Monte Alban / Foto: Micheline Torres

Monte Alban (foto 1) é um importante sítio arqueológico localizado a cerca de 10 km de Oaxaca, no México. Trata-se de uma das mais antigas cidades pré-hispânicas, tendo sido capital dos Zapotecas e cujo apogeu se verificou entre os anos 500 a.C. e 800. Estima-se que a sua população tenha atingido os 35 mil habitantes.

Bem, fomos todos (umas 40 pessoas, entre artistas locais, artistas estrangeiros, equipe técnica do Prisma e amigos) ao Monte Alban. Estava um sábado de sol forte e a altitude de Oaxaca fazia o sol parecer ainda mais forte. A cor da pele da maioria de nós, as roupas, os óculos escuros, chapéus, o grupo caminhando junto, enfim, tudo dizia : não somos daqui.

É incomodo ser turista quando não se quer sê-lo. É incômodo se sentir invasor, me incomodar com minha própria máquina fotográfica, com o grupo que formo, com essas roupas, com o guia que nos explica com muito esforço num inglês enrolado.

Por que me incomodo tanto em ser estrangeira?

O senhor mexicano que nos guiava contou coisas interessantíssimas sobre aquele lugar, a história, as pessoas que lá viveram, seus desenhos e leis, mostrou um campo de futebol, nos explicou porque eles chamam bola de “pelota” (porque era feita de pelos) e nos fez bater palmas ao mesmo tempo pra entendermos a incrível acústica daquele sítio tão grande. As pessoas tiraram fotos, o grupo se dispersou, fiquei olhando a paisagem e conversando com uma portuguesa. Depois descemos juntos e alguém me dizia que as coisas não são caras no México se sua moeda é o euro…

Li no livro Os Nomes, do escritor americano Don Delillo, como ser turista pode significar, também, “fugir de responsabilidades”.

Ele diz:

“Os erros e os defeitos não se colam em nós como em casa. Somos capazes de vaguear por continentes e línguas, suspendendo a atividade do pensamento lógico. O turismo é a marcha da imbecilidade. Contam que sejamos imbecis. Todo o mecanismo do país hospedeiro está adaptado aos viajantes que se comportam de um modo imbecil. Andamos às voltas, aturdidos, olhando de esguelha para mapas desdobrados. Não sabemos falar com as pessoas, ir a lado nenhum, quanto vale o dinheiro, que horas são, o que comer ou como comer. Podemos continuar a viver nestas condições durante semanas e meses, sem censuras nem consequências terríveis. Tal como a outros milhares, são-nos concedidas imunidades e amplas liberdades. Somos um exército de loucos, usando roupas de poliester de cores vivas, montando camelos, tirando fotografias uns aos outros, fatigados, desintéricos, sedentos. Não temos mais nada em que pensar senão no próximo acontecimento informe.”

Um dias antes desse passeio a Monte Alban, tivemos uma mesa de discussão chamada: Roots for the future, culture, tradition and translation.

Essa mesa foi diferente, não tivemos mesa.

Fizemos uma grande roda de cadeiras com um microfone em um pedestal no meio. A sugestão da moderadora, Rani Nair (Suécia), foi para que, quem quisesse, fosse ao microfone e fizesse uma pergunta relacionada ao tema da mesa, mas com uma condição: apenas perguntas, sem responder à pergunta de ninguém, apenas questionamentos. Ficamos nesse tipo de conversa por muitos minutos, passamos por diversas questões, de diferentes graus de profundidade ou superficialidade, vindas de contextos bem discordantes.

Seguimos sempre procurando nossas raízes?

O México esta na América do Norte? Porque, de fato, temos a sensação de que o México esta na América do Sul?

Norte, sul, leste, oeste: o quanto esses termos são sobre poder e dominação?

Como escrevi no texto da semana passada, muitas conversas por aqui esbarram na questão da migração, das fronteiras, de ser de um país ou de outro, das diferenças e do poder econômico por detrás delas. E não são questões que vêm só dos mexicanos que estão aqui, vêm de nós, “os estrangeiros”, porque estrangeiros nos sentimos todos…

Sua cultura, não a minha?

Meu país, não o seu?

Quem se sente mais como “o outro” aqui? Os mexicanos ou os não-mexicanos?

Quem desaparece quando falamos em termos de “mexicanos” ou “não-mexicanos”?

E sempre podemos, pra mudar o contexto dessa perguntas, subsitituir as palavras “mexicanos” por “brasileiros” ou “paulistanos” ou “paraibanos” ou “venezuelanos” ou “clássicos” ou “contemporâneos” ou “não-artistas” ou “pobres” ou “ricos” ou “negros”.

O quanto de ferramentas ou de armadilhas podemos ter quando separamos as coisas em categorias?

