Dança do Créu, Kizomba e Kuduro. O que esses nomes têm a ver com a dança? Para quem nunca ouviu falar em coisas como essas, é bom estar prevenido. Quando se digita a palavra “danca” no Youtube – assim mesmo, sem cedilha – são esses os vídeos que aparecem em primeiro lugar na página. Detalhe: estão listados por ordem de relevância. São 480 mil internautas interessados no movimento de báscula extremamente erotisado de bonitonas comandadas por uma espécie de cafetão do Créu. Outros 570 mil acompanhando o passo a passo da Kizomba, fusão do Semba e do Zouk, e mais 229 mil conectados na desenvoltura do Kuduro, gênero de dança africana disseminada pelos subúrbios de Angola e Portugal. Isso sem falar na Dança do Quadrado – com impressionantes 10.740 milhões de acessos – e na evolução da dança contada por um maluco performático. “O melhor que há na dança. Muito divertido!”, diz o post de Musta00.
É tudo uma questão de filtro. Alguma experiência com mecanismos de busca também é bom. Ajuda a encontrar o conteúdo desejado na comunidade virtual – o que nos últimos anos vem sendo rapidamente aprimorado pelos internautas da geração 2.0 Web. Uma palavra a mais faz uma grande diferença. “Danca contemporânea” na busca e o resultado ganha um novo corpo. O primeiro dos 20 vídeos da lista é um duo de quatro minutos com uma música simpática de fundo e quase 15 mil views. “Adoro. Muito bom. E a música encaixa muito bem. Parabéns”, diz londoncupcake em seu post de cinco meses atrás. SinNanna vai mais fundo: “Intenso. Um homem sendo assombrado pelo fantasma de sua amante, muito bem feito”. Outro internauta quer saber mais sobre o trabalho e é a própria Stela – uma gaúcha -, quem responde. “Obrigada! Veja mais no meu canal: www.yotube.com/user/stelamenezes“.
Praticamente um “The best of”. A frase descreve o vídeo postado por oba3011 em fevereiro de 2007. Um casal de amigos parece querer satirizar os movimentos da dança contemporânea no meio de uma sala de computador. “Eu odeio contemporâneo”, diz o menino às gargalhadas. Categoria: comédia. Avaliação: nenhuma estrela. Na mesma lista está um teaser do espetáculo Filme, da Staccato Dança Contemporânea. A edição inclui uma série de duos e trios interpretados por seis bailarinos. A câmera soma-se ao conjunto e capta ângulos que não se poderia ver da platéia – de cima, dos lados e em closes. Os 6.694 internautas deram quatro estrelas e meia para o vídeo. Bom resultado. Melhor que o do Grupo de Dança Adriana Alcântara com quatro estrelas e 1.216 views. O vídeo mostra quatro minutos da coreografia Nosso tempo, de Ivonice Satie. Nenhum comentário.
Para ir mais além é bom saber comandar as rédeas desse universo antropofágico. Incluindo o freio. Um vídeo leva a outro que leva a mais 20. “É preciso ter um certo controle porque o YouTube é meio terra de ninguém. 80% é lixo total”, diz Sandro Borelli, diretor da Cia. Borelli de Dança. “Você pode ser filmado na praia e cair no YouTube. É uma invasão de privacidade”, comenta o bailarino e coreógrafo paulista. Três vídeos do grupo estão disponíveis na comunidade audiovisual. Ao som da banda inglesa Joy Division, o produtor Dudu Oliveira faz uma edição de fotos de A Metamorfose, O Processo e Carta ao Pai, trilogia de espetáculos inspirados na obra de Franz Kafka. O vídeo foi visto 1.638 vezes e não tem nenhuma estrela. Nos palcos onde a trilogia foi apresentada em São Paulo, os aplausos eram calorosos.
