sombrero / Foto: Micheline Torres

Tava pensando na força e no peso prático das ideias e de suas concretizações.

E no que é ter um produto acabado ou não.

Sobre a força e o peso prático das ideias e de suas concretizações quero dizer: pensar um encontro, projetar um encontro, construir um encontro, realizar um encontro e depois, de dentro, olhar pra ele tentando fazer aquele olho meio fechado e meio aberto e aquela cabeça pra trás que a gente também faz quando tenta olhar algo de longe, estando de perto.

Tenho feito esse movimento muitas vezes aqui e conversado dele com as pessoas.

No domingo passado tivemos um open microphone para as pessoas falarem sobre o Prisma Forum, e surgiram muitas colocações sobre não ser um festival mas ter um tamanho deveras grande, sobre questões estruturais, elogios e críticas, possibilidades para o futuro (existirá um segundo Prisma?), reverberações locais, como incitar a convivência, impactos a curto, médio e longo prazo…

Muitas perguntas.

Eu quase que só escrevo perguntas, como no texto da semana passada, mas já estou em outra.

Outra semana, eu muito mais gorda dos encontros e da vida daqui. Mexico DF é uma cidade mesmo atordoante, imensa e cheia de contradições. As perguntas não dão mais conta. Ou pelo menos não apenas elas.

Acho que só a convivência é que está dando conta agora ou, como disse Oswald de Andrade: “Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”

Por isso digo “estar mais gorda daqui”, porque é comer, é deglutir, é vomitar, é expelir e experimentar outros gostos e olhos, é compartilhar de dentro/de fora, estrangeira e intrinsecamente envolvida ao mesmo tempo.

Tem que experimentar os tacos com pimenta e andar pela cidade nos ônibus caindo aos pedaços, tanto quanto discutir “a coreografia latino-americana” no fim da tarde ou fazer uma aula sobre “o ritual de concluir”, com Robert Stein, pela manhã.

Sim, sim, se tratam de experiências intensivas e extensivas ao lugar onde se está, e como ele funciona e como nos adaptamos/transformamos nele e com ele.

Os “encontros-comidas” são as aulas, debates, almoços, conversas de corredores, festas, cafés da manhã, solidões necessárias, passeios turísticos, espetáculos, workshops e nomadismos aqui e ali. E sinto em mim e nas pessoas ao redor os arrotos de toda essa comilança. E cada um come o que quer ou o que pode, mas todos nos empanturramos por aqui.

Outra vez lembro do Manifesto Antropofágico:

“Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.”

Já que mergulhei no Oswald de Andrade, vou percorrer ele pra falar de outras coisas.

Em seu romance Marco Zero, de 1943, Oswald define seu livro como “um romance mural, um afresco, um mosaico, um comício de ideias, um caminho para plasmar ideias sobre uma arte nacional popular e ao mesmo tempo engajada”. Nesse livro ele parte de revoluções que aconteciam no mundo àquela época (dentre elas a revolução mexicana e seus murais) para propor a adoção da idéia de mural como solução estética para a composição de um romance que pretendia flagrar uma rede de relações sociais num cenário de transformações econômicas e políticas.

Bem, essa passagem por Marco Zero, de Oswald, foi a conexão que me ocorreu entre antropofagia-canibalismo-comício de contradições-convivência-exteriorização-arte mural.

A arte mural me veio de Oswald e, inevitavelmente, dos imensos murais de Diego Rivera que vi por aqui e de como essa arte expõe, a quem quiser ver, as contradições e convivências de sua época.

Sinto o impacto contraditório desse mosaico, desse comício de diferenças, desses imensos murais expostos não só em museus, mas também nas ruas de Mexico DF. A ideia de produzir os murais em locais públicos veio para que todos pudessem ver as ideias e jogos de poder ali representados e, também, era uma forma de impedir que as obras acabassem em propriedade de algum abastado colecionador.

Prisma Forum veio cheio de convivência de diferenças e contradições, tudo exposto a quem quisesse ver.

Desde como abarcar trabalhos ou propostas tão díspares, até onde alojar todos os artistas e como financiar isso, se os artistas locais pagariam para participar ou não, sobre como a União Europeia financiou os artistas europeus, mas como fazer com todos os outros.., porque uma artista brasileira tem que pagar seu próprio visto de entrada no México e seu vizinho argentino não precisa do mesmo visto, muito menos um europeu, mas o sul-africano precisa…

Tudo isso e outras coisas foram colocadas e discutidas, não só no open microphone, mas no trajeto do ônibus até a aula de yoga pela manhã, na conversa antes de participar da jam session de improvisação ou antes de dormir, com o belga que dividia quarto comigo.

Sim, é muita coisa envolvida.

Parece com olhar o mural Sueño de una tarde dominical, de Diego Rivera, que data do ano 1947 e mostra mais de 150 personagens da vida política e histórica do México.

