Alagoas, ano 2007, é implantado na Universidade Federal o segundo Curso Superior de Dança do nordeste desde a criação do curso da UFBA na década de 50 do século passado. Essa conquista implica uma série de responsabilidades e preocupações para nós. Uma delas, as perspectivas do campo de atuação dos alunos egressos desse curso. Neste sentido, as discussões sobre o ensino da dança na escola têm tido grande urgência entre nós.
Dentro do amplo e complexo universo que envolve as discussões sobre o ensino da dança na escola, pretendo, neste texto, tocar em algumas questões relativas ao contexto alagoano em particular. Localizo a discussão em torno da pesquisa que desenvolvo sobre os processos de ensino/aprendizagem das danças brasileiras e as possibilidades da escola atuar enquanto mediadora social através desses processos.
Parto da observação à resposta alagoana a uma pergunta elementar que toma parte das inúmeras indagações que permeiam as reflexões sobre o ensino da dança na escola: qual dança ensinar?
Em Alagoas, as chamadas danças folclóricas (às quais prefiro me referir como danças brasileiras) costumam ser defendidas como imprescindíveis na escola. Os discursos de defesa da presença das danças brasileiras na escola geralmente justificam-se pelo fato dessas danças serem consideradas representativas das nossas “raízes culturais”. Praticando-as, a escola estaria cumprindo seu papel de “resgatar as tradições” e assim “fortalecer a identidade cultural” local, regional e nacional.
A partir desse panorama e localizando o modo como se dá a presença das danças brasileiras nas escolas alagoanas, pergunto-me se esse modo cumpre os objetivos dos discursos que justificam sua imprescindível presença na escola e que noção de tradição e de identidade esses discursos veiculam?
Em Alagoas é comum a presença das danças brasileiras na escola de forma eventual, isto é, aparecem em eventos comemorativos como as festas juninas ou o mês do folclore, por exemplo. Esse modo eventual atende ao aspecto da prática da dança, do fazer constituído pela apreensão de um repertório de movimentos pré-existentes. Por vezes, além da participação nos ensaios é solicitado aos alunos que realizem pesquisa bibliográfica sobre os aspectos históricos dessas danças, ou, o próprio professor efetua leitura de texto de referência para o público presente durante as apresentações dos alunos.
A leitura das referências teóricas parece denotar a tentativa de se dar um caráter mais aprofundado na relação estabelecida com a dança apresentada. Porém, o que se observa é que a perspectiva histórica utilizada traz uma noção de tradição atrelada à idéia de imutabilidade, de estagnação.
Como poderia então a criança e o jovem se identificar com algo que faz parte de um passado que não se comunica com a dinâmica de seu mundo contemporâneo?
Parece-me urgente refletirmos sobre o conceito de tradição para, assim, encontrarmos um lugar para as danças brasileiras que lhes retire o “cheiro de mofo”. Um lugar que esteja distante daquela imagem de que elas são realizações de pessoas idosas, guardiões da nossa memória e do nosso passado e que, por um motivo que não sabemos com clareza qual é, precisamos ajudar a manter preservadas e inalteradas através dos tempos.
A mesma preocupação está presente quando se trata de pensar a memória. Inserida no fluxo da contemporaneidade e na dinâmica própria dos novos universos com os quais se relaciona, a exemplo do universo turístico, a memória tornou-se um “valor” e, assim, os objetos com os quais comumente se conecta (a cultura popular, os eventos históricos particulares, personagens etc) estão igualmente sujeitos às mesmas lógicas das circunstâncias.
Pode parecer elementar chamar atenção para estes aspectos, mas, de um modo geral, no contexto das escolas alagoanas esta ainda é uma tecla a se bater. Ainda é preciso despertar para a necessidade de transformação para a permanência de uma tradição, aproximando-nos da noção de que não há vida sem movimento, cuja natureza engendra em si a superação da ideia que opostos são antônimos. Avançar na noção de tempo/espaço e admitir a interrelação entre permanência e mudança. Esta perspectiva parece configurar um desenho circular em oposição à linearidade que a noção de um passado e um futuro infinito nos traz (seria a preponderância do círculo nas danças tradicionais um sinal sintático desta perspectiva?). Neste sentido, é evidente a necessidade de considerar os aspectos contraditórios e complementares entre tradição e ruptura para adentrarmos na complexidade das relações entre permanência e mudança no mundo contemporâneo, sobretudo quando se quer discutir a ideia de identidades.
