Este texto foi originalmente publicado no site do GRiD-CCSP (Grupo de Reflexão Interdisciplinar do Centro Cultural São Paulo).
Introdução
O seguinte texto foi criado a partir de uma proposição de escrita colaborativa com o desejo de ser o encontro de duas percepções acerca do espetáculo Como Risco em Papel, dirigido e concebido pela coreógrafa e bailarina Marcela Reichelt, financiado pelo 13º Festival da Cultura Inglesa e premiado como Melhor Trabalho de Dança desta edição do Festival. Apresentada no CCSP em novembro de 2009, a obra fez parte da programação de Dança Expandida, sob curadoria de Alexandra Itacarambi.
Dança Expandida é um espaço que visa contemplar e dar vazão a produções contemporâneas que têm como característica o transbordamento da dança para outras linguagens e que, neste direcionamento, abarquem processos experimentais e abertos a discussões. O espetáculo Como Risco em Papel foi inspirado no filme O Livro de cabeceira, de Peter Greenaway, e propõe uma expansão sensível, háptica, da dança em direção às artes visuais.
No mesmo período no CCSP, além de apresentar esse espetáculo, Marcela orientou o workshop Corpo Conduta Movimento e participou de uma mesa de discussão tendo sua obra como tema. A ideia deste texto, escrito por mim e por Reichelt, partiu de um exercício sugerido por ela no qual dois participantes do workshop, no centro de uma roda, estabeleciam um diálogo que se dava pelo encontro de seus corpos. A instrução era que os movimentos, imagens e sensações descrevessem, juntos, um discurso diante dos olhos dos observadores.
Controlar o inesperado?
Fabíola Salles – Para iniciar este entrelaçamento, gostaria de comentar que foi bastante marcante no seu workshop Corpo Conduta Movimento a proposta do diálogo entre dois corpos gerando, em ato, discursos diante de nossos olhos. Principalmente porque você sugeriu que a característica deste encontro deveria ser, apesar de livre, não opressora.
Marcela Reichelt – O que decorre e me interessa nesse exercício proposto entre dois corpos no workshop são as possibilidades de contato, trocas e de limites que descobrimos com o outro. A maneira mais clara de percebermos o quanto estamos atentos ao que estamos produzindo em movimento, em imagem e diálogo, é praticar a reflexão do olhar interno e externo. Acredito que um corpo com uma escuta corporal refinada não oprime, percebe, opta e é capaz de dialogar livremente com maior propriedade para tecer relações pontuais com o espaço e com os outros corpos. Não é de todo simples essa liberdade, requer as suas opções em conversa com as do outro. Aos olhos de quem assiste, fica aberta a possibilidade de acompanhar e criar discursos próprios, estabelecidos por diferentes entendimentos em se relacionar ao contexto de cada corpo, pessoa. Tornar um diálogo unilateral é decidir parcialmente sozinho o decorrer de ações.
FS – Ultimamente me encontro suspensa entre estes olhares: interno e externo. A superfície do espelho de Alice em si. Reparo, me aproximo, comparo, no dia-a-dia, visões, vozes, arquiteturas, e estas parecem configurar um desenho mutante de comunidade. É como dar-se conta não só das possibilidades plurais do ser em sua individualidade, mas também na diversidade de relações que estabelece com os outros, com os lugares e também com o não visível. E as superfícies que separam dentros e foras, aquis e alis, eus e mims parecem porosas, definitivas e também delicadas.
Percebo em seu trabalho a delicadeza no sentido não só da fragilidade, mas da importância e da gravidade.
A superfície não se trata do superficial. Será que a cobra, quando troca de pele entra em crise? É bem provável que não. E nossas células também, a todo o tempo, trocam de lugar, alteram suas velocidades, formam e deformam suas qualidades. O difícil é acompanharmos com atenção cada micro movimento da mudança. Muitas vezes pulamos alguns quadros e, quando percebemos, nos assustamos com o tempo, nos colocamos como vítimas de situações aparentemente imprevisíveis. Ao que parece, este movimento constante de um corpo só ganha direção, sentido, quando outro corpo (campo de atração) se aproxima, gera direção e posicionamento: intensidade. E essas aproximações são escolhas das diversas camadas que compõem o corpo de cada um e também o corpo social.