Bem, obviamente não se trata da mesma coisa…mas, numa analogia, é como olhar aquele grande quadro cheio de informações e diferenças e jogos de forças (falo do mural de Rivera e falo também do Prisma Forum), fazendo, mais uma vez, aquele movimento do olho meio fechado e meio aberto e aquela cabeça pra trás, tentando olhar algo de longe, estando de dentro.

Prisma Forum terminou domingo passado, numa fiesta no Salón Los Angeles. Música de todo o tipo, gente de todo o lugar.

Na semana tivemos muito mais apresentações de grupos mexicanos de Mexico DF e outras cidades, uma plenária sobre Art of WE/ Arte y Comunidad e outra sobre Art and reflections of violence.

Eu estive muito mais ocupada do que em Oaxaca, pois participei de um trabalho de Eszter Salamon, chamado Transformers. Esta é a nova pesquisa da coreógrafa húngara radicada em Berlim, e será apresentada no Impulstanz, em Viena, no fim de julho.

Éramos um grupo de 9 bailarinos de Portugal, Noruega, Hungria, Israel, Sérvia, Brasil e Polônia. Trabalhamos 6 horas por dia, por 6 dias, e apresentamos no último dia do Prisma Forum.

Estar por essas horas, todos esses dias, numa sala de ensaio e, de uma certa maneira, afastada da agitação que é um encontro dessa proporção, me trouxe às voltas com o exercício diário e sistemático do bailarino, e da importância disso na criação de um trabalho.

Esse tema da “importância de trabalhar diariamente”, das diferentes técnicas e treinamentos em um corpo e a prática da disciplina do performer, foram o centro da mesa One body: multiple approaches. Performance and practice“, que aconteceu na semana, com falas de Eszter Salamon (Hungria), Jeremy Nelson (USA) e David Zambrano (Venezuela/Holanda).

Hum…eu comecei lá em cima falando de duas coisas:

1.      A força e o peso prático das ideias e de suas concretizações.

2.      O que é ter um produto acabado ou não.

Sobre o primeiro ponto dei uma sobrevoada em, desde sonhar um encontro, até o ponto de olhar pra ele, tentando dar um zoom out.

Sobre o ponto dois, o “produto acabado” o que eu quero dizer mesmo?

Penso que quero dizer sobre formatos pré-estabelecidos ou que, de alguma maneira, já conhecemos e concordamos (ou discordamos) em pontos específicos, maneiras instituídas de construir e desenvolver estruturas, know how e/ou redes autogeridas, estruturas colaborativas, coletivos, redes, rizomas, tecidos, malhas, emaranhados, outras peles, estruturas maleáveis, encontros emergentes… Dá pra pensar uma série de nomeações para cada formato.

Mas e sobre as mutações? Sobre as misturas inventadas, que ainda não têm nome ou que um nome só não abarca nem o objetivo nem a maneira como ela se constrói?

No open microphone ninguem sabia dizer o que era Prisma Forum, embora se tentasse. Depois esse ponto de nomear ficou secundário diante de outras questões e da vibração do encontro para cada um.

Então, em meu ponto dois quero sobrevoar isso: um produto não acabado, não nomeado, contraditório e que, dessa maneira mesmo, juntou centenas de pessoas em duas cidades do México, por cerca de 4 semanas, fez circular ideias e trabalhos e discussões e questionamentos e, sobretudo, um enorme entusiasmo por estar participando de tudo isso, com todo esse comício de ideias deglutidas e vomitadas por aqui, neste mural mexicano.

No open microphone que aconteceu em Oaxaca, uma pessoa associou o Prisma Forum ao queijo oaxaqueno: é uma bola enrolada de queijo, sendo então caótico em sua estrutura, mas cheio da riqueza do sabor daquela região.

Termino usando as palavras da Amaranta Goméz, a ativista “muxhe” (que vem a ser uma identidade de gênero de origem zapoteca) que citei no primeiro diário de bordo, lá em Oaxaca.

Ela, referindo-se a Jochitán, cidade do sul mexicano, onde ela vive e onde as discussões no dia-a-dia sobre gênero e sexualidade propõem outros valores, diz:

“Não somos o paraíso nem o abrigo do mundo, mas estamos cercados de algo que é distinto e que é importante que exista”.

Prisma Forum foi assim: distinto, não acabado e importantíssimo de ter existido.

(Semana que vem tem o “último capítulo” dessa viagem. Prisma Forum terminou mas permaneço no México e mostro CARNE no Festival Internacional de Morelia, em Michoacan. O festival tem 12 anos de existência e, esse ano, contará com 2 trabalhos internacionais: CARNE e Tout Court, uma produção da Alemanha formada por membros do coletivo Sweet and Tender Collaborations. O festival funciona em conjunto com La Red Nacional de Festivales e oferece uma programação local, nacional e internacional gratuita).

(Ainda ficaram uns rastros de México DF pra contar e quero falar da dança que vou ver lá em Morelia).

Inté!

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Diário de bordo.4 – Prisma Mexico