[...] Assim, quando lhes peço que ganhem dinheiro e tenham seu próprio quarto, estou-lhes pedindo que vivam em presença da realidade, uma vida animadora, ao que parece, quer se consiga partilhá-la ou não.
Virginia Woolf, Um teto todo seu
Desde o começo do ano eu queria escrever sobre isso, mas tava faltando coragem, porque é um assunto que não acaba nunca. Não dava pra ficar evitando pra sempre, mas eu evitava. Aí, agora – além de uma série de situações complicadas que me aconteceram ao longo desse tempo e tornaram a questão mais urgente – reapareceu na minha mão esse livro, Um teto todo seu, da Virginia Woolf, que eu tinha lido fazia um tempão. E ele voltou me provocando.
A começar pela ocasião: no trampo. Eu trabalho numa editora, e entre outras coisas, já editei livros sobre contabilidade, empreendedorismo, gestão, o que pintava. Eu tava dando uma primeira olhada num original, apareceu um termo que eu fui pesquisar, e em algum clique desavisado, dou de cara com esse livro. Um PDF não autorizado[1], pelo qual o tradutor e a editora não devem estar recebendo um tostão, mas que foi bem importante pra mim naquela hora.
O livro compila duas conferências que ela deu sobre o tema Mulher e ficção, além de algumas partes que foram escritas especialmente pra publicar. Diante desse tema, como ela explica, em vez de se ater às questões mais teóricas da literatura escrita por mulheres ao longo da história, ela insiste e re-insiste no argumento de que a mulher precisa de “quinhentas libras por ano e um quarto com fechadura na porta para escrever poesia ou ficção”.
De fato, o que ela percebe é que a ficção escrita por mulheres traz as marcas da vida dessas mulheres – ela fica mais na literatura européia a partir do século 17 – que escreviam em meio às conversas das tias, de ter que costurar, bordar e tocar piano. Da necessidade, na maioria das vezes, de um pai ou marido abastado que sustentasse o vício da literatura. Que a arte tem a cara dessa dependência, e é aí que essa conversa se torna importante pra todos nós, os ditos artistas independentes.
Nesse currículo que tá aí embaixo não tá desse jeito, mas geralmente eu colocava assim: “artista independente, residente em Curitiba…”. Mas, junto, sempre apareciam umas perguntas no fundo do ouvido: “Independente? De quê? De grana? Mas se eu to vivo quer dizer que a grana vem de algum lugar, não é?”
O tempo foi passando e eu achei uma resposta que solucionava o problema. Era assim: o artista independente é aquele que não está diretamente vinculado a nenhuma instituição. E eu ia pra vários encontros e debates e falava: o artista independente é aquele que não está diretamente vinculado a nenhuma instituição. Engraçado ninguém nunca ter me perguntado, mas eu me perguntava: “Mas o dinheiro não vem sempre de alguma instituição?”
Sério, porque pensa comigo: do que é que você vive hoje? De arte? De onde vem o dinheiro pra viver de arte? Vive de pai e mãe? De onde vem o dinheiro do pai e da mãe? Se você vive de outros trabalhos, não é em/por/para alguma instituição? Se você vive de rendas e hipotecas? Se você consegue vender o teu trabalho diretamente? Se você tem um mecenas? Em última instância, mesmo se pegar comida do lixo, ela foi patrocinada por alguma instituição. Não foi?
Na verdade, não é engraçado ninguém nunca ter me perguntado sobre isso. Acho meio triste, porque me parece que embaixo dessa pergunta não formulada tem muita covardia. Tem um medo patológico de não ser artista-mártir. E às vezes também tem um medo de olhar com franqueza pra própria vida e ver quem é que patrocina de fato.
Porque é duro. Tem que mudar o dia-a-dia. Fica mais difícil pegar um CNPJ emprestado. Fica mais difícil entrar num edital de uma empresa que rouba todo mundo. Fica mais difícil aceitar uma grana do pai, da mãe. Fica mais difícil dar umas aulinhas numa escola particular com princípios duvidosos, em instituição pública, tirar uns trocos fazendo publicidade, trabalhando de garçom, garçonete, qualquer coisa. Se começar a olhar muito, sempre tem alguma sujeira envolvida. É que nem salada de bufê por quilo.
