Projeto UMA / Foto: Danilo Jr.

Final de tarde em Manaus. Após um período de imersão nos arquivos públicos da cidade, em busca de obras raras que me permitissem escrever sobre a cultura e a arte local pertinentes ao século passado, resolvi assistir um espetáculo de dança no Teatro Amazonas. Tratava-se do Projeto de Pesquisa Cênica Corporal UMA, que em 2007 havia recebido o prêmio Klauss Vianna, da Funarte. Era a décima segunda apresentação, sob a coordenação geral e direção artística de Francisco Rider, com a participação de Agnaldo Martins e Damares D’Arc. A proposta conceitual, declarada textualmente no material distribuído ao público, implicava no desenvolvimento de um trabalho no qual, a cada apresentação, fossem modificadas a estrutura da composição cênica, a organização sonora, as projeções de imagens e, as ações executadas pelos intérpretes. Portanto, a cada realização, configurações outras surgiriam, em tese, diferenciando-se das anteriores, mediante um roteiro semi aberto em que a estrada se fazia no próprio caminho percorrido. Propostas cênicas coerentes com a trajetória profissional de Rider, em seus vinte e seis anos de atuação artística, estabelecendo conexões entre Manaus, São Paulo e Nova Iorque, buscando dialogar com as linguagens das artes visuais, teatro, performance e  improvisação.

O cruzamento entre o histórico do diretor e suas atuais proposições levaram-me então, antes mesmo de entrar no Teatro Amazonas, ao seguinte questionamento: como um artista independente, com experiências vividas no caldo da cultura novaiorquina da dança pós-moderna, de ruptura com os espaços hierarquizados e formas consolidadas de composição cênica, se relacionaria com um dos locais simbolicamente mais tradicionais da capital amazonense? Lugar dos grandes poderes políticos e econômicos. Como ele desenvolveria um trabalho mediante a força de um monumento inaugurado em 1896 e com orientação coetânea para mega festivais e difusão de estéticas hegemônicas? Como o público o receberia?

Uma das possíveis respostas: o palco foi transformado em um espaço de maior proximidade com o espectador, que se tornara público partícipe e, em alguns momentos, poderia se solidarizar com os intérpretes (auxiliando-os a carregar pessoas e blocos de concreto), e em outros, se desconfortar com instruções carregadas de ambigüidades, tendo que se justificar e defender mediante uma tarefa não realizada (Você soltou! Por quê?). Configuração de uma cena que se contextualiza também a partir de frases, aparentemente soltas, mas que apresentavam pequenas ironias e sarcasmos referentes aos templos e modelos de beleza da sociedade atual. Outra das possíveis respostas: Os intérpretes assumiram os papéis de propositores, instigando algumas reflexões com suas formas pouco convencionais que, embora já tenham sido elaboradas em outras culturas e outros trajetos históricos, por aqui ainda caminham lado a lado com um virtuosismo acostumado, e uma linguagem mimética cujas obviedades probabilísticas empobrecem a cena. É fato que, no projeto UMA daquele entardecer, não havia corpos ideais sonhando com uma técnica que funcionasse como base para tudo, e nem poderia, porque a experiência e os exercícios corporais, os quais se fundamentavam em diversas abordagens somáticas, levavam a imprevisibilidades desconfortantes para os não acostumados, embora anunciasse os prazeres lúdicos do delicioso risco da participação.

Em cena, macarrões plásticos de cadeiras de balanço, blocos de concreto encontrados no lixo, cabos de vassoura, fitas adesivas e napas em formatos geométricos que serviam para sinalizar os caminhos a serem percorridos. Imagens projetadas sobre o tempo, o aleatório e movimentos em espiral. Tudo coerente com o mote do projeto ao se colocar como uma apresentação de acontecimentos, sujeitos ao sucesso e/ou ao fracasso, no processo, no risco, na experimentação e na fragilidade de sua presentificação, cheias de sentido para alguns, completamente desconexas para outros. Bem assim, como é a vida. Teria somente uma pequena ressalva direcionada à relação dos intérpretes com estes objetos cênicos. Apenas um ponto com o intuito de promover a reflexão crítica sobre o trabalho em desenvolvimento e suas metodologias: a organicidade desejada parece ocorrer enfraquecida em diversos momentos, bem como acaba por demandar intensidade no estabelecimento do diálogo com as formas, texturas, cheiros, pesos e medidas.

Certamente, o caminho não é novo para quem conhece um pouco de história da dança e as propostas existenciais e políticas surgidas na década de 1960, mas é indicativo de outros ares para a floresta cênica de nossa selva urbana. Aliás, o próprio grupo se encarrega de avisar que não são os primeiros nem os últimos a usar estas táticas e ratificam, com veemência e coragem, suas opções estéticas e políticas, impregnadas de soluções pouco confortáveis. Vale ressaltar: o projeto UMA que eu ví, embora tenha causado certo estranhamento, principalmente a um público acostumado às fruições contemplativas e lineares, presta um bom serviço ao entendimento de arte como elemento instigador de novas percepções de espaço, tempo e, corporalidades distintas.

Então… Início da madrugada. Reflito sobre o que ficou da experiência vivida. E um dos comentários que o travesseiro, como um bom amigo que é, sussurra aos meus ouvidos, chama a atenção para o fato de que na dança, atualmente em Manaus, é possível encontrar não apenas bio ou sócio diversidades, tão propaladas na mídia nacional e internacional. Há também a possibilidade de se verificar algo que implique em  cenodiversidade, oxigênio para a cultura e condição sine qua non para colocá-la em movimento. Resta torcer para que o projeto continue a obter recursos e, contrariando as reflexões de Benedito Nunes, para quem a desagregação não é por aqui um acidente, mas quase um imperativo, possa ter vida longa em suas práticas cênicas. Por fim, adormeço, mas não sem antes externar minhas saudações amazônicas a todos os artistas de boa vontade, e sua permanente teimosia em quebrar estes imperativos.