Hall (2004) explora a ideia de que “as identidades modernas estão sendo ‘descentradas’, isto é, deslocadas ou fragmentadas”. Sua discussão traz à tona aspectos dialéticos sobre a noção de descentramento que subsidiam a reflexão acerca do fenômeno da globalização de modo a analisá-lo em seus aspectos contraditórios, pois, se a princípio nos é sugerido a perspectiva de homogeneização das identidades, por outro lado, o global trouxe a tendência da valorização do local.
Quando as discussões sobre os efeitos da famigerada globalização parecem enfadonhas e redundantes, as escolas alagoanas, ao abordarem as danças tradicionais, ainda estão seguindo os rastros da perspectiva “romântica folclórica”. Para trazer uma aproximação mais concreta dessa noção dialética do fenômeno da globalização proposta por Hall, uso o exemplo do movimento mangue beat[1], que claramente apresenta a tendência de valorização da cultura local sem negar o acesso à cultura universal.
O movimento mangue, na medida em que fomenta a influência recíproca entre conhecimentos produzidos em diferentes contextos, históricos e socioculturais, numa retro-alimentação contínua, funciona ao mesmo tempo, como uma espécie de mediador social, catalisando a “atualização da tradição” aproximando diferentes gerações, classes sociais e modos de operar em arte.
A natureza multicultural do exemplo acima citado poderia levar à discussão sobre a questão dos mercados culturais globais. Não é essa a minha intenção aqui, muito embora, seja importante chamar a atenção de que o professor não deve se alienar na ideia de que estes mercados, fundados em torno da noção de multiculturalidade, estão “… baseados numa etnodiversidade valorizada como simultaneamente pacífica, humanista e unanimemente ‘global’”. (LEPECKI, 2003). Ao contrário, cabe ao professor mover sua atenção sobre os novos revestimentos dos processos “colonizadores” existentes no mundo globalizado, o que seria um importante aspecto a considerar no que tange a importância da prática das danças brasileiras na escola. Meu intuito é, também, utilizar o exemplo do movimento mangue nesse momento do texto, para refletir sobre a relação da escola com os saberes artísticos que são produzidos na sociedade.
Como se dá a relação da escola com a arte que é produzida fora dela? Por que não enxergar na relação com os movimentos artísticos, com os artistas, com suas obras e suas poéticas, a possibilidade de extrair subsídios para a criação de alternativas de uma aproximação real da criança e do jovem com as tradições culturais de seu país e região? Por que não pensar em experiências significativas que não atinjam apenas a ordem do discurso, desatrelado da experiência de modo a garantir que a prática, a reflexão, a contextualização estejam interligadas nos processos de ensino-aprendizagem da dança, permitindo a construção de sentidos, e assim re-significando essas danças no mundo contemporâneo?
Quando acima me referi a uma aproximação real, apontei para um interesse pela dança no sentido do prazer e da curiosidade que a relação com esta manifestação possa suscitar, da produção de conhecimentos que uma abordagem que interrelacione o fazer e o refletir possa trazer e a possibilidade de interferência desta experiência na percepção do mundo.
Para que o ensino da dança seja eficiente é importante partir da experiência artística ou do universo de apreciação estética do grupo de alunos: “só assim essa aprendizagem se tornaria algo mais que uma colagem cultural sem suporte contextual” (BARBOSA 2000:171).
Seria limitado e simplificador pensar, por exemplo, que pelo fato de uma criança ser alagoana, o Coco (uma das danças tradicionais de Alagoas) seja uma manifestação de dança com a qual ela tenha identificação. É preciso considerar a importância de conhecer a prática social imediata do aluno em relação ao conteúdo proposto (no caso, o Coco), e também escutá-lo sobre as práticas que dependem de suas relações sociais como um todo, isto é, sua prática social mediata (GASPARIN,2002).