Me imantou a imagem de você estar no palco depois do agradecimento. Depois de acenderem as luzes para saída do público, no momento em que nos preparávamos para voltar para a rua, para o cotidiano, e ali te vi numa atitude receptiva, de certa forma provocativa, quase que pedindo esta aproximação, esta participação do público na possível continuidade e desdobramento da obra: mais uma vez a possibilidade do diálogo, acesso. Me lembrou o teatro épico de Brecht, a quebra da quarta parede, não só da arquitetura do palco mas da arquitetura que muitas vezes está introjetada nos comportamentos. Parecia que você afirmava que aquele trabalho não encerrava ali, como quando Allan Kaprow fala da beirada das pinturas de Jackson Pollock no chão de seu ateliê, em que os pingos de tinta da tela continuavam no chão: ali a passagem da obra para a vida.
Ao mesmo tempo que você afirma a importância de uma investigação plástica, sensível, formal, poética no sentido de autorreferenciar as artes e suas investigações (técnicas e da própria história da arte) abria espaço para que este mergulho fundo para dentro pudesse vazar proporcional para o que estava por vir na sequência da vida de cada um ali presente e também da vida da própria obra.
MR – A cada nova relação (do mesmo corpo, com outro corpo, e/ou com outro ambiente) novas cadeias de combinações se estruturam, e fornecem ali a diversidade de relações. No workshop, enfatizo a importância do estado de atenção de si para com o externo, o que chamo de escuta refinada. Lidar com o imprevisto é reconhecer o próprio corpo e suas intensidades, dialogar com as condições determinantes existentes na pulsão dos outros corpos e compreender as características estruturais do ambiente que o cerca em todo momento. Entendo adaptação como técnica da incorporação de condições às novas circunstâncias. Em que tempo somos vítimas das imprevisibilidades?
A construção dessa ordem espetacular dissolvida no tempo de duração proposto na obra obedece às instruções do diretor, criador, porém não tem autonomia sobre o tempo consumido pelo espectador. Sobre o tempo dissolvido no convencionado início, meio e fim de um espetáculo penso logo em limites. Onde esse tempo se desdobra? Naquele momento anteriormente mencionado por Fabíola, o fim do espetáculo foi se estabelecendo pelo espaço, pela falta de cortinas, pela permanência do espectador no espaço cênico Ademar Guerra e também pela minha presença disponível em mais alguns minutos antes do meu longo banho pós tinta do Como risco….
Realizamos a performance-discurso que interviu na situação local nas proximidades do CCSP. Registramos a ação em vídeo e inserimos no espetáculo. Anteriormente, tínhamos o registro de outra performance com o mesmo ponto de partida, realizada em Florianópolis. Ficou claro quão significativas são as diferenças nos contextos urbanos e a cultura neles impregnada. Deslocar o tempo da ação performada e inserir na cena foi uma forma de justapor um espaço daquele território num trabalho contextualizado no mesmo ambiente. Como uma janela ali na apresentação com vista para o contexto lá de fora. Ao mesmo tempo a performance é uma extensão do trabalho para dentro do cotidiano da cidade.
O espetáculo Como risco em papel foi piloto e ponto de partida do Projeto Dança Expandida no Centro Cultural São Paulo (CCSP) em parceria com 13º Cultura Inglesa Festival. Desta parceria institucional surgiu a possibilidade de esgarçar as especificidades da obra em desdobramentos que reuniram performance registrada e reintegrada ao espetáculo, workshop, debate sobre a obra e apresentações. A equipe para esse projeto que trabalhou junto comigo e a quem agradeço imensamente o empenho foi formada por Anderson Luiz do Carmo, Clélia Mello, Julia Amaral e Tiago Romagnani. Vejo que o projeto, no intuito de articular outros prismas da concepção do trabalho como expectativa primária proposta, trouxe mais um desdobramento e dessa vez na escrita juntamente com a generosidade da Fabíola.
