A agonia do capitalismo é o desemprego.
Roberto Freire
Sejamos francos: não há mais dinheiro. O capitalismo faliu tanto na macroeconomia quanto na mínima economia, aquela que gere o pagamento de minhas contas mensais e em última instância decide com qual lista de supermercado sairei de casa para as compras. Ela determina também a lista de compras, ou mais seriamente, com que pauta de negociação sairemos ao supermercado dos patrocínios, apoios e editais em um ano que começa esquisito. E se em nosso país começava somente depois do carnaval e depois da viragem dos orçamentos públicos, quando vai começar uma vez que o dinheiro o gato comeu e ninguém viu? Se qualquer orçamento tem como ferramenta correlata o cronograma, qual calendário norteará os contratos em um mundo que segue macroeconomicamente a lógica do cartão de crédito em seu perpétuo adiamento da quitação? Quem vai pagar a conta? Se não há mais dinheiro, do mesmo modo não há mais emprego. Longe de se tornarem epitáfios, estas frases podem nos falar de um grande começo. Está em jogo a decadência do emprego e do dinheiro, em uma era que supostamente soube, com maior ou menor competência, substituir o capitalismo industrial pelo capitalismo da informação. Importa perguntar os modos em que tal substituição se deu. Antes e mais urgentemente, perguntar se substituição é de fato do que se trata, uma vez que a História nos fala sempre de uma convivência simultânea de múltiplas temporalidades diferenciadas. Sendo assim, a tão propalada lógica da ruptura vigente no discurso da Modernidade, uma Modernidade hoje cansada, parece não fazer mais muito sentido na análise da situação. E que situação! Seguindo esta lógica, não estaríamos vivendo atualmente uma nova era em substituição de uma outra que a antecederia. O imbróglio em que nos metemos talvez tenha que ver com este imbróglio temporal – talvez estejamos fazendo perguntas modernas para respostas contemporâneas. Parte da moçada ainda embala seus sonhos segundo a lógica do capitalismo industrial no desejo do emprego e da contrapartida que lhe vale justa ou injustamente em dinheiro. Outra moçada já modela seus processos de subjetivação em meio a uma era da informação que, tal como ressaltamos em nossa coluna anterior aqui publicada, já não admite mais tais modalidades de sonhos. Está em jogo a pergunta: Quais são os contradispositivos (Agamben) que inventaremos para que ainda possamos sonhar? Ou melhor: é de sonhos ainda de que se trata nossa matéria? Sabemos que, na era industrial, os fins coincidiam com as etapas consecutivas de execução visando produzir um objeto cuja finalidade corroborava a origem. Importava inquirir a alienação do indivíduo em relação às etapas e a consecução do produto final. Esse era assunto urgente, por exemplo, de uma dança expressiva nascente no início de um século cuja sintomatologia, Carlitos, frente à esteira daqueles tempos modernos, tão bem exemplificava. Dureza de um tempo que comparada a de hoje vem embrulhada na memória com o pacote da doçura. Não viemos aqui, entretanto, adoçar a boca. Não há lugar nem para a saudade nem para os sonhos. Importa-nos perguntar com a crueza que o tempo nos exige: qual o lugar da dança hoje? De qual necessidade estamos já ou ainda falando? O escritor Roberto Freire, falecido em 2008, nos fala de um tempo, o do agora, em que a luta de classes já não se dará mais entre patrões e empregados, mas entre patrões/empregados e desempregados. A massa de desempregados assusta hoje, mas não como outrora. “Não há vagas!” era a frase mais temida e contra a qual lutávamos, investindo na força da economia como motor de crescimento dos setores que levariam fidedignos à multiplicação de empregos correlativa ao crescimento dos dinheiros. Tratava-se de uma era que sabia trocar o trabalho por um punhado de sal(ário). Bem diferente, os desempregados atuais perfazem entre si uma massa contingencial que NÃO TEM LUGAR. Basta percorrer a Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, e perceber nos galpões abandonados, caindo aos pedaços, a crise de hoje como uma crise do lugar. Não há vagas e não haverá. Longe de ameaçar a lógica do emprego, os desempregados se oferecem talvez como imagem – metáfora a mais encaixada de todo e qualquer um nesta globalização maluca que não prevê aprioristicamente as vagas que formarão entre si os lugares, adequados cada qual às suas respectivas funções. Somos todos hoje, empregados ou não, homens sem função. Estamos lidando com o lugar quando deveríamos lidar com o tempo. É neste sentido que dissemos aqui das perguntas modernas frente às respostas contemporâneas. Homens modernos empregam sua criatividade na configuração de ações que se darão em um espaço, como tal, já determinado de antemão; procuram portanto uma vaga. São estes homens que hoje não têm função. Por outro lado, aqueles que aprenderem rapidamente a habitar o tempo, ou seja, a constituírem suas ações em uma temporalidade contínua e semovente, saberão inventar um seu lugar (escrevo este texto numa tentativa de aprender). A crise do lugar é contemporânea do tempo que surge como entidade definidora da função. Se tal como dissemos, aqui não há lugar para a saudade, nem para os sonhos, também não há espaço para o apocalipse. As teses apocalípticas, aquelas que professam: “É o fim, é o fim, é o fim!” são tão escandalosas quanto consensuais à situação vigente. Em seu lugar, lembremos da elegante e simpática austeridade de Obama. HOPE não é bandeira de esperança, mas