Saudações dançantes, caros e distintos amigos.
Como poucos sabem, sou pesquisador da temática culturas populares e suas transformações ocorridas no meio urbano, com ênfase em dança. No entanto, sempre tive “um pé atrás” em publicizar minhas pesquisas em espaços virtuais, por se tratar de um formato em que as discussões aparecem de forma apressada e muitas vezes pouco proveitosas no sentido de aprofundamento de debates acerca de temáticas complexas, que são “arremessadas” no mundo virtual e tratadas de maneira superficial e simplista. Diante esse panorama, o idança aparece atualmente como o portal mais flexível e coerente com as empreitadas de nossos artistas. Isto posto, faz sentido e creio ser proveitoso tal espaço para publicizar nossas reflexões, eventos e notícias em dança.
Tenho plena convicção de que muitos optam por formatar suas pesquisas e sintetizá-las para que as tornem viáveis ao formato digital como meio de divulgação de seus respectivos trabalhos. Em compensação, lidamos ordinariamente com indivíduos que muito pouco, ou quase nada, pesquisam, mas que descarregam suas tortas e nada embasadas “teorias” em nosso já conturbado e tenso campo da dança.
Por esse viés, adotei, ao longo de minha curta trajetória em dança, uma postura política de não inserir minhas reflexões adquiridas via pesquisas nas janelas da web, tendo em vista que se tratam de questões impossíveis de serem enxugadas em três ou cinco páginas. Ou seja, o texto aqui apresentado trata antes de uma preocupação, de um diagnóstico e de um posicionamento político acerca da dança de rua, e não de uma reflexão oriunda de um estudo teórico-metodológico.
Trata-se da existência de um curso de extensão universitária sobre “Danças Urbanas” que foi implementado na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) neste segundo semestre de 2009 e comandado pela Cia. Eclipse, representada pela profª. Ana Cristina Ribeiro Silva juntamente com a profª. Holly Elizabeth Cavrell (USA). A realização deste curso me deixou ambiguamente surpreso ao perceber que seu release propõe “uma abordagem teórica e prática onde estudaremos e pesquisaremos os diferentes estilos das danças urbanas”.[1]
Por um lado, é interessante perceber e reconhecer que existe uma ampla prática de danças urbanas, em suas diferentes ramificações, em todo território nacional brasileiro, que torna legítima a presença de seus praticantes em ministrar aulas para acadêmicos vinculados às instituições superiores de ensino – mesmo não levando em consideração seus usos, que podem ser desde a mera reprodução por meio de aulas futuras em que essas pessoas poderão utilizar-se deste material, até as interferências cênicas em que se implodem e/ou se manipulam os códigos oriundos das danças de rua em linguagens outras, que historicamente concordamos em aglomerar numa nomenclatura escorregadia, ora específica demais, ora ampla demais, denominada de dança contemporânea. Sendo ambas viáveis e praticáveis em diferentes níveis.
Por outro lado, ao atentarmos para a ementa do curso sobre dança de rua ora proposto, percebemos o grande embaraço e falta de reconhecimento do processo histórico que forjou os praticantes da dança de rua ao longo das últimas duas décadas e meia no Brasil. Como assim? Em meados da década de 1980, a sociedade brasileira começou a experienciar um fenômeno, sempre particular e local, que posteriormente recebeu a nomenclatura de dança de rua. Tal manifestação cultural dançante, desde suas primeiras aparições, funcionava numa dinâmica de diálogo com referências corporais múltiplas, tais como: Funk, Soul, Jazz Dance e Break (existem aqueles que preferem falar em contaminação). Cabe ressaltar que tais meios são de matrizes negras africanas, mas que se modificaram no território hoje conhecido como Estados Unidos da América.
