esteira de bagagens / Foto divulgação

Esta coluna se escreveu na urgência de um entre. Chegava ao Rio de Janeiro de volta da VII Bienal Internacional de Dança de Fortaleza e me encontrava prestes a mergulhar novamente nas dores e nas delícias da programação de outro festival, agora do Panorama de Dança. O Panorama se foi e junto com ele o II Seminario Internacional Economia da Dança que, aviso, gerou frutos, aprofundou e deu continuidade ao que havia iniciado no ano passado. Tivemos casa lotada, transmissão simultânea via Internet, palestras potentes e muita urgência de troca acerca de algo que nos interessa a todos. Há neste momento um grupo de discussão em andamento; oito cidades com vistas à realização de seminários semelhantes no próximo ano; Plano Nacional da Dança disponibilizado (leia mais na reportagem publicada aqui no idança) e muita gente boa acreditando que este tema-feixe pode nos valer de moeda para o necessário escambo nacional de ações. Não me deterei especificamente no Seminário por ora. Convoco os leitores a uma retrospectiva dos acontecimentos e ao acompanhamento dos próximos capítulos pelo blog do seminário (Engaje-se neste co-labor in process!).

Quero antes ser fiel ao que se apontava como urgente quando iniciei esta coluna. E o entremundo dos festivais de dança se apresentou para mim como uma oportunidade, mais do que um motivo.

Fico sempre me perguntando o quanto um festival de dança se faz também e talvez sobretudo pelas frestas da programação. Frequentá-lo é uma aposta. Contamos que a curadoria possa ter tecido boas oportunidades, bons motivos para os encontros entre as pessoas e, assim, a necessária partilha do sensível, como nos inspira Jacques Ranciére. Dos dissensos à partilha. Na partilha, uma política.

A aposta é também na mutualidade como única e precária certeza de que a dança possa ainda ser aquilo que nos une na constituição de um comum. Pequenos e fortes encontros reafirmam um tipo específico de amizade tecido à distância. Cada qual dos parceiros, na maioria das vezes sem o saber, colabora com o outro na invenção compartilhada de mundo. Aliás, a parceria é anterior, é condição.

Muitas vezes em um festival, nos descobrimos parceiros de alguém. Antes, de um nome que conhecemos pela referência em um catálogo. É o seu trabalho, sua ação no mundo, que alimenta a amizade cujo exercício mudo – exercício não exercido – nos une. Trata-se de um tecido de afetos em potencial, uma filia ainda não realizada que desconstroi o futuro em favor de devires-mundo e de devires-dança. Sem o saber, a programação de um festival tece, sem objetivo ou programa, uma rede silenciosa de devires.  E isso também é uma política.

Foi assim, por pura sorte, que um café da manhã da Bienal de Fortaleza me re-uniu à amiga Vera Mantero, cujos solos tive o prazer de comentar no festival riocenacontemporanea de 2005. Pude ver com muito gosto o quanto nossa amizade de dança continuou a ser tecida, à revelia dos encontros presenciais, estes que, desde então, nunca mais aconteceram. Nossa conversa na verdade se fez meta-conversa. Falávamos da sintomática líquida (Bauman) que rege os afetos hoje e do quanto é contraditório que nossos projetos de dança falem da mutualidade como política e do quanto é difícil que de fato nos encontremos. Circunstância de mundo; situação de dança.

Pensei em alguns de meus amigos coreógrafos com quem eu não encontro senão mui raramente. Aliás, encontrar para ensaiar tornou-se um transtorno, parei e pensei. Lembrei-me de circuitos europeus de festivais cujo tráfego aéreo exige malas cada vez menores e mais leves; roupas cada vez mais desmarcadas de gênero, a meio caminho entre a roupa de ensaio e a roupa de passeio. A proliferação de computadores Macintosh brancos e levinhos, portáteis e prontos a tecer relações – quase um fetiche descolado da geração líquida.

Sem lamentos, pensei também o quanto malas menores metaforizam certo desterro e o quanto isso colabora, sem qualquer relação de causa e efeito, na constituição de uma rede, bela rede, e na possível desconstituição de um ambiente de dança. Penso no quanto nossas relações de dança, de uns tempos para cá, estão sempre intermediadas pelo projeto; o quanto o risco do encontro está roubado de antemão pelo elogio da colaboração. Pensei na colaboração, tão festejada na dança de uns tempos para cá, como um sintoma. E como ela se ampara contraditoriamente numa rede de relações sempre intermediadas pelas granas do projeto ou do edital. Eu me encontro com você a não ser que o edital ou o programa não o proporcione.

Já fiz aqui, neste sítio virtual, a defesa do projeto como modelização do trabalho e da economia nestes novos tempos da decadência do emprego. Invenção como prova dos nove! – parafraseando o poeta antropófago. Não estou padecendo de uma melancolia celetista. Aliás, para o bem ou para o mal, a CLT nunca de fato consolidou relações (trabalhistas) em dança. Diante mais uma vez da liquidez contemporânea, acredito na força da construção de mundo baseada nos indeterminismos do projeto e no quanto estes indeterminismos se fazem economia e tecem política. Mas me inclino a dizer que a contrapartida do projeto é a invenção de novos modos de habitar. Um habitar sem residência, mas com resiliência.

