Trabalho Tania Bruguera / Foto divulgação

Em 2008, tive o prazer de conhecer (o trabalho e pessoalmente) a artista cubana Tania Bruguera.

Eu estava em Paris fazendo uma residência artística no Centre International des Récollets e Tania estava no mesmo centro, mas trabalhando junto ao espaço de criação CENTQUATRE, onde desenvolvia o projeto Party of Migrant People associado à comunidade local.

Tania é uma artista interessada na relação entre arte, política e vida, com trabalhos altamente politizados, onde o corpo é abordado inserido em seu contexto social, econômico e político. Tania nomeia estes princípios como “Arte da Conduta”.

Ela trabalha interdisciplinariamente, mas elege a performance, o vídeo, o desenho  e a instalação como seus principais intrumentos expressivos.

Na última Bienal de Havana (2009), Tania apresentou uma  performance (veja o vídeo abaixo) que consistia em criar uma situação (um cenário com um pódio, microfones, dois  ”guardas da revolução” que davam a voz e depois determinavam o fim do discurso, uma pomba branca colocada no ombro de quem falava,  e bastante público estrangeiro) para que alguns cubanos pudessem expressar sua opinião livremente.

YouTube Preview Image

A primeira pessoa que fez uso do microfone foi Yoani Sánchez, muito conhecida fora de Cuba por seu blog Generación Y. É importante ressaltar aqui que ter um blog é algo insólito na ilha, já que o acesso à internet é praticamente impossível aos cubanos. Yoani Sánchez clama à criação, difusão e conversa através do blog como uma possibilidade da “internet como uma praça pública de discussão”.

Nesta performance (filmada e disponibilizada na internet no mesmo dia) as pessoas se alternavam em opiniões, um microfone, dois guardas, uma pomba e, mais importante, A POSSIBILIDADE DE TER VOZ, encontrando espaço, tempo, atenção e liberdade para falar de seus anseios e, sobretudo, das limitações que lhes são impostas por viver na ilha.

Destaco aqui a fala de uma pessoa: “Que um dia a liberdade de expressão em Cuba não seja uma performance!”

Assim que encontrei esse trabalho na internet (abril de 2009), a proposta de Tania foi de encontro ao trabalho novo que eu estava (ainda estou) desenvolvendo.

O trabalho chama-se EU PROMETO, ISTO É POLÍTICO, e, quando comecei ele, em 2008, estava nessa residência artística em Paris, que falei lá no início do texto.

Lá em Paris trabalhei sozinha,  e depois fui para Portugal trabalhar com Mia Haugland Habib nessa minha pesquisa.

Trabalhei, separadamente, com Mia e com outros artistas do Sweet and Tender Collaborations. Trabalhávamos sobre quadrados no chão, espaços individuais/coletivos, ceder o espaço para cada um ocupar com suas questões atuais… Isto abordando aqui a ideia de maneira bem resumida!

Bem, trabalhei esta primeira ideia de maneira bem específica com Mia, devo dizer totalmente coreografada, mas, com os outros artistas que quiseram entrar em minha pesquisa, trabalhei de maneira bem mais aberta, numa espécie de “coreografia do contexto, do quadrado”, deixando o recheio ou, melhor, o assunto de cada quadrado nas mãos de seu ocupante.  Um pouco MST: dar terra (quadrado) pra quem quer ocupar (falar), e que ocupe sua terra como melhor lhe prover.

(Ok, tô dando uma grande volta, espero chegar em algum lugar…)

Então, em abril de 2009, quando vi este trabalho da Tania, encostei mais em muitas questões com as quais me identifico, e entendi mais o que eu mesma vinha investigando.

EU PROMETO, ISTO É POLÍTICO segue seu rumo e muitas coisas já mudaram, foram abandonadas, outras permaneceram, mas a questão de dar voz e de criar território para ser ocupado permanece para mim obsessivamente.

Pra escrever esse meu último diário de bordo, voltei a essas questões, pois a viagem acabou e volto a meus ensaios diários do EU PROMETO, e também me deparei muito com esses pontos no México e trouxe-os para tudo que venho escrevendo aqui. Além disso, fiquei com o open microphone que falei (no texto da semana passada) na cabeça!

Então, minha ideia pra este último diário de bordo era fazer um open microphone textual: abrir este espaço do idança e meu texto pra quem quisesse falar.

Para isso escrevi/convidei muitas pessoas que conheci (ou ja conhecia) no México, pessoas locais e estrangeiras, das mais variadas procedências e trabalhos e opiniões. Escrevi a elas começando a proposta com uma pergunta:

“Como foi estar no México, no Prisma Forum, para você?”

Pedi que respondessem essa questão como quisessem, de maneira bem curta se desejassem, com palavras ou com fotos ou com ideias ou com “o que tivessem em mãos”.

Não deu certo.