E, desculpa, mas não tem solução. É isso que eu tenho pra fornecer aqui, agora, problemas sem solução, que têm me deixado pessimista, velho, mal humorado. Pra ter uma idéia, olha como eu ia começar este artigo:
“Artista tem quatro tipos: pobre-idealista, filhinho-de-papai, mau-caráter de sucesso[2] e ex-artista. Se não cabe em nenhuma dessas categorias, o tempo vai fazer caber.”
Mesmo sabendo da irresponsabilidade dessa classificação, tem uma coisa aí que ainda me interessa, que é olhar para o que se produz em arte sob a perspectiva do dinheiro, da origem do dinheiro, que é algo real e que mexe com todo. Que está entrelaçado com o que se produz, como se produz e para quem. As pessoas e as obras mudam dependendo de quem financia e quem compra.
E a amargura presente naquela afirmação é por observar como as pessoas vão se acomodando de um jeito ou de outro. Seja na ilusão heróica, seja no pragmatismo confortável, a gente vai se assentando e para de pensar a respeito.
…
Eu comecei a escrever este texto já faz bastante tempo. Parei, voltei, parei. Sabia que ia sair uma escrita xoxa, difícil. Mas por outro lado, queria ver se aqui, nestas maltraçadas linhas, aparecia uma coisa, um negócio, um gancho pra segurar, uma janelinha pra abrir.
E só consegui mexer nisso de volta porque estou tomando várias liberdades. Sei que tô pulando de galho em galho, que não estou desenvolvendo uma questão específica com propriedade e coerência. Que talvez não esteja colaborando para a construção de uma atitude mais pró-ativa. Comecei querendo definir artista independente, pulei pro dinheiro e, pelo menos até aqui, não contribuí em nada e não esclareci nada. Estou envolvido demais.
Mas é que, pelo menos por agora, não consigo desvincular “artista independente” e “dinheiro”. Não se pode ser artista sem ser uma pessoa, e não se é pessoa sem fazer parte de um sistema, um sistema que também é econômico. Eremita, mendigo, voluntário, monge, bebezinho, todo mundo faz parte de um sistema econômico.
No caso da Virginia Woolf, ela também foge do tema. Propuseram que ela falasse de mulher e literatura. Mas como falar de mulher e literatura sem falar de mulher e dinheiro, num mundo que era, e ainda é, tão machista? Como falar de artista e independência sem falar de dinheiro, num mundo tão dinheirista? As coisas estão grudadas, pois são questões da arte, mas principalmente da vida.
E, ao que me parece, um primeiro passo pra tentar avaliar o que seria essa independência é olhar honestamente pras coisas das quais esse artista, essa pessoa, depende. Por exemplo, depende de dinheiro, de instituições e outras pessoas. Pessoas pra consumir o seu trabalho, pagando ou não, pessoas pra conversar, pra observar, pessoas pra pagar pela continuidade do seu trabalho. Não é muito diferente de qualquer outra profissão.
E do que ele não depende? O que é isso que diferencia um artista independente dos outros? Dei uma procurada no Google e o que mais aparece quando se busca “artista independente” são menções a músicos que não estão vinculados a uma gravadora. Vi, por exemplo, uma manchete assim: Janet Jackson larga gravadora e agora é artista independente. É engraçado, porque nos meios de arte contemporânea que eu freqüento, em que muitos se intitulam artistas independentes, dificilmente devem se imaginar na mesma categoria profissional da Janet Jackson.
Acredito que os contemporâneos talvez se encaixassem no que o sociólogo Pierre Bourdieu chama de “produção erudita” e a Janet Jackson acho que tá mais perto do que ele chama de “indústria cultural”[3].