Aqui é importante chamar a atenção para dois casos específicos no contexto observado: o daquelas crianças e jovens que não têm aproximação com as danças tradicionais alagoanas, e daqueles que habitam as mesmas comunidades dos grupos de dança e, por vezes, a mesma família dos mestres que lideram esses grupos. Neste último caso, apesar das crianças e jovens fazerem parte dessa comunidade, isto nem sempre implica na sua adesão a esses grupos. Nem sempre significa que existe uma identificação dada, principalmente no caso dos adolescentes. Não caberia à escola interferir nesse processo de comunicação entre diferentes grupos etários, mediando essa comunicação e valorizando a história pessoal do aluno?
Pensar na questão da identificação parece ser importante para se refletir sobre os processos de valorização de identidades culturais. A própria realidade acima mencionada mostra que não basta ter acesso para se identificar. Por outro lado, o acesso, o contato, são as bases para a identificação, portanto, é preciso proporcioná-los aos alunos. A questão aqui colocada recai sobre o modo como se dá esse acesso às danças tradicionais nas escolas alagoanas.
Como dissemos anteriormente, é comum na nossa realidade local, que os professores validem a qualidade do seu trabalho em função da preocupação com a informação histórica sobre a dança. Longe de negarmos essa importância, queremos mais uma vez chamar a atenção para a questão do como.
Vejamos um exemplo bem característico: aqui em Maceió é comum que as crianças e os jovens tenham a informação de que o Coco é dançado (ou era) por ocasião da tapagem de casas de pau-a-pique na zona rural. Essa informação é dada pelo professor que acredita ser fundamental trazer as referências históricas sobre as origens dessa dança tradicional. Que identificação pode ter a criança e o jovem com esta peculiaridade da história do Coco? Como esta informação pode ser transformada em conhecimento para que, a partir daí, os alunos encontrem alguma relação de sentido ao contextualizar essa dança? Como esta característica peculiar ao Coco pode suscitar reflexões relacionadas com a realidade vivida pelos alunos?
Lanço aqui algumas proposições pensando em estabelecer relações com:
- Aspectos estruturais da dança – observando a postura e o princípio de economia de esforço presente na técnica corporal empregada, o uso instrumental do corpo tanto na dança (na dança do coco, o dançarino é também percussionista na medida em que o som do sapateado estrutura a base rítmica da dança), quanto na ação de trabalho de amassar o chão da casa;
- Aspectos sócio-afetivos e políticos – o modo de organização social onde há uma ação coletiva para a construção de um bem individual, refletindo sobre os modos de relações humanas e de produção na sociedade atual, questões éticas, morais etc.
Poderíamos pensar uma série de outros exemplos onde o professor pudesse fazer valer sua capacidade criadora rumo à transformação do que é eventual em processual, do que é informação em conhecimento, de modo a ampliar as perspectivas sobre o conhecimento teórico onde este deixe de ser apenas “uma compreensão do que acontece”, e passe a ser “um guia para a ação” (CORAZZA:1991, 90). De forma que cada aluno e a escola como um todo, torne-se sujeito e agente do processo de valorização da memória cultural do nosso país, nesse caso específico, das danças tradicionais. E assim, ao inter-relacionar teoria e prática, criar um real sentido para justificar a importância das danças brasileiras na escola.
O que tenho como pressuposto básico para a elaboração de uma proposta metodológica de ensino de danças brasileiras na escola é que estas se constituam tanto em um meio quanto em um fim: meio para adquirir conhecimentos, habilidades e capacidades relativas aos elementos constitutivos da linguagem da dança de um modo geral (corpo, espaço, dinâmicas, relacionamentos), além de possibilitar o conhecimento histórico e sócio-cultural via corpo, e fim porque objetiva o aprendizado do repertório específico dessas danças.
Acredito ser possível levar nossas crianças e jovens a perceber que “… o que pertence a nossa tradição e aparece como uma realidade óbvia pode, em vez disso, revelar-se como um nó de problemas inexplorados.” (Barba:1994), Ao manipularmos esses nós poderemos realizar descobertas sobre nós mesmos e sobre o mundo, existindo ainda a possibilidade de achar no óbvio a unidade do que nele há de universal.
Quando os jovens artistas pernambucanos instituíram o movimento mangue beat, provocaram a comunicação e a retro-alimentação contínua entre classes sociais e saberes artísticos diversos. Ao mesmo tempo em que novos objetos artísticos surgiam, imbuídos de uma natureza universal com base em características culturais locais, que deram visibilidade nacional e internacional aos artistas pernambucanos, as manifestações tradicionais também se transformaram, tanto esteticamente, quanto em termos quantitativos no que se refere à criação de novos grupos e a ampliação do número de integrantes nos grupos já existentes.
