Aqui está o quinto texto da série 7X7, onde convido jovens artistas a escreverem suas visões sobre os trabalhos de outros artistas – neste caso os programados na segunda edição do Festival Contemporâneo de Dança, realizado em novembro, em São Paulo. O intuito é o de criar uma ação sinérgica instigando a análise crítica e sensível sobre a arte da dança por novos artistas que crescem dentro dela. Sheila Ribeiro.
Marta Soares por Ana Marincek
O espetáculo Um corpo que não aguenta mais, dirigido por Marta Soares, criado e interpretado por Carolina Callegaro, Clara Gôuvea, Eros Valério, Manuel Fabrício e a própria Marta, foi apresentado no Festival Contemporâneo de Dança, na Galeria Olido, no dia 12 de novembro de 2009. Esse trabalho já foi realizado em outros dois lugares: em 2007, estreou no Sesc Avenida Paulista e, em 2008, ficou em cartaz no Viga Espaço Cênico.
O tempo de aprofundamento trouxe à montagem uma característica que não se vê nos trabalhos contemporâneos produzidos atualmente: uma complexidade sui generis da proposta. Isso se dá pela seriedade e aprofundamento que Marta Soares imprime em todos os seus trabalhos e também pela escolha da bibliografia utilizada no processo de criação. A pesquisa se iniciou com a leitura de Spinoza, depois passou para o texto Como Viver Juntos, de Roland Barthes. Seguiu com a leitura de Agamben, com Homo Sacer, e em seguida para Vida Capital, de Peter Pel Pélbart. Chegando, então, ao “corpo que não aguenta mais” do qual David Lapoujade fala.
O corpo de que Marta trata é o do pária, daquele que é negado e excluído da sociedade, mas que é necessário para estruturar um sistema. Este está resignado para poder resistir aos poderes que o afetam e faz do “não aguentar mais” sua estratégia de sobrevivência. O que se vê não é apenas o cansaço (estado em que ainda existe esperança), mas um esgotamento, um corpo sem possibilidade de reagir, que por isso rasteja, bamboleia, se finge de morto e se deforma em relação às pressões do mundo.
O cenário e o figurino, assim como a luz e o desenho sonoro, também têm participação fundamental na construção desse corpo. Eles não atuam meramente como invólucros como se vê em outros trabalhos contemporâneos, mas como elementos necessários que afetam e modificam o corpo em tempo real; há uma quebra da hierarquia de tudo que compõe a cena.
O movimento “pobre”, proposto nas partituras de Lisa Nelson, material com que Marta iniciou suas pesquisas, permeia todo o espetáculo. Além de executar movimentos mais simples, como andar, rastejar e ficar parado, há também um momento em que os criadores jogam com o tênue limite da sensação/representação: os cinco intérpretes vestem uma calça gigante e formam figuras híbridas (propositalmente quase engraçadas). Em seguida, uma caixa de no máximo 2m² é ocupada por quatro corpos, que ainda com a qualidade de inutilidade nos movimentos, competem por aquele espaço. E essa é a outra faceta do corpo que não aguenta mais, pode-se até fazer uma metáfora com a vida nua de que Agamben trata, daquele corpo que só possui suas funções vitais para continuar vivo.
Uma pesquisa complexa como esta precisa de um tempo mínimo para alcançar algum objetivo, mas a lógica de produção constante da sociedade capitalista não permite isso, ainda mais com a atual política de editais do país, que segue a lógica do consumo, não viabilizando a continuidade dos trabalhos. Assim, há uma enxurrada de produções sem espaço para as pesquisas com profundidade.
Por isso, a forma de Marta Soares se posicionar é um marco importante. Ao ir na contramão daquilo que se tem estabelecido, ela propõe entender o mundo e fazer arte com outra lógica. Seu trabalho é bastante coerente com a situação de esgotamento da dança: o corpo que não aguenta mais é exatamente este que está sujeito e que acaba cedendo às pressões externas.
