Raio X cérebro humano / Foto divulgação

Dois trabalhos, um deles publicado muito recentemente (junho de 2008), merecem especial atenção dos leitores do idança. Eles são THE SITUATED BODY, que é uma coletânea de artigos editados por Shaun Gallagher, para o peródico Janus Head, e SO YOU THINK YOU CAN DANCE? que é um artigo de divulgação publicado na Scientific American Magazine.

Vou começar comentando rapidamente o primeiro.

Em um cenário muito diferente daquilo que é conhecido como teoria computacional da mente, ou TCM, a cognição NÃO é um fenômeno desencorporado, resulta de pressões evolutivas, NÃO é predominantemente consciente, é ‘engajada’ emocionalmente e é radicalmente dependente do ambiente (cultural, social e físico) em que está imerso. (em termos sumários, a TCM afirma que a mente atua como uma máquina que seleciona, estoca e manipula representações de acordo com procedimentos sintáticos ou algorítmicos) Fala-se cada vez mais em cognição contextualizada e situada, mente embebida e corporificada (situated, embodied and embedded mind).


A cognição é descrita como o espaço onde estão densamente acoplados o corpo, o ambiente (físico e cultural) e o cérebro. Cientistas e filósofos vêem aí um projeto de reconcepção radical do homem, em que são colocados em xeque, de uma só vez: a imagem de uma mente encapsulada em um cérebro; a concepção de criaturas biológicas complexas como processadores de informação; a concepção de informação como uma entidade bem estruturada, fornecida por um ‘mundo pronto de problemas’; o papel das representações mentais, simbólicas, em processos cognitivos. A quem chame o resultado de ‘homem pós-cartesiano’. Alguns dos precursores históricos incluem de Hyle a Ponty, de Bergson e Heiddeger a Hupert Dreyfus, de Charles Peirce, William James e Jacob von Uexkull a James Gibson.


As idéias que nutrem este ‘novo paradigma’ com pressupostos e resultados têm consequências em muitas áreas – ciência cognitiva, etologia, robótica, psicologia, neurociência, linguística, semiótica, educação, fenomenologia, artes. Mais ou menos recentemente, o jornal Janus Head (9/2/2007) publicou um número especial dedicado ao tema COGNIÇÃO SITUADA com diversos artigos sobre arte, dança, performing arts. Nele são tratados muitos tópicos: como processos dependentes de contextos afetam a cognição? Como o agente, localmente embebido em circunstâncias diversas, é capaz de atuações muito diferentes com respeito à ‘mesma’ atividade cognitiva? Como o corpo, estendido no ambiente estruturado por linguagem, e outras próteses tecnológicas, tem alterada suas competências?


O leitor encontrará o corpo como ‘campo’, ‘laboratório’, ‘objeto’ de diversas experiências, triviais, situadas e estéticas, encontrará uma visão metafísica de subjetividade submetida a uma revisão, um tratamento sobre o papel da propriocepção na constituição do self fenomenológico, um tratamento da dimensão afetiva do movimento, em termos filogenéticos, ‘para evitar a dor’ e aumentar o prazer, uma reconsideração do papel do ambiente e do contexto em tarefas e atividades criativas… O leitor vai encontrar, neste número especial, linhas gerais de uma teoria da arte empiricamente responsável, comprometida com uma epistemologia evolutiva, científica, e ao mesmo tempo, avessa a um reducionismo neurobiológico prestigioso em diversos campos.


Sobre o outro artigo — ‘In dance, spatial cognition is primarily kinesthetic’. O leitor do artigo SO YOU THINK YOU CAN DANCE? encontrará esta e outras afirmações (por exemplo: ‘Dance is a fundamental form of human expression that likely evolved together with music as a way of generating rhythm’) além de perguntas: como dançarinos navegam no espaço? Como estão relacionados dança e linguagem? Que mecanismos neurais atuam no controle de complexas atividades motoras? Como estão relacionados imitação e aprendizagem motora?


O artigo resume o que pode ser considerado o conjunto mais interessante de resultados produzidos sobre dança e técnicas de imageamento funcional do cérebro. Através destas técnicas pode-se mapear com precisão espaço-temporal regiões cuja ativação indicam aumento de processamento em circuitos especializados do cérebro. A arquitetura dinâmica de ativação de regiões envolvidas em muitas tarefas cognitivas, por exemplo, produção de linguagem, inferências, emoção etc, são relativamente bem conhecidas. Este não é o caso da dança, ou do ‘cérebro da dança’. O artigo descreve as vias de propagação de informação, do córtex parietal posterior aos músculos requeridos às atividades motoras, e de volta, através de feedback, ao córtex. Alguns dos problemas mais interessantes são os mecanismos neurais envolvidos na execução de movimentos complexos (e ‘graceful‘). Outros problemas envolvem a história evolutiva deste traço ou comportamento. Por que teria surgido a dança? O artigo sugere, mas não explora, a idéia de que a dança pode ter surgido como uma forma de proto-linguagem, já que complexos movimentos ativam áreas homólogas à área de Broca, associada a produção da fala.


Há, ao longo do artigo, muitas sugestões. Por exemplo, mecanismos de imitação, relacionados a ‘aprendizagem social’, são cruciais ao surgimento da dança e são dependentes de estruturas neurais conhecidas como ‘neurônios espelhos’.


Minha sugestão é que se examine com cuidado os resultados deste grupo de pesquisa, e grupos associados mencionados. Há, em ambientes maduros, disputa entre ‘predomínios’ exercidos por diferentes ‘níveis de organização’ dos fenômenos investigados, em termos explicativos (físico, biológico, psicológico, histórico, cultural etc), para não falar de disputas internas, i.e., no ‘interior’ dos níveis, entre teorias, métodos e modelos. As disputas devem ser proveitosas, se não tenderem à muita polarização. Os resultados divulgados no artigo introduzem o que é ainda uma novidade, em termos de história da ciência, ou de história das idéias, nos estudos sobre dança. As considerações sobre as bases neurobiológicas de diversas atividades cognitivas-estéticas, em música, artes visuais, literatura, etc, são uma tendência pronunciada. Os estudos sobre dança devem começar a se beneficiar desta tendência.

João Queiroz é diretor do Group for Research in Artificial Cognition (UFBA/ UEFS)