Esse tipo de comunicação extrapola o caráter meramente difusionista, configurando seu caráter inclusivo, na medida em que o artista da tradição passa a tomar parte do circuito artístico-cultural tanto local quanto nacional e internacional, redimensionando o seu fazer e o seu lugar na sociedade; redirecionando o interesse e o reconhecimento da importância das manifestações da tradição popular para as gerações futuras, para os filhos dos mestres e integrantes de suas comunidades a quem cabe, de modo mais direto, a continuidade da tradição.
Há de ser pensado o papel da escola enquanto mediadora social no sentido de fomentar a comunicação entre os alunos e as tradições populares locais por meio de “uma comunicação profunda”, na acepção de Martin-Barbero (2003), assumindo os conflitos que toda comunicação dessa natureza implica em termos de possibilidades de transformação cultural.
Nesta perspectiva, parece-me urgente retirarmos as escolas alagoanas do lugar de agente colaboradora nos processos de “preservação do nosso folclore” e situá-la no terreno da mediação social enquanto promotora da comunicação entre diferentes saberes produzidos pela sociedade.
Assim, penso que a pergunta inicial e prioritária não seria qual dança ensinar na escola, mas sim para quem, por quê e como ensinar. E que, ao efetuarmos escolhas, devemos buscar coerência na construção de processos de ensino/aprendizagem cujas premissas fundamentais sejam: a construção de sentidos, a relação de prazer e a produção de conhecimento.
[1] O movimento mangue beat surgiu na cidade do Recife no início da década de 90 do século XX liderado por artistas como Chico Science e Fred “Zero Quatro”. Ganhou repercussão nacional e internacional sobretudo através da banda Chico Science e Nação Zumbi em cujo CD Da lama ao caos consta um texto de referência sobre o conceito do Movimento.
REFERÊNCIAS
BARBA, Eugênio. A Canoa de Papel – Tratado de Antropologia Teatral. São Paulo: HUCITEC, 1994.
BARBOSA, Ana Mae. John Dewey e o ensino da arte no Brasil. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2000.
CORAZZA, S.M. (1991) “Manifesto por uma dida – lé-tica”. Contexto e Educação, Ijuí,vol. 6,n. 22,pp. 83-99, abr.-jun.
GASPARIN, João Luiz. Uma Didática para a Pedagogia Histórico-Crítica. Campinas _ SP: Autores Associados,2002. (Coleção Educação Contemporânea).191p.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP & A, 2004.
LEPECKI, André. O Corpo Colonizado. Gesto: Revista do Centro Coreográfico – Rio de Janeiro, n°2. julho, 2003.
MAGNANI, J.G.Cantor. Festa no pedaço. Cultura Popular e Lazer na Cidade. São Paulo: Brasiliense, 1984.
MARTÍN-BARBERO. J. Globalização comunicacional e transformação cultural. In MORAES, Denis (organizado por). Por uma outra comunicação. Mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: Record, 2003.
Telma César é alagoana, mestre em Artes/Dança pela Unicamp, professora e coordenadora do Curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal de Alagoas.

Port
Acredito ser de fundamental importancia refletir em qual contexto as danças estão sendo ensinadas na escola. Julgo necessário que o professor possa criar possibilidades e configurações novas para o ensino/apredizagem das danças no contexto escolar.
Assim, dentro da “rapidez” de informacões em que o mundo globalizado nos fornece, onde estas mesmas informações em sua grande maioria necessitam de uma compreensão em um pequeno instante representado por milésimos de segundo, estas informacções acabam por se perder.
É urgente por parte do educador descobrir relacões inovadoras e possibilitá-las ao seu aluno. Criando um elo de configurações entre o tradicional e o novo.
Parabéns Tia Telma…
Fiquei muito feliz com areflexão proposta pelo texto!!!