Todavia, o acesso a essas referências vem de forma fragmentada e pouco estruturada via meios de comunicação de massa e trocas gestuais por meio da observação em bailes realizados nas periferias de todo Brasil. A questão é que: no cenário nacional, existiram pessoas que deram início a essas práticas de forma apropriada, gerando uma estética peculiar, na qual mesclava-se diversas referências de movimentos, pensamentos, vivências, gestos e reconhecimento social via dança. Essa nova forma de dança ganhou visibilidade por meio do circuito de festivais competitivos já em fins da década de 1980. Espaço este que interferiu de forma crucial na formatação e legitimação do que seria a dança de rua no Brasil. Inclusive a nomenclatura Dança de Rua foi instaurada não por seus praticantes, mas por “especialistas”[2]: curadores, jurados e toda “rapa” que se fazia sempre presente e notável naqueles festivais.
No decorrer da década de 1990, eis que aparece um grupo da cidade de Santos-SP que forneceu uma fórmula do que seria “A” dança de rua. Novamente, quem gera e consolida esse modelo não são seus praticantes, mas os “especialistas”, que por meio de premiações, moções, convites vão gradativamente fornecendo as bases para uma dança de rua “aceitável”, aquela que se aproxima mais dos modelos tradicionais da dança ocidental.
Passado esse momento, surge um grupo de pessoas, oriundos da dança de rua, que passa a ocupar os lugares onde se fornecem legitimação estética à dança de rua, dando inicio a cursos, palestras, workshops, realizando apresentações e principalmente, sendo jurados de festivais competitivos. Reforçando cada vez mais o “modelão” da dança de rua.
Esse processo gerou uma insatisfação dupla: tanto os “especialistas” quanto os praticantes da dança de rua se voltaram contra esse formato fechado e chapado do que deveria ser a dança de rua no Brasil. Houve uma necessidade mútua, uma busca para tornar possível a renovação dessa forma de dança em nosso território nacional. Entretanto, a falta de estudo, pesquisa, de compreensão dos processos de apropriação cultural, mediação, re-significação, incorporação por ambas as partes, impossibilitou a percepção do processo que já vinha sendo realizada desde início da década de 1980, tornando cômodo, preguiçoso e viável a adoção dos “new models” norte-americanos. Verdadeiros “alcorões” das danças urbanas, onde se encontra nomenclaturas, tutoriais, enfim, danças urbanas formatadas, fechadas e passível de reprodução. Convidamos seus “messias”, exaltamos seus “santos”, abrimos espaços para seus “apóstolos” brasileiros pregarem a palavra sagrada do hip hop. Como é lindo ver um Freestyle, New School, Krump, B.boying, Locking, Popping tudo muito bem organizado e bem acabado. Agora estamos embasados teoricamente e corporalmente para oferecermos um curso de extensão universitária.
Creio que seja altamente válida essa nova formatação da dança de rua no Brasil. O que me inquieta é que, paradoxalmente, alijamos do processo as pessoas que, de fato, conseguiram produzir o híbrido a partir dessas referências externas, que longe de reproduzir um modelo, criaram formas outras de expressão lidando com esses códigos. Sujeitos que, mesmo sem possuírem uma formação acadêmica, efetivaram em seus corpos apropriações riquíssimas em que, ao invés de se ter uma sobreposição de nomes e movimentos reconhecíveis de danças específicas, produziam um corpo múltiplo, com possibilidades mil.
Para aqueles que reclamaram tanto do “modelão” de meados da década de 1990, está na hora de rever novamente seus conceitos de danças urbanas, pois elas não são em sua unanimidade estrangeiras. Em determinado momento de nosso percurso, “abrimos mão” de algo que construímos para adotar, assimilar e glorificar como “autênticos” os padrões norte-americanos das danças urbanas[3]. Paremos para assistir às apresentações dos grupos atualmente atuantes na cena brasileira da dança de rua. O que temos são modelos, que devem ser seguidos à risca. Caso contrário, o artista estará fadado ao fracasso no interior da lógica da dança de rua hoje operante.
