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É quase um absurdo manter a idéia obsoleta de que o Hip Hop não pode mais do que já representa. Ele deve e pode. Menosprezar a energia absoluta e a natureza virtuosa desta manifestação quando pensada também na perspectiva cênica é sugerir que se mantenha um único paradigma de quem pensa e até faz dança.
Amparado sobre estas questões que há algum tempo vem me provocando, resolvi aqui traçar de forma sucinta um panorama a fim de tentar compreender porque essa dança ainda se mantém, apesar de algumas exceções, como um sub-PRODUTO dos teatros ou uma dança para alegrar cronogramas sórdidos de inúmeros festivos.
Onde está o problema?
Percebo claramente três fases bem delimitadas que ocorrem com os coreógrafos que trabalham essencialmente com as linguagens provenientes do Hip Hop e ‘Breakdance‘ e de alguma forma desejam traduzir, ou melhor, transferir tais linguagem para o universo cênico.
A primeira fase ou fase da ambição lembra muito uma criança ou adolescente que presencia novos fatos, absorve novas idéias, associa outros valores, imagens, sons, gestos, movimentos e signos de forma geral. Após vivenciar todo este novo, estes se refazem como sujeitos. Logo, querer mais não é patológico. Todavia, esse momento exige uma grande transformação, porque chegará o momento de eleger algumas prioridades para a pesquisa, apesar que não me parece este o melhor termo a ser empregado neste momento.
Aludo a esta fase como ambição *o que é super válido* visto ser o instante em que as coisas começam a provocar crises necessárias para quem quer seguir os traços de um criador, neste caso de um coreógrafo que deseja mais.
Organizadas algumas destas idéias, fato que nos lembra um computador em que se coloca mais memória no HD (embora os arquivos estão ainda procurando suas pastas), passamos à seguinte - a traição. Termo no mínimo inesperado e polêmico, penso, conhecendo, observando e ouvindo vários colegas que esta é uma palavra que pode nos ajudar na seqüência desta análise.
Lembramos então um pouco como são em geral os habitantes deste estilo de vida chamado Hip Hop. Estamos nos remetendo a uma tribo onde há claramente códigos (não necessariamente escritos) de conduta, pensamentos, valores, ideologias. A relação proxêmica, ou pulsão afetiva que se deriva deste entorno, faz com que aqueles que desejam experimentar além dos traços culturais, estereotipados ou não, sintam pelos outros ou por si próprio um sentimento de estar traindo uma forma de fazer e pensar o movimento e as configurações que se aconchegam neste espaço pseudo-imaculado.
Assim, podemos entender porque estamos muitas das vezes assistindo um espetáculo de um destes grupos que já saíram da fase da ambição e então começam a experimentar de verdade, e de repente, vê-se alguma referência clara (na maioria das vezes dispensável) de tentar justificar aos amigos, ao público e a si próprio que seguem junto com o Hip Hop. É como se quisessem abrir uma faixa no final do trabalho escrito em arial black ou mesmo em graffiti com a sentença exposta: nós seguimos juntos com o movimento Hip Hop.
Bem, finalmente quando o coreógrafo e ou seu grupo conseguem superar esse momento, podemos estar bem perto de conhecer uma obra que tem como pilar o Hip Hop - eu já tenho visto algumas no Brasil e em alguns teatros pela Europa, mas são ainda raras.
Ao passar da fragilidade emocional para uma crise artística freqüente, o coreógrafo (que não deixa de ser do Hip Hop, e de forma alguma trai seu movimento) habita lugares de paisagens alvíssimas, clareiam-se questões antes muito embaçadas (que agora chegamos a rir de tudo isso). Nesta interface, chegam outros questionamentos a fim de que a alteridade não sufoque a crise na criação. Essa fase eu optei por chamar de liberdade, e esse é exatamente o sentimento que sinto aflorar em alguns colegas.
Quando optamos por olhar com um certo distanciamento aquilo do qual fazemos parte, é possível ver questões que antes não se enxergava (gênero, racismo às avessas, machismo, preconceito de dentro etc). Assim aparecem críticas que nos levam a um crescimento e amadurecimento do nosso próprio habitat.
Serão os próprios amantes e simpatizantes do Hip Hop que farão com que este movimento se torne menos partido e siga em movimento para o seu grande e merecido reconhecimento no universo cênico.






Concordo com o documento apresentado, muitos confundem o que é dança e o marginalidade, a maioria das pessoas não compreendem o porque de uma dança tão sincronizada, que atua de maneiras diferentes, levando mensagem realista. A questão é que muitos que fazem parte da família Hip Hop, não honram a si mesmo e confundem dança com movimento baderneiro, porém, nem por isso devemos ser deixados de lado e excluído da sociedade cênica, pois contribuímos para o crescimento cultural e humanistico, construindo meios e teorias de pratica educativa de uma vida melhor.
concordo plenamente com vcs..
faça parte de umgrupo de hip hop de sc e sei bm o que é isso
a comunidade discrimina, mas nem sabe ao certo o que somos e representamos realmente..
mas acredito que com nossa determinação um dia…
esse quadro vai mudar.
Olá Paulo,
Parabéns pelo texto e obrigado pela reflexão.
A partir dela me sinto a vontade de compartilhar algumas reflexões minhas, sobre como a Dança de Rua tem ido para a cena, mas precisamente para cena da Dança Contemporânea.
No Brasil eu reconheço três maneiras com as quais isso tem acontecido. Na primeira, trabalhos como os do Quasar e do Grupo Corpo que em alguns momentos apresentam referencia a técnicas e danças especificas como o B.Boy e o Popping. Mas, nem os criadores e tão pouco os interpretes tem uma vivência direta com a manifestação Dança de Rua.
No segundo, percebo grupos que vez ou outra trazem em seus elencos dançarinos de Dança de Rua e se utilizam das informações técnicas que eles detêm para compor seus trabalhos. Grupos como o Stagium e a Será Q? trazem em seu histórico essa prática.
Em uma terceira ramificação reconheço criadores e grupos que começaram sua história na dança dentro do universo da Dança e Rua, e posteriormente suas criações começam a apresentar uma configuração que foge a lógica que caracteriza a estabilidade que define essa linguagem. Nesse grupo identifico alguns representantes como a Cia. de Dança Balé de Rua, o GRN com Bruno Beltrão e você com a Membros.
Nesse sentido, acredito que seja possível reconhecer uma recente tradição de produção de Dança Contemporânea através do contato com o universo das Danças de Rua.
Creio que é preciso estabelecer uma discussão sobre estes contatos, e realizar reflexões sobre esse processo, pois isso pode lançar luz sobre o caminho de novos criadores e ampliar nosso próprio entendimento sobre nossa interferência da dança hoje.