The fact of matter / Foto: Maíra Spanghero

O que me levou à Veneza não foi propriamente o encanto de uma das mais belas (e turísticas) cidades do mundo, ainda que a vontade de conhecê-la existisse há tempos. Também não foi exatamente a companhia dos amigos, que alegraram a minha estadia. Tampouco as férias escolares do verão europeu. Aquilo que realmente motivou minha ida até lá foi a estreia da nova obra do coreógrafo William Forsythe (1949), The Fact of Matter, durante a 53a Bienale di Venezia, que acontece do dia 7 de junho ao dia 22 de novembro de 2009. A bienal é um empreendimento enorme e tudo respira arte pelas ruas, museus, galerias, igrejas, barcos, pessoas. A própria cidade pode ser considerada um museu a céu aberto, pois, fundada no ano de 950, carrega uma longa história que passou pela posição geográfica vantajosa e estratégica entre o Oriente e Ocidente. Nesse sentido, nada mais acertado do que o nome do mercador e explorador Marco Polo para o aeroporto, não?

Antes de comprar meus bilhetes para a exposição (custam 18 euros e dão entrada para as duas áreas por onde o evento se espalha, em Arsenale e Girardini) verifiquei algumas informações no site da companhia do Forsythe, The Forsythe Company. Se você fizer o mesmo que eu, vai perceber que há somente uma “página” com dados que se reduzem ao nome da obra, seu autor, o ano de estreia, a data de exibição, os promotores/realizadores e a palavra “tickets” que, quando clicada, te conduz ao endereço eletrônico da famosa bienal. Com cerca de 90 artistas, não seria difícil encontrar o nome do coreógrafo, caso o sistema de busca do ambiente funcionasse. O resultado dá em nada. O jornal de divulgação do evento apresenta uma lista em ordem alfabética dos participantes, mas o de Forsythe também não consta. Nada nos panfletos e os monitores igualmente não sabiam informar.

Estaria eu diante de uma investigação de detetives?

Como não havia informação coerente disponível, cheguei a pensar que, talvez, a instalação tivesse sido cancelada por algum motivo e algo estivesse virtualmente desatualizado. Diante dessa confusão, do tamanho da exposição e da quantidade de obras, como eu iria, afinal, encontrar a nova obra do William Forsythe, caso ela lá estivesse?

Só indo pessoalmente. Pois foi na terceira visita que, totalmente por acaso, encontrei The Fact of Matter! Logo depois de ter sido felizmente pega de surpresa pelas esculturas da americana Miranda July, enquanto passeava à deriva pelo jardim, em Arsenale. O lugar é um misto de gramado, mata, pedras, pássaros e outros bichos cercado por uma paisagem industrial e portuária com arquitetura do século XVI. The Fact of Matter está praticamente escondida numa parte mais reservada dessa área. Inclusive você só desconfia que tem alguma coisa ali ligada à exposição porque identifica, à distância, o suporte de papel onde ficam os créditos das obras, padrão da bienal.

A sala do seu mais recente objeto coreográfico, como Forsythe vem chamando alguns de seus trabalhos, é um lugar aparentemente abandonado e não muito grande. As duas aberturas estão cobertas de vegetação. Há ferrugem e pó. Dentro do lugar, se você não fizer questão de ler os tais créditos com a “explicação” colocada na entrada, será surpreendido por 200 anéis de ginástica pendurados em diferentes comprimentos do teto até o chão. “É possível utilizar os anéis para atravessar o espaço, o risco é todo seu. Somente duas pessoas são permitidas por vez. Obrigado”. The Fact of Matter faz com que o “espaço” se torne uma questão: ao ocupá-lo e ao propor sua ocupação. Que corpos poderiam surgir com o uso desses anéis? Que espaços? Corra seu risco. Descubra e compartilhe sua política.

The fact of matter / Foto: Maíra Spanghero

The fact of matter / Foto: Maíra Spanghero

Nos últimos anos, o coreógrafo William Forsythe vem pensando como dança e coreografia podem existir em outros contextos e mídias, como por exemplo no caso dos filmes e vídeos (Solo, Suspense, Antipodes I / II), das instalações City of Abstracts, Scattered Crowd e Defenders Part 2-3 / his film 1.2.3, do CD-Rom Improvisation Technologies e, mais recentemente, do admirável projeto Synchronous Objects for One Flat Thing, Reproduced, uma mídia disponível on-line fruto do trabalho de uma equipe multidisciplinar que desenvolveu visualizações gráficas e computacionais para a coreografia.

Segundo Forsythe, conforme escreveu em seu texto Choreographic Objects:  “coreografia é, ao mesmo tempo, um termo curioso e enganoso. A palavra em si, como o processo que descreve, é alusiva, ágil e furiosamente indócil. Reduzir coreografia em uma única definição é não entender o mais crucial de seus mecanismos: o de resistir e transformar concepções prévias de sua própria definição. [...] Coreografia/coreografar e dança/dançar são duas práticas distintas e muito diferentes. No caso da coreografia e da dança coincidirem, a coreografia frequentemente serve como um canal para o desejo da dança. Alguém poderia facilmente assumir que a substância do pensamento coreográfico reside exclusivamente no corpo. Mas, é possível para a coreografia gerar expressões autônomas de seus principais, um objeto coreográfico, sem o corpo?

Essa foi uma das ideias discutidas durante o seminário público que ocorreu dentro da programação do evento Focus on Forsythe, promovido pelo Sadles Well’s, em abril de 2009, em Londres. O pesquisador Scott de LaHunta organizou e coordenou a discussão cujo título ajuda a pensar mais sobre o assunto, Objetos Coreográficos: Traços e Artefatos de Inteligência Física. Forsythe e seus colaboradores, entre eles Siobhan Davies, Wayne McGregor e Emio Greco, conversaram sobre o conceito de objeto coreográfico e como ele virou realidade no projeto digital acima mencionado, o Synchronous Objects. Boa parte do debate girou em torno da exploração das tecnologias interativas digitais para documentar, representar, transmitir e disseminar importantes aspectos dessa prática artística. As várias fontes informacionais constituem objetos que o projeto investiga através de perguntas como: o que os dançarinos sabem? Como esse conhecimento pode ser capturado, transformado e acessado em outros campos de estudo além da dança? O que tem sido reconhecido como produção de conhecimento nesse fazer e que tipos de objetos podem ser tomados como conhecimento para outras disciplinas?

Questões como essas estarão em pauta nos próximos anos, desafiando profissionais de diferentes especialidades a trabalharem juntos em projetos que situem a produção de conhecimento da/em dança e promovam adiante a sua compreensão/documentação/visualização.

Por fim, ainda dentro da programação da Bienale di Venezia, vale conferir as instalações dos brasileiros Lygia Pape e Cildo Meireles, as obras do espanhol Miquel Barceló (inclusive o vídeo de uma de suas perfomances), a sala do chileno Iván Navarro, as esculturas de palha de Ahmad Askalany… Perca o dia (ou dias) lá dentro. Os amantes das artes do corpo precisam checar também o pavilhão do artista Jan Fabre com a exposição From the Feet to the Brain, curada por Linda e Guy Pieters, em Arsenale Novissimo. Confirme antes, pois tem dias em que o pavilhão está fechado, mas você só fica sabendo disso quando está na frente dele.

Maíra Spanghero é pós-doutoranda, com suporte da CAPES, na Brunel University, em Londres, onde pesquisa a relação entre dança e matemática na obra dos coreógrafos William Forsythe e Anne Teresa De Keersmaeker.