Temos que nos atentar um pouco mais não às formas e seus processos de produção, circulação, veiculação, mas antes de tudo, ao processo de apropriação. Como as pessoas se utilizam dessas informações vindas – extra – território nacional, antes mesmo de tentarmos enquadrá-las às exigências estritamente formais. Da mesma forma com que lidamos com micro formas de disciplinarização, existe uma prática outra, micro, realizada no meio social, em que os populares se utilizam dessas informações, gerando mil maneiras de fazer.
[1] Trecho retirado do release do curso de extensão universitária sobre Dança de Rua da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que apresenta os diferentes estilos das danças urbanas como sendo (street dance): Funk, Rocking, Locking, Popping, Breaking, Hip Hop Dance, House Dance, Dance Hall e Krump; assim como as suas subdivisões.
[2] Incluo nessa nomenclatura desde aqueles autodidatas, perpassando por estudiosos que lidam com a reprodução de técnicas de dança em escolas, grupos e cias de dança, até intelectuais vinculados à academia. Trata-se da compreensão de um formato de evento onde pessoas que possuem formações distintas e específicas, interferiram historicamente em múltiplas formas de dança, cada qual com suas historicidades e peculiaridades, mas que receberam avaliações, recomendações, sugestões de pessoas que estão muito aquém de compreender o significado de suas danças.
[3] Ao investigar o processo de construção e consolidação das danças urbanas no território norte-americano, o processo é similar ao ocorrido no Brasil até meados da década de 1980. A diferença se fez quando um grupo de praticantes daquele país conseguiu organizar e codificar passos, gestos, posturas, um padrão de movimentação, dado reconhecimento e legitimidade via registro escrito e audiovisual aos seus primeiros praticantes. Tornando palpável perceber o processo de construção de suas danças. Fato este que não ocorreu no Brasil, não dispôs de amparo acadêmico, midiático, intelectual para forjar o alicerce em que se assentavam as nossas diversas formas de usos e apropriações, que formava e expressava-se esteticamente como outra.

Port



Muito oportunas são essas reflexões a respeito do processo de assimilação desta linha estética aqui no Brasil. Pesquiso esses possíveis caminhos e também acho que as formas de construção desta dança no Brasil foram muito peculiares. Sobretudo pelo fato de que a pouca informação existente na época levou seus praticantes a buscarem soluções criativas, caminhos diferentes de adaptação, afim de desenvolver aquilo que os impressionava e os consumia naquela nova dança. Obviamente, estas dificuldades ajudariam a forjar um produto diferente daquele pouco que se tinha assesso via diferentes midias.
É preciso fuçar mais esse período pois muita riqueza existe para ser examinada. Pode-se refletir sobre a possibilidade desta dança de rua estar sofrendo um processo de “pasteurização”, com formulas prontas e importadas, e onde não se leva em conta os caminhos e possibilidades de hibridização que esta sofreu aqui, seja pelas dificuldades iniciais de informação, seja pela diferença de corpos, de ruas, de culturas.
Abraço
Olá Rafael Guarato,
Qria mais informações sobre esse novo curso e sua trajetória na peskisa das danças urbanas no espaço corpóreo nacional.
Sou do RJ, minha formação corporal vem dos bailes “CHARME” (Soul, Funk & R&B 80/90) do subúrbio e centro cariocas, trabalho nos mesmos questionamentos e propostas, tenho minha peskisa HIP HOP SAMBA, uma Cia de Dança e uma ONG Consciência Coletiva q leva esse tema político de regionalização das culturas de rua e o q elas trazem de benefício para construção do samba tb, Participei do Panorama de dança este ano, num projeto de camado Colaboratório q leva a uma clarexa a esses temas com artistas do exterior tb.
Acho q temos muito q conversar.
Temos q trocar contatos, parabéns pelo belo TEXTO estou emocionado em poder falar isso.
Abraço
Marcus Azevedo
*peço q a produção do IDANCA possa mandar pro meu email seus contatos.
Olá Marcus,
ficamos felizes com seu interesse pelo idança! Enviaremos o contato do Rafael por email.
Você já é assinante da nossa newsletter? Se não, cadastre-se no lado direito da nossa página. É bem simples e você passará a receber todas as nossas novidades direto no seu email.