Bjs
Legalzaço Telma, acho importante tambem lembrar que a instituição – escola, poder público etc. no nosso estado, apesar de reconhecer a importancia “cultural”, e até econômico-turistica das “brincadeiras”, se priva de fomentar as manifestações, desconsiderando que esses grupos precisam ser mantidos, o que implica sobretudo em grana, se o que se deseja é realmente “preservar a cultura”. O que se observa na maioria dos discursos preservacionistas é um “distanciamento” desses folquedos, sempre vistos ”por cima”, como uma cultura dos “outros”, daqueles que vivem sob “aquelas condições”, ou como uma “reliquia cultural”, enquanto o brincante é tratado como um “palhaço social”, e não como um autêntico artista.
legalzaço Telma. Importante tambem lembar que as intituições – escola, poder público, etc, apesar de reconhecerem, formalmente pelo menos, o valor cultural e até econômico-turístico das “brincadeiras”, se privam de fomentar financeiramente as manifestações, alegando que os grupos devem procurar modos de competitividade no mercado turístico. Neo-liberalismo de ocasião. E continuam tratando os folquedos como “reliquia cultural”, performatizada por “palhaços sociais” e não como uma arte autêntica, que como todos sabemos, é o caso.
Olá Telma! Sempre é muito bom receber notícias de como a Dança é vivenciada no nosso Brasil e principalmente saber que mesmo distantes, compartilhamos de um pensamento que conecta a dança a cognição e reflexão das realidades vividas, distantes portanto de toda e qualquer reprodução. parabéns pelo trabalho.Quando quiser, entre em contato com a gente do Curso de Dança da FAP Curitiba. Obrigada e abraço!
Reginaldo, obrigada por suas considerações. Diria que mais que criar um elo entre o tradicional e o novo, enxergar que o tradicional também é o novo.
Jorge, o fato dos mestres populares em Alagoas não serem tratados como artistas é consequência da visão folclorizada da cultura popular tão arraigada por aqui. Penso ser este uma fator fundamental de ser pensado quando refletimos sobre o afastamento das novas gerações às manifestações tradicionais populares. Aqui conhecemos os nomes das brincadeiras do Coco, Guerreiro, etc. mas não reconhecemos os nomes dos artistas que as realizam, não como meros reprodutores de uma memória, mas como criadores.
Scheila,
Que bom saber do ineresse pelo contato. Penso que os Cursos e Dança do Brasil everiam se comunicar mais! Vc poderia enviar o contato institucional de vcs?
Telma, acredito ser de grande importância o levantamento da questão do como? para quem? e por que? ensinar dança nas escolas, mesmo sendo um texto de caso específico do estado de Alagoas e focado nas danças tradicionais e regionas, essa é uma questão pertinente que percorre o mundo, sou aluna do curso de Dança da FAP ( faculdade de artes do paraná), estou graduando o 4° ano e prestes a dar de encontro com essas questões mais de perto. Só a simples frase “dança na escola”, já levanta inúmeras questões de aceitação e acessibilidade do professor de Dança dentro de qualquer instituição pública, porque Arte na escola ainda se resume basicamente em Artes Visuas, não diminuindo a área, mais apontando que arte abrange outras linguagem que acredito que deveria ser de acesso a todos. A nossa realidade dentro da escola vem caminhando mesmo que lentamente. Gosto quando você fala “… que, ao efetuarmos escolhas, devemos buscar coerência na construção de processos de ensino/aprendizagem cujas premissas fundamentais sejam: a construção de sentidos, a relação de prazer e a produção de conhecimento”. Acho que essa frase resume o que nós professores da área devemos construir em sala de aula juntamente com os alunos, talvez seja uma resposta ao meu ver. Criatividade, bom senso e responsabilidade com o que vai ensinar e pra quem vai ensinar.
Telma, sou aluna do curso de Dança da FAP ( Curitiba-PR), estou graduando o 4° ano e durante todos esses anos de estudo e pesquisa em relação a educação hoje, e o ensino da dança na escola,dentro da faculdade através de estágios e discussões, venho concordar com sua questão em relação a preocupação desse ensino. A capacidade de um sistema de educação é compartilhar a informação e não transferir conhecimento,as possíveis relações e propriedades compartilhadas dentro do ensino da dança na escola, questiona a percepção cognitiva do corpo que dança.Onde a necessidade de aprender e conhecer novas técnicas ajuda a evolução desse corpo,que dança movendo problemas e questões a serem levantadas no seu modo de pensar dança como arte e não como forma de dança-ginástica.Essas escolhas e investigações pessoais de como se preparar um corpo para fazer dança, de um corpo que argumenta a dança que faz, e como essas informações são transmitidas; são questões a serem discutidas sobre dança enquanto pesquisa e estudo, que favorecem a evolução dessa arte, tanto para o ensino quanto para o aprendizado.
