão relevante é que essa escrita decorre de uma investigação prática de estudo sobre o frevo, num ambiente de pesquisa de movimento e criação artística com um grupo de atores e dançarinos do Recife. Portanto, é prioritariamente na dança que essas formulações encontram gatilho para se estruturar enquanto discurso.
Nossa investigação artística começou em novembro de 2005, a partir da seguinte pergunta: Será que o frevo pode ser utilizado como uma linguagem corporal capaz de provocar dinâmicas e sentidos específicos e assim estar a serviço da construção de espetáculos de dança contemporânea?
É de comum acordo entre pesquisadores e bailarinos que o frevo tem um largo repertório de movimentos, intenções e dinâmicas e que é uma dança extremamente aberta à criatividade do passista. No entanto, a tradição de utilização do frevo no Recife parece ter como característica a transposição dos movimentos para o palco de forma sincrônica entre os dançarinos, utilizando prioritariamente uma relação frontal com o público e raramente propondo novas utilizações. Uma tendência que virou escola no Recife, através do Balé Popular do Recife (cuja pesquisa e estruturação cênica foi feita nas décadas de 1970 e 1980) e cujo resultado artístico mais reconhecido e contaminador remete a uma função para-folclórica e pedagógica de apresentar as expressões culturais locais.
Nossa idéia é abordar esse fenômeno sócio-cultural Frevo, tateando-o por vários eixos – dinâmicas, sensações, elementos históricos, lógica de utilização do peso e articulações, usando dele os elementos que interessarem para um discurso conduzido pelo próprio processo. Ao fazer isso nos deparamos com informações, reflexões, sensações que, no estado atual, compartilho parcialmente com o leitor neste artigo.
A forma que estamos abordando o frevo o compreende como sendo um dançar constituído de um acúmulo de conhecimentos corporais sobre equilíbrio, impulso, agilidade, explosão e deslizamentos. Nossa pesquisa ainda em andamento mostrou que é possível perceber o frevo como uma linguagem corporal que se especializou através do acúmulo de técnicas e abordagens gerando um legado de grande representatividade sócio-cultural e diversas qualidades artísticas singulares. A dica do bailarino Jaflis Nascimento, “O frevo é a plástica de Pernambucano” foi se mostrando cada vez mais pertinente.
Entendemos que o frevo precise ser investigado não com o olhar folclórico, que justifica sua existência pela necessidade de resgate ou como reconstrutor de uma identidade de nação, e sim reconhecendo suas características singulares como um legado artístico, como uma técnica que desenvolveu de forma espetacular diferenciadas relações com o espaço, tempo, gravidade e que permite a expansão das possibilidades do corpo.
Mergulhando nos estímulos corporais gerados pela música do frevo – pois é uma dança cuja inventividade de movimentos esteve sempre ligada à relação corpo-música – pudemos perceber pontos recorrentes de ativação muscular e sensações de agitação e euforia que sugeriam movimentos de flexão dos joelhos, movimentos do osso externo e impulsos de explosão. Isso nos fez, ao longo dos trabalhos, substituir a preocupação com os passos existentes e sua forma, por uma busca de dinâmica, musicalidade, prazer, deslocamento e suspensão.
A discussão que esse caminho provoca nos levou ao nome dessa dança: os especialistas chamam a dança ao som da musica Frevo, de Passo e, por isso, o dançarino do frevo é identificado como passista. Como “passo” na dança é sinônimo de movimento sistematizado, essa denominação, ao mesmo tempo em que confunde, reduz a compreensão da dança. O que nos fez estranhar ainda mais essa separação foi descobrir que, nos registros do início do século, o nome “Frevo” estava muito mais ligado a fenômenos corporais do que à música. Nos jornais do início do século, a palavra Frevo era sinônimo de animação das multidões, confusão, sugestão de algo belicoso, ou nas palavras de Valdemar de Oliveira “um esperneio no meio da rua”. A razão pela qual foi necessário separar em dois nomes a música e a dança e o que sugere a uma dança ter o nome de “passo” é uma questão a ser refletida.
