O texto abaixo foi publicado no livro ‘Performance Presente Futuro’, organizado por Daniela Labra, curadora da mostra de mesmo nome realizada no Rio de Janeiro em agosto de 2008. A publicação reúne ainda textos de Stelarc, Bia Medeiros, Ricardo Dominguez, Silvio de Gracia e Rosangella Leote, além de registros do evento. Clique aqui para saber mais sobre a mostra Performance Presente Futuro.

Sempre considerei a vida como um fenômeno estético recuperável e meu corpo como o primeiro material que estava ao meu dispor. Usei meu corpo e/ou a representação do meu corpo em quase todas as minhas obras.

“Trabalhar com o corpo e com o seu próprio significa juntar o íntimo e o social. As lutas feministas levaram ao âmago dos problemas históricos a evidência de que o corpo é político” (Christine Buci-Glucksmann). Sou de uma geração para a qual mostrar seu corpo, falar da sua sexualidade, do seu gozo não era nada fácil; da contracepção e do aborto, tampouco. Nosso corpo não nos pertencia e é nesse contexto que decidi criar, com esse material e com essa relação com o corpo.

Minhas obras se misturaram com minha existência. Para cada série de obras, foi preciso entrar em cena de novo, encarar, se re-encarar. Também significou criar momentos de intensidade para si mesmo e para os outros.

Mudei de rosto colocando uma figura no meu rosto, ou seja, uma representação. Trabalhei com a polícia de Copenhague a partir do meu DNA. Vendi meus “beijos de artista” e vendi pedaços da minha carne em Relicários. Vendi meu sangue na série dos Santos Sudários, sem que o céu se abatesse sobre minha cabeça. Agi sem medo, não me sentindo de maneira alguma influenciada ou ameaçada pelo medo coletivo e ancestral de atentar contra a integridade do corpo. Esse sentimento anacrônico vindo da ideia de que o corpo – antigamente considerado como a obra-prima de Deus – é sagrado e intocável, intransformável.

Meus relicários são fabricados com minha carne e um fragmento do texto de Michel Serres, vertido para vários idiomas.

“O que pode nos mostrar agora debaixo de sua pele o monstro atual, tatuado, ambidestro, hermafrodita e mestiço? Sim, o sangue e a carne. A ciência fala em órgãos, funções, células e moléculas, para acabar confessando que há muito tempo que não se fala mais em vida nos laboratórios; mas a ciência nunca fala em carne, que significa precisamente a mistura de músculos e sangue, de pele e pelos, de ossos, de nervos e de diversas funções, que misturam o que o saber analisa.

A vida arremessa os dados ou joga as cartas. No final, Arlequim descobre sua carne. Misturados, a carne e o sangue de Arlequim podem muito bem ser considerados juntos como o manto de Arlequim” (O terceiro instruído, Michel Serres).

Li a integralidade do texto Laicidade no bloco operatório no decorrer da minha quinta operação cirúrgica-performance intitulada “operação-ópera” com um chapéu de arlequim na cabeça. Reli esse texto em uma performance que hibridava e reciclava minha coleção de roupas e, finalmente, para a biópsia de células da minha pele na faculdade de biologia e de anatomia da Universidade de Perth (Austrália). Esse gesto foi necessário para a elaboração de O Manto de Arlequim, instalação midiática mista concebida durante minha residência em Symbiotica, o laboratório de pesquisa colaborativa de artes e ciências da Universidade da Austrália Ocidental.

O Manto de Arlequim foi exibido na Bienal de Artes Eletrônicas de Perth (BEAP 07), de 10 a 23 de setembro de 2007, no complexo Bakery Artrage, como parte da exposição Symbiotica’s Still Living, sob a curadoria de Jens Hauser. Ele atualmente está na FACT de Liverpool e viajará sob outra versão para o Cassino Luxemburgo, em Luxemburgo, em setembro de 2009: trata-se de uma obra em progresso.

O elemento central desta instalação é um biorreator que fabrica tecido natural, especialmente concebido e desenvolvido desde o início para o ambiente de uma galeria e as necessidades de uma exposição.

O biorreator recria as condições ambientais necessárias ao crescimento e à alimentação das células. Além do mais, ele contém três polímeros com células vivas de minha pele, coletadas recentemente em uma biópsia realizada em Perth; células cutâneas de um feto feminino africano de doze semanas; e células do músculo fibroblástico de um rato marsupial de cauda larga. As células de origem africana foram obtidas em um laboratório norte-americano e enviadas congeladas para a Austrália, enquanto as células do rato marsupial são oriundas de um animal usado para pesquisas científicas na Universidade da Austrália Ocidental. Em um dos três polímeros, podemos encontrar as três células em processo de hibridação. Na FACT de Liverpool, as co-culturas foram feitas com células de cisne e de boi.