Oi Telma, até eu mesmo aqui na alemanha dando aulas de danca contemporanea nas escolas püblicas uso as musicas de chico Science. Bom, más entre em contato comigo pelo seu email particular, pra q. possamos trocar mais…
Beijos e aguardo o seu retorno,
aloisio
Pois bem! Realmente a relação por quê, pra quê e como são demasiadamente vigentes e certas. Não podemos pensar em dança na escola como uma forma de apenas perpetuar uma tradição ou simplesmente um passa tempo para tomar parte de algum evento festivo, comemorativo.
O que acontece aí em Maceió não é diferente do que acontece aqui em Curitiba.
Tens toda a razão quando levantas tal problematização e concordo contigo.
Devemos lutar e fazer compreender que a dança no universo escolar é muito mais que isso. É relação de autonomia, de socialização, de auto-conhecimento, de aceitação quanto ao eu e ao outro, de percepção, de compreensão, de relação consigo mesmo e com todos e tudo ao redor.
A dança na escola deve ter esse prisma, pois é a partir do entendimento e experienciamento que conseguimos dar sustentação clara ao individuo que temos responsabilidade em direcionar e ajudar no desenvolvimento como cidadão.
Parabéns a ti pela colocação e mais que tudo pela preocupação e importância que percebes no fazer dança na escola.
Heleno Moura
(4º ano de dança na faculdade de artes do paraná)
Acho importante tratar o ensino da dança na escola como um retrato da existência desse aluno, onde aparecem problemas, conflitos, prazeres, a busca da evolução pessoal e conhecimento. Além det rabalhar os movimentos corporais institucionalizados de um conteúdo, pode-se apresentar possibilidades de o aluno criar e recriar movimentos corporais, participando da construção do conhecimento e ampliando as formas de linguagem corporal. Aí o aluno pode tomar consciencia do que,quando, como e porquê das práticas do movimento e da relação deles com a vida como um todo e também desenvolvem comportamentos voltados a formação de seres humanos que possam construir um mundo mais harmonioso.
Olá Telma, meu nome é Luis Gustavo, sou formando em dança pela FAP de Curitiba – PR e trabalho já a um bom tempo com dança folclórica, especificamente, polonesa.
Parece que isso distancia da sua ideia de “danças brasileiras”, mas no sul, devido as nossas colonizações, inúmeros são os grupos de danças étnicas por aqui…
Seu artigo tem muito a ver com minha pesquisa de conclusão de curso que pretende, justamente, criar estratégias de atualização desse folclore (o polônes) partindo de algo que me preocupa muito que é a formatação (devido a um repertorio de movimentos pre estabelecido).
Eu nao acho que a preservação seja desnecessaria, mas com certeza, nossas abordagens tem de ser encrementadas.
Porém, não se pode esperar que alguém que trabalhe exclusivamente com representação (no sentido de transferencia de informações), tenha subsídios para alterar isso sozinho.
Eu só entendi essa necessidade, estando dentro de uma instituição de pesquisa.
Agora, se nem toda essas pessoas, responsáveis por essa “perpetuação” - as quais considero ainda de extrema importância pela preservação dos costumes, tem condições de estar em um ambiente de estudos, cabe a nós, pesquisadores e mais do que isso: questionadores, tentar ampliar esse entendimento na fomentação e produção de conhecimento através de encontros, cursos ou mesmo textos como esse.
Parabéns pelo trabalho e boa sorte!
Olá, gostaria de fazer algumas considerações relacionadas as primeiras questões levantadas neste artigo, onde, considera qual tipo de Dança deve estar dentro do ambiente escolar.
Esta primeira questão e as que emergem no final do texto de como, pra que, pra quem e como não estão separadas, elas se articulam justamente para que possamos construir as tão complexas coerências. Considerando os parâmetros curriculares nacionais, fico a pensar se a escola seria o ambiente adequado para o desenvolvimento de uma linguagem específica. A escola, talvez, seja o lugar onde a Dança deva promover a construção de conhecimentos específicos de corpo, uma idéia de corpo e suas possibilidades de ação e articulação com o mundo. Acredito que cada caso realmente deve receber atenção especial, porém, se aprofundar dentro de uma linguagem específica da Dança, dentro da escola, pode tornar as escolhas desses alunos reféns de uma única lógica de pensamento e organização em Dança.
