One / Foto: Zane Mellupe

Sheila Ribeiro/dona orpheline está trabalhando em Nanjing, na China, pelos próximos seis meses. De lá, ela vai relatar suas experiências e observações da cultura local como correspondente do idança.

Island 6 Arts Center

Thomas Charveriat, da galeria Island 6 Arts Center, foi quem me apresentou Chaim. Ele explica que os artistas da dança chineses apresentam mais seus trabalhos na Europa do que na China, por motivos financeiros e pela burocracia. Na Europa (Alemanha e França) existem bolsas para artistas chineses. Na China não.

Além disso, para que um artista apresente seu trabalho em um local com o direito de cobrar ingressos, deve ter um documento, uma licença. Para obtê-la, o artista deve submeter-se a dois procedimentos: um financeiro e um moral. Com o financeiro, descobrimos uma “política pública” que estimula o fim do métier do artista da dança. Para cada evento, deve-se pagar uma soma em torno de 5000RMB (R$ 1.400), 18% de imposto e 20% para o sistema de venda de ingressos “my piao”. O procedimento que chamei de “moral” diz respeito a enviar um vídeo do trabalho para a censura, que o avaliará e devolverá ao artista um feed-back com o que deve ser cortado. A censura proíbe as coisas mais banais que uma censura proibiria: nudez, sexo, falar de política e violência. Como diz Chaim: “não existe maior violência que a censura”. Por isso, a dança contemporânea na China vive nas galerias de arte, que, pelo que entendi, têm muito prazer em compartilhar os trabalhos de dança em seus locais. Sem financiamento direto, os artistas, às vezes, recebem cachês de intermediários culturais europeus.

Art Shaker

Meia hora de táxi me leva do centro de Shangai a uma periferia de horizonte largo, Yangpu, para o Art Shaker. No meio de um centro comercial (com lojas de material de construção, DHL e outros escritórios) o Art Shaker aparece e relembra que a noção de centro versus periferia não se aplica mais à metrópole contemporânea.

Muito novo em tudo o que é, o Art Shaker é um complexo de estrutura enorme, arquitetura de ponta, em quatro setores e cinco andares. Dois andares em funcionamento, com várias galerias. Os outros três, em construção, são ao mesmo tempo o alojamento dos trabalhadores que os constroem. No centro, um espaço a céu aberto, tipo praça, interliga – shakera – praticando o shake que mistura os sabores dos andares, das pessoas, das galerias vivas e das em gestação, sendo liminar dos sentidos da visão, da imensidão, do deslumbramento do céu e da construção. Pedreiros e artistas trabalhando no mesmo espaço – operários, obreiros.

Vinte e cinco “palavras de ordem” estampadas em seu flyer de divulgação orgulhosamente apresentam a visão de mundo deste espaço para as artes multidisciplinares e indisciplinadas (selecionei 10 delas): futuro, mundo, brilho, tempero, explosão, criatividade, artista, arte, sentidos, liberdade. E concluem: “Você está em um fantástico lugar onde negócios, tecnologia, arquitetura, moda e arte estão fervendo”. É mole?

Tomaz Zihunt Chow cura Liminal 800, onde o trabalho de Chaim, One (foto), está programado. Chow se interessa pelo que vem a ser, hoje, a relação dentro-fora, nas dinâmicas e espaços que formam zonas liminares. Questiona os espaços de trânsito geográfico (como corredores e janelas) relacionando-os àqueles sociais (pessoas que seguem regras e as que as quebram) – lembrando que no próprio prédio tem um escorregador que liga o 5º andar ao 1º (ou o contrário). Para ele, o liminar traz incerteza e gera tensão de equilíbrio entre a criatividade humana e a inflexibilidade das regras. Assim, apresenta o conceito de liminaridade como um divisor sutil onde não existem diferenças de gêneros ou disciplinas e onde o latente se faz possível em um transitar instável entre um dentro que não existe mais e um fora ainda impreciso e indefinido. Propõe assim, as instalações interativas criadas por bailarinos e artistas visuais.

Dragoneira

Falando em zona liminar, Enesoé Chan se autodefine como um mestiço sino-brasileiro nascido em Moçambique. Ele é estilista e misturou em seu último projeto os temas do dragão e da capoeira, para ele, casando China e Brasil. Seu slogan é “moda investível, arte vestível, moda consciente”. O conceito de moda investível troca de lugar com o da  arte que se pode incorporar como vestimenta e traz desejo e prazer na mutação, na construção. A moda consciente de Chan dissolve a visão de que a moda é uma padronização homologante propondo, antes de tudo, consciência estética da pessoa e da roupa.

Já Chaim Gebber existe porque um sírio e uma chinesa fizeram amor; e também porque dois escravos de Minas Gerais fizeram amor e puderam ter um filho não escravo a partir da Lei do Ventre Livre. Por isso, o conceito multi-prospéctico do shaker, do limiar e da construção transbordam da arquitetura da Art Shaker e da curadorida de Chow pertencendo além da “cultura”, também dos detalhes e cruzamentos biográficos dos dois artistas.

