Porta / Foto divulgação

Este terceiro texto traz Taoufiq Izeddiou por Andréia Nhur. Na série 7X7, convido jovens artistas a escreverem suas visões sobre os trabalhos de outros artistas – neste caso, os programados na segunda edição do Festival Contemporâneo de Dança (novembro 2009, São Paulo). O intuito é o de criar uma ação sinérgica instigando a análise crítica e sensível sobre a arte da dança por novos artistas que crescem dentro dela. O primeiro texto foi sobre legenda diet (Sheila Ribeiro por Bruno Freire), em seguida Mariah Polati escreveu sobre A bandeira que não é branca, de Rafael Alvarez. Boa leitura! Sheila Ribeiro.


Alicerçado nos pontos nodais que problematizam os binômios centro-periferia, individualidade-coletividade e inclusão-exclusão, o marroquino Taoufiq Izeddiou pede que olhemos para além da “porta”.

Taoufiq é nativo de Marraquexe e tem origem gnawa. Licenciado em arquitetura, teve experiências com teatro, boxe, futebol e artesanato e, depois, ingressou na dança contemporânea. Circulando por diversos países da África e da Europa, Taoufiq construiu uma formação singular, deixando-se atravessar por muitas “técnicas” e modos de pensar a dança.

Em 2001, Taoufiq criou a Anania, primeira companhia de dança contemporânea do Marrocos e, em 2003, a primeira formação em dança contemporânea de Marraquexe, Al Mokhtabar, em colaboração com o Centro Coreográfico Nacional de Tours (França). A escola Al Mokhtabar estabeleceu-se com o objetivo de convidar pessoas a se iniciar na dança e criar público para um segmento, até então, quase inexistente em Marraquexe.

No encontro em que falou sobre sua obra, no 6º dia do Festival Contemporâneo de Dança (Galeria Olido, São Paulo, novembro de 2009), Taoufiq metaforizou o atentado de 11 de setembro de 2001— em que dois aviões derrubaram as torres gêmeas do complexo World Trade Center, em Nova Iorque – como algo que impede uma “porta” de ser aberta. Preocupados com a magnitude da “porta”, esquecemo-nos de olhar através dela, de ver o que ela abre.

A metáfora da “porta” designa uma série de relações abissais (separadas por abismos) entre dentro e fora, centro e periferia, que, costumeiramente, conjugam-se como dualidades. Quando falou em “porta”, Taoufiq certamente não lançou um conceito científico, mas propôs, poeticamente, uma discussão sobre relações binárias – já que toda porta implica a separação entre dois cômodos, ou, ao menos, entre um dentro e um fora.

Na trilha das asserções sobre linhas de separação, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos contribui para esta análise ao discutir como o pensamento moderno ocidental foi e continua sendo pautado por uma lógica abissal, perpetrada por linhas que separam este lado da linha, do outro lado da linha. Para Santos, as linhas cartográficas abissais, que demarcavam o velho e o novo mundo, na era colonial, continuam constitutivas das relações políticas e culturais contemporâneas. (SANTOS,  2009)

Assim, dentro dessa lógica abissal, a metáfora da “porta”— proposta aqui como norteadora deste texto – traça uma linha de separação a ser aniquilada, sobre a qual toda a obra de Taoufiq parece discorrer.

Um dia antes da conversa em que falou de seus processos, Taoufiq havia mostrado duas de suas obras: Danse Nord e Yes we can?.

Danse Nord (2000) é uma peça coreografada para o dançarino Bernardo Montet por Suzan Buirge – artista que participou da companhia de Alwin Nikolais e Murray Louis entre 1963-1967. Radicado na França, Montet foi uma grande influência para Taoufiq e, em 2001, confiou-lhe a peça Danse Nord.

A obra, inicialmente (quando criada por Suzan Buirge, em 2000), referia-se ao “norte”:

“Alguns dizem que os antepassados encontram-se na região do Grande Norte. Outros dizem que a origem do tempo encontra-se ao norte, terra de luz. E ainda outros dizem que o norte é a cimeira da montanha. Uma vez uma amiga disse-me que sobre a costa do norte encontra-se um povo que sabe como sonhar uma dança” (Suzan Buirge, 2000)

Para um corpo que habita o hemisfério sul do planeta, como é o caso de Taoufiq, outras implicações aparecem ao se dançar o “norte”. Assim, a lógica da oposição revela a necessidade de se romper abismos, ou seja, de se aniquilar as separações. O “norte”, então, aparece reconfigurado, destituído de sua verticalidade, desnorteado.