É claro que cada região, cidade e escola deve encontrar seu modo de organizar e aplicar procedimentos em Dança, mas acima de qualquer coisa, acredito que ela deva se comprometer em possibilitar o entendimento maior do que a organização de passos, figuras espaciais e de fixação de uma lógica de ação. É lugar da experimentação e construção de um corpo político mais ativo, mais consciente e que consegue articular, construir pontes e se perceber dentro de uma disciplina, e da própria organização educacional. A Dança na escola, a arte na escola tem uma responsabilidade política. Boa sorte nesse exercício diário e pra vida de construir coerências dentro do ambiente escolar.
Clayton Leme – Artista da Dança – 4º ano de Dança – Bacharelado em Dança – Faculdade de Artes do Paraná -
Os estudantes de dança da universidade de Alagoas tem muito a re/descobrir em suas jornadas de ensino/aprendizagem. Gostei dessa leitura porque nos faz relembrar a complexidade do ensino da dança nas escolas brasileiras. Não é tão simples como se pensa. Aqui em Teresina, a problemática é muito parecida, o pior é que não conseguimos discutir de forma coerente com os profissionais que atuam nestas escolas. A dança aparece realmente nos eventos. É apenas para as meninas… estamos tentanto fazer, por meio de algumas ações pontuais, as pessoas e em especial os profissionais de dança perceberem a necessidade de um curso superior na nossa área “Dança” a maioria dos profissionais de dança estão no curso de educação física e ai a coisa fica muito mais complicada. Acredito que a dança nas escolas de Alagoas melhorará bastantente com estes novos professores que sairão da universidade. Por outro lado, essa discussão sobre esse ensino de dança nas escolas não pode parar. É importante pensar sobre isso.
Sua preocupação reflete, senão a de todos, mas com certeza a da grande maioria dos egressos. A de estar preparado para atuar com responsabilidade e flexibilidade nas escolas normais, articulando novas metodologias e pensamentos, não através de imposições, mas sim, dialogando com as propostas curriculares vigentes.
Para quem, porque e como ensinar dança na escola faz parte de discussões levantadas aqui na Faculdade de Artes do Paraná. No entanto nossa preocupação repousa não em um estilo de dança, como requisito para a formação do cidadão, seja ele local, regional ou global, mas sim em como a dança deve colaborar ativamente no processo de ensino/ aprendizagem. Nosso foco está em proporcionar ao aluno o desenvolvimento perceptivo do corpo, e as relações possibilitadas com esse entendimento, seu uso criativo e participativo, seus relacionamentos, e sua contribuição na elaboração de um conceito positivo de si mesmo, assim como na formação do futuro cidadão, capaz de interagir com autonomia e segurança, no que ele e dele espera a sociedade atual. Regina Kotaka- 4ºano – Dança/FAP
Olá!
Sou graduada em licenciatura plena em dança, pós em educação psicomotora com experiência em projetos socias dentro e fora das escolas públicas.
Penso na pertinência da discussão, assim como também em considerar uma questão que é anterior as que vc nos apresenta, Telma, que é o lugar da escola. Há muito tempo quem trabalha com educação, formal ou não, acompanha a crise institucional pela qual a Escola passa no Brasil, e antes de nos questionarmos sobre o estilo a ser trabalhado (prefiro este termo ao ensinar) temos que pensar que escola é essa que não consegue derrubar os muros e contextualizar os conteúdos às realidades dos seus alunos? Que Escola é essa que não consegue resolver as quetões de currículo? Que Escola é essa onde os professores, em sua maioria, não conseguem romper algumas inércias, no que diz respeito a metodologia?
Por mais que nós profissionais da área de dança, possamos refletir sobre o Que, Por que, Como e Pra que, não podemos deixar de lado que estamos dentro da Escola, sendo assim, não estamos isentos das questões trazidas pelos que fazem parte dessa instituição. Ora, se a própria escola vive uma crise de identidade há décadas, seria impossível que nós e a dança, não vivessemos as nossas!