Um abraço,
equipe idança
A implementação do curso de extensão foi um trabalho de aproximadamente dois anos (entendendo como funciona os tramites da universidade, formatando o projeto e debatendo as formas que serão desenvolvidos os trabalhos) e acreditamos que seja uma vitória para todos os dançarinos, coreógrafos, historiadores, militantes da Cultura Hip Hop, que agora conquista mais um espaço formalmente no meio acadêmico.
Resumidamente, sou graduada em Educação Física, danço e trabalho com ‘street dance’ desde 1995, meu trabalho de conclusão de curso foi relacionado a ensino e aprendizagem nas modalidades de dança (ballet, jazz, axé, dança de rua…). Durante estes anos sempre mantenho paralelamente aos trabalhos da cia de dança (Eclipse Cultura e Arte) e com o apoio dos seus membros, em especial o Diretor Kico Brown, a realização de projetos sociais, os estudos/pesquisas sobre a temática, a produção de cursos de capacitação e eventos do gênero (o Campinas Street Dance Festival, em sua 10º edição; o Fórum de Dança de Rua, em sua 4ª edição e, o Campeonato Internacional com 20 anos de existência na Alemanha a “Battle Of The Year que completa sua 4ª edição enviado as melhores crews do Brasil para a Final Mundial).
Participamos anualmente no mês de janeiro do “Meeting Battle Of The Year”, enviando um representante da Cia Eclipse para estudar e participar dos debates com produtores, coreógrafos e dançarinos do mundo inteiro, debatendo diversas questões referentes à profissionalização, valorização da cultura e do dançarino (a), entre outros; já fomos para Roma, Grécia e este ano será em Paris, e podemos afirmar que os debates aqui existentes são os mesmos em diversas partes do mundo.
Este breve histórico apresentado tem como objetivo demonstrar que o curso de extensão não surge por acaso, mas, sim de um longo processo construído durante anos onde podemos verificar que ampliação do número de praticantes das danças urbanas como um todo cresce intensamente, assim como os locais onde são desenvolvidas suas praticas, contudo, faz-se necessário à ampliação das pesquisas, cursos formais, entre outros que possibilitem a capacitação profissional para os interessados em trabalhar nesta área, assim como a fomentação deste tema no meio acadêmico e conseqüentemente nos festivais de dança em geral que timidamente propõe um espaço diferenciado a Cultura Hip Hop, como exemplos: o Encontro das Ruas no Festival de Joinville e as Batalhas de Danças Urbanas no FestDança de São Jose dos Campos.
Assim como nós, em Campinas, temos conhecimento do Professor e Dançarino Chris, da Crewest de Franco da Rocha, também graduado em Educação Física, esta desenvolvendo um trabalho similar com a FMU. Pretendemos no decorrer do curso convidá-lo para uma aula especial, assim como outros estudiosos da área, possibilitando aos participantes contatos com outros profissionais atuantes.
Não temos nenhuma pretensão de engessar e/ou acorrentar as possibilidades de movimentação da dança de rua, nos mantendo presos a passos básicos limitando a capacidade de variações e improvisações que nasceu para expressar sentimentos sem seguir padrões pré-estabelecidos, pelo contrário, nosso objetivo é ampliar as possibilidades estudando a sua origem e a história da dança de rua em nosso país, esclarecendo as diferentes linguagens e estilos das dança urbanas mais praticadas no Brasil e estudadas pela Cia Eclipse.
Ou seja, o curso de extensão não visa a formatação da Dança de Rua, e pelo contrário busca ampliar as possibilidades e valorizar seus dançarinos (as) que atuam profissionalmente ou apenas praticam por lazer.
Portanto, continuamos nossa caminhada para transmitir o conhecimento adquirido, e fomentar a modalidade, utilizando diferentes mecanismos, não queremos um livro abandonado na estante e sim a Cultura Hip Hop reconhecida, divulgada e amplamente valorizada por seus adeptos e por toda a sociedade brasileira.
