legenda Diet / Foto: João Meirelles

É com prazer que apresento a série 7X7, onde convido jovens artistas a escreverem suas visões sobre os trabalhos de outros artistas – neste caso os programados na segunda edição do Festival Contemporâneo de Dança, realizado em novembro, em São Paulo. O intuito é o de criar uma ação sinérgica instigando a análise crítica e sensível sobre a arte da dança por novos artistas que crescem dentro dela. Sheila Ribeiro.

sobre legenda Diet de sheila ribeiro/dona orpheline

Nossas palavras compõem nossa identidade social tanto quanto nossa aparência e nosso comportamento (…)

(PINKER, 2008, p. 425)

recorte de um contexto.

legenda Diet foi criado em 2000 e através dos anos a obra tem atravessado uma série de reestruturações. Nas primeiras versões, a interpretação do trabalho era de Sheila Ribeiro/dona orpheline e do canadense Benôit Lachambre – coreógrafo, dançarino e intérprete – que fundou em 1996 uma companhia em Montreal, a Par b.l.eux.

As últimas apresentações do legenda Diet aconteceram em São Paulo, Santos e Xangai. O público paulistano pôde assistir a Sheila Ribeiro no Festival Contemporâneo de Dança, na Galeria Olido. No entanto, nesta ‘versão recente’ da obra, foi convocada a presença de um outro intérprete, Elielson Pacheco, membro do Núcleo do Dirceu, importante grupo de dança sediado em Teresina, no Piauí. Curiosamente, a maior parte dos ensaios de Sheila e Elielson foram realizados pela internet. Juntos eles formam o duplo: a garota outdoor.

Neste uso da internet como ferramenta de criação, talvez exista implícita uma série de questionamentos promovidos pelos deslocamentos (virtuais e/ou reais) acerca da diferença, distância, territorialização etc. É interessante observar que alguns desses aspectos, que parecem ser utilizados apenas como treinamento, começam a povoar o próprio palco. Sheila Ribeiro, ao viver neste trânsito entre Brasil, Canadá, China etc, nos oferece um dado que não pode ser meramente descolado da leitura da sua obra. Se retomarmos a citação do linguista Steve Pinker (acima), poderemos supor/concluir que as palavras de Sheila – uma artista que cria/fala/pensa/escreve em mais de uma língua – provavelmente compõem a sua dança. E desta maneira, Sheila nos apresenta formas inventivas de existir dentro do terreno instável da arte.

o show.

legenda Diet expõe uma série de falas que nossos corpos estão habituados a digerir no cotidiano. Pensamentos condensados na sua máxima síntese, sem gorduras. Discursos que são acionados para ordenar, condicionar e regular nossa conduta social, deflagrando uma série de frases que são utilizadas para encobrir intenções de poder de uns em relação a outros.

EU QUERIA TER UM … PARA METER NA SUA …

… a partir de pequenas construções linguísticas, Sheila Ribeiro parece jorrar uma série de hábitos da comunicação urbana/humana. Apresentando um conjunto de ‘falas prontas’ que difundimos pelos ambientes da cultura, para nos promover no emprego, na mídia, na arte, na nossa rodinha de amigos ou na mesa de jantar. Tais frases, projetadas sob o corpo dos dois ínterpretes, formam a garota-outdoor, segundo desígnio da própria autora. Possivelmente, porque todo corpo parece ser um pouco outdoor-de-si e do ambiente em que vive. Isso se corpo for entendido como um suporte (mídia) evolutivo, composto por um agregado – de pensamentos, emoções, sensações, experiências – que está em negociação constante com as informações dos lugares que o atravessam.

… será que, através do nosso outdoor pessoal, reproduzimos ‘hábitos’ – de fala ou, até mesmo, hábitos de comportamento – de terceiros, apenas seguindo a inércia de um fluxo que não nos pertence?

Não tente fingir que desconhece essas frases ou que nunca as proferiu, porque Elielson Pacheco irá jogar, literalmente, a legenda na sua cara. Quem não concorde que se manifeste. Deixe sua arrogância de lado e retruque. Ou aponte o dedo de volta. Ou encontre seu lugar de fala ou, simplesmente, deixe a sala, ou…

NÃO CONTE SEU PROJETO PRA NINGUÉM. DÁ AZAR.

desenho do espaço.

O espectador não conseguirá acompanhar tudo que acontece durante a performance. A sua forma caótica se apoia numa sobreposição de imagens, na simultaneidade das ações, na impossibilidade de se observar o todo, na parcialidade do ponto de vista do espectador. Talvez, uma tentativa de proporcionar ao público o mesmo tipo de experiência que temos quando caminhamos pela cidade/metrópole. Um excesso de sinais que, supostamente, serviriam para nos orientar. Palavras que indicam onde e como devemos prosseguir. No entanto, neste trabalho, tais palavras parecem promover, em nossa percepção, um intrigante estado de desorientação.

Os equipamentos (de vídeo, os aparelhos e as caixas de som, as luzes, o projetor de slides) são posicionados, de tal forma, pela sala, que toda ela se torna cena. Desta forma, o espectador está sub/imerso no show, agregado a ele. É particularmente curioso observar o público se orientando pelo espaço. O seu deslocamento pelo ambiente é um indício de que diante do caótico existe uma tendência do corpo em se organizar. O espectador sempre busca seu lugar de público, o seu ponto de referência dentro de qualquer espetáculo convencional. Por outro lado, o caminhar destes intérpretes, o desenho deles pelo espaço e a disposição dos objetos são elementos que parecem esgarçar esta lógica confortável, perfurando o público e a cena.

design sonoro.