Vou explicar de leve o que eu entendo desses conceitos. Ele baseia essa distinção principalmente no destino da arte produzida em cada um desses campos. A indústria cultural seria destinada ao público médio – termo que ele mesmo usa. Desse modo, os gostos e interesses do público médio definiriam os parâmetros dessa produção. A produção erudita é feita para especialistas, principalmente críticos e artistas, e se dá de acordo com os gostos e interesses deles.
Aqui é legal fazer algumas observações. 1. o Bourdieu já escreveu sobre isso, então é bom ler o original; não se contentem com a minha interpretação. 2. ele escreveu isso dentro de um entendimento de mercado europeu, em que esses limites parecem bem mais definidos. Aqui, embora não se possa negar a existência desses dois campos, tenho visto muitas possibilidades de cruzamento, e considero essas possibilidades mais importantes que o limite. Acredito que o campo erudito pode se beneficiar muito de uma visão mais realista de mercado e a indústria de discussões éticas e estéticas mais persistentes. 3. para o nosso foco aqui – que é não o destino da produção, mas sim a origem, principalmente do ponto de vista econômico – essas realidades estão ainda mais próximas.
Assim, eu posso inferir que o que tem em comum entre a Janet Jackson e alguém que se denomina artista independente no Brasil é o fato de que nenhum dos dois recebe um salário fixo pra fazer o seu trabalho de arte. Isso significa que realmente muitos artistas, comerciais e eruditos, cabem nessa categoria. Friso “para fazer o seu trabalho de arte”, pois isso permite que o cara possa pegar outros trampos e até tenha alguns dinheiros mais regulares. Mas, inevitavelmente, existem várias dependências na vida do independente.
Entretanto, no Brasil, as verbas para se produzir arte erudita e arte comercial vêm, de uma forma geral, da mesma fonte, que são as leis de incentivo. Novamente, de forma direta ou indireta, estamos dependendo de instituições, que são públicas. O Gianecchini e a Giovanna Antonelli ganham pela Lei Rouanet quando aparecem nos filmes da Globo Filmes[4].
Já o artista contemporâneo independente raramente vai conseguir captar recursos diretamente pela Lei Rouanet, mas talvez em um projeto aprovado pela Caixa, pela Funarte – ou seja, via Rouanet – ou por alguma lei de incentivo municipal, estadual. Embora até coubesse aqui uma longa explanação sobre as carências e os furos das leis, vou tentar manter o foco na atitude dos artistas, no caso, dos artistas contemporâneos independentes, que são os meus amigos mais próximos, pessoas a quem eu posso e quero me dirigir.
…
Quero dizer que não há nada de errado em ganhar dinheiro para fazer o seu trabalho. Muito pelo contrário. Essencialmente, o dinheiro garante que se sobreviva e, sem isso, não sai trabalho nenhum. A Virginia Woolf escreveu assim: “O dinheiro dignifica o que seria frívolo se não fosse remunerado”. Ela não tinha lido o Bourdieu, mas de certa forma, o que ela afirma é que foi a produção comercial, e não a erudita, que garantiu que a literatura escrita por mulheres deixasse de ser uma extravagância para se tornar uma profissão.
Falando da romancista Aphra Behn (primeira escritora comercial da Inglaterra, que viveu na segunda metade do século 17), ela diz o seguinte: “a Sra. Behn provou que era possível ganhar dinheiro escrevendo [...] e assim, gradativamente, escrever tornou-se não um mero sinal de loucura e de uma mente perturbada, mas passou a ter importância prática”.
De fato, se formos fazer uma comparação com o nosso contexto, arte brasileira no século 20 e 21, podemos constatar que, em grande parte, foram os artistas considerados comerciais, e não os eruditos, os que mais apareceram no processo de profissionalização da arte.
Dá pra pensar, por exemplo, em todas essas pessoas que participaram da redação da lei 6.533, que regulamentou a profissão de artista, em 1978. Gente como Vanda Lacerda, Lélia Abramo, Othon Bastos, Paulo Goulart, Nicete Bruno. Dá pra pensar na pressão dos movimentos de artistas, então já profissionais, para a criação de um mecanismo como a Lei Rouanet, em 1991, após o fiasco da Lei Sarney. A visibilidade da indústria cultural ajuda a dar respaldo para a criação das nossas poucas políticas públicas de cultura. E esse tipo de movimentação surge com um bom tanto de idealismo, mas principalmente por necessidade de sobreviver.