“Paz, Amor, União e Diversão”
Afrika Bambaataa
Grande Abraço
Cris
Parabéns Ana Cristina,
pelo belo detalhamento e representatividade na cultura de rua de nosso país.
Qro tb deixar aqui meu abraço a um companheiro q discute e representa muito bem sobre este universo aqui no Rio, meu amigo renato Cruz e concordo sobre o q temos ainda muito a fazer e examinar sobre o mesmo universo q cada um dnós de forma diferentes recebemos estas informações qdo ainda genuínas.
Vamos nos reunir, vamos versar, trocar emails.
Grd abraço
marcus azevedo
Caros, gostaria de avisar à todos que estão abertas as inscrições para o V Visões Urbanas – festival internacional de dança em paisagens urbanas, não sei se aqui é um espaço para esse tipo de divulgação, mas achei interessante compartilhar essa informação. Segue a convocatória:
CONVOCATÓRIA 2010 – VISÕES URBANAS – Festival Internacional de Dança em Paisagens Urbanas.
Estão abertas as inscrições para o V Visões Urbanas – Festival Internacional de Dança em Paisagens Urbanas. O Festival Visões Urbanas é uma oportunidade para o encontro entre companhias e artistas que realizam trabalhos voltados para espaços públicos não convencionais e paisagens urbanas trocarem experiências. “Visões Urbanas” faz parte da rede de festivais CQD – Cidades que Dançam, que integra mais de 25 cidades ao redor do mundo.
Os trabalhos deverão ser enviados somente pelo correio até o dia 15 de janeiro de 2010. Não serão aceitos projetos com data de postagem posterior ao dia 15/01.
Deve conter:
1) release do espetáculo;
2) ficha técnica completa com a duração do espetáculo e número de profissionais essenciais na viagem (no caso de companhias e artistas que não sejam da cidade de São Paulo);
3) necessidades técnicas, tempo de montagem e desmontagem;
4) histórico do grupo;
5) vídeo do espetáculo na integra. (Só serão consideradas imagens colhidas em espaços públicos ou paisagens urbanas);
6) 4 fotos em formato digital acima de 300 dpi.
O festival acontecerá na segunda quinzena de abril de 2010 e oferecerá cachê, hospedagem, alimentação e apoio para transporte.
O resultado da seleção estará disponível no site http://www.ciaartesaosdocorpo.art.br a partir do dia 31 de janeiro de 2010.
Maiores informações:
Fone: 00 55 11 3667-5581
e-mail: contato@ciaartesaosdocorpo.art.br
Informações sobre edições anteriores acesse o site: http://www.ciaartesaosdocorpo.art.br
O Festival Visões Urbanas é realizado desde 2006 e já contou com a participação de grupos e criadores de vários estados do Brasil e de Portugal, Espanha, França Cuba e Argentina. A edição de 2010 terá a curadoria de Mirtes Calheiros e Ederson Lopes e contará com o suporte da Caixa Econômica Federal e do Governo do estado de São Paulo através do PROAC – Programa de Ação Cultural.
Sou estudioso das Danças Urbanas de origem Norte-Americana há 15 anos, e o foco de minhas pesquisas é exatamente “o ensino”. Gostaria de citar Ill Kosby (Moncel Funkadelphia), um dos maiores pesquisadores das “Street Dances” de todos os tempos:
“(…) É impossível ensinar a dança Hip Hop. (…) O que é possível, é se familiarizar com as técnicas e Danças Sociais.”
Esta afirmação diz respeito exatamente à indispensável liberdade de expressão que foi (e continuará sendo) o alicerce do desenvolvimento destas linguagens.