Ana Marincek é graduanda do curso de Comunicação das Artes do Corpo da PUC-SP.
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Port



Ana, gostei muito do seu texto. É sucinto, fala do trabalho – descreve, contextualiza, comenta – e tem seu ponto de vista. E toca em questões importantes da dança na atualidade, como a relação entre pesquisa, lógica de produção capitalista e políticas públicas – sucitadas pelo próprio trabalho. Assim, ainda faz (com pertinência) a correlação política à estética do espetáculo.
Ana, as ligações que vc faz do trabalho da Marta com a bibliografia são extremamente pertinentes. Ótima a colocação da interferência do tempo de pesquisa na qualidade da obra. Ótimo, também, esta aproximação com as políticas públicas.
Muito legal o seu texto, Ana! Mas será mesmo q o trabalho da Marta é sui generis pq ela aprufunda suas pesquisas e pelo tipo bibliografia utilizada? Claro q cada artista se utiliza, quando utiliza, de bibliografias diferentes. Mas será mesmo q ela se diferencia muito de outros criadores de dança contemporânea por isso? Tenho cá minhas dúvidas. Contudo, essas características dela são com certeza marcantes e muito importantes.
A proponente do texto, Ana Marincek, demonstra uma boa sensibilidade no que se refere ao “OLHAR”, olhar uma obra, olhar para uma obra. Bem interessante os comentários propostos, porém concordo com o olhar de Arthur Moreau quando o mesmo questiona as relações de pesquisa e investigação com o adjetivo Sui Generis. Concordo com voce ao indicar a “pressão” de mercado sobre o processo orgânico da criação, no entanto isso me remete ao contrário do estabelecido: se o tempo dessa concepção orgânica se contrapõe ao do mercado só me restará uma escolha, sempre.
Muito interessante as escolhas e problematizações feitas pelo texto em relação à obra, à artista, ao nosso contexto politico atual da dança no Brasil e sobre a pesquisa.
Me interessa também quando se posiciona sobre as escolhas de elementos que compõe a obra. Pensar na construção de um ambiente sensitivo, onde cenário, figurino, luz e som se constróem junto com a obra e se fazem indispensáveis à ela por afetarem e modificarem os corpos em tempo real, se torna cada vez mais necessário no contexto da arte contemporânea.
Abordar e levar outras pessoas a refletirem sobre a realidade na qual estamos inseridos. Atualmente me interessa observar o modo como os trabalhos artísticos andam levando questões de uma sociedade para serem compartilhadas com uma população que muitas das vezes se acomoda e não se posiciona diante dos fatos. Marta potencializa assim esse lugar de um “corpo que não aguenta mais” a realidade em que vive, trazendo luzes,movimentos e sons que enfatizam a problemática abordada.
Interessante pensar que o senso mais comum relaciona – quase diretamente – a ideia de dança com o espetáculo, a “quantidade” de dança, o excesso de movimentos, etc. Entender este corpo esgotado, que precisa ser menos do que exercita no cotididano, um corpo que precisa somente respirar e estar vivo, para já ser corpo, leva a possibilidades de ser, de existir em tempo real que talvez nunca antes tenham sido vivenciadas. Fico pensando em como a sociedade de consumo revela um corpo cheio de funções, obrigações e representações alheias: nessa sociedade o ócio, e tempo lendo e o nada não tem função; assim, a imagem do corpo sem utilidade, de um corpo inútil revela também a vontade do corpo ser somente corpo, não agragdo de signos construidos social e hisoricamente, que são impostos a ele.
Olá, pessoas interessantes!
Gostaria de agradecer todos os comentários feitos sobre o meu texto. Os questionamentos, as incertezas e reflexões propostas me fizeram repensar vários aspectos não só da obra da Marta especificamente, mas também da produção atual contemporânea em uma dimensão mais ampla. A meu ver, essa troca importantíssima os torna co-autores do meu texto, complexificando-o ainda mais. Agradeço muitíssimo!