mapa México / Divulgação

México, Oaxaca, junho de 2009.

Começo com este cabeçalho porque este é o lugar e é importante que seja no México (como também seria importante que fosse na Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Belize ou Panamá. Ou, ao sul, na Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Chile, Argentina, Brasil ou Uruguai, só pra continuar nas Américas)

Mas é na cidade do México e em Oaxaca.

“Os lugares obrigam os homens a intercâmbios”, disse o geógrafo baiano Milton Santos.

Intercâmbios estão acontecendo aqui, agora, e vão e vêm de diversas partes do mundo.

Bem-vindo a bordo do Prisma Forum Mexico.

Prisma Forum México é um encontro autogerido e não um festival. Isso significa que, apesar de oferecer seminários, aulas, performances, palestras e encontros de diversas naturezas com artistas de muitas nacionalidades (elementos estes comuns a festivais ao redor do mundo), Prisma foi pensado e construído por cada participante, a partir de suas proprias ideias e projetos.

Em 2007, depois de um encontro do coletivo internacional Sweet and Tender Collaborations no PAF, na França, a bailarina mexicana  Montserrat Payró começou a pensar em como realizar um encontro no México e, junto com o  promotor cultural mexicano Horacio Lecona, iniciaram a rascunhar o que seria este encontro.

Prisma iniciou-se em 2008, através de seu website, onde as pessoas inscreviam suas ideias de encontros, seminários, workshops, apresentações, work in progress, trabalhos com as comunidades locais, debates ou projetos especiais. Esse período de inscrições durou 3 meses e, dentro dele, também se podia conhecer e entrar em contato, via website, com outros propositores e trocar ideias.

De março de 2009 até poucos dias antes de começar o encontro (em 27 de junho), a equipe do Prisma Forum, coordenada por Montserrat Payró, avaliou  a possibilidade de realização de cada projeto e organizou o dia-a-dia e o formato do encontro.

Por detrás (e por todos os lados) desse projeto, apoiadores nacionais e internacionais de diversas instâncias, centros culturais, associações, governos estaduais e federais, embaixadas, universidades, festivais, coletivos de diversas naturezas e, sobretudo, o esforço individual de cada participante para fazer sua vinda ao México possível; tudo isso junto construiu este encontro.

Embarquei nessa viagem, ou melhor, conheci a ideia deste encontro através de Montserrat, minha amiga e também participante do Sweet & Tender Collaborations, coletivo do qual faço parte. Estávamos em Portugal, num grande encontro do Sweet and Tender, e ela apresentou a todos nós seus planos e chamou-nos a ajudá-la a realizar esta grande empreitada.

(Faço um salto no tempo e, agora mesmo de uma rua do centro de Oaxaca, preciso interromper minha escrita porque, em frente ao café onde estou, passa uma banda de metais e grandes bonecos como os de Olinda no carnaval, além de duas centenas de pessoas. Eles participam de uma passeata em favor de ‘um candidato não registrado’, e gritam o lema “UNIDOS, SI – PARTIDOS, NO”.) (Esse tipo de ‘interrupção’, ou melhor dizendo, este tipo de realidade concretíssima  pula por aqui a todo momento e é impossível esquecer que estamos no México, é impossivel esquecer que neste país cerca de 60% da população é de etnicidade mestiça, 15% são ameríndios e 25% de origem europeia,  e que a política e a imigração são um ponto nevrálgico nos discursos e na realidade daqui).

Voltando, assim que cheguei na cidade do México, ainda de malas e num calor imenso, fui direto para um  projeto chamado The Community Pictures Series. Esse projeto foi inicialmente concebido por Myriam Van Imschoot e atualmente é desenvolvido por David Bergé (Bélgica) e Trajal Harrell (EUA). Se vocês visitarem o site, vão ver que a ideia é retratar comunidades ao redor do mundo, investigando a noção de pertencimento a uma comunidade, e que responsabilidades e relações esta noção acarreta.

David e Trajal desenvolvem a série The Dance Community Pictures.

Eles chegaram à cidade do México antes do começo do Prisma Forum e visitaram academias de dança, escolas, companhias, teatros e associações, convocando seus participantes para uma foto coletiva e fazendo a pergunta: Você se considera membro da comunidade de dança da cidade do México?

Estive lá nas escadarias externas do imenso Auditorio Nacional e vi aquele grupo, com pessoas de danças tão diversas, reunidas para uma bela foto. Coloquei em mim o adesivo “Me declaro miembro de la comunidade de danza de Mexico” e fiz eu mesma uma foto daquele grupo. Senti que tinha acabado de pisar de fato nessa terra. Que ótimo começo!

Micheline no México / Foto divulgação

Micheline no México / Foto divulgação

Depois pegamos um ônibus e, 8 horas depois, chegaríamos a Oaxaca, onde tudo começa.

(Já na saída da cidade do México, passamos pela parte mais pobre da cidade, cheia de grandes ruas de intenso comércio e um trânsito deveras caótico).

O caminho para Oaxaca foi cheio de montanhas altíssimas, ‘curvas peligrosas’ e uma certa dificuldade de respirar àquela altura. E muitas fronteiras. Tehuacan, Miahuatlan, Santiago Nacaltepec…, não conseguia entender tantos nomes diferentes mas parávamos a cada cabine de fronteira.