Fabíola Salles Mariano é formada nas faculdades de Comunicação das Artes do Corpo pela PUC-SP e Artes Plásticas pela ECA-USP. É artista de circo desde 1998, tendo participado de espetáculos e festivais. Atualmente, faz parte de um grupo de pesquisa de butoh, além de desenvolver textos e outras criações do/no campo das artes performativas.
Marcela Reichelt é bailarina e coreógrafa. Durante seis anos integrou como bailarina o Grupo Cena 11 Cia. de Dança e com ela participou de mostras internacionais e residências. Atualmente dedica-se ao seu trabalho solo.

Port



No decorrer da leitura deste texto idéias se entrelaçam e criam sentidos que me levam revisitar e repensar minha relação em espaços nos quais trânsito. Compreende-se que neste exercício de refinar o olhar e a escuta para as possíveis sensações de um ambiente que emergem outras percepções e conhecimentos corporais. Um modo de estar no mundo que objetivo cada vez mais instigar nas aulas de dança.
Refletir sobre diálogos corporais torna possível o reconhecimento do quanto somos limitados quando restringimos nossa comunicação somente à fala.
Perceber e se reconhecer através do outro, construir discursos corporais e enteder as cadeias de combinações que se estruturam a cada nova relação, trás a idéia de diálogo corporal, neste caso em dança, como uma necessidade humana.
Dar-se conta para além das possibilidades plurais do ser em sua individualidade, e perceber a diversidade de relações que se estabelece, afirma ainda mais o entendimento de dança como relação. Uma relação que não se encerra no próprio movimento, a outros corpos e sistemas, mas que se permite “vazar” para a complexidade da vida.
Esse lugar de experimentação e diálogo com outros corpos é muito importante e gera uma abertura da experimentação particular para uma coletiva. As inúmeras possibilidades que propostas como essa trazem me faz pensar, que antes da faculdade meu corpo trabalhava e reagia de forma diferente a propostas assim. Atualmente, minhas informações e vivencias corporais mudaram, e é incrível como cada corpo carregado por uma vivência e uma história diferente vai dialogar com o seu se forem postos frente a frente em uma roda. Dança e o corpo trabalhando juntos nas inovações e nas possibilidades.
O texto me traz algumas reflexões. Pensar os limites do próprio corpo, relacionar um corpo vivo, que se constrói com e em um ambiente, sendo também parte deste. Enquanto as fronteiras se dissolvem na permeabilidade da relação corpo/ambiente, percebo a importância e responsabilidade de ser, estar realmente e participar dessa construção de contexto a partir do que se acredita. Tornar toda a existência válida por ser experiência constante que comunica e assim permanece sendo sociedade.
Acredito que apenas somos o que somos e que o lugar que habitamos é o que é, porque existe essa relação. Somos tanto o ambiente em que transitamos, quanto este ambiente é o que somos.
Penso a relação do corpo e do fora, do corpo e do outro, do corpo com os corpo, essa relação que perpassa a pele, a superfície, que se esparrama entre limites entre superfícies como tênue em cada experiência corporal. O diálogo que se estabelece entre o corpo e o ambiente, e compreende este corpo sócio-cultural, onde se tem (nem sempre de forma reconhecível) os ambiientes inidviduais e coletivos, que se referem a novos limites entre um e outro, entre o sozinho e o a dois, três ou muitos. Vivenciar esses limites de relações, que dão o rumo da liberdade de ação, de mover-se e posicionar-se é que nos coloca em um lugar de promoção de diálogos, de criação de espaços onde novas relações possam ser estabelecidas, onde o dentro e o fora, o eu e o outro possam se esbarrar e entrelaçar simultaneamente.
Começo a perceber o quanto perdemos ao restringirmos nossa comunicação apenas de maneira verbal… Apesar desse lugar de experimentação e comunicação, pela fala, com outros corpos ser muito importante, acabamos estabelecendo um certo limite com nosso próprio corpo e ambiente em que nos relacionamos. Dialogar com o que temos em nosso corpo, a identidade, faz parte de um reconhecimento e amadurecimento que não se restringe a uma só linguagem, mas a todas as outras. Experimentar uma maneira diferente de se comunicar nos enriquece e viver até os limites dessa relação que estabelecemos acabam nos dando a liberdade de agir, criar, inovar!