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O texto abaixo integra a série de resenhas que o idança começou a publicar no final de 2008 aproveitando a boa fase editorial na área de dança. A primeira resenha foi feita pela bailarina e pesquisadora Nirvana Marinho sobre o livro ‘Dança Cênica – pesquisas em dança volume 1′, organizado por Jussara Xavier, Sandra Meyer e Vera Torres. O segundo título analisado foi ‘Zdenek Hampl – Constante Movimento’, por Christianne Galdino. Clique aqui para ver os textos anteriores.
A iniciativa empreendida pela revista eletrônica idança em publicar resenhas de livros de dança, dentre eles pesquisas acadêmicas que foram transformadas em livro, colabora fortemente para difusão de ideias de dança, e também para exercícios de reflexão crítica acerca das produções de escritos nesse campo de conhecimento. A resenha que se apresenta trata de uma pesquisa acadêmica em nível de doutorado realizada pela professora, pesquisadora e crítica de dança Fabiana Dultra Britto. A pesquisa se realizou no curso de Comunicação e Semiótica na PUC-SP sob a orientação da professora e pesquisadora Helena Katz.
A publicação do livro Temporalidade em Dança: parâmetros para uma história contemporânea faz parte de uma trilogia corpoespaçotempo organizada enquanto ação cultural pelo FID (Fórum Internacional de Dança) e que teve início com a publicação do livro Um, Dois, Três: a dança é o pensamento do corpo, de Helena Katz. O fechamento da trilogia, previsto para 2009, se dará pela publicação do livro da professora e atual diretora da Escola de Dança da UFBA, Dulce Aquino.
O título do livro já anuncia a complexidade argumentativa e a rede de informações, ideias, conceitos e constatações trabalhada pela autora. Há uma preocupação premente em articular ideias próprias às ideias de demais autores, o que fortalece a noção de coautoria e compartilhamento de propósitos. Já no índice é possível observar outro modo de organizar as partes do livro, numa demonstração de que importa propor exercícios de entendimentos e compreensões aos leitores, exercícios esses regidos por nomeações metaforicamente especializadas e cuidadosamente apresentadas ao longo do corpo textual.
Da Carta das Des/Intenções ao Canteiro de Obras se chega à discussão do Como é o que Existe para encontrar-se com a apresentação de argumentos que demonstram a Trajetória Histórica não é um Processo Evolutivo; que A Dança é um Sistema Coevolutivo; que a Evolução é outra História e, a proposição de Exercícios de Equivalência. Em complementação às ideias em discussão, a autora acrescenta nos anexos títulos e breve comentário de publicações nacionais de livros de dança preocupando-se em apresentar os autores aos leitores. Ainda, expõe bibliografia separada por temas argumentativos num zeloso cuidado acadêmico com aqueles interessados em dar continuidade aos estudos lá apresentados.
Todo o trabalho tem o propósito de discutir a questão da temporalidade na dança oferecendo novos parâmetros que venham colaborar para estudos no campo da historiografia da dança. Para tanto, constrói mapa investigativo com vistas a indagar como o modelo teórico da historiografia pode conseguir explicar “o sentido evolutivo do processo de transformação histórica da dança [...]” (p.13). O diálogo com os autores Ilya Prigogine, Daniel Dennett, Richard Dawkins, Helena Katz, Jorge Vieira, dentre outros, colabora na organização do pensamento da autora acerca do modo como a história da dança vem sendo apresentada aos interessados em dança, que inclui aqueles que estão nas universidades, nas academias, nos grupos artísticos, em ONGs, grupos comunitários e instituições de ensino formal. São inúmeros os interessados, mas ainda desproporcional aos que publicam suas ideias e compreensões da história da dança do Brasil e do mundo no nosso país.
A aproximação desses teóricos permite à autora tecer uma trama argumentativa dialógica e questionadora da realidade das informações históricas da dança no Brasil ao indicar que é possível trabalhar com o entendimento da história enquanto processo em vez de entendê-la enquanto acontecimentos pontuais que expressam relações frágeis de espaço e tempo. Ao invés de decalcar conceitos e transportá-los para propósitos discursivos, a autora relaciona entendimentos, compreensões, fatos de dança com concepções teóricas compatíveis com os princípios críticos e reflexivos aos quais se atém. Importa à autora “[...] aproximar a dança dos princípios lógicos e conceitos científicos condizentes com seu modo de existir no mundo, configurar-se no corpo e articular-se no tempo[...]” (p.14). Este tecido teórico está disposto nas partes do livro que se preocupam com as afinidades entre dança e pressupostos científicos sem a intenção de fundir conceitos, mas apresentá-los em suas configurações teóricas de maneira relacional e compatível com as compreensões de seus contextos.