Também a organização pedagógica do ensino do Frevo foi estruturada através da catalogação de passos, batizados e definidos em sua forma. Assim, aprende-se Frevo através de seus passos básicos: ponta-de-pé-calcanhar, tesoura, saci pererê, trocadilho…
Pensando que a forma de transmissão indica percepções sobre a dança e formas de abordagens cênicas, talvez seja interessante notar que a divisão do Frevo em passos foi uma opção e, apesar de ancorada em vários aspectos, fatos e situações do surgimento e desenvolvimento do Frevo, essa abordagem não precisa ser vista como a única ou a que define melhor o que ele é. A divisão do frevo em passos é apenas uma das formas de compreendê-lo; e não podemos deixar de notar que a forma de abordar o movimento está ligada a pensamentos norteadores. Talvez responda a uma visão cartesiana de mundo, em que cada elemento pode ser dividido em partes e tratado separadamente, teoricamente, sem perdas na sua compreensão como um todo. Também não custa lembrar que para Descartes a melhor metáfora para o corpo é a máquina, e que sua forma de hierarquizar os tipos de conhecimento relega a dança a um papel inferior no âmbito das artes e as artes a um âmbito inferior entre os níveis de conhecimento.
Cabe registrar que algumas dessas reflexões encontraram apoio em conversas e encontros com os Guerreiros do Passo, um grupo de passistas que se dedica, por livre e não remunerada iniciativa, a transmitir a abordagem do frevo de Nascimento do Passo, em escolas e praças da Região Metropolitana do Recife. Em nossa nova fase de pesquisa, teremos passistas de diversas “correntes”; parceiros de trabalho como Otávio Passos, Gil Torres, Paulo Melo, Luciano Fagundes.
Deixa-me especialmente feliz perceber que muitas das reflexões que se iniciam aqui só se tornaram possíveis através da experiência artística e da contribuição que cada um desses bailarinos-pesquisadores – Jaflis Nascimento, Leda Santos, Calixto Neto, Marcelo Sena, Iane Costa e eu. Foi possível dividir nossa história e a constante interpelação do movimento em nossas carreiras.
Um segundo elemento que se fez presente em nossas discussões foi a relação do Frevo com a violência. A questão era como lidar com a sua origem belicosa e seus elementos de luta sabendo e sentindo o quanto ele se tornou símbolo de alegria, explosão de contentamento, uma dança de contágio e exibicionismo, calcada no virtuosismo do passista. Pudemos constatar que o seu desenvolvimento e especialização como linguagem artística ao longo do século priorizou esses aspectos e decidimos nos lançar no jogo de fazer o caminho contrário; para encontrar uma corporalidade passista de uma pessoa disponível para entrar numa briga a qualquer momento; e também na tentativa de identificar no carnaval momentos e situações em que o frevo se corporifica como aquela confusão e esperneamento a que Valdemar de Oliveira se refere.
Interessante foi encontrar nesse Frevo “belicoso” um corpo negro muito mais nítido, num trânsito fácil não só entre o Frevo e a Capoeira, o que é sempre ressaltado nos textos disponíveis (Oliveira, Dantas, Araújo) mas também e surpreendentemente, mandingueiro, rebolador, sugerindo movimentos de macumba e de samba. Surpreendente não porque não seja fácil perceber que as possibilidades de movimento do descendente africano têm se constituído e transmitido através de suas danças religiosas, mas porque essa herança nunca foi ressaltada como característica do passista do Frevo.
Nossa reflexão, a partir dessa relação que se fez no corpo, é que, apesar de não existir uma relação entre frevo e religiosidade – como em grande parte das danças populares no Brasil -, um dos pilares que permite a constituição da dança do frevo é a ginga que constitui o corpo negro e que está fortemente ligada à prática religiosa afro-brasileira.
Apesar de aparentemente nossa colocação parecer redundante, a questão que estamos ressaltando é: por que tão pouco nos lembramos do conteúdo negro nessa dança? Talvez porque sua estrutura não está calcada no rebolar, na “malemolência” e morosidade que costumamos identificar com a herança negra do Brasil. Talvez por uma necessidade de aceitação pela sociedade local – o que tornou o frevo (música e dança) um símbolo da arte local. Ou talvez porque essa herança ressalta um lado do frevo que nos interessa menos lembrar: a marginalidade em que os recém libertos pela escravidão foram lançados nos centros urbanos. Afinal o capoerista de que falamos não era um artista e sim um marginal perigoso. Esquecimentos ou apagamentos que se tornam indicadores de lógicas culturais, ideologias, gosto.
