Sheila Ribeiro/dona orpheline está trabalhando em Nanjing, na China, pelos próximos seis meses. De lá, ela vai relatar suas experiências e observações da cultura local como correspondente do idança.
“Um país, dois sistemas” é o slogan de tensão que integra e desintegra Hong Kong da mainland China, onde o movimento de centro econômico e comercial – teoricamente mais capitalista do que a China teoricamente comunista – permeia a realidade.
Nesse contexto, Mandy Yim e Victor Ma Choi Wo, diretores do y-space, dirigem e produzem respecticamente o I-Dance 2009 – Festival of Solo & Improv, em uma 2ª edição de 2 semanas (bem diferente da 1ª edição de 2 dias).
Apoiado pelo Hong Kong Jockey Club Performing Arts Venue, levemente patrocinado pelo Hong Kong Arts Development Council e enquanto Victor Ma vende camisetas e programas deste festival, i-dance propõe um olhar sobre solos e improvisação, trazendo também conversas com os artistas, vídeos de dança, workshops e performances site especific.
I-dance preza orgulhosamente pelo seu principal sujeito e nome: “I” (eu). Com a perspectiva de que, mais do que preguiça, a tecnologia traga possibilidades, este festival “I”
é projeção de Ipod, Iphone, Invenção (Eu-pode? Eu-fone? Eu-invenção?). Um I como independência e individualidade – na ambição de uma ode à subjetividade.
Os dispositivos dos corpos tecnológicos são também parte do que constitui os “eus”, tornando o “si mesmo” (ou os si-mesmos) possível em uma das cidades de maior densidade demográfica do mundo. I-dance ainda preza pelo contexto Internacional, de Interação com ambiente e audiência e com um foco especial, carinho e respeito pelo ato de Improvisar. Essa plataforma de trocas compartilha um trabalho criativo e político sem querem limitar-se em um estilo.
Assim, o I-dance de Hong Kong (a polêmica também China e não China), apresenta uma série de solos de uma dezena de artistas. Talentos potentes e múltiplos que, mesmo impossibilitando a categorização, são também bailarinos-coreógrafos-criadores-intérpretes (termos que eu insisto em citar por um respeito à dança e à maneira em que cada artista possa e queira se apresentar). Este festival convida “pessoas únicas”, desmistificando o clichê da “massa chinesa” naquele contexto, pois que estes artistas estão baseados em bem mais do que dois sistemas, ou melhor dizendo, em bem outros sistemas…
Entre esses “Is” potentes e flutuantes estão Pichet Klunchun (Tailândia), Yumi Umiumare (Japão), Ku Ming-shen (Taiwan), além de Nunu Kong e Li Ning (China) – para cujos trabalhos vou dedicar um texto específico em breve.
Trazendo à tona essências da dança khon tradicional tailandesa (que eu não imagino o que seja e que não vou fazer descrição de wikipedia) e o que de contemporâneo o seu ser manifesta, Pichet Klunchun traz a beleza da turbulência e da possível organização de sua mídia de existência em I am a Demon. Concentrado, rigoroso, impecável, doce, preciso, macio e masculino, Pichet dança em uma dança delicada, frontal e aparentemente demonstrativa, como quem conta uma história (que é onde meu conhecimento se limita). Dentro dos 4 personagens da dança Khon, ele escolhe ser o demônio. Deixando claro, ou abstrato, que “é” e que “vem de” sensibilidades e aprendizados de si e de um contexto. Essa consciência visível em seu corpo o faz um indiscutível homem lindo e elegantíssimo no qual respiração e tônus fazem entender o que significa estar em cena e ser intermédio de estética e conhecimento.
Em Reverse World, Yumi Umiumare torna-se parte das pinturas digitais projetadas, entrando no que se revela e se esconde nas manifestações de vida, de morte e do após morte. O que é mais curioso no trabalho de Yumi, no entanto, é que enquanto dançarina de Butoh, organiza o original conceito de “cabaré-butoh” trazendo à tona um trabalho forte e estranhamente acessível onde a caricatura é muitas vezes porta de entrada para uma profundidade psíquica de desespero, solidão, mundo social e mundo noturno (relembrando constantemente a obscuridade que perpassa a beleza banal do cotidiano).
Já Ku Ming-shen dança e só. Ela traz em sua dança as mais meticulosas nuances do estar no presente. Em uma improvisação constante, o tocar é o que se evidencia. Suas mãos a tocam constantemente: cabelos, pernas, tronco… E esse tocar dialoga, impulsiona, participa ou finaliza sequências e pontuações de movimento com languidez, prazer e precisão. A dança que faz Ming-shen é daquelas mais difíceis de se falar, onde um corpo pequeno e magro preenche a sala com volume e sua projeção energética psicofísica esculpe a dança em True reality. Uma dança hermética (sutil e forte) e de extrema cinestesia, talvez mais acessível para quem dança, aprende dança ou já educou um olhar participante.
Os vídeos de dança apresentados por Constance Vos fazem parte do festival Cinedans (Holanda). Her morning elegance (Oren Lavie/Israel) e As I was leaving my city (Amirali Navaii/Iran) são simplesmente fantásticos.