A filósofa búlgara-francesa Julia Kristeva, em seu livro Estrangeiros para nós mesmos, de 1994, escreve:

“(…) estranhamente, o estrangeiro habita em nós: ele é a face oculta da nossa identidade, o espaço que arruína a nossa morada, o tempo em que se afundam o entendimento e a simpatia. Por reconhecê-lo em nós, poupamo-nos de ter que detestá-lo em si mesmo. Sintoma que torna o ‘nós’ precisamente problemático, talvez impossível, o estrangeiro começa quando surge a consciência da minha diferença e termina quando nos reconhecemos todos estrangeiros, rebeldes aos vínculos e às comunidades.”

Sim, parece que, no fim das contas, estamos sempre falando “do outro” e do lugar de onde vem esse “outro”. E “o outro” somos todos nós, queiramos ou não.

Porque, quando olhamos de uma perspectiva de fora, achamos que temos um ponto de vista melhor do que as pessoas da cultura local?

Conceitos como nacionalismo e identidade podem chegar ao racismo?

Estamos abertos, curiosos, interessados, em outras culturas ou estamos apenas falando de nós mesmos?

Bem, como podem perceber, muitas das perguntas daquela mesa de debates seguiram ecoando em nós nos almoços, nos intervalos, e as deixei ecoarem aqui neste texto também.

Os trabalhos em Oaxaca terminaram depois de uma semana. Tivemos coisas tão plurais quanto:

uma mesa sobre Artistas como artistas, artistas como curadores, artistas como instituições, outra discussão sobre Aprendendo, pesquisando e transferindo conhecimento – modos de compartilhar e instigar questões ou Arte como um agente social e político de transformação.

Tivemos apresentações de Tere O’Connor (USA), Xavier Le Roy (França), Jennifer Monson (USA) , Miguel Gutierrez (USA), Jérôme Bel (França)/ Pichet Klunchun (Tailândia) e Thollem McDonas (USA) – Orquesta Libertad (Oaxaca).

Não pude assistir a todos os trabalhos, às vezes estava apresentando, às vezes em alguma mesa de debates e, muitas vezes, existem trabalhos ao mesmo tempo e temos que fazer escolhas, ou mesmo descansar de tanto movimento.

O trabalho de Jérôme Bel e Pichet Klunchun, chamado Pichet Klunchun and myself eu havia visto em Paris, na estreia lá, em janeiro de 2006. Algumas coisas mudaram desde então, sobre o texto que eles falam, sobre como se posicionam na cena e também sobre a minha impressão, na época da estreia, de que tinha uma grande parte de improviso naquilo tudo.

Não tem improviso e o trabalho amadureceu bastante nesses anos.

E pra mim amadureceu a gravidade do trabalho, ou melhor dizendo, a gravidade da discussão que o trabalho propõe sobre o que é “natural” e o que é “exótico”, sobre acessibilidade ou não às danças de cada lugar, ou, melhor dizendo ainda,  acessibilidade ou não aos símbolos e valores de cada lugar ou pessoa, sobre o poder que se percebe implícito em quem faz as peguntas ou em quem as responde, sobre ser turista ou ser local e sobre a procura de equivalência ou de identificação em relação ao outro…

Todas essas são questões me pularam no colo enquanto assistia ao trabalho no Teatro Macedonio Alcalá, ao mesmo tempo em que eu percebia que dicotomias tais quais natural/exótico, turista/local, dança/conceito realmente não nos dão muito espaço para as inúmeras outras possibilidades de articulação…

O que fazemos com todas as coisas que são impossíveis de traduzir ou categorizar?

O trabalho que fechou nossa semana em Oaxaca foi Comprovisation, de Thollem McDonas (USA) – Orquesta Libertad (Oaxaca). Thollem trabalhou toda a semana com jovens músicos de Oaxaca, em suas próprias composições, e montou um pequeno repertório de músicas que iam de composições mais mélodicas, por assim dizer, e outras atonais. Tudo muito interessante de se ouvir daqueles jovens.

Formou-se um grande fila em frente ao Teatro Macedonio, bem maior do que nos outros dias. Eram os pais e parentes desses jovens.

E quando o concerto terminou, o teatro cheio aplaudiu com muito entusiasmo.

Fila em frente ao Teatro Macedonio / Foto: Micheline Torres

Fila em frente ao Teatro Macedonio / Foto: Micheline Torres

Domingo tivemos eleições aqui. São 77 milhões de mexicanos  votando para renovar a Câmara dos Deputados, além  dos governadores de seis Estados, 549 prefeitos, 11 congressos locais, a Assembleia Legislativa do Distrito Federal e 16 Prefeituras de municípios da capital. Neste dia fizemos de ônibus o trajeto Oaxaca-México DF.

Assim que chegamos à Cidade do México (DF) para a segunda semana do Prisma Forum, assistimos a um espetáculo da Compañia Nacional de Danza Folklórica, no Teatro de Danza. Depois fomos ao Museu de Antropologia, nas salas Maya e Mexicana, que foram abertas apenas para que nós pudessemos ver um pouco da história daqui. Uma mexicana que olhava inscrições na rocha ao meu lado, no museu, disse que a cada vez que se constroi mais uma linha de metrô aqui na cidade, mais história surge por baixo dessas terras.