um aviso. Trata-se da cara do ainda candidato Obama estampada em uma espécie de shirtology contemporânea. Shirtologie é coreografia do francês Jérôme Bel de 1997, criada para o bailarino Frederique Seguette, na qual o intérprete parado, sempre em uma mesma posição do início ao fim da peça, dedica-se a tirar uma a uma as inúmeras camisetas superpostas que veste, t-shirts quaisquer, encontráveis em qualquer shopping dos arredores, todas elas contendo inscrições e/ou imagens. Trata-se de um gesto repetitivo que expõe e reexpõe, sucessivamente no tempo, o processo pelo qual a narrativa e a significação se constituem para, logo a seguir, se desconstituírem ali mesmo, graças à literalidade que nos faz cúmplices do gesto. Importa, a partir de Bel, perguntarmos qual a shirtology que constituiremos com nossos gestos. De qual hope, afinal se trata, constituindo e desconstituindo o tempo e o que dele nos damos a esperar. Na camiseta que se tornou símbolo da campanha, a redundância pop esvazia o sentido original da mensagem e critica correlativamente a própria esperança. Hope é mensagem para que nos mantenhamos no tempo – olho vivo – contemporâneos, portanto, à própria contemporaneidade. A decalagem do emprego-trabalho-dinheiro é correlata à ascensão fidedigna do projeto. Em uma era na qual vigora o empreendedorismo – moeda fácil em qualquer discurso antenado -, agora trata-se de pensar não mais o lugar no qual vou inserir-me; antes e mais urgentemente quais são as condições de possibilidade que inventarei para existir e permanecer. Teremos que inventar a própria necessidade de nossa existência e de nossa permanência. Tal como nos cutuca Jacques Rancière no título de seu texto: Será que a arte resiste a alguma coisa? Ouvi uma vez uma coisa que achei bacana: quando uma mulher está grávida, o progenitor da criança não é ainda um pai. O pai ainda não nasceu, uma vez que o pai nasce junto com o bebê. Acho que a metáfora se aplica, uma vez que na lógica processual do projeto, o emprego/trabalho ainda não existe: será inventado junto com as condições que lhe darão possibilidade. Em matéria recente do Fantástico, vimos um eletricista desempregado inventar um seu lugar a partir do inteligente slogan “Marido de aluguel” – o aluguel dizendo respeito aos serviços eletricistas, únicas funções maritais admitidas no (con)trato. A frase de Freire que abre esta coluna é ambígua. Se o desemprego é a agonia do capitalismo, talvez seja o desemprego agora o novo modelo das relações. Ao invés de chorarmos um capitalismo agonizante, podemos aproveitar a oportunidade em plena kairos – uma outra ideia de tempo também grega e bem distante da cronologia – para nos voltarmos para o desemprego e não mais para o capitalismo como modelização de nossos gestos e de nossa subjetividade hoje. O que não dá é padecermos sozinhos da culpa (cristã) da dívida, impetrada no funcionamento da subjetividade por um capitalismo moderno que nasceu lá atrás atravessado pela lógica protestante. A dívida marca os corpos nesta @topia contemporânea; identifica-os na subsunção das singularidades no (e)mundo, que já não é mais a do flaneur. Nesse estado contínuo de concordata iminente controlando nossa capacidade de compreensão do quadro geral diante do qual possamos agir, o que fazer? Talvez possamos tomar o anarquista Freire como inspiração, o mesmo Freire que soube comer antropofagicamente termos complexos e caros à psicanálise traduzindo a pulsão do desejo pela simplicidade do tesão. Assim retomarmos a força política do desejo para buscarmos a solução. Façamos então do desemprego, ou seja, da falta de lugar, o hic et nunc da criatividade em uma espécie de nova responsabilidade civil análoga à decadência da culpa da dívida que lhe é correlata. A resistência hoje é não comprar. Não consumir (mais uma vez, escrevo este texto para aprender. Também isso). Se não nos cabe sonhar, cabe-nos certamente inventar. Não mais criar um objeto que faça coincidir em suas etapas executórias o fim com a origem; o sentido com a função. Trata-se antes de inventar não objetos propriamente, mas relações. Relações que consigam manter seu prazo de validade vigente no fluxo informacional não mais mediante à fixidez de um lugar, mas apropriada ao fluir de um capitalismo líquido tal e qual nos apresenta Zygmunt Bauman. É essa a permanência/resistência da qual estamos falando. Tudo isso talvez nos sirva como fomento para enfrentarmos com coragem e paciência este ano que, assim parece, será lento, bem lento, fazendo do limão uma limonada. Cabe-nos permanecer no tempo inventando as condições desta insistência. Sigamos, portanto. Sigamos a máxima do mestre Oiticica: da adversidade vivemos!

Port



Ótimo texto Thereza! Parabéns. …”A resistência hoje é não comprar. Não consumir”… (acho que serve para todos nós)
Também podemos resistir não perdendo em qualidade artística.
é um texto criativo e analítico que descreve a importância de saber gastar.Parabéns!
Adversidade como condição de fomento de novas conformações. Nunca conformidade. O “não há vagas” dos Seminários de Dança em Joinville retumba assim como o “no hay banda” da Cidade dos Sonhos do David Linch. E, ainda assim, resistiremos.
Aqui na China só vejo $.
É o país mais endinheirado que eu já vi. Comunismo é assim.
Parabéns pelas reflexões.
Preciso falar com vc…
rafael_guarato@yahoo.com.br
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At.
Wilson Martins
Olá Wilson,
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