Sweet & Tender / Foto divulgação

“A revolução verdadeiramente revolucionária realizar-se-á não no mundo exterior, mas na alma e na carne dos seres humanos”

A frase é de Aldous Huxley, no prefácio do livro Admirável Mundo Novo. E esta é a grande questão, e o grande engano, com que o tema das novas narrativas, para um mundo que se expande e se estilhaça em muitas direcções, tem de lidar.

A revolução é interior, na alma e na carne, e é pessoal, íntima e do indivíduo.

Esta afirmação tem implicações ao nível do entendimento do perfil do artista hoje e das estratégias possíveis para comunicar a arte. Falemos então de uma arte pessoal, de autorias individuais que expressam urgências de alguém que tem algo para dizer, e da comunicação participativa.

1. O que significa isto?

Estamos demasiado focados naquilo que nos é exterior. Como se nesse exterior habitasse o potencial para a criatividade transformadora. Na verdade, o mistério da imaginação e da invenção transformadora existe já, e desde sempre, num lugar que é interior. Ou interior em cada um, ou interior numa relação. No caso de uma relação torna-se um espaço “entre”. Em todos os casos é potencialmente um lugar/situação de intimidade. Debaixo da pele – “na alma e na carne dos seres humanos”.

2. Presente

Desenhado em traços muito gerais, situo-me no presente.

Estamos no momento pós gesto libertador de tudo aquilo que era uma mera ornamentação artificial, de libertação da dança de tudo o que eram obrigações formais e convenções, para se reencontrar, no corpo e no pensamento, consigo própria, com o ser que existe em plena dimensão humana, reconduzindo esta arte com autonomia à sua dimensão poética e à sua essência. Volta a ligar-se ao real, ao sensível, e reactiva essa dinâmica de comunicação. O que caracteriza este momento?

Alguns traços gerais:

1. Realismo Crítico

Surge então, uma reaproximação ao real, uma renovada implicação da arte com o contexto social, humano e político onde se insere. Há artistas – recordo-me de Meg Stuart ou Francisco Camacho, por exemplo – que falam de uma responsabilidade ética da arte. A verdade é que este reencontro da arte com a vida não é uma relação de mera descontextualização, como aconteceu no início, ou pesquisa formal, mas é uma problematização do real por via da arte, uma implicação mútua. Ao ponto de, por vezes, a distância entre documentário ou documentação e ficção ser pouco identificável.

Há aparentemente uma simplificação da linguagem e uma comunicação mais directa, que torna mais imediato o diálogo, entre artistas e público, aparentemente menos complexo e denso que a fragmentação pósmodernista. O que, apesar dessa aparência, está longe de significar que a ideia concretizada, o conteúdo que a forma veicula, seja menos complexa.

“Postmodernist writing celebrates ambiguity and complexity while realism struggles for clarity and simplicity. Critical realism does not always achieve its goals in this regard (…)” but one thing they assure, is that if the ideas seem difficult to grasp, is because the ideas are, themselves «what is complex rather than merely their mode of expression”, do livro “after postmodernism”.

2. A continuidade como ruptura

Há uma revalorização do passado, do património, da memória. Não no sentido de a repetir, ou repetir os seus códigos, e certamente ultrapassando a anterior atitude de ruptura ou a decisão de o ignorar. Isto tem várias implicações, desde logo na possibilidade do amadurecimento de conhecimentos. Cada artista parte de um patamar de integração destas liberdades alcançadas por gerações anteriores, desde logo dos formatos e dos códigos. Cada artista integra, em si, ele próprio a colaboração, porque é já um híbrido no conjunto de competências que domina e um nómada entre culturas, geografias, saberes e linguagens artísticas. Significa que não verificamos já exactamente uma ruptura relativamente aos que o precederam, são espécie de irmãos mais novos que prosseguem o sentido da pesquisa, afirmando de forma mais enfática a personalidade artística e uma renovada urgência de algo que têm para expressar. Há um reaparecimento de urgências. Isto ao nível individual, do artista, mas também num sentido mais colectivo, porque a história é constantemente convocada, reavaliada, reconstruída, revisitada ou questionada. Por algum motivo, a bienal de Lyon se chama Retour en avant (Return to the past)?

3. Narrativas do movimento

Há uma revalorização da dimensão poética/conteúdo, mesmo em casos onde a vertente conceptual é marcante e consequente. Diria mesmo que, em alguns casos, há uma recuperação da ideia de narrativa, do contar histórias, mesmo que não de forma linear ou literal. Isto traz implícito o recuperar também de um desejo comunicante, por oposição à fase mais puramente experimental, fragmentária e abstracta das últimas décadas do século passado.

