De passagem pela Performa 09 – Terceira Bienal de Novas Artes Performáticas, que aconteceu em novembro, Cristiane Bouger escreveu sobre três trabalhos. O primeiro texto, já publicado pelo idança, foi sobre Auf den Tisch!, de Meg Stuart e Trajal Harrell. Este aqui fala sobre o vídeo Conversa com Luvas de Boxe, da dupla Chamecki e Lerner. O terceiro será publicado em breve… Aguarde.
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100 anos desde o Futurismo
Performa 09 – A Terceira Bienal de Novas Artes Visuais Performáticas, dirigida pela crítica e historiadora de arte RoseLee Goldberg, aconteceu entre 1 e 22 de novembro em Nova York. Em sua terceira edição, a bienal celebrou o centenário da publicação do Manifesto Futurista, escrito pelo poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti, em 1909.
O manifesto de Marinetti foi publicado em Paris, na primeira página do jornal de circulação diária Le Figaro, em 20 de fevereiro de 1909. O influente texto apresentaria um dos movimentos artísticos mais provocadores e radicais do século passado e lideraria as práticas Futuristas nas décadas que se seguiriam. O Futurismo foi seminal no desenvolvimento da performance e das vanguardas que se originariam no decorrer do século. Contudo, tanto o manifesto quanto o movimento artístico foram polêmicos não apenas por suas ideias extravagantes, mas também pela perspectiva fascista e sexista de Marinetti, através da qual ele exaltava “o gesto destrutivo dos que trazem a liberdade[1]” e celebrava a guerra como “a única higiene do mundo[2]” (MARINETTI, 1909).
As ideias artísticas revolucionárias que foram originadas pelos manifestos Futuristas na Itália – poucos anos antes da I Guerra Mundial ser deflagrada – são controversos ainda nos dias de hoje. Por outro lado, através do ímpeto de “destruir” o pasado e se referir com escárnio a todas as estruturas estabelecidas como museus e instituições acadêmicas, os Futuristas vislumbraram novas direções para a arte no último século. Como declarado por Goldberg, “Os Manifestos Futuristas não deixaram nenhuma parte da vida moderna intacta, explorando e provocando, inventando e desafiando, e propondo e projetando novas formas de comer, dormir, voar e sonhar[3].”
‘Vita Futurista’
Entre os trabalhos integrantes do programa que celebrou o Futurismo na bienal, estava o projeto Futurist Life Redux, com curadoria de Lana Wilson e Andrew Lampert. Inspirado no filme Vita Futurista (1916), originalmente filmado por Arnaldo Ginna[4], o projeto incluiu 11 cineastas e videoartistas. Cada um deles recebeu a tarefa de (re)criar um dos segmentos do filme original, cuja distribuição ocorreu de forma randômica com base nos 11 segmentos do longa de 40 minutos[5], do qual não existem cópias.
Vita Futurista foi o único filme realizado pelos Futuristas, e apresentava muitas das ideias propostas em 1916 pelo manifesto O Cinema Futurista, co-escrito por F.T. Marinetti, Bruno Corra, Emilio Settimelli, Arnaldo Ginna, Giacomo Balla e Remo Chiti.
Como afirmado no programa de Futurist Life Redux, acredita-se que o filme original era composto de “pelo menos 11 segmentos independentes concebidos e escritos por diferentes artistas Futuristas[6].” Sinopses curtas de cada segmento e alguns stills foram a base para que os artistas contemporâneos recriassem uma versão reimaginada do filme Futurista.
Entre os artistas convidados para integrar o projeto[7] estavam as coreógrafas e diretoras Rosane Chamecki e Andrea Lerner, que trouxeram o cineasta Phil Harder para colaborar em seu trabalho.
Chamecki e Lerner iniciaram a transição da dança para a direção de filmes em 2007. No ano seguinte, elas receberam o prêmio Guggenheim Fellowship, o qual permitiu ao duo trabalhar em duas novas produções curtametragem que deverão estrear em 2010. Para a Performa 09[8], seu curta Conversa com Luvas de Boxe Entre Chamecki e Lerner reimaginou o segmento Discussão com Luvas de Boxe Entre Marinetti e Ungari, do Vita Futurista.
Com um modesto cachê, o título e o still do segmento original, e um prazo aproximado de seis semanas para a realização do filme, Chamecki e Lerner – que criaram um curta inspirado em uma luta de boxe em 2007[9] – precisaram repensar sua relação com o mesmo sistema de signos. Elas se perguntaram diversas questões relativas a como criar um trabalho significativo inspirado em um movimento artístico do qual elas tinham discordâncias críticas, já que as ideias sexistas e bélicas apresentadas pelos manifestos Futuristas não eram por elas endossadas.
