Elas são bailarinas brasileiras com trajetórias bastante semelhantes. As duas carimbaram o passaporte há anos para estudar dança e hoje integram companhias internacionais de renome. Os caminhos profissionais de Ruth Amarante e Patrícia Hoffbauer seriam idênticos não fosse a distância de um oceano entre elas: Ruth escolheu o caminho da dança-teatro de Pina Bausch e é bailarina da Tanztheater Wuppertal, na Alemanha, enquanto Patrícia integra a Cia. Yvonne Rainer, nos EUA.

De férias no Brasil – afinal, é verão no hemisfério norte – as duas mataram saudades de suas famílias, mas não se distanciaram por completo da dança: elas aproveitaram a visita para se aproximar de alguma forma dos artistas brasileiros. Ruth deu workshop na Escola Angel Vianna da técnica usada por Pina na companhia e participou de um bate-papo informal e aberto ao público no Centro Coreográfico do Rio. Patrícia foi a principal articuladora da semana em homenagem a Yvonne Rainer, em São Paulo, e da versão reduzida da mesma programação, no Rio de Janeiro (leia a entrevista que o idança fez com Yvonne em sua visita ao Brasil).

O idança aproveitou a passagem de Ruth e Patrícia pela cidade para conversar com elas sobre os anos fora do país, as diferenças culturais  e a experiência de dançar com dois dos grandes nomes da história da dança mundial. Cada uma ao seu estilo, tanto no palco como na vida.

“Pina sempre foi muito exigente, mas cordial e carinhosa”

“A morte da Pina foi muito recente, ainda sentimos muito”, disse Ruth, ainda muito emocionada, durante o bate-papo informal realizado no fim de julho, no Centro Coreográfico do Rio. A emoção e a tristeza não são à toa, já se vão 19 anos desde que a brasileira chegou a Wuppertal para estudar dança logo após se formar em medicina. “No período da faculdade eu voltei a dançar. Buscava algo que me surpreendesse quando conheci o trabalho de Pina. Resolvi ir atrás. Recebi o diploma de médica e embarquei logo depois”, lembra. Ruth fez audição para a escola Folkwang, de Essen, e passou. Depois de três anos lá, já estava na companhia.

Ruth Amarante / Foto: Isabella Motta

Ruth Amarante / Foto: Isabella Motta

Sonho realizado, vieram as dificuldades normais do dia-a-dia de qualquer trabalho. Misturando mais de 20 pessoas de várias culturas diferentes, a convivência dentro da companhia não é fácil. “Passamos oito horas por dia trabalhando numa sala fechada, numa cidade onde chove muito, não é fácil… Viramos uma família, uma família escolhida pela Pina. Passei metade da minha vida vendo a Pina diariamente, oito horas por dia”, observa Ruth, mãe de Kalu, de nove meses.

Ruth conta que com Pina, o trabalho era exaustivo e buscava sempre a perfeição. O processo criativo da coreógrafa se baseava num jogo de perguntas. Ela lançava uma palavra – ‘água’, por exemplo – e os bailarinos tinham que criar a partir de perguntas que a própria Pina fazia. Esse exercício durava cerca de 1h30 todos os dias. “Eram centenas de perguntas durante toda a criação. É um processo demorado, que pode durar meses… Passamos meses convivendo com aquelas perguntas, era muito cansativo. Tenho cadernos cheios de perguntas guardados”, revela Ruth. “A Pina gostava muito do Brasil, por isso, gostava de começar o jogo com a palavra ‘saudade’”.

Mesmo com todo o rigor técnico e profissionalismo, Ruth descreve Pina como uma pessoal muito cordial e carinhosa. Isso explica a longevidade de muitos bailarinos dentro da companhia, caso da brasileira, atualmente uma das mais antigas do grupo. Segundo ela, a coreógrafa era muito observadora e gostava de acompanhar o desenvolvimento do trabalho de cada bailarino individualmente. “Ela se relacionava diferente com cada um, sempre muito exigente, mas cordial. Tinha assistentes, mas a criação era sempre dela e não aceitava muitos palpites”, conta.

A busca pela perfeição não se restringia à repetição exaustiva de movimentos, ela também passava pelo visual dos bailarinos. Os indefectíveis cabelos longos das bailarinas não eram apenas uma concidência: Pina achava que o cabelo comprido ampliava o movimento, além de ser uma característica muito feminina. “Ela não proibia de cortar, mas reclamava quando alguém mudava o visual”, revela Ruth, achando graça da atitude. “Há muita fidelidade à Pina, muita alegria por trabalhar com ela”.

Com a morte da coreógrafa, muito se especulou sobre o fim da companhia, mas nada foi falado oficialmente ainda – as apresentações no Brasil, no fim de setembro, estão confirmadas (leia mais aqui). Ruth fala pouco sobre o assunto: “Um dos filhos dela trabalha na companhia e é ele quem sabe. Mas me parece querer dar continuidade”. Pina e a sua Tanztheater Wuppertal revolucionaram a forma de fazer dança nos anos 60, introduzindo emoção e elementos teatrais, como a fala, em seus espetáculos. “A dança-teatro não é uma técnica, não se aprende, se faz no palco. Não temos nenhum trabalho de teatro, somos bailarinos, fazemos aulas de dança. Nos 30 anos de existência da companhia apenas uma atriz se juntou ao grupo. O resultado é teatral, mas interpretamos e falamos como bailarinos”, esclarece Ruth.