O ambiente sonoro é um aspecto importante de se salientar, pois parece contribuir para a construção deste local onírico, compondo ainda mais esta cidade pós punk, transsexual, estéril, esterilizada e nua sob uma mesa cirúrgica. Um show que conta com a participação de Sandra Coutinho, integrante da banda Mercenárias, a primeira banda punk feminina no Brasil, de 1981. De Elvis Presley aos ruídos do baixo e seus pedais eletrônicos. O som estabelece uma fricção entre momentos de pausas, calmarias e tensões. Reforçando a hipótese de que este show deseja promover a sensação de se caminhar através de um espaço urbano (ora intempestivo, ora acolhedor, ora lúdico, ora agressivo, ora…).  Na divulgação deste projeto sonoro, Sheila nos oferece um exemplo de como o seu trabalho também se apropria do código publicitário para, habilmente, apresentar numa de suas legendas de que a música fora produzida por ninguém mais ninguém menos que Edgard Scandurra. Entretanto, o som que ouvimos aparece como uma fusão autoral entre o projeto de Scandurra e a execução, ao vivo, de Sandra Coutinho.

desígnio.

Esta dança é high tech; mas provavelmente não porque utiliza projetor, moviemaker, dvd, projetor de slides e outros aparatos que são caros a qualquer pesquisa que envolva arte e tecnologia como uma ‘estratégia de moda’ para captação de recursos financeiros. Possivelmente esta dança é antes high tech porque desenvolveu uma outra tecnologia de corpo: a tarefa de pressionar a caneta esferográfica em papel sulfite para escrever “I am high tech” em portugês, chinês, árabe, inglês…

Infelizmente, não podemos afirmar que escrever seja uma tecnologia acessível a todo e qualquer corpo. Afinal, o analfabetismo ainda impede muitos de terem acesso a esse tipo de tecnologia, aparentemente simples, que é escrever/ler. No entanto, este trabalho de dança nos lembra ainda, de alguma forma, que somos analfabetos de outra ordem. Talvez analfabetos culturais, imersos em questões dispersivas e ambivalentes, à procura de um pertencimento entre o global e/ou local. Incapazes, ainda, de se relacionar com o outro e sua complexidade de códigos/textos/línguas.

Talvez seja importante lembrar aqui que somos também carentes de leitores e leituras de/sobre dança, porque poucos tem acesso à reflexão (sensível) proporcionada por esta tecnologia do corpo. Uma arte e um pensamento que deveriam ser acessíveis tanto quanto um plano de saúde, uma escola, uma moradia, um museu, um teatro…

A elaboração da placa “I am high tech” pode ser vista também como uma metáfora irônica e ácida ao desejo desenfreado, tanto do artista quanto desta sociedade do consumo, em querer estar sempre na moda/vitrine. No instante em que Sheila Ribeiro apresenta a placa “Eu sou high tech” ao lado de Elielson, não resta mais nada a não ser amassar este papel, apagar o seu vestígio histórico e depois produzir uma nova placa, no intuito de se fazer high tech novamente, para assim, retornar à moda/vitrine. Não sabemos ao certo quando começa a moda, se durante o desenho no papel, se no desfile da passarela, se nas vitrines do shopping. Mas acontece que, no exato segundo em que alguém se diz estar na moda, automaticamente no instante seguinte, ela deixa de estar e passamos a aguardar o próximo.

Oh! This is so contemporary (Tino Sehgal)

A FUSÃO MÁXIMA DA TÉCNICA NUM SÓ CORPO

Sheila Ribeiro/dona orpheline oferece uma oportunidade de repensar os discursos de ordem, já gastos, acerca do que é ser contemporâneo e/ou high tech, para que a gente se (es)force a estudar um pouco mais, a fim de propor outras leituras de mundo, cada vez mais coerentes com aquilo que a gente idealiza para um futuropresente (de um presentepassado). Para, ao menos, tentar nos afastar desta tentativa cíclica de sempre nos associar como sendo da alta tecnologia, quando na realidade nos faltam sempre alimentos mais básicos. E parar de inventar/fingir novos espetáculos de sucesso, quando de fato essa sociedade não parece comportar mais novos hits.

Bruno Freire é artista do sexo masculino, de 26 anos, paulistano, filho de mineira, neto de alagoana, formando em Artes pela PUC-SP em 2009, onde realiza iniciação científica e ensaios acerca de estéticas diaspóricas na América Latina. Integrante do GRiD, grupo de reflexão do CCSP.

Abaixo, assista a um vídeo de uma versão anterior de legenda Diet, com Benôit Lachambre:

YouTube Preview Image

Este texto baseia-se (in)diretamente nas seguintes referências:

AGAMBEN, Giorgio (2009) O que é contemporâneo e outros ensaios. Ed Argos.

HALL, Stuart (2006) Da diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Ed. UFMG (p. 10 – 70).

PINKER, Steve (2008) Do que é feito o pensamento. Ed. Cia das Letras.

www.myspace.com/sandracoutinho

www.myspace.com/asmercenarias

www.myspace.com/edgardscandurra

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