4. A relação com o outro

Este é um dos aspectos fundamentais, normalmente associado às questões do interculturalismo, mas é muito mais complexa do que isto. Entendo-a como sintomática desta reconexão da arte com a realidade, que por vezes assume carácter político, ético ou pelo menos de algum modo problematizante. Mas nesta questão da relação com O outro não estamos a falar apenas desse diálogo intercultural, estamos a falar da questão mais básica e complexa, que é a relação entre indivíduos, a questão mesma da relação, a questão do indivíduo consigo mesmo. É uma problemática que está presente a diversos níveis: ao nível multicultural mas também na ideia de que a comunicação se faz entre indivíduos e é a soma de indivíduos que constroem a comunidade e o colectivo. E do mesmo modo que se torna importante repensar noções como proximidade e distância, centro e periferia – sobre as quais haveria muito a dizer – ou, por exemplo, conceitos como o de criação, torna-se também importante interrogar a partir de que olhar nos debruçamos sobre o outro?

- Quem é o outro?

- Aquele outro que supostamente está supostamente no que é considerado supostamente a periferia deste suposto centralismo que é a cultura ocidental?

Tão preocupados que andamos na produção e nas trocas de mercado, que nos apressamos em produzir o artificial. Desligamo-nos do corpo. Automatizamos o gesto. O juízo produz-se, também ele produto, mecanicamente.

5. A procura da inocência perdida

As questões que levantei antes estão relacionadas com a urgência de algo que, se não verdadeiro, pelo menos honesto.

Talvez a reconfiguração do corpo, reabilitando o conhecimento como poder, do outro e de si próprio, esteja em algo mais essencial e próximo de uma pureza, honestidade, e inocência cujos vestígios restam em nós como sombras e fantasmas. Cada vez mais invisíveis e menos tangíveis. Nesse Outro, um outro distante do domínio das estratégias, políticas e económias da arte, talvez respire ainda essa inocência que precisamos recuperar. Enquanto nós nos debatemos no conflito entre a tentativa de preservar a memória e a atracção pelo esquecimento. Porque a dança sendo também movimento que produz no pensamento não é meramente intelectual, também é sentimento e sensibilidade poética. É sonho e utopia.

6. Dupla exposição.

Depois da rejeição da representação, no manifesto de Yvonne Rainer, na década de 60, e da defesa da qualidade de uma presença em palco, esta – a qualidade da presença em palco – torna-se duplamente representação e presença. Elas coexistem, alternam-se ou sobrepõem-se. Não se fixam numa só, são fluxos instáveis.

Outros elementos que identifico, mas que vou apenas enunciar, para não me prolongar:

7. Noção de arte implica uma ideia de construção, mas agora de construção de sentidos, em que não basta já apenas o tornar presente uma imagem, ou descontextualizar uma acção ou objecto, cujos significados foram alterados com o tempo;

8. A recuperação de uma ideia de arte artesanal, que recorre a materiais vários para executar, por vezes literal e manualmente, a construção de um imaginário

9. A ideia como o elemento fundamental do objecto, quer se concretize por via da exposição do processo, em forma de conferência ou mesmo de uma peça acabada

10. O tempo do espectáculo como consciência crítica do tempo real, daí uma gestão de ritmos distinta, em que os picos de intensidade e o intercalar de momentos de maior dinâmica com maior contemplação tradicionais possam ser rejeitados, antes propondo um tempo que interrompe o tempo mental da vida actual

11. Elogio da proximidade e da diferença;

12. É ainda de fragmentação, desequilíbrio, instabilidade e caos que ensaia o instautar de uma possível ordem, lugar de utopia e crítica do real;

13. De intimidade partilhada, resultante de uma disponibilidade e desejo de conhecimento do outro, não produto de uma relação que se activa no imediatismo, porque essa é a dimensão do espectacular e do mercado do entretenimento, que não no espectador qualquer vestígio;

14. Valorização das pequenas percepções, imagens nuas e invisibilidade, lugares de sombra e foras de campo;

15. Proximidade, afectividade, deslocação do olhar e do entendimento;

16. Da obsessão pela colaboração passamos para a múltipla personalidade ou auto-colaboração (da verticalidade para a horizontalidade);

17. Precisamente de proposta de interrupção da condição de espectador, que é a condição humana actual;

Questão que me parece importante colocar:

Não estará na altura de aceitar a ruína dos supostos parâmetros reconhecíveis da moldura contemporânea europeia?