Nossa “descoberta”, ou dizendo melhor, o que a pesquisa corporal ressaltou, foi perceber que uma das possibilidades de encontrar o frevo foi desembranquecê-lo (no sentido de compreender e temporariamente nos desfazer das transformações decorrentes da estilização do frevo para adequação ao palco ou para responder ao que se entende como belo). Ao fazer isso, ficou muito mais fácil dançá-lo. E, ao nos vermos dançar, pudemos ver que foi o olhar branco-ibérico, e uma percepção clássica do belo, que deixou o frevo mais ereto, com pernas fechadas, com menos ginga e malícia, padronizado – e, em sua execução no palco, sincronizado.
Refletir sobre esses processos, investir em cada um desses elementos, separada ou articuladamente, tem nos permitido discussões empolgantes. Minha intenção ao trazer para este texto estas reflexões da etapa atual da pesquisa foi dividir essas relações que estamos podendo estabelecer entre dança, cultura e sociedade com as pessoas interessadas na discussão da dança como área de conhecimento.
Referências Bibliográficas:
ARAÚJO. Rita de Cássia. Festas: máscaras do tempo: entrudo, mascaradas e frevono carnaval do Recife. Recife, :1992.
ARRAIS, Raimundo. Recife, culturas e confrontos: as camadas urbanas na campanha salvacionista de 1911. Natal, EDUFRN:1998.
OLIVEIRA, Valdemar. Frevo, capoeira e passo. Recife: CEPE, 1971.
ROCHA DE OLIVEIRA, Goretti. Danças populares como espetáculo público o recife, de 1970 a 1988. Recife: FUNDARPE/Companhia editora de Pernambuco
SILVA, Leonardo Dantas. O frevo Pernambucano. Cultura Brasília jul/dez 1978.
VICENTE, Valéria, MARQUES, Roberta e COSTA, Liana. Acervo Recordança. Parte da história da dança em Pernambuco entre 1970 e 2000. Recife: Recordança, 2004.

Port
Maravilha, minha filha!
beijos
Este artigo é maravilhoso!
Isa Trigo.
Obrigada Isa. Queria aproveitar para dizer que esta pesquisa, desde junho, está sendo financiada pelo Prêmio Klaus Viana ( Funarte/Petrobrás) para ser melhor registrada e documentada. E que estrearemos o espetáculo Fervo em 14 de setembro, com base nessas investigaçoes. Valéria
Olá pessoal,
Acho um bocado reducionista atribuir a um olhar branco-ibérico a estilização ou talvez uma espécie de “dessacralização” do frevo. Acho importante que este fenômeno seja analisado num contexto de sociedade moderna/pós-moderna na qual a indústria cultural terá um papel extremamente importante nas trocas, contágios, hibridizações culturais. O frevo por suas características de movimento irá aproximar-se e servir e muito a fenômenos típicos da indústria cultural, como podemos ver a “aeróbica do frevo” e mesmo aquele fenômeno em Pernambuco, anos 90, das bandas de músicas regionais tipo oxente music, axé music, a que eu chamaria de pernambuco music, dentre elas a mais conhecida, a versão brasileira, acompanhada por “passistas” que vão fazer um “frevo aeróbico”. O embranquecimento existe sim, mas talvez seja necessário outro tipo de abordagem para analisá-lo. Uma mestiçagem necessária, uma antropofagia as avessas … Quanto à violência acho que vai para além das origens, mas isto é uma outra conversa … Acho o frevo como fenômeno sócio-político-cultural-artístico em Pernambuco extremamente complexo e por isso mesmo interessantíssimo, continuem que o caminho é bom…
Muitos beijos
Adri
Val, o artigo é maravilhoso e o mergulho para o espetáculo, fantástico. É incrível como algo tão familiar, tão próximo, que crescemos vendo nas ladeiras de Olinda não nos é apresentado de tal forma. E como nos sugere, ainda, tanta reflexão e discussão. Parabéns ao grupo e tomara que o Fervo tenha vida longa não só no Recife, mas no restante do País. Bjos Deza
Adriana,
concordo que escolher apenas um caminho irá reduzir a qualidade da compreensão do frevo. Todos os elementos que vc aponta são relevantes para entender esse percurso de trocas artisticas e sociais que o frevo passou. Mas a possibilidade de pensar também na questão da representação da origem e classe social ligado ao que é considerado belo, continua me parecendo um dos lados a ser levado em conta para não isolar arte da estrutura sócio-cultural.