Na parte dos Exercícios de Equivalência, a autora expõe considerações aproximativas sobre temas que provocam posicionamentos e indicação conceitual, sendo eles: questão de enquadramento; identidade/nacionalidade; emergência; modelos de conjugação entre teoria e dança; flexibilidade adaptativa; a tese. Em todos os exercícios o foco recai sobre a dança contemporânea, isso porque a autora considera que a mesma “expressa uma lógica relacional não hierárquica entre corpo e mundo [...] se organiza à semelhança de uma operação metalinguística, na medida em que transfere a cada ato compositivo os papéis de gerador e gerenciador das suas próprias regras de estruturação” (p. 15).
Os exercícios descritivo-argumentativos expõem a responsabilidade e pensamento crítico da autora ao tratar das temáticas relacionadas às produções artísticas. Convém ressaltar que houve o cuidado na escolha dos artistas do mesmo modo que na escolha dos teóricos e elas (as escolhas) se aproximam por meio das concepções de mundo, espaço e tempo diferenciados. As concepções teóricas apresentam-se correlacionadas às concepções artísticas que, por sua vez, fazem parte do conjunto artístico-crítico-argumentativo da autora.
As ideias teóricas acerca da complexidade (Prigogine), de memes e design (Dawkins), da dança como pensamento do corpo (Katz) e dos parâmetros sistêmicos da Teoria Geral dos Sistemas (Uemov e Vieira) estão aqui destacadas e relacionadas às ideias/produções artísticas expressas no FID 2001 com The Show Must Go On (Jérôme Bel), Mono Subjects (Thomas Lehmen), Not To Know (Benoit Lachambre), Self Unfinished (Xavier Le Roy), Au Bord dês Métaphores (Rachid Ouramdane), Still Distinguished (Maria de La Ribot), Muzz e Lamont Earth Observatory (Sarah Chase), The Princess ProjectSummerspace e Biped (Merce Cunningham); El Trilogy (Trisha Brown), I sais I (Anne Teresa de Keersmaeker), Artérias: quando se perde o norteCravos (Pina Baush), MTD -90; O Corpo (Rodrigo Perdeneiras/Grupo Corpo). (Xavier Le Roy), (Cia. 2 Nova Dança), (Vicent Dunoyer), A autora traz em sua construção argumentativa a compreensão de história a partir de uma perspectiva de temporalidade assimétrica para interpretar e descrever sistemas culturais e propõe que a história da dança seja entendida não como “eventos locais que ocorrem num ponto dado do espaço e num instante dado da história” (p.52), mas como processos contínuos e difusos. Isso porque “[...] indivíduos e obras artísticas são únicos, mas implicados irremediavelmente numa mesma atividade global de organização do tempo – a história” (p.52).
O sentido processual e assimétrico proposto pela autora para pensar dança e história da dança estão compatíveis com considerações acerca da diferença entre justaposição e interação e “[...] da dinâmica de interação entre os componentes desses conjuntos (passos, acontecimentos) para tratá-los como sistemas e compreendê-los na sua complexidade ” (p.68). O entendimento de dança, história e historiografia tecido por Fabiana Britto conduz o leitor para exercícios não lineares de pensamento ao mesmo tempo em que convida a pensar os escritos de dança sob perspectiva crítico-reflexiva. Importa destacar que a pouca publicação de dança efetivada no nosso país é tratada pela autora não como sendo um atraso da dança, mas como “descompasso rítmico entre seu modo de ocorrer e a produção intelectual atualizada sobre sua ocorrência. Por falta de recursos teóricos competentes para lidar com questões conceitualmente sofisticadas, os temas difíceis relativos à sua especificidade artística mantiveram-se alojados no campo dos clichês e das licenças poéticas [...]” (p.20).
Essa consideração conduz à reflexão sobre o modo de pensar/falar/fazer dança realizado por professores, artistas, pesquisadores e outros. Faz refletir ainda sobre a ampliação dos cursos superiores em dança no país e sobre a relação entre formação e mercado prevista pela LDB 5692/96. Assim, a publicação dessas ideias em formato de livro colabora significativamente para o campo da dança e é um convite para o exercício de leitura desafiador, complexo e instigante, mas indispensável àqueles que tratam a dança respeitando suas especificidades e que trabalham pela promoção do entendimento de sua complexidade.
Jussara Sobreira Setenta é professora, pesquisadora e artista da dança. Atua na Universidade Federal da Bahia nos cursos de graduação e pós-graduação (Mestrado em Dança e Especialização Estudos Contemporâneos em Dança). Autora do livro O Fazer-Dizer do Corpo: dança e performatividade, publicado em 2008.

Port









Jussara,
parabéns pela resenha! Adorei a clareza do texto e a iniciativa em publicá-lo, divulgando um livro de conteúdo tão importante e desafiador para o campo da dança como o de Fabiana Dultra. Admiro muito o trabalho de pessoas como vc e Fabiana, que atuam, com muita responsabilidade e compromisso com a informação e com os conhecimentos referentes ao entendimento da dança e de sua complexidade.