Da companhia, há ainda Artista da fome , com 309 views e cinco estrelas, e Carne Santa , com 1.179 e nenhuma estrela. O vídeomaker da companhia, Osmar Zampieri, é quem posta os vídeos com o consentimento de Sandro. “Se fizer de um jeito para divulgar o trabalho é muito bom”, diz o diretor. Ele acredita que quem acessa são profissionais da área da dança e do teatro. “O mesmo pessoal que viu o espetáculo procura no YouTube para conhecer mais. É uma possibilidade legal para a arte”. Sandro não usa muito a ferramenta, mas prepara um espetáculo para 2009 baseado na vida e obra política de Che Guevara e diz ter encontrado muito material de pesquisa. “Para fazer Carne Santa, baseado no discurso dos anos 70 e 80, o YouTube também ajudou bastante”.
Novos criadores, como os que formam o Coletivo de Artistas Intermitentes Abismo de Sonhos, de São Paulo, apostam muitas fichas na idéia do YouTube. A proposta não é produzir filmes longos, mas algo que em poucos minutos atraia a atenção do internauta. A opinião é de Edson Calheiros, um dos artistas pesquisadores do grupo. Memorial do quarto Escuro, apresentado em São Paulo na Mostra (in) dependente de dança?, é o único vídeo do grupo no YouTube. Para Edson, a comunidade cria uma nova forma de levar a dança para as pessoas. “Antigamente ficava tudo muito restrito ao espetáculo”, engaja-se.
Mesmo assim, Edson não tem ilusões. Acredita que são poucas as pessoas que se animam a ponto de ir até o teatro. “O YouTube não supre a experiência de ver o espetáculo”, ressalta o artista. No futuro próximo o grupo pretende se enveredar ainda mais no mundo audiovisual. “Queremos fazer vídeo-dança para valorizar outra interface de experiência. Como ampliação do nosso campo de trabalho e não como substituição”. Edson promete postar em breve o novo trabalho do coletivo, Our love is like the flowers, the rain, the sea and the hours, apresentado na Mostra (in) dependente, em julho desse ano.
Rodrigo Pinkovai é formado em publicidade e há 15 anos produz casamentos e aniversários infantis. Nas horas vagas é vídeomaker. Foi ele quem postou o vídeo do Coletivo de Artistas Intermitentes. “Eu mesmo quis dar uma cara de cinema”, diz ele. “A gravação era muito ‘xoxa’, tudo em plano aberto, sem efeito, sem cortes”. De fato, Rodrigo ensaia a criação de um novo olhar com a edição que faz. Dá vida não só à dança, mas à câmera também. “A minha intenção sempre foi levar as pessoas para o espetáculo. O vídeo é secundário. Escutar a respiração do Edson é muito melhor”, completa. O publicitário só reclama de uma coisa: o orçamento. “O pessoal não separa nem R$ 1 para fazer a divulgação do trabalho e aí não tem como pagar o vídeomaker, por exemplo. Essa é uma das coisas que eu queria mudar no pessoal de teatro”, diz Rodrigo.
“Tenho certeza de que a câmera pode contribuir para a dança. É uma via completamente nova”. Quem comenta agora é um outro Rodrigo, o Pederneiras. O coreógrafo dispensa apresentações. Nos palcos e no YouTube. Os vídeos da companhia que dirige – o Grupo Corpo – ocupam mais de duas páginas na comunidade virtual. Bach, de 1996, tem 60.687 acessos. Parabelo, de 1997, mais de 31 mil. O Corpo, de 2000, outros 23 mil. “Impressionante. Assisti a um espetáculo deles há anos, mas não anotei o nome do grupo. Agora me deparo com eles novamente no YouTube e enfim descubro o seu nome”, diz o post de weisskrokus. “Perfeito, perfeito, perfeito!”, comenta luRallo.