Cada uma das “Street Dances” conta com elementos técnicos específicos, tendo eles sido criados diretamente dentro desta dança ou não. Além da técnica, cada uma delas possui ainda um vocabulário específico, composto basicamente pelo que é chamado de “Danças Sociais”. Pode-se afirmar que estes dois elementos, em conjunto, formam o “esqueleto” da dança. Porém, por se tratar de uma linguagem espontânea e pessoal, é impossível compreender estas danças somente pelo estudo da técnica e vocabulário. A execução com propriedade depende da compreensão, e mais do que isso, da vivência dos códigos motores dos grupos sociais dentro dos quais estas danças foram criadas e desenvolvidas. E não estou falando de dança, me refiro à forma de andar, de falar… Às posições em que se fica parado! Por exemplo: Se meu objetivo é dançar Hip Hop Dance (ou o que é chamado de “Freestyle”), não há outro caminho que não seja vivenciar a cultura dos negros norte-americanos de New York das décadas de 80 e 90. Depois da cultura, a dança.
Se este estudo não existir, ou se o resultado deste estudo não for completamente absorvido, não importa o estágio de desenvolvimento técnico e conhecimento de vocabulário em que se encontre, o estudante das “Street Dances” ainda não começou a compreender estas linguagens.
Pensando assim, a frase de Ill Kosby citada acima, faz todo sentido, e me sinto a vontade para estender este conceito a um próximo estágio: formar um professor.
Se é possível afirmar que o “ensino” de uma “Street Dance” é algo complexo, quase que utópico, o que dizer sobre “criar” professores destas linguagens. Refiro-me ao processo tradicional de formação acadêmica, onde se tem acesso aos dados teóricos em sala de aula, na medida do possível põe-se em teste os conhecimentos adquiridos por meio de “laboratórios” e estágios, passa-se por avaliações movidas por critérios pré-estabelecidos e se as notas forem suficientes, recebe-se um diploma que dá o direito de atuar como profissional da área escolhida.
Ora, assim como em qualquer outra linguagem de dança, a propriedade não vem do estudo teórico, mas sim da vivência. Neste caso, mais do que em qualquer outro, não é possível formar-se “professor” em um curso, já que as “Street Dances” não são baseadas no aperfeiçoamento técnico ou no conhecimento do vocabulário… É indispensável que haja aptidão. Infelizmente (ou felizmente), o posto de “professor” não pode estar acessível a quem quiser, ou puder pagar por ele.
Assim como Rafael Guarato fez questão de deixar claro, também não sou adepto dos “formatos internéticos” de produção literária, portanto, me coloco a disposição para maiores esclarecimentos em meu e-mail: henriquehiphop@hotmail.com
Obrigado e até logo.
Ps.: O termo traduzido “Dança de Rua” é duvidoso, já que “Street Dance”, por mais que soe como um adjetivo, na verdade é um Substantivo, que dá nome a um conjunto de linguagens – afinal, nós não traduzimos Ballet, não é mesmo?
Olá, Rafael!
Fiquei muito feliz ao ler o seu texto!
Primeiramente, estou contente em ver que os textos e os estudos sobre a dança de rua e sobre o Hip Hop têm crescido bastante no Brasil. Segundo, eu pesquiso o break aqui no Recife e também danço. Por incrível que pareça o break, pra mim, de todas as danças que eu já fiz (balé, danças populares pernambucanas e dança de salão), eu sinto que ela é a dança que mais me permite criar em cima de uma técnica própria dela.Terceiro, é que os grupos daqui de Recife e de Pernambuco também têm mesclado danças populares locais com o break!Acho interessante a proposta de se ensinar as danças de rua na universidade, até por que somos, muitas vezes e pelo menos aqui no Nordeste, pouco conhecidos no âmbito acadêmico. Falo isso porque vejo que aqui em PE há uma carência enorme de pesquisas acadêmicas sobre o assunto e fico feliz de ser uma das poucas a contribuir com isso por aqui (é meu tema da dissertação de mestrado).
Ai, às vezes é tanta coisa pra falar, que acabo esquecendo!Mas, enfim, basicamente era isso que eu queria expressar. Grande abraço!
