Tombo / Foto divulgação

“Não podemos realmente voar para outro planeta. Porém podemos recapturar a sensação de ter tombado num mundo novo, olhando para nosso próprio mundo de modo pouco familiar”.  A frase de Richard Dawkins, do livro Desvendando o Arco-Íris, serviu de inspiração para o trio Thelma Bonavita, Cristian Duarte e Thiago Granato pensar o espetáculo Tombo, que estreia nesta quinta-feira (5/03), na Galeria Olido, em São Paulo.

No entanto, mais que tratar de ambivalências, de novos olhares, Tombo é antes de tudo uma mistura de resultados do projeto desaba, criado por Thelma e Cristian – Thiago entrou depois – que começou em novembro de 2008, em São Paulo, e que promoveu oficinas, palestras, criou um blog e organizou residências artísticas com a participação de gente das mais variadas disciplinas. “Tombo não é um final, mas a síntese possível do projeto desaba. Todas as nossas ações apontavam para ele”, explica Thelma.

O desaba é a tradução do pensamento que sempre seduziu Thelma e Cristian em suas trajetórias profissionais: desvendar o processo criativo. “Nossa preocupação sempre foi com o ‘como’ e não com o ‘para’. Queríamos dar autonomia para outros artistas sem pensar no projeto final. Queríamos criar um contexto para que várias ações possam acontecer futuramente. E isso é política cultural, é criar algo que tenha continuidade”, analisa Thelma.

O projeto teve início em novembro com a realização de um ciclo de palestras que reuniu gente de formações tão distintas quanto a do semioticista Jorge de Albuquerque Vieira, a curadora e psicóloga Suely Rolnik e o dj Jackson Araújo. Do lado dos artistas, a pluralidade também foi grande, com a adesão de estilistas, atrizes, videomaker, artista plástico e, claro, bailarinos. Uma curiosidade: a seleção foi feita através de biografias falsas, contando pontos o projeto de cada um e não a sua formação.

Desde o início, a ideia sempre foi compartilhar as ferramentas de um processo de criação com outros artistas interessados, formando uma rede, um ambiente propício à criação e espalhando conhecimento. “É como um guarda-chuva. Se está chovendo, eu uso e abrigo outras pessoas comigo. Quando para, cada um segue seu caminho”, compara Thelma.

Ao demonstrar interesse nas questões dos modos de produção em dança, Thiago Granato acabou se juntando ao projeto em 2008. Ele lançou questões no blog -ativo até hoje – e ajudou na criação de Tombo. Pelo desaba, o trio recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria Pesquisa em Dança. “É um reconhecimento saber que existe uma categoria com o nome ‘pesquisa em dança’, sinal de que as coisas estão mudando. Não se faz dança apenas na sala de aula”, comemora Cristian.

Assista abaixo ao vídeo que o idança gravou com Cristian e Thelma.

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Apesar da avaliação positiva e da premiação, 2009 não será um ano fácil. O projeto, que havia sido contemplado com o 4º edital do programa de fomento à dança, é um dos muitos que espera definição sobre a suspensão dos editais futuros. “É hora de avaliar e melhorar o projeto e aguardar o que será feito. O secretário municipal de Cultura (Carlos Augusto Calil) deu um prazo para a situação se normalizar”, ressalta Cristian (para saber mais sobre a polêmica da suspensão dos editais de dança no município de São Paulo, clique aqui).”A dança nunca teve ambiente favorável para existir. E o desaba vem dessa vontade de existir, é uma busca de oxigênio”, resume Thelma.

Tombo fica em cartaz até 15 de março na Galeria Olido (Avenida São João 473, Centro. Telefone: 11 3331-8399). De quinta-feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h. De 19 a 29 de março, o espetáculo estará no Teatro Itália/Teatro de Dança (Avenida Ipiranga 344, República. Telefone: 11 2189-2557). Quinta e sexta-feira, às 21h; sábado, às 20h; domingo, às 19h.