Fatigues / Foto divulgação

Aqui está o segundo texto  da série 7X7, em que convido jovens artistas a escreverem suas visões sobre os trabalhos de outros artistas – neste caso, os programados na segunda edição do Festival Contemporâneo de Dança, realizado em novembro, em São Paulo. O intuito é o de criar uma ação sinérgica instigando a análise crítica e sensível sobre a arte da dança por novos artistas que crescem dentro dela. Sheila Ribeiro.

Rafael Alvarez por Mariah Polati

Apresentando-se na Galeria Olido, dentro do Festival Contemporâneo de Dança, Rafael Alvarez mostra seu espetáculo Fatigues, que vem questionar o estereótipo do masculino associado a uma imagem que carrega a ideia de poder, dominação, força e autoridade. Para isso, Rafael se contamina com o elemento camuflagem, onde o título de sua obra revela o caminho traçado pelo dançarino: “fatigues” é um termo utilizado em inglês para definir qualquer vestimenta militar.

Utilizando-se da instituição militar como base de seu trabalho, ele trata da identidade de gêneros, propondo associar a esse universo militar os modelos do masculino e também do feminino que, nesta instituição, se dão de forma única.

O jogo entre o esconder e o revelar está presente durante todo o espetáculo, no qual os modelos e lugares de poder são desconstruídos. Mas, apesar da camuflagem estar tão fortemente presente, o corpo, durante a apresentação, vai destacando-se e o que parecia se camuflar e se integrar àquele todo, começa a se destacar.

Rafael assume o papel ou o personagem do soldado, que permanece durante todo o espetáculo mesmo transparecendo outras figuras em meio àquela já consolidada. O material que ele utiliza para a sua coreografia parte da hierarquia do corpo, que está engessado e sob controle. Seus movimentos são explícitos e representativos, expondo bem o que quer comunicar.  Utilizando-se, inicialmente, de gestos “universalmente” conhecidos como militares – o caminhar, ou melhor, o marchar, o correr, o “saudar” – e propondo, ao longo do espetáculo, uma quebra com esse padrão de movimento, começa a desfazer repentinamente esses gestos sólidos, retos, uniformes e geométricos, transformando-os, além de grandiosos e espalhados, mergulhados numa aparente tentativa de sair desse ritmo estabelecido no começo do trabalho. Mas, essa tentativa não se torna uma realização porque, apesar de reorganizar seu corpo a sair desse mundo cubista, continua contido e forte.

Por estar dentro de um festival de dança contemporânea, pode-se definir que a dança de Rafael é, portanto, contemporânea. Mas, como definir uma arte com, então, esse definição? A arte contemporânea se dá no não uso de vocabulário prévio, porém, esses modos se acomodaram, criando, assim, um vocabulário. Isso parece ser uma irreversibilidade evolutiva, pois estabiliza o campo que define a produção, mostrando o que é relevante e desejável. A dança contemporânea se transforma num “balé de repertório” (KATZ, 2009), onde os gestos ocupam o lugar de passos. Portanto, apesar dela nascer da necessidade de não utilizar vocabulário, acabou criando uma forma própria, ou seja, uma linguagem que permanece independente do tema utilizado em qualquer espetáculo.

Isso faz com que se observe a similaridade nas apresentações, mesmo que feitas em países diferentes, por pessoas diferentes, com formações bem distintas, como acontece no Festival Contemporâneo de Dança, onde sua proposta é unir pessoas de diversas nacionalidades e culturas, criando um intercâmbio entre elas.

Cultura é o conjunto de bens simbólicos e relações de bens de uma comunidade, incluindo tudo, o explícito e implícito, o consciente e o inconsciente. A estrutura social é a divisão entre privado e público, eminência de uma violência política. “A cultura não pode ser vista como um projeto acumulativo na direção de um coroamento linear no futuro, mas como uma rede de conexões entre séries, cuja força de fricção e engaste ressalta a noção de processos dentro de uma estrutura” (JOSE AMÁLIO PINHEIRO, 2007). Isso implica pensar em como a separação geográfica que fazemos, territorializando países, estados e cidades, não faz completo sentido, sendo que esses todos – CEP – e quem os habita, já nasceram do que é impuro, da mistura.