Quando penso em planejamento (de dança), prefiro optar por uma matriz onde o foco de avaliação, os objetivos gerais e específicos, assim como também os indicadores, descritores e conteúdos sejam maleáveis, ou seja, independente do estilo, vou desenvolver junto as crianças e jovens o que lhes realmente interessa. Seu artigo tem um contexto regional específico, mas não devemos nos permitir engessar, poderíamos fazer adaptções do Coco, mudar estruturas de movimento, atualizar sua história, alterar o ritmo…seria o Coco? Não, não seria, mas seria uma concepção e um novo olhar em relação ao tradicional.
meu email: anamartamoura@gmail.com
Um grande beijo e parabéns pela iniciativa de trazer a tona o que muito nos incomoda!
Marta
O lugar da dança na escola…como em todos os outros comentários feitos antes deste, reitero a importância deste tema, e das perguntas que levanta: como? qual? para quê?…e concordo aqui com meu colega de faculdade Clayton Leme, ao colocar que, talvez, mais importante do que saber qual dança ensinar seja o entendimento de corpo, que corpo é este que estamos ajudando a construir, e que envolve um pensamento,todo um entendimento de nossa área. Dança na escola, muito bem lembrado, á ação política no mundo, é aprender novas possibilidades de estar no mundo, é a possibilidade de ampliar minhas relações, de ter maior autonomia em meu mover, é a possibilidade de podermos formar pessoas que estabeleçam mais relações, que possam questionar os padrões corporais vigentes e que,talvez, possam estar ajudando a criar uma nova cultura corporal, uma nova indústria corporal, menos agressiva e mais coerente com cada indivíduo.
Bruna Spoladore – aluna do 4° ano da Fap-Faculdade de Artes do Paraná.
Olá Telma,
Gostei muito do texto. Penso da mesma forma. Como afirmado por outros comentários, em Minas Gerais não há muita diferença. Porém, o trabalho que vem sendo realizado em algumas escolas públicas e particulares em Belo Horizonte e região (cerca de 12 escolas) têm rendido frutos muito interessantes, como o Festival Intercolegial de Danças Populares Brasileiras. Apesar de ser baseado em projetos, nem tanto como conteúdo amplo, tratado no currículo destas escolas, para todos os alunos, esta realidade têm chamado a atenção de muitas pessoas e começa a render frutos bem interessantes. Alguns alunos destes grupos têm se tornado dançarinos profissionais, inclusive. Ainda é muito cedo para alicerçar considerações mais consistentes, mas há indicações bem interessantes sobre este fato.
Concordo completamente com suas angústias e comungo de todas elas.
Espero poder dialogar mais contigo…
Grande abraço e boa sorte nas sua caminhada…
Clayton, Luzia, Regina, Martha e Bruna,
Dialogo com todos vcs a um só tempo porque percebo que tocam em uma questão comum.
O que quero discutir no meu texto é exatamente a questão de que não importa qual dança se ensine, mas sim, como o material de um estilo, seus códigos específicos, são utilizados como meio para atingir questões mais amplas da educação da, pela, e em dança. Quero dizer com isto que, mesmo na opção por um estilo específico de dança, podemos desenvolver processos de ensino-aprendizado numa perspectiva contemporânea. Por isto me refiro ao COMO. O fato de me referir ao Coco diz respeito simplismente ao fato de partir de minha experiência para desenvolver a discussão. Do mesmo modo, acho importante pensar que o fato de optarmos por procedimentos como a improvisação por exemplo, não garante que tenhamos processos de construção de conhecimento, de formação de sujeitos autônomos, conscientes de si e de seu lugar no mundo como seres integrais e integrados. Isto depende do COMO e é exatamente isto que trouxe para a discussão.
Mais uma vez percebo que as discussões geradas a partir do texto são tão instigantes quanto ele.
Acredito que mais importante do que definir um estilo de dança que se relacione ao contexto cultural de crianças em Alagoas, seria pensar em uma dança também temporal e historicizada. Dessa forma, seu ensino contempla alunos como seres sociais, corpos/mentes em movimento e inseridos em um contexto multicultural. Talvez dessa forma os alunos tenham mais facilidade em relacionar as tradições de sua região com a dinâmica de seu mundo contemporâneo.
Patrícia Machado