Com 40 anos de carreira e reconhecido por seus documentários que destrincham o funcionamento de instituições nos EUA, o diretor Frederick Wiseman finalizou em 2009 sua segunda incursão no mundo da dança. E desta vez fora das fronteiras do território americano. La danse, Le ballet de l’Opéra de Paris registra o cotidiano de uma das mais importantes companhias de dança do mundo. Em 1992 o diretor havia filmado Ballet, sobre o American Ballet Theatre. “Pensei que poderia ser divertido fazer um outro filme de balé, especialmente porque há muitas diferenças entre o Balé da Ópera de Paris e o American Ballet Theatre”, explica Wiseman por email ao idança (abaixo, a entrevista completa).

La danse está na programação competitiva internacional da 15ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que vai até domingo (18/04), no Rio de Janeiro (confira os horários de exibição do filme no fim da reportagem). Este ano, o festival está reunindo 71 documentários divididos entre mostras competitivas e sessões especiais.

O idança assistiu ao filme a convite da organização do festival na semana passada. Em cerca de 2h40 de projeção, o público é levado por um passeio pelos corredores e salas de ensaio do Palais Garnier, sede da companhia. A primeira parte do filme registra, principalmente, os exaustivos, repetitivos e rígidos ensaios. A câmera visita as salas de ensaios dos solistas, pas-de-deux e dos coros mostrando, sem muitos cortes, a relação entre coreógrafos e bailarinos.

Entre os principais nomes do Balé, um se destaca durante todo o filme: o da diretora-artística Brigitte Lefevre. Basicamente tudo o que acontece dentro do teatro passa pelo seu aval. São assuntos que vão desde a agenda de apresentações e seleção de bailarinos até a crise no sistema de aposentadoria dos funcionários da casa. Destaque para as questões que envolvem o ‘embate’ entra o balé clássico e as obras modernas interpretadas pela companhia, como Orfeu e Eurídice, de Pina Bausch, e Medea, de Angelin Preljocaj.

La danse / Foto divulgação

La danse / Foto divulgação

Entre ensaios e trechos de apresentações, também ficamos conhecendo pelos olhos de Wiseman os bastidores do teatro, como a sala de consertos de sapatilhas, onde uma senhora de chinelos cercada por pares de sapatilhas realiza seu trabalho; o setor de figurinos, com centenas de saias (foto) e máscaras; e até o restaurante, um verdadeiro ‘bandejão’, por onde passam todos os funcionários.  La danse é uma deliciosa chance de conhecer a fundo o funcionamento de uma das principais companhias de dança em atividade do mundo. E entender que, para se ter qualidade, é necessária uma enorme e bem cuidada estrutura por trás dos saltos e piruetas que vemos no palco.

“Fiquei impressionado com o respeito à hierarquia”

Mesmo em uma cansativa viagem por conta do La danse, como o próprio Wiseman fez questão de explicar, o diretor conseguiu um tempo para responder as perguntas do idança. Confira a entrevista abaixo:

idança – Como surgiu a ideia deste documentário? Por que escolher o Balé da Ópera de Paris?

Frederick Wiseman – Tenho vivido pelo menos metade do ano, nos últimos 10 anos, em Paris. Sou um grande admirador do Balé e pensei que poderia ser divertido e interessante fazer um outro filme de dança, especialmente porque o estilo, tradição, repertório e financiamento do são bem diferentes do American Ballet Theatre, objeto do meu filme de 1992. Também foi uma desculpa para continuar em Paris.

O que mais o impressionou na estrutura da companhia?

O respeito à hierarquia, a habilidade técnica, disciplina e dedicação dos bailarinos e a grande competência de Brigitte Lefevre (diretora artística) e sua equipe.

Como foi o processo de filmagem? Quanto tempo durou?

As filmagens tomaram 12 semanas. Mesmo nos momentos de trabalho, também era um grande prazer observar artistas excelentes em ensaio ou durante as apresentações.

Como capturar o esforço físico dos bailarinos em imagens?

Sempre tentei mostrar o corpo inteiro dos bailarinos, a relação deles com seus parceiros e sequências das coreografias.

Como você escolheu os trechos de espetáculos que aparecem no filme?

Levei um ano para editar o filme. Fiz a seleção através de um estudo intenso de 130 horas, escolhendo as sequências que eu gostava, editando de forma coerente e as encadeando em uma estrutura dramática, narrativa.

Por que é importante documentar o cotidiano de atividades de uma companhia tão aclamada?

O balé tem uma forma etérea, e foi importante para mim fazer um filme sobre uma companhia que cria tamanha beleza.

La danse, Le ballet de l’Opéra de Paris será exibido nesta quarta-feira (14/04), às 17h30, e sexta-feira (16/04), às 18h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março 66, Centro. Telefone: 21 3808-2000). A entrada é gratuita.

Abaixo, assista ao trailer oficial do filme:

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