De Graciela Figueroa a Yvonne Rainer

Nos anos 60, enquanto Pina Bausch revolucionava a dança moderna na Alemanha, Yvonne Rainer também inventava uma nova forma de se expressar nos EUA. No lugar da emoção e teatralidade de Pina, os movimentos secos e simples. E esse acabou sendo o caminho seguido por Patrícia Hoffbauer, apesar de seu encontro com Yvonne ter sido quase por acaso, anos depois da ‘explosão’ da Judson Dance Theater. Na verdade, a coreógrafa cruzou o caminho do marido de Patrícia no fim dos anos 90. Eles se conheceram na universidade e, um dia, Yvonne resolveu assistir ao trabalho do então aluno e de sua mulher na mesma Judson Church onde ela e outros importantes nomes dos anos 60 transformaram a dança. Esse episódio aconteceu em 1999 e Yvonne saiu de lá encantada com a forma como a brasileira tocava o próprio corpo. “Quando ela me disse isso eu fiquei emocionada”, lembra Patrícia.

Patrícia Hoffbauer / Foto: Isabella Motta

Patrícia Hoffbauer / Foto: Isabella Motta

Dali a alguns anos, Yvonne iria formar sua companhia, escolhendo chamar intérpretes de diferentes naturezas e até uma não-bailarina. A ideia era que o grupo se reunisse apenas para ensaiar e se apresentar trabalhos antigos, assim, todas poderiam continuar com seus projetos anteriores. Patrícia entrou na companhia em 2006, logo após dar à luz sua segunda filha, quando já pensava em parar de dançar. “Tenho um respeito enorme pela Yvonne, sua cabeça é muito fértil, ela é uma pessoa especial. A oportunidade de poder continuar dançando ao lado dela foi muito estimulante”.

Até o encontro com Yvonne o caminho de Patrícia na dança foi longo. A mãe era bailarina clássica em São Paulo e colocou a filha, aos oito anos, na aula de balé. “Fazia aulas com a Tatiana Leskova, mas não gostava, eu não tinha jeito para balé. Mas foi na academia que conheci Angel e Klauss Vianna, eles tinham acabado de montar sua primeira escola e com uns 15 anos fui pra lá”, conta. Dois anos depois ela se juntou ao Teatro do Movimento, dirigido por Angel e Klauss Vianna, no Rio, e mais tarde ao Grupo Coringa, da coreógrafa uruguaia Graciela Figueroa. “Naquela época Graciela já trabalhava interdisciplinaridade, técnica de release technique, ideias de anatomia, balé revolucionário. Entre os cerca de 10 bailarinos eu era a mais jovem. No Coringa vivíamos um momento hippie, o grupo era o mais democrático possível, pregava a ideia de que corpo era liberdade. A gente ainda não sabia direito o que era aquilo tudo, se viraria algo grande ou não, lembra. “A Graciela era uma revolucionária, tolerante com todas as diferenças. Ela queria desmistificar a dança, que também foi de uma certa forma a proposta do Judson Church. Ela criava coreografias simples, que qualquer um poderia fazer. Ela acreditava naquilo, na capacidade do corpo comum. Ao mesmo tempo usava músicas muito políticas. Foi ela quem trouxe para a dança brasileira uma consciência das Américas”.

O balé já tinha ficado pra trás e a convivência com Graciela despertou em Patrícia a vontade de aprender mais, de se dedicar mais  à dança. Foi então que, no início dos anos 80, ela embarcou para Nova York para “entender de onde tinha saído tudo aquilo” que Graciela propunha nos seus trabalhos. Na época, trancou a faculdade de  Letras para uma temporada de seis meses. Está lá até hoje. “Lembro que a Graciela escreveu os nomes de algumas pessoas que eu deveria procurar em Nova York num guardanapo de papel! E eu levei o guardanapo!”, diverte-se Patrícia.

Hoje, além de bailarina da companhia de Yvonne e mãe de duas meninas – Julieta, de 9

'The Architecture of Seeing' / Foto divulgação

'The Architecture of Seeing' / Foto divulgação

anos, e Graciela, de 4 -, Patrícia dá aulas de Body in cultural landscapes (curso criado por ela), em que explora os usos do corpo como entretenimento. Ela pensa em voltar a morar no Brasil, mas esse é um plano a longo prazo. Mesmo com uma vida fixada numa das cidades mais culturalmente efervescentes do mundo, a bailarina faz questão de afirmar que não é fácil viver de arte nos EUA, como muitos pensam, e que a briga por financiamentos para a produção em dança lá é igual ou maior que no Brasil. “A oferta de dinheiro é pouca e há muitas companhias e artistas independentes lutando para sobreviver. Na verdade, poucos artistas conseguem viver apenas de dança nos EUA. Isso é reflexo da política de distanciamento da produção cultural como um todo, deixando os artistas à mercê dos financiamentos governamentais”, ressalta.

Aliás, ao falar sobre a produção atual de dança nos EUA, Patrícia lembra a importância do legado deixado por Merce Cunningham e Pina Bausch, duas grandes perdas para o mundo da arte em 2009. “Cunningham promoveu uma separação entre dança e narrativa. Ele fazia uma dança sem aprisionamento da técnica, o que todos do Judson faziam. Era a dança mais perto do real. Ele era um gênio, foi um presente vê-lo dançando. Já a Pina quebrou a coisa do sagrado na dança e criou a presença do performer teatral. Os dois promoveram grandes transformações e são perdas muito tristes”, afirma.