Depois de um certo tempo de ter lido esse texto resolvi fazer alguns comentários, mas ainda existe questões que ficam como nuvenzinhas em cima da minha cabeça e até porque faz apenas 2 anos que estudo a Cultura Hip hop (claro puxando mais para o lado da dança) e tenho certeza que tenho muito a aprender, além disso acredito que nós dessa área nos aproximamos de uma história cultural fragmentada, borrada com outras realidades pessoais…distante da realidade, visão, pensamento do mundo que vivemos hoje. Quando fiquei sabendo do curso de extensão fiquei muito animada, até porque a estrutura da minha faculdade ( que está mudando a grade curricular para o ano de 2011)abrange outras formas de desenvolver a dança, mas tudo que conheçemos sobre hip hop voltado para a dança ainda é muito frágil por isso é muito interessante em ter um espaço acadêmico que esteja resgatando tudo que for possível para que cada vez mais essa área se consolide, crie um base (não estou me referindo a enrejicer), que tenha esse suporte de estudos. Bom sobre a ementa digo que é algo complicado realmente, nosso curso de dança em Curitiba passou por uma reforma de curso em 19 e bolinhas, que até então, utilizava termos que referenciavam o pensamento de dança daquela época e só agora em 2009/2010 conseguiram dentro e toda burocrácia reorgamizar novas idéias. Outro ponto que dai é o professor que se enforca é na hora de escever objetivos e conteúdos, pois cada um segue uma linha de raciocínio e crenças(não é a toa que cada um escolhe o que vai para seus alunos, mas nos valores que ele acredita), se não prestar muita atenção pode acabar se contradizendo ou algo não muito claro.(Falo pela experiência, do ponto de vista de aluna)
Acho muito apropriado estar discutindo essas idéias pessoais, coletivas, informais, formais.
Abraços!
Olá,
O artigo está realmente muito interessante.
Percebo que temos grande carência de informações no que diz respeito a dança de rua, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Desde sua concepção, história até o desenvolvimento de estilos originais ou contemporâneos. Por ser um movimento naturalmente surgido na sociedade, e em transformação constante, fica realmente difícil formatar uma metodologia de ensino da modalidade.
De qualquer forma parece que o único livro que foi publicado no Brasil sobre o assunto, é o de Rafael Guarato. Peço ao IDANÇA que publiquem mais artigos desse grande pesquisador, e se possível enviem-me uma forma de entrar em contato com ele.
Grata
Estou iniciando agora neste mundo chamado danças urbanas, mas pelo pouca ja vivenciei, acredito que exixtem varias formas de execução indiferente qual dança seja, não existe uma unica forma de se ezecutala, pois a cada instante a evolução esta crescendo, penso que no Brasil ja tem grandes pesquizadores e a informação esta aqui e muitos não buscão pela falta de humildade de saber que por mais que dançe varios anos nunca vai saber tudo, pois a cada instante se expande mais estas danças.
gostei
como eu faço para fazer faculdade
PARABÉNS PELAS PALAVRAS DO PROEFSSOR RAFAEL GUARATO UM GRANDE IRMÃO QUE SABE MUITO SOBRE!
Boa noite a todos que aqui opinam !
É muito bom ler aqui comentários embasados de pessoas que estudam este gênero de dança misturado com uma cultura muito forte como o hip hop.
Vou escrever com uma visão de praticante de dança, sem pender para uma linha de raciocínio ou outra, apenas analisando o cenário.
Assim como ocorre há pouco mais de uma década, iniciou-se uma busca por uma nova roupagem para o que era conhecido até então como Dança de Rua. Essa transformação começou com alguns especialistas que tinham acesso e possibilidades de ir até o exterior para trazer da raiz muitas novidades que em pouco tempo contaminaram, de uma forma boa, todo o Brasil. Era lindo ver grupos formados somente por mulheres, extremamente sincronizados, “limpos”, técnicos, sensuais, enfrentando no palco dos grandes festivais de dança grupos de homens mostrando um estilo de dança de rua mais “quadradão” como alguns chamavam, mas não menos impactante, com energia e bonito de se ver.