Mas apesar de todo o frenesi, Rodrigo não está muito conectado no que acontece na rede virtual. “Não temos a menor idéia de quem coloca esses vídeos no YouTube. Eu não assisto, mas sei que eles existem porque as pessoas comentam e minha mulher me fala”. A companhia mineira comercializa os vídeos que eles próprios gravam. Em teatro fechado e tudo. O câmera é dirigido para fazer as movimentação e cortes certos. E não são câmeras especializados, fazem futebol e shows. Rodrigo diz que a ferramenta pode ser uma faca de dois gumes. “Ao mesmo tempo que estimula a pirataria, é uma via de divulgação muito forte. Não sei qual lado pesa mais”. O coreógrafo diz não usar a comunidade nem para pesquisa. “Não sou um homem de máquinas. Na verdade, tenho uma certa aversão a elas”.
Mesmo aos menos integrados às novas tecnologias será difícil ignorar as mudanças provocadas pelo maior endereço eletrônico de vídeos do mundo. A dança é uma arte que pode ser qualificada de transitória, em estado de constante modificação. Entretanto, vista sob uma outra ótica, ela é capaz de durar. Na memória do intérprete e na do espectador. E se prolonga por vezes por meio de uma notação, de uma resenha, um filme ou um vídeo. Seja qual for o meio de representação, a dança é capaz de exercer uma influência no comportamento de seus integrantes. Mesmo que eles ganhem novas denominações. Vídeoartistas, vídeomakers ou internautas.



Port
Eng



só uma coisa: Triunfo Da Vontade, quem sabe um dia vcs conseguem…
A idéia da dança no campo audio-visual é instigante e criativa pois além de divulgar a dança para além espetáculo cria um outro modo do fazer artístico. Adorei o trabalho do Borelli.
é importante que se encontre sempre formas de expandir a comunicação entre as pessoas e o video, e ainda o youtube é imprecindível nesse caminho. Juízo de gosto? tratando do comentário do Anderson: não sei se precisamos, antes mesmo devermos, escolher entre coisas as que nos agradam. O mundo ta aí, voce se agrade ou não dele.
No que diz respeito ao gosto, pode parecer assustador, mas isso não está relacionado diretamente com grau de instrução.
Dificilmente nos identificamos com algo que nos é completamente desconhecido e, se “Creu” e “Dança do Quadrado” remetem de alguma forma a “cultura” do povo brasileiro, não é de se estranhar que tanta gente se identifique com isso.
Somos um país de cultura miscigenada, com música (por exemplo) para todos os gostos, onde ao mesmo tempo em que alguém faz uma critica a certa vertente, é criticado também pela sua produção.
Não acredito que seja muito diferente na dança. Se o Youtube tem um lado bom, com certeza seria o fato de popularizar tudo isso ao mesmo tempo. Do clássico ao trash. Se o que me motiva a assistir um vídeo de dança e não outro é a popularidade ou a simples curiosidade, aí já é outra história.
O que me parece realmente preocupante, vai além da “capacidade intelectual” de distinguir algo bom de algo ruim (realmente tem gosto pra tudo!), mas a finalidade de determinadas pesquisas.
Não só este site, mas a Internet como um todo acabou se tornando uma “terra de ninguém”, de onde tudo se copia sem o menor escrúpulo e respeito, quem dirá referencias aos autores. É pirataria na música, em textos, na dança, em tudo!
Assim como Rodrigo Pederneiras, não sei qual lado pesa mais: o da divulgação ou da reprodução desmedida. De qualquer forma, algum tipo de controle deveria existir.
Luis Gustavo Guarize 4º ano Dança – FAP
Acredito no forte valor que a camera proporciona. Mas infelizmente muitos a usam de forma eronea, ou melhor não sabem aproveita-la, fazer o bom senso. Para muitos artistas bailarinos e coreógrafos o video traz mlhares de beneficios desde uma simples filmagem para corrigir erros de coreografia, a um videodança por exemplo qué uma das formas de se apresentar dança ao telespectador.
Esses sites que buscam videos na internet certamente além de fazer uma grande sucesso devido as custas da fama de outros está vinculado a midia a propaganda afinal nada é de graça e as pessoas inclusive os artistas fazem isso para se expor e tentar alguma fama virtual.
E Claude Levi-Strauss se revira no túmulo com a abertura desse artigo…