Se sim, então, como interrompemos os nossos pressupostos? Porque eles estão viciados pelo jogo da mentira, do espectacular, da pura estratégia de mercado. Nada disso tem sustentabilidade ou é transformador do mundo onde vivemos e esse é o papel e o lugar da arte.

A questão torna-se ainda mais relevante quando tantos falam de que os artistas se devem pôr em risco, errar, que se devem permitir vulnerabilizar, partilhar fragilidades e expor algo de interior, de delicado, pulsante… Com tanto faz-de-conta e mentira, precisamos de alguma honestidade.

Não é apenas a obra que está aberta, como defende Umberto Eco, mas cada um de nós é uma possibilidade em aberto. E, melhor ainda, um ensaio em aberto.

Os diálogos culturais devem ser construídos na multiplicidade. Mas seria interessante podermos olhar o outro deslocando o nosso olhar do lugar de onde estamos para um lugar que esteja em aberto, um lugar que não existe, ou um lugar em permanente construção. Nesse movimento do olhar, seria interessante habitar esse lugar que não existe mas guardando o lugar onde estamos e a distância/proximidade entre os dois.

Mas então, como se inventa esse lugar para o olhar que não é um não lugar de Marc Augé mas é um lugar inexistente?

Talvez possa ser apropriado um lugar “entre”, como nestas artes, um lugar entre indivíduos. Giorgio Agamben fala das possíveis formas de viajar, ou a arte de tornar visível o outro em nós. Porque não partimos nessa viagem, com a mesma responsabilidade que esperamos que os políticos façam no desempenho das suas funções? Reclamamos que as políticas se desenhem a a partir do terreno, informada pelos artistas. Seremos hipócritas? A verdade é que não é com esse olhar que tocamos, ou somos atravessados, por uma proposta artística. Posicionamo-nos mais com um olhar carregado de referentes definidos, formatados, cristalizados. Mesmo que esse olhar convoque, no seu discurso, categorias que expressam um desejo de liberdade ou palavras e conceitos que sugerem romper com essas normas – como transdisciplinar, híbrido, indisciplinar, criação, peça, performance… – mas, no fundo, são novas e mais artificiosas prisões com que atamos o movimento do corpo e do pensamento.

Aquilo que tornamos visivel em nós, quando olhamos o outro, é normalmente o reflexo ou ressonância de um eu. Portanto, o desafio seria destruir a cada novo olhar os referentes específicos, ser criativo no inventar de referentes efémeros, que signifiquem uma aproximação a um outro, ou a múltiplos outros, num lugar “entre”.

O colectivo faz-se da multiplicação de muitas espeficidades e muitos dois entrelaçados e em constante troca de parceiros ou cúmplices. São as redes. São pelo menos as redes que funcionam.

Temos um modelo de sociedade em crise, sustentado por uma lógica de mercado asfixiante. Por oposição, esta dança, que é movimento que é corpo e pensamento, neste trabalho invisível, de questionamento, de libertação do gesto da sua lógica funcional, de trabalho de experimentação, tem o desejo de viajar para o desconhecido, e aí recuperar o sonho e superar a crise, porque a acção constante do contemporâneo é o corpo que se coloca em desequilíbrio e que, por um instante, encontra um equilíbrio precário, que novamente se desequilibra. E nesse balanço vai mudando de posição porque, como escreveu o coreógrafo Rui Horta um dia, dançar é mudar de posição.

Há muitas estruturas que conheço e falam de inventar algo em conjunto, na disponibilidade para se organizar em função de um artista ou de um projecto. São projectos que trabalham no “entre”, daquele “entre” que referia, mas também no “entre” definições artísticas – teatro, dança, música, literatura, pensamento, artes plásticas.  São permeáveis ao que existe de fora. Esse espaço “entre” é um lugar de privilégio para estar, que é um por natureza inter-relacional, e por isso mesmo o lugar onde a troca, a partilha, a descoberta, a esperança e o futuro podem acontecer.