Abraços,
Laura Pacheco
Todos nós e ainda incluindo principalmente os críticos da dança, assim com os produtores de artigos, devem entender e difundir mais as idéia de evolução processual. E dado o entendimento de processos contínuos, tudo ainda há por se fazer e não por se rotular num padrão quantitativo de considerações apelada sobre o paradigma do corpo escrevo da mente, do não movimento pelo movimento e da responsabilidade histórica. Este, difundido por jovens graduandos em dança.
Anderson Rodrigo – SSA-BA
Oi Jussara!
Sou Greyce Lucca,fomanda do 4° ano do Curso de Dança da FAP(Curitiba-PR), esse modo de pensar/falar/fazer dança hoje ressalta a importância desse pensamento enquanto arte ,não só corpóreo, mas de refletir,escrever e discutir sobre essa área.É de extrema importância hoje incentivar a escrita sobre a dança para gerar discussões ricas e disseminar nossa responsabilidade de transmitir algo através do corpo.
Obrigada por mais esta contribuição para meus estudos e aprimoramentos!
Abaços.
Olá Jussara tudo bem? Parabéns pela coerência existente em teu texto. E mais, pensar a dança dentro de um sistema de continuidade e não de pequenas pausas históricas no decorrer do tempo é fato bastante pertinente e fundamental para o fazer/pensar a dança na contemporaneidade.
Uma resenha ou um livro com esse porte de discurssão e reflexão pensando a dança dentro de um processo co-evolutivo com o meio é um forte disseminador de riquezas corpóreas.
Obrigado Jussara pela resenha escrita e a Fabiana Dultra pelo livro que apartir da leitura do texto acima fiquei bastante estimulado em lê-lo. Se vc Jussara puder informar-me onde posso encontrar este livro que fez brotar tua resenha, ficarei muito grato.
Parabéns mais uma vez…
Espero resposta ansiosamente…
Abraços
leahregis@hotmail.com
Maceió – Alagoas
=)
é sempre bom pensar que a área da dança está se consolidando como área de conhecimento, construindo cada vez mais pesquisas teórico-práticas, e portanto ajudando a consolidar este pensamento; para nós, estudantes da área o material publicado e compartilhado é muito importante no sentido da construção do conhecimento e de termos mais referências para nossos trabalhos…
pensar nessa história, não como sucessão de fatos, mas como processo, pensar em como essa história vai se atulizando conforme novas descobertas e estudos vão se realizando é instigante e pode ajudar-nos a compreender a dança no contexto histórico em que se encontra, e em como nos colocarmos diante de todo esse conhecimento produzido.
Bruna Spoladore-estdante do 4º ano de dança da Faculdade de Artes do Paraná.
Fico contente pela iniciativa do idança por estar publicando pesquisas em dança, pois todos sabemos da precariedade de referências na área, muitas vezes proveniente da forma de se pensar teoria e pratica como algo separado.Ao mesmo tempo reconheço o compromisso deste espaço em relação as escolhas de trabalhos para serem publicados, que esbarra na questáo abordada neste texto de que o modo como organizo um trabalho/um espaço já é o trabalho, ou seja, a forma de organização está diretamente ligada a um conceito de dança, ao tipo de informação que acredito se relevante para compartilhar com o público.
aline vallim
Ju, parabéns pela resenha!
Quando a li, logo lembrei das aulas de Fabiana…nossa, muito boas!
Eu comprei o livro, mas ainda não o li!
Parabéns, novamente!
O modo de fazer/pensar a Dança que para mim fica desse texto é um grande mote para estudos, que posso perceber que a Dança não vive mesmo somente de historia, ela tem como se alimentar de pensamentos atuais e escritas que nos envolvem cada vez mais com essa pratica. O lançamento de alguns livros /Teses enriquecem e muito essa DANÇA que tanto esperamos ser reconhecida.
Parabéns Jussara e agradeço pela ajuda, sou Peter Abudi de Ctba/ Pr. graduando em Dança, e com essas dicussões maravilhosas sinto que meus estudos começam aqui depois de tanta história.
Estou super curioso e ansioso em “devorar” este livro e poder, assim, compartilhar essas informações, dialogar com elas, mesmo que de maneira singela, em meus estudos. Propor exercícios de entendimento, como a idéia deste livro, me parece algo muito provocativo, que gera a busca por relações maiores, facilitando assim o raciocínio e a compreensão. Um olhar (um não, vários!) sobre a historia da dança como processos contínuos e ainda discutir trajetória histórica, desassociada a evolução, deve trazer grandes reflexões quanto as produções no mundo da dança…
Obrigado pela contribuição!
Luis Gustavo Guarize 4ºdança FAP