Nessa obra, Taoufiq veste preto e branco; o piso branco é delimitado por um quadrado sombreado ao centro; a iluminação branca alterna-se com zonas de penumbra. Os movimentos desenham um corpo que reproduz formas e fluências, irrompendo explosões num espaço de luz e sombra. Fora do escuro, o corpo margeia o centro sombreado, à busca de luz. Como num jogo de bonecas russas, a estrutura do corpo incluso e, ao mesmo tempo, excluso se repete: o centro escuro delimitado pela margem clara; o corpo, vestindo preto e branco, incluindo-se e excluindo-se da luz.

Há uma intensa mobilidade entre luz e sombra, gesto e pausa, cor e não cor, que ferem estabilidades e desorientam as topografias congeladas do corpo, sobretudo aquelas que, convencionalmente, nos dão a direção do norte, em oposição ao sul.

Danse Nord marca o início da carreira de Taoufiq como dançarino e fricciona nossa percepção ao parear-se com sua mais recente obra, Yes we can?, que, no Festival Contemporâneo de Dança, foi mostrada na mesma noite, logo em seguida. Por mais especulativa que seja a ligação entre as duas obras e o modo como esse artista descreve seu pensamento e prática sobre dança, há emergências que insistem e que não podem ser ignoradas.

Taoufiq em 'Yes we can?' / Foto: Jônia Guimarães

Taoufiq em 'Yes we can?' / Foto: Jônia Guimarães

Em Yes, we can? (2009), a figura que “anima” um micromundo de brinquedos – em que se conflitam aviões de papel e duas pequenas torres gêmeas – põe em choque sua própria existência num espaço em que despencam o corpo, as ideologias, a inventividade e o convívio. Nesta peça, Taoufiq inicia sentado à uma pequena mesa, vestido de preto, com um par de óculos amarelo listado. As listas parecem impedir sua visão. Na ação de dobrar e jogar aviões de papel no público, Taoufiq bombardeia a audiência, como um regulador cego de destruições.

No momento seguinte, uma sequência de quedas revela um corpo com uma qualidade explosiva e hipertrofiada. Numa violência agenciada pelo impacto de sua carne no chão, Taoufiq não tomba somente seu corpo, mas uma infinidade de convicções, conceitos e paradigmas.

Ao fim, após ameaçar um bombardeio às pequenas torres, o dançarino come, mastiga e cospe um de seus aviões de papel, à luz de uma tentativa frustrada de derrubar seu “mini World Trade Center”. Então, num dueto afogado com Nina Simone (em off), Taoufiq canta – dotado de uma qualidade vocal que, por aqui, seria típica de um aboio — e finaliza a obra com uma amarga pergunta sobre possibilidades.

Nas duas peças, seu corpo-touro atravessa o espaço com delicadeza de ações, signos e sonoridades que revelam do que sua dança é feita. Uma lógica explícita em sua metáfora da “porta”: trata-se das relações abissais que se interpenetram na difícil tarefa de se fazer arte na parte sul do mundo.

Fora do centro (leia-se centro-ocidente), é costume juntar pedaços, lidar com sobras, excessos, misturas e invadir para, momentaneamente, tornar-se centro. Entre centro e periferia, é comum fazer da “porta” a separação que ausenta e torna inexistente o que atrás dela habita. E disso, nós, brasileiros, bem sabemos – ou deveríamos saber.

As estonteantes quedas de Taoufiq que estremeceram o solo em Yes, we can? são sintomáticas da necessidade do tombo. Há muros que caem, há torres que tombam. Mas há de se derrubar as “portas” que nos ausentam das relações entre lá (outro lado da linha) e cá (este lado da linha).

Bibliografia:

BUIRGE, Susan. Danse Marrakech, 2005 (www.jardinsdumaroc.com)

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. In. Epistemologias do Sul. Santos, Boaventura de Sousa; Meneses, Maria Paulo (orgs.). Coimbra: Edições Almedina SA, 2009.

Andréia Nhur é bailarina, coreógrafa, atriz e pesquisadora. Doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, desenvolve pesquisa sobre as relações de temporalidade e memória na dança. Atualmente, desenvolve o projeto de relançamento do grupo Pró-Posição, ao lado de sua mãe, a coreógrafa Janice Vieira.

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