sinal amarelo / Foto divulgação

A comunidade de dança da cidade de São Paulo sofreu um baque na última sexta-feira (6/02). Por questões orçamentárias, o prefeito reeleito Gilberto Kassab determinou o adiamento dos editais previstos para 2009 conforme determinado pela Lei de Fomento, além de ainda não ter efetuado o pagamento dos selecionados na última edição do Programa. A notícia foi recebida com indignação e a classe já organiza uma manifestação para esta sexta-feira (13/02).

De acordo com a Lei 14.071, de 18 de outubro de 2005, a Secretaria municipal de Cultura deve abrir editais de fomento à dança nos meses de janeiro e junho, podendo ser selecionados 30 projetos por ano. “Essa lei permite que companhias e núcleos realizem projetos de pesquisa com continuidade. Ela reacendeu a dança em São Paulo com mais produções, pequenas temporadas, reocupação de espaços antes inutilizados. Agora a prefeitura não reconhece nada disso. É um golpe mortal na dança de São Paulo depois de anos de luta para criar a Lei de Fomento. Isso é um problema não só para a dança, é uma crise no estado de direito já que uma lei não está sendo cumprida”, analisa o produtor e pesquisador Marcos Moraes.

O produtor Amaury Cacciacarro Filho – um dos responsáveis pelo Festival Contemporâneo de Dança – vê com pessimismo o ato da prefeitura. Ele lembra que até 2008 foram contemplados 75 grupos em cinco editais, 1.300 espetáculos com ingressos gratuitos, feito possível apenas com a existência da lei. “Interromper esse processo significa paralisar toda uma produção. É claro que uma notícia como essa causa indignação na classe. Como produtor, esse é um o maior impacto negativo que já vi acontecer para a dança da cidade nos últimos anos”, opina Amaury, lembrando que a atual administração municipal foi reeleita, ou seja, na teoria não havia motivos para grandes mudanças. “Nesse contexto, o Núcleo de Dança de São Paulo está sendo desmobilizado… Eu só vejo agravantes, não acho que tende a melhorar. Acho muito estranho que tudo isso esteja acontecendo agora e não acredito que seja uma medida passageira”, reflete.

A coreógrafa e bailarina Letícia Sekito se diz chocada com a notícia da suspensão dos editais. “A prefeitura diz que não tem dinheiro, mas como? Me sinto traída quando ouço isso, é um retrocesso de cinco anos, pelo menos, quando ainda lutávamos pelo projeto de lei. Para mim, a secretaria fica em total descrédito diante da classe e deixa uma questão importante: quem sai ganhando com a suspensão do fomento?”, pergunta.

Coreógrafo e diretor da Cia. Borelli, Sandro Borelli faz coro com Letícia no que diz respeito ao retrocesso da atitude da secretaria. “Foi uma atitude infeliz, tecnocrata e estúpida. Ao invés de melhorar o que foi uma conquista da classe da dança de São Paulo, simplesmente é passada a caneta e cancelado o que foi um importante avanço”, afirma. Para ele, a saída é mesmo a mobilização da classe. “Temos que ir para cima, nos mobilizar nacionalmente! Como disse Che Guevara, é preciso pegar em armas e derrotar idéias inimigas e nefastas. Já era previsto isso acontecer com a eleição deste senhor (Kassab).”

Além da suspensão dos editais – sem previsão de abertura – outro problema atinge uma parte dos artistas: o não pagamento dos contratos da 5ª edição do edital de fomento, realizado em 2008. “Eles sempre jogam o pagamento para o fim do ano, o ano vira, e isso acaba entrando no orçamento seguinte”, lamenta Marcos Moraes, um dos contemplados da 4ª edição.

O idança entrou em contato com a Secretaria municipal de Cultura, mas o secretário, Carlos Calil, não pode atender aos pedidos de entrevista. Em nota publicada no site da SMC, a assessoria de comunicação justificou a suspensão do edital da seguinte forma:

“Por motivos alheios à nossa vontade os contratos referentes ao 5º edital do Programa Municipal de Fomento à Dança, lançado em outubro de 2008, não foram pagos naquele ano. Essa despesa passou a onerar o orçamento de 2009 e será imediatamente liberada. Assim, em vista do contingenciamento de 1/3 do orçamento da Secretaria de Cultura, novos editais só poderão ser lançados à medida que os recursos sejam liberados.”

A assessoria informou também que os contratos pendentes referentes ao último edital serão pagos ainda em fevereiro.

Diante da situação, os profissionais de dança estão se mobilizando para um encontro nesta sexta-feira (13/02), na Galeria Olido – exatamente um dos locais mais beneficiados com a Lei de Fomento -, a partir das 14h, para a realização de um abaixo-assinado em repúdio à medida da prefeitura (o documento também está disponível online. Clique aqui.) Às 15h, uma comissão entregará o documento à Secretaria municipal de Cultura.  “Começamos 2009 com uma reunião de mobilização, acho que esta será a batalha do ano”, prevê Letícia Sekito. Uma batalha que não se mostra nada fácil.

Acompanhe a repercussão da medida da Prefeitura de São Paulo nos jornais Folha e no Estado de São Paulo.