Por falar em atravessar fronteiras, no ônibus fui conversando com Gilad Ben Ari (Israel) que propôs o projeto Running into the Political Equator/ Encuentro con el Ecuador Político, um projeto que também aconteceu ‘antes’ do Prisma Forum. (Explico: tem um braço do Prisma chamado Prisma Extensions, com projetos relacionados a lugares específicos do México e que ocorrem antes ou depois da duração ‘oficial’) O projeto aconteceu na região de Mexicali, na fronteira entre México e EUA e durou 3 dias. Lá, Gilad se encontrou com artistas locais, artistas que vieram especialmente para o Prisma Forum, instituições educativas e a população local, investigando diferentes maneiras de reagir a esta realidade que é a fronteira e trabalhando nos aspectos artísticos, econômicos, sociais e políticos dessa realidade. No final dos 3 dias eles apresentaram ‘um resultado’ desse encontro, embora ‘resultado’ não seja mesmo a palavra adequada para essa natureza de proposta. Gilad me contou que fará pra nós, na cidade do México, uma apresentação com fotos e vídeos do que foi esse encontro, embora (de novo e ele diz) se trate de algo local, local, local.

flyer Projeto Running / Divulgação

flyer Projeto Running / Divulgação

Volto a pensar: é importante esse encontro estar acontecendo aqui e importantes são as redes e relações que se ampliam a partir daqui.

Lembrei de uma citação do Samuel Beckett de que gosto bastante:

Primeiro o corpo.
Não.
Primeiro o lugar.
Não.
Primeiro ambos

Samuel Beckett
Worstward Ho
1983

E lembrei desta citação porque venho pensando muito nisto: os corpos carregando lugares e discursos, ou, discursos e lugares como parte mesma dos corpos. E não penso esta discussão em termos de identidade, ou melhor dizendo, de identificação, como se um corpo pudesse ou devesse ser claramente localizável em relação a sua ‘origem’.

Penso isso mais em termos de salsichas ou embutidos em geral: como os corpos podem carregar lugares, discursos, relações e valores que vêem  cozidos, misturados, triturados e embutidos nestes corpos.

Mas ok, isso é mesmo uma outra e longa conversa!

Aí volto a saltar no tempo e estou em Oaxaca, o Prisma já começou com uma bela fala de Jaime de Labastida intitulada Una Visión de Mexico/Conferencia de Contextualización. Nesta fala (e vou resumir, é claro!) ele relaciona as línguas e dialetos falados no México até hoje e suas tensões políticas e de poder, com a necessidade e responsabilidade de seguir abrindo espaço para que cada um destes dialetos e, consequentemente, todos os povos que elas carregam, possam continuar a existir. Uma fala sobre abrir e manter o espaço aberto para as diferenças.

A noite de abertura teve o artista mexicano de performance e escritor Guillermo Gómez Pena, que apresentou Corpo/Ilicito: The Post-Human Society # 69, um trabalho impactante e perturbador sobre a exploração do corpo como um lugar de espiritualidade, memória, ativismo, medo e esperanças.

No dia seguinte começamos com as aulas pela manhã, seguidas de sessões de conversas ou workshops e seminários à tarde, muitos deles simultanêos, oferecendo assim opções para quem quisesse direcionar seus interesses. À noite, performances e/ou conversas.

Bem, esse diário de bordo vai seguir ainda por mais 3 semanas, tempo este  que permanecerei no México apresentando meu trabalho e fazendo outras atividades do Prisma Forum. Sinto que tenho ainda muita coisa a dizer e imensas vontades de trocar aqui e acolá.

Nem falei ainda da conversa extremamente estimulante que tive com Guillermo Gómez Pena e do debate de hoje com Amaranta Goméz, uma ativista ‘muxhe’ (que vem a ser uma identidade de gênero de origem zapoteca), que nos propôs valores outros sobre gênero, sexualidade e identidades pré-estabelecidas, e nos disse como toda essa discussão é presente no dia-a-dia de Jochitán, cidade do sul-mexicano, onde ela vive.

Hoje à tarde teremos uma conversa com Jan Ritsema (Países Baixos), Marten Spanberg (Suécia), Xavier Le Roy (França) e Eszter Salamon (Hungria/França) sobre ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­Un cuerpo: multiples aproximaciones e, à noite, Alain Buffard (França) no Teatro Macedonio Alcalá.

Amanhã apresento Carne no Teatro Juarez, dividindo a noite com Christoph Leuenberger (Suiça), que apresentará Masculinity Project e, após a apresentação, coordenarei uma mesa de debates sobre gênero, cultura e performatividade.

Espero carregar pessoas do Brasil para o México a partir desta  escrita, e me carregar também, de um lado para o outro, nesses férteis movimentos migratórios que acompanho do lado de cá.

Agora preciso ensaiar.

Até semana que vem, hasta pronto!

Leia também: Diário de bordo.2 – Prisma Mexico

Diário de bordo.3 – Prisma Mexico

Diário de bordo.4 – Prisma Mexico