No estado atual do ambiente de dança da cidade do Rio de Janeiro, resiliência talvez rime com resistência. Trata-se de uma situação do Rio, mas que vejo talvez como retrato possível de uma circunstância nacional. Me inquieta certa atomização que ouso reconhecer na cena de dança carioca, certa rarefação da convivência. Fico me perguntando se a lógica dos editais, por exemplo, colabora de algum modo com este cenário.

Uma vez que o setor da dança tem nos últimos tempos encontrado sua sustentabilidade nos editais que proliferaram pelo país – bem vindos os tenham sido (!) –, talvez seja chegada a hora de uma reflexão. Não que questionemos a sua existência. Isso seria retrocesso histórico, uma espécie de tiro no pé. Mas alguns problemas talvez já possam ao menos ser elencados. Tudo ainda é um pouco novo para todos nós e é por isso que escrevo esta coluna com um espírito convocatório. O que se apresenta aqui é escrita da hora, precária, incompleta, incerta. Cheia de perguntas, fico com vontade de conversar.

Fico pensando se a lógica de produto vigente nos interstícios da escrita dos editais confronta a lógica de processo tão necessária na constituição de fortes escritas de dança e, a partir delas, de fortes laços de dança. Fico me perguntando, ainda, e mais fortemente, o quanto mediarmos nossos fazeres tanto pela lógica quanto pelas temporalidades dos editais perturba e mesmo prejudica a formação daquela filia de dança à qual me referia anteriormente.

Não falo de exercício de classe de dança, pois já não sei se acredito propriamente nessa palavra, ou em tratar assim do problema. Também não estou aqui, neste momento, para falar (mal) do Estado. Quero falar de nós e do quanto talvez estejamos delegando ao Estado e a seus inevitáveis anonimato e impessoalidade, a gerência tanto de nossos tempos, quanto de nossa falta de paciência de encontrar, nossa falta de sentido comum.

Percebo uma insidiosa e perversa administração dos afetos segundo uma competitividade miserável, a partir da qual ganhar um edital significa contraditória e imediatamente entrar na fila dos desvalidos novamente. Ao realizarmos um projeto, atendemos ao que nos propusera o edital, em termos de prazos e números de apresentações, por exemplo, e perigosamente talvez achemos que isso é suficiente. Assim, damos mais satisfação ao Estado do que à própria dança acerca do quanto nossas ações colaboram ou não com a tessitura comum de seu devires. O que afinal de contas estamos fazendo? Que mundo estamos juntos ajudando a inventar?

Pensei no quanto é contraditório que festejemos os editais e lamentemos o que eles geram como produto. Hoje nos impacientamos com as estreias. Quase não as frequentamos. Preferimos adiar ou evitar o encontro. As estreias nos assustam, nos surpreendem e muitas vezes nos aborrecem. Não há muito o que festejar. O mau humor impera.

Talvez a resistência hoje passe também por encontrar. Conviver, taí uma prova dos nove! E é justamente neste ponto que resilência rima com resistência.  É a partir da convivência de singularidades comunicantes (Deleuze) que a dança, todas elas, as realizadas e as (ainda) não realizadas podem resistir como projeto não programático de um comum.

Por isso falo urgentemente aqui da defesa da resilência, de novos modos de habitar como partícipes da constituição de uma forte rede de relações que trabalhem entre si no tecido delicado de um sensível de dança, um comum. Tal como nos sugere Ranciére, é a partir dos dissensos e da inevitável partilha do sensível à qual eles nos obrigam, que este senso de comunidade, auto-regulatório, e porque não democrático, se apresenta como possibilidade e como política. E devo dizer que um festival de dança é um festival de dissensos.

O De Andrade da prova dos nove é o mesmo da antropofagia que uma vez dissera ter ido à França e descoberto o Brasil. Mais uma vez parafraseando-o, talvez tenha precisado ir a Fortaleza para arrancar um véu de maia e descobrir o Rio novamente. Talvez o doce sotaque português de Vera Mantero também tenha contribuído para certa bruma de melancolia ibérica que me tomou.

Pensei em como seria cafona escrever uma coluna em pleno Panorama 2009 preocupada com o ambiente de dança, com certo exercício de localidade que já teve sítio, para usar uma palavra portuguesa, na cidade do Rio de Janeiro. Pensei na cafonice também como uma prova dos nove. E me encorajei a escrever e a lembrar.

Lembrei-me de muitas coisas importantes. Lembrei-me do Panorama, este enorme parque de encontros que as gentes de dança ajudaram a construir ao longo de bem mais de uma década na cidade do Rio. Pensei nas fortes filias de dança que o festival ajudou a constituir. Lembrei-me como aguardávamos o ano todo por aquele compensado de dissensos (de)formadores de dança. Sabíamos que frequentar o Panorama era certeza de encontrar a moçada.

Pensei que a mutualidade nos fala de um ambiente de dança que resiste. Pensei que o Panorama era um bom motivo (de dança), provocativo o bastante, para pensarmos juntos na mutualidade como exercício de futuro não-programático de dança. Frequentá-lo, também uma política. Pensei nesta coluna como um alerta. E ousei terminá-la sem concluí-la.