Espero podermos contar com suas contribuições é um desafio grande e vc mostrou o tamanho… obrigada
É interessante como todas as vezes que se tenta discutir as origens sóciais, culturais e políticas de nossa arte e educação e se toca na influência ibérica há uma reação imediata, colocada tão flagratemente por Adriana como uma análise reducionista. Seja modernidade ou pós-modernidade chegaremos lá na influência determinante. A modernidade ou pós-modernidade na dança ou na Pernambuco-music não surgiu a partir do nada. Necessário é saber como essa mestiçagem “necessária” se torna antrofágica e nos remete a discussões tão reducionista de achar que a influência colonozadora de um país tão grande como o Brasil não é um bom caminho.
Vi a estréia de Fervo e revi…Valéria e equipe conseguiram ir além sim! Conseguiram tirar a embalagem de presente…e a sensação de pertencimento é incrível aos pernambucanos que assistem Fervo. Parabéns a todos! E quem ainda não viu, dê um jeitinho de ver.
Oi Valeria, estive recentemente no Festival de Dança de Recife, mas não pude assistir sua comunicação, pois retornei a Florianópolis naquela tarde. Li seu texto e também pude conhecer um pouco da realidade a qual te remetes em teu texto nestes dias em Recife. É uma discussaõ muito instigante e um momento muito fecundo a que passa a dança contemporanea em Recife. abços Sandra
Olá, valéria, parabéns pelo projeto, fico contente e esperançoso ao ver que depois de tantos anos, há ainda pessoas interassadas em desvelar manifestações populares que nos faz refletir sobre a corporalidade do brasileiro que é extensa e complexa. Se se buscava no início do século XIX uma identidade da dança e do corpo que dança do brasieiro, percebemos que essa busca ainda não chegou aos seu final.acredito que o frevo, assim como outras danças, tem um papel importante nesse processo!
Sucesso e sorte!
pois é Sandra, foi uma pena não nos encontrarmos dessa vez. Espero que a gente tenha mais sorte em outros momentos.
Marcos,
acho que minha pesquisa não está tão interessada na continuação dessa busca por uma dança brasileira. Estamos tentando não hierarquizar conhecimentos que vem das diversas práticas de dança e de estudo do corpo. O frevo possui uma técnica impressionante e nos ensina bastante sobre as relações corpo e sociedade. A gente não precisa ter um projeto de nacionalidade para fazer isso…
Estou aqui em Recife escrevendo sobre o Frevo e a danca Contemporanea para a Universidade da Florida. Gostaria de saber da possibilidade de conversar com vc sobre seu ultimo trabalho.
Um abraco, e parabens pela tua constante dedicacao a nossa cultura.
Como músico e pernambucano é interessante ver pessoas envolvidas na raiz do frevo. conheci Valéria fazendo uma divulgação do maracatu aquí em BSB e a pele arrepia quando a gente assiste a arte da nossa terra, esse turbilhão de ritmos estarão sempre vivos e efervecentes graças a vocês.
Parabéns!
É ISSO MESMO GENTE, VAMOS FAZER PERDURAR O Q É NOSSO!!!!
Valéria! Meu nome é Jussara Miranda e estou realizando uma pesquisa problematizando a difusão de danças populares brasileiras no RS e vice versa, como uma proposta a ser discutida nas dimensões dos contágios espontâneos.
A formação histórica do povo gaúcho é marcado por um um diverso político e geográfico distanciado das manifestações ditas ”nacionais” como um todo, traduzida pela territoriazação artístico-cultural, digamos, um tanto patriarcal. Digamos que para detalhar o tema muitos sub-temas, de fundamental importância, sejam analisados.
Tens conhecimento de alguma pesquisa ou referência bibliográfica sobre o assunto?
Jussara Miranda