A semana começou intensa e com mais pessoas participando dos encontros. DF é absurdamente maior que Oaxaca e passamos o dia inteiro no Centro Nacional de las Artes, um complexo de prédios que abarca os  centros de investigação e difusão de música, dança, artes plásticas, teatro, a escola nacional de pintura, de dança clássica, de arte teatral, de música e de capacitação cinematográfica. Um lugar bastante grande. Essa semana, temos muitos bailarinos, músicos, atores, investigadores, tanto de DF quanto de cidades vizinhas.

Ontem, no fim da tarde, eu e Mia Haugland Habib (Noruega) tínhamos uma mesa de conversas a coordenar. Mia é parceira de meu novo trabalho chamado Eu prometo, isto é político. Ela trabalhou comigo por um mês, em setembro passado, no Porto, em um grande encontro do Sweet & Tender. Na pesquisa desse novo trabalho, sigo passando períodos com parceiros de diferentes áreas e depois volto a trabalhar sozinha.

Tínhamos essa mesa e um tema “a inventar”. A princípio pensamos em falar da nossa pesquisa juntas, mas sentimos que na conversa da manhã, sobre Arte e Ativismo, ainda faltavam muitos pontos a discutir, pois foi uma conversa com muitas pessoas de trabalhos diversos e, muitas vezes, nesses grandes grupos de conversas, é díficil encostar nos outros e ter uma troca mais estreita. Então resolvemos que íamos puxar um fio dessa conversa da manhã e falamos para todos que seguiríamos neste tema à tarde, e que as pessoas que se interessassem estavam convidadas.

Então, em nosso encontro, fomos sete pessoas.

Sentamos todos no palco, em volta da mesa e usamos um microfone, pois estava sendo filmado. E foi uma conversa muito interessante, próxima, uma discussão que correu entre as sete pessoas, a partir de suas experiências e questões, somando diferenças e afinidades. Neste grupo tínhamos uma pessoa que não falava inglês e uma pessoa que não falava espanhol, então isso nos fazia ter que esperar, a cada fala, a tradução de um dos participantes que, gentilmente, fazia este trabalho para todos. Foi curioso pois, ao necessitar desse tempo de espera até que o outro (em inglês ou em espanhol) captasse o que cada um falava, trazia para nós uma paciência com o outro, com o tempo e o entendimento do outro, e não atrapalhou em nada a mesa, pelo contrário, nos fez mais próximos.

Trago um tom de romantismo nisso?

Talvez, mas falo deste ponto em espécifico porque quero falar, também, das diversas naturezas de encontros que tivemos e ainda teremos aqui, sobretudo nessa cidade tão grande como é DF. Tem lugar pra muitas diferenças aqui e, às vezes, não tem lugar também. Então se tem mesmo que abrir terreno usando algum facão.

A semana segue, ontem à noite tivemos uma apresentação de David Zambrano (Venezuela/Holanda) e outra de Keith Hennesy (Canadá/USA).

Essa semana pela manhã farei aulas de chi kun, com Laura Casas (México) e os seminários à tarde. Na terça-feira aconteceu um seminário chamado Al sur y al norte desde este lado: Coreografia Latino-Americana, com Javier Contreras (México) e Lourdes Fernández (México).

Ok, essa semana misturei os zapotecas com “ser estrangeiro”, com os jovens músicos de Oaxaca, com as perguntas de um seminário, com uma mesa de conversa de sete pessoas, com a sala Maya do Museu de Antropologia, com pagar as coisas em pesos mexicanos, tendo como dinheiro de origem euros e com máquinas fotográficas.

Me sinto o Tom Zé (quem me dera…) fazendo um arrastão de referências e ideias…

Mas é isso mesmo agora.

Espero jogar sementes para que vocês peguem daí, das muitas que catei aqui nesses dias.

PS. Mutchas gracias pelos emails e pelos comentários aqui no idança, isso torna a minha escrita do lado de cá mais gorda e eu com mais “ganas”.

PS 2. Não, não, as pessoas não estão usando máscaras aqui nas ruas e no dia-a-dia. Segue a vida normal.

PS3. Lá naquela mesa de conversas, onde só se faziam perguntas, alguém pegou o microfone e perguntou: O que pensa você, de boné verde, dessas pessoas que passaram aqui uma semana?

A pessoa de boné verde era um funcionário da casa onde trabalhávamos todos os dias e que, antes, estava varrendo, mas havia parado para ver aquela roda de perguntas. Esse senhor só riu envergonhado e não respondeu. Procurei ele depois pra saber a opinião dele, mas não encontrei.

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Diário de bordo.4 – Prisma Mexico