No conjunto da instalação, o biorreator constitui a cabeça do Arlequim. O manto e o chapéu são feitos de diferentes plexiglas coloridos, e no centro de cada forma, que lembram diamantes, encontramos pratos de Petri, alguns contendo polímeros de células mortas.

Tudo isso, por sua vez, é iluminado por uma projeção de diamantes, cada um deles contendo macroimagens de células, algumas em movimento. As células à mostra nos pratos de Petri e na projeção foram coletadas nos seguintes órgãos: cérebro humano (córtex cerebral), peito em amamentação, colo do útero, endométrio menstrual, lábio, pele (escalpo fino e grosso), cordão umbilical e vagina, assim como olho de macaco (retina), ovário de primata, língua de coelho (fungiforme e filiforme) e de carneiro (caliciformes). As células vivas na projeção incluem as três células em crescimento e em processo de hibridização que encontramos no biorreator (minhas células, as células cutâneas do feto africano e as células do fibroblasto do rato marsupial de cauda larga), assim como sangue humano, tecido conjuntivo e músculos de um camundongo, neurônios de peixinho dourado, e muitas outras formas mostrando as origens.

Essa peça se inspirou no pensamento do filósofo francês Michel Serres, que emprega a metáfora do Arlequim no prefácio de seu livro O terceiro instruído, trecho chamado “Laicidade”, um conceito geralmente traduzido como “secularismo”, embora esse termo não dê conta do conteúdo da palavra. A metáfora do Arlequim representa a ideia de multiculturalismo e a aceitação do outro dentro de si, com ou sem religião.

A instalação deve evoluir no decorrer das suas diversas exposições. A cada vez, novas células minhas crescerão com células de outras origens e os pratos de Petri irão aos poucos ficando cheios.

A proposta de Oron Catts e Ionat Zurr de virem trabalhar nos laboratórios da Symbiotica me entusiasmou, evidentemente, porém era necessário para mim que ela se inscrevesse na coerência e na continuidade de minhas obras, que a lógica dessa nova perspectiva generosamente aberta por Symbiotica pudesse se tornar um elo a mais da minha obra, entre corpo e cirurgia, corpo e medicina, arte e ciência e, finalmente, entre arte e biotecnologias.

A cultura de pele é corriqueira para queimaduras graves. Fazer cultura com minha pele foi, portanto, um ato “comum”; menos comum foi cultivá-la junto com células do feto de uma mulher negra (compradas em um laboratório), as quais tomam um sentido bem especial em Liverpool, como elas também teriam tomado em Nantes, se esse projeto tivesse sido realizado em 2004 na exposição Biotech, do curador Jens Hauser, porque ambas as cidades têm um passado carregado em relação à escravidão. As células de marsupiais ressoam mais na Austrália.

Cientificamente, a experiência podia significar que as coisas já estavam predefinidas e o vencedor já conhecido antes da luta: as células jovens ganhando das minhas… A constatação de mais uma vitória clássica e normal do mais forte sobre o mais fraco me interessava, embora Fiona Wood tenha afirmado que muitos critérios podiam alterar o curso da experiência.

Como eu também sabia de antemão que a hibridação de peles de origem diferente não desenvolveria uma cor de pele diferente.

A postura desta constatação, semelhante à de um ready-made – só que um ready-madeready-made/corpo muda seu significado. modificado -, está na lógica de minhas operações cirúrgicas-performances. Pois uma minúscula modificação do

Ora, o corpo não é mais para mim esse ready-made que basta assinar como o fazia o artista Piero Manzoni nos anos 1960. As duas pequenas protuberâncias inseridas nas minhas têmporas são um desvio dos tradicionais implantes usados para realçar as maçãs do rosto, transformando o corpo em um lugar de debate público.

As células coletadas no meu corpo não me pertencem mais, eu não conseguiria vendê-las como obras de arte: tomei o risco de criar uma obra que me sai muito caro, que é difícil de mostrar e que em teoria não posso vender.

Um passo a frente para me sentir livre para criar, estudar e me apaixonar fora do domínio das obras pelo mercado, tal como meu Beijo de Artista.

A exposição das obras criadas com a ajuda das biotecnologias tem a ver com a performance, um ato de vida intensa, visível durante um curto momento de compartilhamento, de emoção e de inovação.

A posição do ser vivo na instalação, tão frágil, como o rosto do Arlequim que se torna o biorreator, lugar da dramática passagem da vida para a morte do Arlequim – lembrando um memento mori emoldurado, fantasiado em uma grande projeção de vídeo -, mostrando ao mesmo tempo as células vivas morrendo ou já mortas dentro de losangos suturados pela luz branca misturada com todas as cores.

Orlan nasceu na França e trabalha entre Paris, Nova York e Los Angeles. Atualmente trabalha com escultura e fotografia digital para a série Auto-hibridizações ao mesmo tempo em que trabalha com biotecnologias.

Adaptado de artigo publicado em: HAUSER, Jens. SK-INTERFACES. Exploding Borders in Art, Science and Technology, Liverpool University Press, 2008.