Durante One, de um som grave, obscuro e de pulsação contínua surge a voz de Ney Matogrosso (em uma rápida citação); uma canção de Gilberto Gil é tocada e dançada por completo; uma voz em off fala de mameluco, mestiço, mulato, branco, índio brasileiro – em português; o trabalho de Chaim, apesar de ser evento chinês, relembra que um artista traz consigo experiências, formatações, valores, deslocamentos, sua matéria bruta. Chaim escreve em chinês (algo que não entendo). No encontro com o artista pós-apresentação, uma espectadora pergunta “qual é a sua motivação para nos mostrar isso?” Enfim, um jogo constante de um shakerque é incógnita nas relações contemporâneas onde a tradução não existe e não faz sentido.

One

Máscaras brancas espalhadas no chão em um ambiente criado por luzes negras fosforescentes nos levam até os praticáveis. No centro da cena, um homem em pé, de branco, pés descalços – em mix de coisa “oriental”, capoeira e roupa para dançar. Ele está mascarado em meio às mesmas muitas máscaras. Ele está ali, imóvel, mas não intacto, nem passivo. Ele respira e está presente. A presença de Chaim dá vida às máscaras que se tornam cúmplices, vigilantes e em exposição. Com referências nas culturas em que viveu, uma série de ações e relações são objetos-ponte para que Chaim componha um panorama de “contexto”: desde a máscara branca, passando por um bonequinho “beiçudo” (representando um negro?), papéis, escrita e trocas de figurino em cena.

Em termos de background dramatúrgico, o que me pareceu mais “brasileiro” em termos de know-how foi a necessidade de se explicar e de ser “compreendido” em suas peculiaridades; a parte “europeia” seria a estrutura irônica e paródica como se esse tipo de inteligência fosse anti-poder. Segundo a simbologia cromática chinesa, a cor branca tem um sentido de morte e luto. O branco veste-se nestas máscaras comunicando um evento incontrolável ou incompreensível que transforma o rosto vivo (colorido) em máscaras mortuárias replicadas.

A arquitetura de sua dança delimita códigos da ordem do reconhecimento racional e social, onde, por consequência Chaim se mete “a dançar” novamente, ou, quer dizer, a movimentar-se em uma dança de outra ordem, a da abstração. O corpo fica “doce” (chegando à necessidade de dar uma reboladinha tímida – representando um prazer?). Abstrata, porém não tão diferente do mish-mellow que propõe e disseca na “primeira parte contextual”. Sua movimentação vai do deslocar e expressar sensações e sentimentos; a fazer referências e citações; a penetrar em movimentos vindos da capoeira e do releasing em uma bricolagem de formas reconhecíveis e inventadas. Às vezes olha os objetos com uma pseudo estranheza, com a surpresa do primeiro encontro, se colocando também, como objeto de encontro para o espectador. O “si mesmo” se transforma em uma surpresa a cada vez.  Ou ainda o “si mesmo” é o “como se fosse” de si mesmo.

Com as máscaras traz as multiplicidades mascaradas que encontra em si mesmo, nos outros, nos grupos constituídos por subjetividades e naqueles de difícil acesso à subjetividade. A máscara singular e plural, forma o “um”. De certa maneira, Chaim parece fazer um convite: o de perceber a singularidade fixa de um rosto – do rosto um – em um escorrer ininterrupto de identidades como os fragmentos de culturas que o artista constroi e shakera.

Enquanto se objetifica, a título de vários exemplos, Chaim tem proposta político-ideológica defendendo a mestiçagem. Transita entre o que domina e o que não, em várias representações de si mesmo propondo múltiplas realidades que, para Chaim, constroi “o um” fragmentado e viajante. O que Chaim tenta fazer do “um” não é criar unificação, nem reproduzir o um como identidade fixa e self, ao contrário, mostra que o um pode existir também dentro de uma porosidade, gordinha, latente, redonda, pulsante, esperançosa. É quando o um não pode ser mais visto por um olhar da tradição intelectual ocidental. Tudo se desloca, se shakera e o um também. Enquanto isso Enesoé Chan e o Art Shaker vestem, revestem, investem e despem.

Sheila Ribeiro/dona orpheline é artista em dança contemporânea, novas mídias, publicidade e cinema. Interessada pelas dinâmicas de poder, trata tensões pós-coloniais, ilusão, deslocamento e desejo na comunicação contemporânea, trabalhando sempre em trânsito. Faz duo com seu marido, o antropólogo Massimo Canevacci Ribeiro. Colabora também com Benoît Lachambre, Laurent Goldring, Sophie Deraspe, Edgard Scandurra, entre outros.