Exemplos e propostas concretas:

- Skite/Sweet & Tender (a primeira foto é de parte dos artistas do grupo e a segunda é de um dos trabalhos realizados na edição 2008, na cidade do Porto)

Este é um projecto emblemático de muitas das questões que tracei e que identificam o perfil do artista. É um agrupamento de 40 jovens artistas, não é um colectivo nem uma estrutura nem companhia, mas o encontro das 40 individualidades que se juntam num momento comum para, nesse colectivo provisório, conseguirem maior poder individual para invidualmente realizarem os seus projectos individuais

Durante um mês inteiro, criadores de diferentes disciplinas e de diferentes origens geográficas partilham um mesmo espaço, nesta segunda edição vai ser no Porto, num  encontro que tem por objectivo experimentar modos de troca artística, criação e produção,  numa dinâmica constante de mostra e debate e feedback. É um projecto jovem e de iniciativa individual que se viabiliza recuperando o conceito histórico que foi o SKITE, organizado no início da década de 90 por Jean-Marc Adolphe, da Mouvement, de encontro e troca informal e experimental de artistas, que estabelece um diálogo privilegiado com o local ou cidade onde decorre mas imediatamente se inscreve numa lógica internacional. A ideia de pesquisa partilhada é uma das estratégias utilizadas, uma mais criativa é a ideia de convidar a adoptar um participante, estimaram que a participação de cada artista fica em cerca de 2.500 euros e convidam quem quiser, pessoas, entidades públicas ou privadas, a ‘adoptar um artista’ pagando as despesas de participação. Eles apresentam-se precisamente como “ferment of new aesthetics and new models of creation”

- Acompanhamento e desacompanhamento artístico

Na moda dos acompanhamentos artísticos, é importante pensar nesse acompanhamento como ideia de ser cúmplice e que talvez possa ser gerador de maior criatividade quando permite ao artista a possibilidade de decidir estar desacompanhado, porque deve ter o direito de escolher esse desacompanhamento.

Desse direito ao desacompanhamento, faz parte recuperar a noção de liberdade, como direito de qualquer indivíduo, que dela se deve apropriar.

Seria importante explorar estratégias criativas no que diz respeito à comunicação. Por exemplo, aplicar a noção de acompanhamento aos espectadores. Refiro o caso do Buda Arts Centre que tem um programa de “companheiros”, em que o olhar que acompanha e se debruça sobre a pesquisa artística é de um público não especializado mas que se disponibiliza para ser cúmplice. É importante pensar que a incorporação do conhecimento que falamos, que é gerado por esta dança, pode passar também pelo corpo dos espectadores, numa lógica da comunicação participante, seguindo a lógica das tendências da informação actual e mesmo da arte que, muito frequentemente, faz do espectador um participante do acto artístico.

- Temos então a transmissão e a comunicação participada

Talvez seja interessante lembrar que Platão acusava a escrita, supostamente veículo de fixação e documentação da memória, de ser forma de alimentar o esquecimento mais voraz e menos vivido.

Estou a explorar um projecto de experimentação de formas de transmissão e proximidade com os públicos com a Laboral Escena, de Gijón, em que estamos a discutir transpor para a relação com os públicos o que as artes têm feito: apropriar de estratégias e procedimentos de outras linguagens. Significa, por exemplo (isto está em construção): explorar a noção de visita guiada, mas ter um guia que é alguém que acompanha um grupo a um espectáculo e que depois discute com ele formas de ver; ou a ideia das gravações áudio, acessíveis para quem esteja interessado em ouvir o artista falar da sua obra ou escutar alguém a fazer uma possível interpretação de uma obra etc.

- Inscrição no espaço público

A importância de colocar em relação estratos distintos das dinâmicas sociais, criar projectos que põem em relação artistas e, por exemplo, empresas privadas. O desafio é encontrar formas criativas que inscrevam a dança no espaço público por vias alternativas às tradicionais, que era o papel desempenhado pela comunicação social, que se tem demitido desta funções.

- Ideias práticas:

a. Mais do que a cartografia artística, julgo que neste momento seria importante fazer um levantamento das boas práticas, de formas de funcionar que sejam exemplares nas várias áreas da acção artística;

b. É fundamental construir relação entre a comunidade artística e as outras comunidades, políticas, economia privada, a sociedade civil…

c. Redefinir a linguagem e os conceitos utilizados, questionando os existentes, e apropriando para o discurso artístico, em qualquer dos seus níveis (de produção, de comunicação, de teorização, de fundamentação), expressões e termos importados da linguagem do cidadão comum, trabalhando com ele, e da área da gestão e da economia. É a única forma que vejo de construir um código de comunicação comum que extravase o meio da arte.

Claudia Galhós é jornalista e crítica de dança portuguesa.