Este “modelão” de dança de rua criado no início da década de 90, estava baseado em uma raiz, uma essência, que era oriunda dos bailes, músicas de miami (Tony Garcia, Stevie Be), daquilo que era visto na TV através de canais especializados em videoclipes, Michael Jackson, observando e seguindo uma linha de trabalho utilizada por algumas cias de jazz já existentes na época, para que fosse criado um modelo mais acadêmico e apropriado para subir ao palco italiano e agradar à todos os tipos de público, com disciplina de cena, que foi sendo aprimorado com o passar dos tempos.
A nova linha de dança de rua que se criou também foi inspirada e baseada em diversos fatores. O então chamado “new school”, já chegou com uma essência, sensualidade, inspirada em observações e estudos de dança contemporânea, uma leitura musical e de palco diferenciada, que também utilizava o “frontal-chapado” mas as trocas de alinhamento/posições/desenhos/pautas, aconteciam com uma dinâmica diferenciada, excluindo o que antes era feito com uma corrida de cabeça baixa. A leitura musical mudou também, agora não se restringindo apenas ao compasso de 8 tempos, mas também ao vocal, efeitos sonoros minuciosamente ouvidos e utilizados pelos coreógrafos.
Todos os estilos existentes poderiam muito bem continuar à caminhar lado a lado, fazendo a dança de rua crescer, enriquecer, se reciclar e tanto os bailarinos quanto o público poderia assistir espetáculos variados e com diversas formas de se praticar a dança de rua, seguindo o instinto, essência, criação e coração de cada coreógrafo.
O que aconteceu então foi que a guerra começou em busca de PODER e de MERCADO. O que era chamado de ultrapassado, foi sendo substituido por estilos de raiz que então foram apresentados por alguns como novidade. Novos nomes foram criados, o que era new school já não é mais, uns dizendo que movimentos seriam obrigatórios dentro de uma coreografia, que todos os estilos deveriam ser dançados pelo grupo em cena, etc etc etc. Isso provocou uma falta de identidade dos grupos e falta de qualidade. Agora observa-se em cena grupos que são forçados pelos seus coreógrafos à aprenderem todos os estilos apenas para poder ganhar campeonatos, festivais, e para “estar dentro do que se dizia ser dança de rua” para os que estavam se mantendo no mercado no momento, deixando de lado a essência e a vontade de cada um de fazer aquilo que deseja dentro do contexto da modalidade, além de não executarem corretamente, em algumas vezes, aquilo que se propuseram apresentar.
Para ilustrar um pouco isso, basta observarmos que existem aqueles dançarinos que são lockers, poppers, ou bboys, cada um dentro da sua especialidade, não todos fazendo de tudo. Não acho que isso é totalmente errado, até pq o conhecimento e pratica dos diferentes estilos é válido e possível, mas pela necessidade de se ganhar uma competição ou então ser considerado realmente dança de rua, hip hop, new school, old school ou o nome quem cada um quiser chamar, acabam não executando nada com perfeição.
Claro que isso não se aplica à todos os grupos e cias, pois vemos pelos palcos cias que tem o seu crew de lockers que entram num determinado momento da coreografia e fazem bem feito, o crew de poppers, e dai por diante e proporcionam um espetáculo bem completo e dinâmico.
O termo dança urbanas é muito amplo e abrangente. Então porque a modalidade em mostras, festivais, competições, não pode ser tão abrangente quanto ?
Existe espaço/palco/mercado/aplausos/apupos/ reconhecimento/dinheiro para todos. Vamos abrir a mente, se unir, reconhecer e respeitar aqueles que começaram lá atrás, que abriram a modalidade, assim como aqueles que iniciaram a reformulação, como aqueles novos que estão surgindo com propostas inovadoras… todos ainda estão em cena e podem trazer ao público surpresas incriveis.
A união da modalidade só vai fazer todos nós, que somos praticantes, crescermos ainda mais e termos ainda mais espaço pelo Brasil e mundo.
Não quero que ninguém ache que sou dono da razão, apenas estou expondo a minha opinião de 13 anos de prática da dança de rua.
Um abraço a todos. PAZ !
Fábio Murça