No Rio de Janeiro a convite do Panorama de Dança, o colunista do idança Tiago Bartolomeu Costa vai manter os nossos leitores informados sobre o que anda rolando no festival. Em seu segundo texto, ele faz uma crítica do espetáculo H3, do coreógrafo Bruno Beltrão com o Grupo de Rua de Niterói. Apresentado no Teatro Villa-Lobos a 31 Outubro e 1 Novembro, H3 não permite que o hip-hop, só porque se apresenta num palco tradicional, se transforme em retórica contemporânea.
Talvez seja uma vantagem daquilo que se chama o acesso democrático à arte, a ideia de que todos os discursos coreográficos, seja qual for a sua proveniência – mas sobretudo aqueles que vêm de outros contextos -, alargam a noção que temos de dança contemporânea. Mas o trabalho de Bruno Beltrão não se inscreve, de forma simples, numa ideia de democratização do movimento contemporâneo que permita aceitar, como parte do grande discurso sobre a dança, outros discursos coreográficos que não resultem de um enquadramento formal e conceptualmente performático.
Com H3, o coreógrafo brasileiro trabalha as características do hip-hop – entendido não enquanto expressão individual mas como experiência colectiva -, a partir de um outro paradigma, aparentemente rizomático. As sequências, organizadas em grandes grupos, não necessariamente temáticos mas com lógicas coreográficas aproximadas (jogos de um para um e colectivos) permitem que a um movimento dramaturgicamente arbitrário, eminentemente individualista e habitando contextos urbanos e para-coreográficos como é o do hip-hop, corresponda um desejo de, sem ceder nas especificidades desta linguagem e trabalhando uma representação do corpo contemporâneo, se alargue a liberdade do movimentos dentro de uma grelha formal e estruturada.
Cada intérprete estabelece uma sequência de movimentos que, uma vez executados, são ampliados por um outro intérprete, num jogo dialéctico permanentemente em ascensão. Dessa forma, esta reorganização do movimento enquanto espaço de diálogo permite que a lógica do hip-hop ganhe em substância dramatúrgica criativa (ousando mesmo fundamentá-la) e a fórmula alegadamente democrática da dança contemporânea recupere uma margem de risco concreta.
Outros aspectos concorrem para esta leitura do hip-hop como dança agremiadora. Nomeadamente os jogos de luzes e a utilização do espaço cénico. A uma primeira parte exposta na boca de cena, com os intérpretes a verem substituídos os rituais de luta e exibição marialva característicos do hip-hop por elegantes sequências de movimentos competitivos que vão para lá da gratuitidade do gesto, segue-se uma outra, mais na penumbra, na qual são desenhadas linhas que ocupam toda a retaguarda do palco vazio, e ampliam as potencialidades de cada corpo, agora numa base de complementaridade com os outros intérpretes, formando, sem que disso nos apercebamos com antecedência, corpos unos que partilham o mesmo rigor e exigência que qualquer corpo de baile clássico. Adequados a cada intérprete, rudes nas suas expressões e precisos nos seus movimentos bruscos, secos e breves, os gestos ultrapassam o espaço individual de cada um abraçando um discurso colectivo, tão contrária ao individualismo e identificação da criação contemporânea.
Esta dramatização do hip-hop obriga-nos a perguntar se não estará o coreógrafo, precisamente por partir de movimentos alegadamente livres, a operar nos mesmos princípios utilizados pelas narrativas clássicas. Particulamente porque, nessa dramatização, não só Bruno Beltrão torna mais distante o hip-hop, como o coloca num território que, mesmo sendo acessível, explora novas territorialidades (ou alarga o território já existente). A submissão do hip-hop à construção dramatúrgica contemporânea não se faz à custa de perda de território linguístico do hip-hop, mas antes sugere a exploração de uma outra noção de representação do corpo contemporâneo. Precisamente um que sobrevive à regra disciplinar e garante que aqueles corpos possam permanecer tão etéreos como o dos bailarinos clássicos.
O autor viajou a convite do Festival Panorama de Dança 2008
Um excerto de H3 pode ser visto no canal do festival no you tube
Textos anteriores:
Um gesto que seja nosso (Crítica do espetáculo Umwelt da Cie. Maguy Marin)

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hoje como é um dia de sol em minas gerais e eu tive mais tempo para ler alguns comentários sobre os festivais, resolvi dar uma lida no texto de thiago bartolomeu e já teria algumas perguntas (ou provocações):
1. quem são os ‘intérpretes’ de ‘bruno beltrão’? eles têm nome? ou quem são os intérpretes do ‘Grupo de Rua de Niterói’? ali também você sinaliza uma forma de pertencimento um pouco estranha: ‘o coreógrafo Bruno Beltrão, com SEU Grupo’ _ será q é a partir daí que vc propõe a discussão comparativa à práxis, cultura do ‘balé clássico’? (será mesmo necessário ainda limitar a discussão sobre arte contemporânea em comparação às outas escolas (clássica, moderna)? qual seria a necessidade subjetiva dessa comparação? a quem vc a está endereçando? ou relmente estamos falando de outros tempos em o que você propõe como “democratização do movimento contemporâneo” se assujeita a um novo-outro modo de pensar arte que (em alguns momentos oportunos) ainda não deixou de ser clássica?
2. “A submissão do hip-hop à construção dramatúrgica contemporânea”. duas perguntas: ali, naquele campo criativo chamado H3, em que a coreografia salta o palco, salta a cena e atinge com virulência a subjetividade de qualquer observador, existe mesmo uma “submissão”? e, se há “uma construção dramatúrgica contemporânea” aonde eu teria acesso à ela? (gostaria de tê-la em mãos ou na minha biblioteca).
3. os lingüistas estudam a linguagem através de áreas como a morfologia, fonética, lexicologia, sintaxe, semântica, estilística. enfim, mais uma vez não entendi o que vc quis dizer com “perda de território lingüístico do hip-hop”. um território pode ser lingüístico? e, existe ainda possibilidade de se “perder” relações subjetivas, ou poderíamos pensar em “dobras”? ou, ainda, “perder”, “ganhar”, neste caso não voltaríamos aos temas ad nauseam dos parâmetros de comparação legitimados pelos conceitos de capital e cultura?
para o Grupo de Rua de Niterói , eu fiquei muito feliz com o que vi em são paulo. o trabalho constrói mapas e blocos de espaço/tempo sem metáforas. belo por si. ando pensando na dança contemporânea assim: pelo prazer.
obrigado,
wagner schwartz
Olá Wagner,
A introdução ao texto foi editada pela redação do idança.net e esse ‘SEU’ que você menciona foi incluído por nós, não sendo, assim, uma afirmação conceitual do Tiago.
Como a utilização deste pronome pode ter uma interpretação ambígua, decidimos removê-lo.
Prezado Tiago Bartolomeu Costa.
Tenho acompanhado as suas críticas e gostaria muito de saber o que pensa sobre as questões levantadas pelo Wagner Schwartz. Achei muito pertinente o que foi colocado por ele e seria muito interessante para este espaço que as questões fossem respondidas.
Obrigado
Luiz Augusto – RJ