Mas são necessidades específicas, de certas pessoas, num contexto histórico bem diferente do que se vive atualmente. Talvez principalmente por esse motivo esses mecanismos hoje não sejam capazes de atender direito às necessidades nem de um campo nem do outro.
Aí é que está a importância desse artista contemporâneo independente, que eu vejo preso num meio termo esquisito. Não está satisfeito com o dinheiro que consegue e, no entanto, ainda não tem coragem suficiente para admitir que precisa, e de se mover para criar recursos específicos de sobrevivência, que atendam ao seu trabalho. E continua usando, quase que exclusivamente, os mesmos mecanismos e recursos que tanto critica.
Disse a Virginia Woolf: “Assim, quando lhes peço que ganhem dinheiro e tenham seu próprio quarto, estou-lhes pedindo que vivam em presença da realidade, uma vida animadora, ao que parece, quer se consiga partilhá-la ou não”. Ela é uma mulher, falando sobre mulheres para mulheres. O que ela está pedindo é que tomem consciência do seu papel no mundo, e o que vai acontecer com a produção artística é decorrente de se viver “em presença da realidade”.
E, aqui no nosso caso, viver em presença da realidade não é aceitar qualquer dinheiro, vindo de qualquer lugar, do jeito que der. Acho que é principalmente perceber que o dinheiro é um dos insumos da nossa produção em arte, e tanto a origem dele, como o jeito que ele é aplicado, determinam diretamente o que a gente faz. Mais do que isso: perceber que é preciso estar no mundo, que o que se faz como pessoa, como cidadão, não está desvinculado do que se faz como artista.
Claro que não dá pra desconsiderar que teve uma participação bem mais significativa dos artistas contemporâneos, inclusive os independentes, na criação de políticas públicas de cultura ao longo dos últimos anos. Em âmbito federal, isso ficou bastante marcado pela atuação desse segmento junto à Funarte durante o governo atual (porém, me incomoda que a iniciativa de aproximação tenha partido principalmente da instituição e não tanto dos artistas).
Agora, eu penso ainda que essa atuação, absolutamente necessária, deve ser não só junto ao poder público[5], como também na criação de meios alternativos de produção e circulação de trabalhos de arte, por meio de intercâmbios, trocas, doações, sei lá. Não que seja errado usar dinheiro público para produzir e tentar viver de arte. Talvez seja legal lembrar que a produção artística não é o único setor que depende disso. Outras coisas, consideradas indispensáveis, também precisam fundamentalmente de dinheiro público, como a agricultura, a importação e a exportação, a educação, a pesquisa científica, ou seja, tudo.
O que é ruim é contar só com isso, e depender somente dos mecanismos que já existem e foram criados por outras pessoas para atender a outras demandas. Já que não há independência absoluta, uma atitude inteligente seria, ao menos, tentar escolher o quanto se quer depender e de quem.
Mas como se faz isso? Eu juro que queria saber. Como já disse, eu não tenho solução nenhuma, apesar de ter passado recentemente por algumas experiências bem sucedidas, quase todas envolvendo alguma restrita verba pública, mas que ocorreram principalmente pelo trabalho duro de gente legal[6].
Porém, me parece que esse tipo de resistência ainda é muito escassa e não resolve tudo. E eu, coitado, sei lá como resolver o que sobra. Só o que eu posso fazer aqui é falar que acho importante sempre buscar alternativas e manter essa discussão funcionando.
Uma coisa que talvez possa ajudar é dividir algumas perguntas, relacionadas às minhas independências e dependências. São perguntas que têm me azucrinado bastante. Olha aí:
- De onde vem a maior parte do dinheiro que me sustenta hoje?
- Eu confio nas instituições que mais patrocinam a minha vida? Tenho com elas algum tipo de afinidade política, ética, estética?
- Eu posso agir para aproximar as instituições que patrocinam a minha vida dos meus ideais de mundo? Eu tenho feito isso?