Ao colocar um assunto e um tema que é reconhecido pelo mundo inteiro, ou pelo menos por grande parte dele, como esse universo fardado, Rafael trata da territorialização e da desterritorialização?

Devemos nos questionar, aqui, que qualquer posicionamento já é político, por assim tomarmos conhecimento do lugar de discurso; como, por exemplo, é o espetáculo Fatigues, que, mesmo não sendo assumidamente político, se coloca para os que assistem em determinada posição, que, apenas por isso, já se faz politizada. A própria imagem camuflada pela vestimenta militar pode ser considerada provocativa a muitos, onde o desconstruir das imagens durante seu espetáculo vem colocar força na concepção de identidade, uma vez que permanece na tentativa de desfazer o estereótipo do militar como sendo o masculino bruto

Enquanto isso, olhando pra fora…

O Festival diz, no seu programa, contribuir com a democratização cultural ao oferecer ingressos gratuitos. Mas é suficiente não se pagar para ver um espetáculo, para se participar de um processo desses? Deve-se pensar, então, na necessidade de uma democratização cultural e também de uma política de acesso, onde não basta se produzir meios para acontecer essa acessibilidade; já que quem não tem acesso não o tem apenas à cultura, mas à educação, entre muitas outras coisas. Como pensar, nesse caso, em expandir esse mercado para atingir mais pessoas, se o questionamento deve ser mais amplo?

Estamos, ainda, num certo campo de concentração simbólico, promovido por uma definição de que o valor de uso é menor que o valor de troca, ou seja, a necessidade é condicionada pelo que ela vale. Esse sistema prioriza a produção e não a questão de para quem ela vai servir.

Je suis très fatigué…

Além de trazer o sentido que define como qualquer uniforme militar, “fatigues” pode significar cansaço, e podemos traduzir essa palavra para o português fatigar. Talvez não o seja proposital, ou assim o artista veio a pensar, mas além do aspecto da roupa camuflada, o cansar-se está presente na obra, e podemos fazer uma referência novamente à instituição militar, onde cansar não se faz muito presente no discurso.

A apresentação de Fatigues condiz com seu programa, uma vez que seu trabalho capta exatamente aquilo que descreve seu release. Mas isso se deu por haver um distanciamento, vendo o que existe no espetáculo ou o que foi criado veio representar essa descrição de sua obra?

Giorgio Agamben propõe que para ser contemporâneo não se pode ser muito inserido na época em que está, e deve-se ter certo distanciamento, pois sem isso, é possível ver o que existe, mas não se consegue desenvolver habilidades para reconhecer essa existência. Talvez possamos olhar para esse existir de uma obra com a visão desse filósofo, se tornando aquele que é inatual, no sentido de não estar apropriado e não coincidir com o seu tempo, ao mesmo tempo que nesse deslocamento é capaz de perceber e aprender seu tempo.

Durante todo o espetáculo permanece tocando ao fundo uma música meio fúnebre, com uma corneta ou algum instrumento do tipo, que toca incessantemente a mesma melodia, parecida com um hino de morte de guerra, aqueles que tocam nos funerais.

Rafael quebra com esse padrão musical, terminando sua obra com Águas de março, de Tom Jobim e Elis Regina, com a qual ele se propõe a desconfigurar seus movimentos, dando-lhes um sentido de aprisionamento e ao mesmo tempo uma tentativa de mudança, como as águas batendo nas pedras, mas acaba por finalizar voltando à posição do soldado. Seria isso um sinal de desistência, de uma não esperança para uma transformação nessa situação discutida?

Mariah Rahal Polati é graduanda do curso Comunicação das Artes do Corpo na PUC-SP.

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