Jams de improvisação aconteceram praticamente todos os dias do festival onde, em meio a muito pé descalço, Victor Ma e Mandy Yim (foto 2) improvisam com artistas convidados, além dos artistas da dança (vindos também da Austrália, Canadá e Holanda), músicos e videoartistas. Ali a improvisação se situava entre vocabulários codificados do contact improvisation e um desejo de pesquisa prática, artística e de estilo de vida. Buscavam timing, estar no momento, alargar sentidos, relacionar-se (com outros, com o espaço e com si mesmo), aceitar o erro, o acidente, o imprevisível e desenvolver a capacidade de adaptação sem ter que antecipar o futuro. Enfim, um jogo infinito de atenção do solo em diferentes sistemas.
Sheila Ribeiro/dona orpheline é artista em dança contemporânea, novas mídias, publicidade e cinema. Interessada pelas dinâmicas de poder, trata tensões pós-coloniais, ilusão, deslocamento e desejo na comunicação contemporânea, trabalhando sempre em trânsito. Faz duo com seu marido, o antropólogo Massimo Canevacci Ribeiro. Colabora também com Benoît Lachambre, Laurent Goldring, Sophie Deraspe, Edgard Scandurra, entre outros.


Port



Um festival como esse, focado no “self” físico, é importante para marcar a desinvidualização do artista chinês, em primeiro lugar. Compondo o elenco do Balé da Cidade de Teresina, ouvi de um crítico que nosso corpos fugiam do padrão buscado pelas companhias do sul/sudeste brasileiros.
É curioso como nós ocidentais tendemos a acreditar na padronização de outros povos, em especial os asiáticos, mais ainda os chineses. Portanto, seria comum crer que sua arte seria algo similar. Tenho desfeito gradativamente esse pensar, lendo seus textos, livros de estrangeiros na China e enlouquecendo com criações de artistas como Ai Wei Wei, que é persona non grata em sua China natal.
Festivais de solos na China tem muito de metáfora para a
separação do indivíduo chinês do Estado que funciona como um órgão vivo e nivelador de seus habitantes.
A metafora do I (eu) é muito boa. E sim já tá presente nos Iphone, Ipod…. por coincidencia estava pensando nela nesses dias de sofrimento em achar um nome para o que estamos fazendo agora por aqui (espetaculo que estreia em março). O nome que tínhamos conceitualmente nao é mais onde estamos… enfim. Adoro os I”s”.
Bom vê-lo por aqui eugenio, beijos querida sheila. Os textos me inspiram.
Caro Eugênio,
um dos grandes problemas da contemporaneidade são as mil partes de cada um e tb as mil partes do “grupo” e do pertencimento.
Esse cliché entre “ocidental” pró-indivíduio e “oriental” (árabe incluso) pró-grupo, nada mais é do que mais uma maneira midiática de domínio.
Cada vez mais vou entendendo que tem de tudo em uma mistura ainda maior – em qualquer um dos vários sistemas (que tentei abordar no texto). Os países ditos democráticos tem suas formas indiretas de totalitarismo ideológico (vide a encheção de saco da França em direção aos muçulmanos e seus véus sob o pretexto da “liberdade”).
É, os artistas chineses estão aí. E qualquer Estado tem suas dinâmicas cruzadas.
O que mais em intrigou no seu texto, no entanto, foi que vc se chamou de “nós” e se autodenominou “ocidental”. Essa mania que brasileiro tem de achar q é normal, na retórica da língua portuguesa se auto chamar de “nós”, não seria uma maneira de ser grupo e não indivíduo? E, se prossigo, caberia isso pra um “ocidental”?
É onde eu vejo que não somente eu – e talvez você -mas tb o mundo… é cada vez mais de mestiços… Não mestiços de sangue e território, mas mestiços do mundo.
Sheila
Layane, eu roubei o conceito do Massimo Canevacci de “multividuo” e empreguei pros tantos milhões de “eus” de Hong Kong.
bj
Sheila
Sheila, o pertencimento a um “grupo” é algo tão enraizado em nós mesmos e nos “outros” (que não somos “nós”) que acabamos por replicar isso ad infinitum em nossos discursos.
Os chineses – assim como outros povos orientais – tem sim sua visão clichê dos ocidentais; isso também é cultural. É claro que cabe a nós, que buscamos o questiionamento, tentar ultrapassar os olhos do senso comum.
Sim, a democracia – e de forma muito velada pela prerrogativa da tal liberdade – é também uma forma de totalitarismo. Agora pergunto: o preconceito racial seria maior aqui no Brasil porque é velado ou nos EUA (país da liberdade) onde é violentamente declarado? Olha aí a tal liberdade…
Continue com textos maravilhosos sobre essa China que, pena, ainda desconheço e espero um dia se torne mais perto de todos nós que moram deste lado do planeta – assim fica melhor?
Continuando Eugenio,
é… gostoso redirecionar e se desamarrar da linguagem né?
Nao se preocupe que a China esta cada vez mais perto sim, de todos, de todos os lados do planeta. E se Maomé nao vai à China, à China irà à Maomé.
: )
bjo!