- Que tipo de concessões eu faço para sobreviver? A quantas corrupções, pequenas ou grandes, eu me submeto para ganhar dinheiro?
- Eu vou me acomodar quando tiver mais velho, será? Que tipo de artista eu vou ser? Vou ser artista ainda?
- Será que eu vou ter que ficar fazendo mil trabalhinhos e passar por todos esses períodos de estiagem entre projetos até morrer? Será que eu vou conseguir me aposentar? Existe alguma alternativa mais interessante?
- Por quanto tempo será que eu consigo coordenar trampos de arte e emprego fixo? Se tiver que escolher, por qual eu vou optar? Por quê?
- Que outros meios podem existir para manter a minha sobrevivência, além dos dinheiros diretamente oriundos de instituições públicas e privadas?
- Como eu posso depender menos do poder público e mais do meu próprio trabalho de arte? É preciso pertencer à indústria para vender meu trabalho?
- Que outro tipo de moeda eu posso usar, além do dinheiro, para comercializar o meu trabalho? De que modo ela pode virar meio de subsistência?
[1] Por enquanto, encontra-se o livro em: http://brasil.indymedia.org/media/2007/11/402799.pdf
[2] Mais adiante eu explicava que nem todo mau-caráter é bem-sucedido, mas geralmente acaba ficando.
[3] BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2003. Coleção Estudos.
[4] Eles não vivem de cinema, mas recebem salário da TV. São independentes?
[5] Aí, a indústria e a produção erudita comumente entram em choque. Um exemplo recente em: http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=35271. O mais esperto seria tentar entender como um campo depende imensamente do outro. Todo sectarismo é burrice.
[6] Dois exemplos foram o encontro “Arte e tecnologia”, promovido pela Phila 7, em São Paulo, e o “Dimenti – Conexão e Interatividade”, realizado pelo Grupo Dimenti, em Salvador. Foram dois eventos, independentes, que me deram vontade de continuar trabalhando, por ver a dedicação e o empenho das pessoas que participaram da realização.

Port



Caro,
acho que é fundamental que existam no mundo pessoas que ainda tenham utopias como indepndência, autonomia entre outras. já pensou que chato seria se todos/artistas tivessem como objetivo acabar num escritório ou banco de universidades ensinando o que é ser artista? o mundo seria um saco e cheio de serial killers, pois todos iriam entrar na norma do mercado institucionalizado!
é claro que dependemos sempre de algo ou de alguém; mas duvidar da sua própria opção de estar no mundo, em que não é o burocrata/tecnocrata, pra mim me parece ingênuo/naive. e quando falas de instituições federais que os artistas utilizam verbas, é demais reduzir o tópico a que você propõe, a psicologia de programa de tv de conflitos entre familiares; pois esse é dinheiro público, e não uma “doação/esmola” do estado.
o problema é que aqui no brasil nossos referenciais óbvios são os artistas que fazem megasucesso ou via globo ou via BBB ou…tudo vai ficando tão corporativo que prefiro a utopia de ouvir alguém dizendo que é independente do que os chatos que estão se matando pela falência da economia mundial.
ai sim, essa falência quem sobreviveria mais facilmente? os independentes ou os que tem um trabalho estável, seu carro novo etc?
acho que arte se faz independente de situação ideal. arte não é uma questão ideal. veja, quando susan sontag foi na antiga Yugolavia,ela não encontrou uma situação ideal. mesmo assim montou um espetáculo underground em plena guerra, em cima de um texto do Samuel Beckett.
acho que o termo independente é mais amplo. ele está muito mais próximo a opções estéticas/conceituais e de estar no mundo, do que a mercado das artes e o ganha pão.
lí um livro há um tempo distante, que acho que não está traduzido para o portugues, um livro sobre arte,em que dois artistas, bem sucedidos, norte-amer5icanos abdicaram de tudo e foram viver numa região isoladada do mundo tecnológico, pois achavam que o mundo era injusto e cheio de injustiças em relação à natureza e ao próprio homem.
