No Rio de Janeiro a convite do Panorama de Dança, o colunista do idança Tiago Bartolomeu Costa vai manter os nossos leitores informados sobre o que anda rolando no festival. Em seu primeiro texto, ele faz uma crítica do espetáculo Umwelt, da Cie. Maguy Marin, apresentado na noite de abertura. Criada em 2005, a peça da coreógrafa francesa Maguy Marin abriu a 17ª edição do Festival Panorama de Dança, elevando o nível de exigência e promovendo uma deslocação do gesto quotidiano do palco para a plateia.
Umwelt não se perde em discussões retóricas sobre a falibilidade dramatúrgica dos gestos quotidianos. A formalidade da sua estrutura deve pouco à arbitrariedade do dia-a-dia, mesmo que todas as acções nos sejam familiares.
A coreografia obedece a uma outra lógica de representação de gestos do quotidiano, onde o palco não é um território de exposição (ou extensão) da realidade mas antes metaforiza sobre ela, encerrando em si mesmo todo um conjunto de acções que reconhecemos como próximas mas não obedecem a um território determinado. Assim, nas várias e brevíssimas acções que os nove intérpretes desempenham, Umwelt (que significa ambiente) constrói uma dramaturgia que parecendo encerrada numa sequenciação inusitada de gestos, faz como que assistamos não à duplicação de gestos reconhecíveis, mas à criação de um território ficcional que gere, com sábia perícia, a relação entre a duração da performance e o tempo nela descrito.
Há uma tal gravidade nestes movimentos (acentuada pelas interrupções que vão sendo provocadas pelos bailarinos que se chegam à frente da estrutura de placas de acrílico espelhado e fitam o público) e uma tal consciência da sua efemeridade, que cada sequência ganha uma identidade própria que resgata esses movimentos da massa colectiva anónima. Dessa forma, o único gesto quotidiano durante toda a coreografia é o de assistir aos gestos dos outros em palco. Precisamente porque é o único que não é premeditado.
E é nesse vai-e-vem dramatúrgico que Maguy Marin desenha, num nivelamento coreográfico constante, acções tão díspares como beber água ou lançar um balde de restos de tijolos para o palco, mudar de roupa, comer fruta, pão ou cenouras, carregar pedaços de carne ou embalar bebés. Este universo circular e contínuo sugere um desprendimento, da parte dos bailarinos, das suas acções (no facto de nunca sabermos a consequência dos seus actos porque o que nos é apresentado é de brevíssima duração), ao mesmo tempo que se permite a uma liberdade rara que joga com o tempo, não só o tempo performático mas também o tempo real.
Quando vemos soldados exauridos a beberem água, ou homens a comerem migalhas de pão deixadas por outros, mulheres a serem perseguidas ou exibicionistas, pessoas a comportarem-se como animais esfomeados rasgando a pele de cães, coelhos e galos, podemos compreender que a Maguy Marin não interessa simplesmente contrapor bonomia e ultraje.
À violência destes gestos, ao sublinhar de evidentes desequilíbrios, à sua consciente amoralidade e à exposição cumulativa de acções banais, acresce um muito humilde mas nem por isso descomprometido desejo de desenhar um mapa do mundo, tão próximo e reconhecível quanto distante e abstracto, onde os corpos dos intérpretes ganham peso e consistência consoante as linhas que nós próprios vamos tecendo de acordo com o que melhor responder às nossas preocupações e interesses momentâneos.
Tiago Bartolomeu Costa viajou a convite do Panorama de Dança
Um excerto de Umwelt pode ser visto no canal do festival no you tube

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