Pouquíssimas pessoas me responderam de fato, outras escreveram dizendo que estavam de férias ou que estavam de saída para seus países e me escreveríam em algumas semanas (mas “não posso esperar” pois meus textos são semanais e esse é o último…), outras simplesmente não responderam meu email.

Enfim, não aconteceu como eu esperava. Este texto não aconteceu como eu esperava.

Paredes de Oaxaca / Foto: Micheline Torres

Paredes de Oaxaca / Foto: Micheline Torres

Isso me acontece toda hora no processo criativo: a gente trabalha numa coisa e ela “nao funciona” ou “não dá em nada” ou demora meses até a gente entender o que ela é ou onde ela vai mas, e também , as coisas nos surpreendem em seus “objetivos, funções, usos e significados”.

Quando isso acontece é pedra precisosa e lembro da frase do Manuel de Barros: “repetir, repetir, até ficar diferente”.

E lembro também de um livro que volta e meia estou nele.

Chama-se Das coisas nascem coisas, do artista plástico italiano Bruno Munari.

O livro é, a princípio, dedicado a designers e trata de metodologia de projetos, desdobramento de ideias, sistemas de construção, tendo sempre em vista a solução de problemas sobre distinguir o “objeto certo” do “objeto errado” para determinado fim.

Parece específico demais, muito lógico e bem fechado, mas, sempre que volto neste livro, é sobre renovar o olhar sobre um mesmo objeto e manusear outros desdobramentos para o mesmo, num processo contínuo de investigação e descoberta.

(Para mim parece com estar trabalhando na sala de ensaio)

O autor utiliza assim 378 páginas para dizer o que se poderia entender como óbvio:

As coisas nascem de outras coisas. Mas isso é lógico! Porém, não é, e o autor  explica isto através de diversas áreas do conhecimento e de muitas atuações profissionais.

E que cada um faça suas correlações e analogias, é obvio!

Para mim parece com estar trabalhando na sala de ensaio.

Mas por que eu falei desse livro e falei do Manuel de Barros?

Sim, pra dizer do que não dá certo como a gente quer, mas que “dá em muitas outras coisas”…

Foi assim com esse meu último diário de bordo.

Foi assim com muitos encontros no México, onde tínhamos problemas de tempo, poucas pessoas, falta de espaço… E, por conta disso, inventávamos outros encontros.

É assim quando a gente está num processo criativo, sozinha ou acompanhada numa sala de ensaio, mexendo nas mãos coisas que não se sabe pra quê, por onde ou porquê. Ou, que se acha que sabe, mas que nos surpreendem em alguma curva do caminho e então outras coisas nascem dessas coisas.

Foto: Micheline Torres

Foto: Micheline Torres

Pronto, esse texto (e todo o diário de bordo) vieram assim: cheios de cruzamentos de tempo e espaço e referências e influências, relativamente caótico, como num processo de criação.

Algumas idas e vindas, ideias que dão em “lugar nenhum”, ideias que dão em lugares que não sabemos o que ou como são, mas de onde se deve continuar caminhando e, certamente, se deve continuar caminhando!

Trouxe tudo isso comigo e foi assim que fui e voltei do México do fim de junho ao fim de julho de 2009, com um monte de coisas nos textos e na bagagem , que (espero) vão dar em outras coisas.

(Estou no aeroporto do Panamá e consegui uma conexão de internet aqui. Acho um ótimo lugar e momento pra fechar esse diário-viagem. Tem muitas pessoas dos mais diversos lugares passando por mim, aqui e agora, algumas sim, com máscaras, e já chamam o meu vôo para o Rio de Janeiro. Foi uma ótima viagem).

(Pensei também neste último diário em postar muitas fotos de vários momentos da viagem e só as fotos, sem texto algum. Pensei em cada um que me escrevesse, escrevesse em sua própria língua. Pensei em fazer um vídeo. Pensei em fazer um longo relato de um único paragrafo, falando do que é andar uma tarde inteira pelo centro da Cidade do México, numa mistura de incoerência, multiplicidade, contradição e riqueza. Pensei em pedir aos leitores do idança para que me apontassem caminhos que lhes interessasem e eu escreveria a partir disso… Todos esse meus pensamentos e intenções, juntos e misturados, deram nesta “coisa” que é este texto. Parece que ainda tenho muito a escrever, mas, daqui, espero que cada um que pegue o que quiser e faça suas próprias “coisas”).

Sim, reafirmo: Das Coisas nascem Coisas.

Preciso pegar o avião.

P.S. As imagens que acompanham o texto (fora as duas do trabalho da Tania Bruguera) são de uma série de fotos que faço em todas as viagens. Elas se chamam “As paredes das ruas” e me interessam porque gosto de observar o que  e como as pessoas falam, pelas ruas e muros das cidades.

Leia também: Diário de bordo – Prisma Mexico.

Diário de bordo.2 – Prisma Mexico