mas que absurdo isso meu deus. precisamos sim de não somente um mais milhões de artistas independentes. não podemos deixar que o neoliberalismo falido (veja a tal da economia mundial neoliberal falindo), tome conta de nossas almas e corações!.
não faço arte, sou professor e procuro ter uma vida que considero “independente”, pois procuro não trabalhar para instituições oficiais; acho que voce está reduzindo o problema somente para a esferadas artes, por ser um ambiente que em geral é muito carente,mas existe sim no planeta, outras pessoas que se coonsideram independentes e autônomas. já pensou que até ser autônomo foi institucionalizado?
enfim, me desculpa,mas acho que seu texto é por demais irônico/amargo e com dados históricos por demais superficiais.
PS.o mundo não é feito somente para quem é visto pela história oficial,mas o mundo é cheio de histórias não reconhecidas pela mesma. veja o exemplo do Tom Zé, que passou um longo tempo esquecido da história dos dependendetes oficiais.
há vários exemplos no mundo de pessoas que tem uma vida criativa e mesmo assim, não fica choramingando uma vida artística ideal, ou pequena burguesa.
Gustavo,
Você não tem o poder da independência, mas detém o poder de aticulação das idéias a das palavras, que acabo de ler e que me emocionaram de verdade.
Entendi e endossei seu desabafo.
Só quem faz arte, pode perceber as dimensões do seu texto.
Parabéns pela autenticidade!
Oi Gustavo.
Antes de mais nada, fico feliz em voltar a tê-lo aqui no idança! Surpresa boa.
Sinto-me pessoamente muuuito tocado pelas questões e provocações que traz a público, especialmente nessa época.
Afinal, na vida de “artista indepentende contemporâneo” fim de ano é sempre momento de avaliar o andamento do ano que passa e ficar desesperado com as incertezas com relação ao que se aproxima.
Preciso de mais tempo para tecer aqui comentários mais precisos. Procurarei fazê-lo.
Por enquanto termino todas as prestações de contas e finalizo os projetos que tenho que enviar pras instituições que de uma forma ou de outra pagam minhas contas. Vejam só!
Irônico? Incoerente? Impreciso?
É. Tudo isso.
Vamos conversando.
Olá Gustavo.
Estou com você!
Olhar para a “independência” como uma articulação de experimentação estética com a atuação ética sobre as famosas “circunstâncias dadas” não só ajuda a gente a viver melhor com as nossas consciências e a atuar socialmente, diretamente, na transformação do mundo na direção daquilo que a gente quer, mas nos ajuda PRINCIPALMENTE a compôr obras verdadeiramentes integradas ao nosso tempo, que também atuam pela transformação social, mas a seu modo, como arte. Obras que são, pra mim, as únicas “obras de arte” possíveis. Se ir em busca de grana a gente já tá careca de saber que não serve, precisamos nos conscientizar de que o idealismo também não serve. Uma boa lupa voltada para os acontecimentos, muita atenção com o que nos passa, com o que fazemos, para com os nossos: são nossos melhores instrumentos para a criação.
Desde o renascimento, a arte está sempre ligada as questões financeiras. Nós, artistas não somos almas, a gente bebe, come e caga como tudo mundo e infelizmente ou felizmente estamos inseridos nesse mundo capitalista. Acho bobagem essa expressão antiga de “faço arte por amor”, é óbvio que fazemos arte por amor, mas devemos ser sim, muito bem remunerados por isso.
O dinheiro inevitalmente é algo que deve estar em mente na hora da criação. Pois para um artista criar, ele precisa de um espaço, de material de qualidade, de lugares para sua obra seja destribuida. Enfim.
Eu sei, que pensar nisso é sempre uma dor de cabeça, esses editais, captação de recursos privados, etc… Mas é a realidade ,e não tem como fugir disso. Não existe outra moeda para comercializar nosso trabalho.
O importante é mesmo é manter nossos principios e principalmente continuar lutando, fazendo Arte, pois acredito realmente que ela é a única forma de manifestação que sutilmente mais de forma poderosa pode salvar o mundo.