De acordo com Lerner[10], uma das preocupações fundamentais estava relacionada com compreender como elas poderiam se voltar ao Futurismo, se olhar para o passado significava trair o próprio movimento que pretendia olhar apenas para o futuro. Contudo, imaginar como ser uma artista Futurista no presente, ao invés de se voltar ao passado Futurista, significava uma proposta provocadora e estimulante.
A partir desta perspectiva, Lerner e Chamecki decidiram utilizar características que eram apreciadas por Marinetti e os Futuristas, como velocidade, ausência de drama, simultaneidade, dinamismo e violência. Elas apropriaram tais atributos sutilmente – e não obstante eficientemente – subvertendo a luta de boxe para recriar seu significado.
Um filme cinestésico, não um videodança
Nomeando seu trabalho Conversa com Luvas de Boxe ao invés de adotar o título do segmento Discussão com Luvas de Boxe sugere uma abordagem diferenciada da violência sugerida pelo filme original.
Reinterpretar a violência transgredindo sua própria força revela um posicionamento forte. Esta qualidade foi conquistada no vídeo através de dois aspectos principais: a sobreposição das performers olhando para a câmera e a temporalidade revertida do vídeo.
O vídeo de 4 minutos foi filmado por Harder com um fundo negro, mostrando Chamecki e Lerner centralizadas no enquadramento. Foram filmadas quatro tomadas de quatro minutos sem cortes de cada performer, somando oito tomadas. A partir deste ponto, as artistas sobrepuseram as diferentes combinações do material filmado e selecionaram uma tomada de cada uma delas para a edição final.
O filme começa com uma luta de boxe que se transforma em dança. Vemos duas mulheres em posição de luta encarando a câmera e por extensão, em direta relação ao espectador. As imagens de Chamecki e Lerner são fundidas, criando simultaneamente unidade e difusão de suas identidades. A ação da luta é desenvolvida até o ponto em que as posições de combate se transformam em movimentos de dança.
O aspecto crucial do trabalho foi a inversão do movimento do filme: o vídeo foi filmado com Lerner e Chamecki inicialmente dançando, e em seguida, desenvolvendo os movimentos de dança em movimentos de uma luta de boxe. Contudo, o filme foi editado mostrando a gravação de trás para frente e o que vemos é uma sequência oposta, na qual a luta é transformada em dança. Através desta manipulação temporal, o movimento violento do soco é revertido, puxado em direção à lutadora que o lançou e não em direção à sua oponente (ou espectador/a). Quando o ataque é puxado de volta à agressora e sutilmente transformado em dança, a violência é subvertida através da sua própria dinâmica e velocidade.
A posição das performers em frente à câmera permite que o/a espectador/a seja envolvido/a na ação, no sentido em que o/a mesmo/a está encarando as lutadoras e os movimentos desfocados de suas imagens dissolvidas e sobrepostas. Por vezes, isso me leva a sentir que fui eu – como observadora – que fui surpreeendida pelo soco e vi a oponente dissolver-se no corpo de uma outra mulher.
Esta impressão não acontece ao acaso. De acordo com Lerner, elas quiseram conquistar não apenas uma estranheza perceptiva com relação ao movimento expressado no vídeo, mas também incitar uma certa fisicalidade em quem assiste ao trabalho, dando ao/a espectador/a a perspectiva do/a adversário/a da lutadora, de forma que o/a mesmo/a não assista a ação passivamente.
A ação e a estrutura do vídeo são incrivelmente simples. Ainda assim, o trabalho reverbera uma resposta conceitural e física à questão incial das artistas sobre como se remeter ao Futurismo: a velocidade tão apreciada pelos Futuristas – uma qualidade mecânica nova no início do século XX – é utilizada para reverter o passado em presente. Desta forma, chameckilerner realiza tanto um tributo aos Futuristas quanto uma declaração sobre a impossibilidade de seu desejo de destruir o passado, ao qual eles também agora pertencem.
A fusão das imagens das artistas confunde a identidade de cada uma delas, unificando Chamecki e Lerner e criando por sua similaridade física, uma dualidade significativa entre discussão e unidade: um reflexo do seu processo artístico. A dualidade/unidade difusas pode também apresentar significados expandidos para aqueles que conhecem a história da chameckilerner. A companhia de dança dirigida por ambas as coreógrafas apresentou o espetáculo-suicídio EXIT no The Kitchen, em Nova York em 2007, declarando o fim de sua parceria na dança[11]. Mais do que o fim, EXIT marcou sua transição da criação coreográfica para a criação fílmica. Neste contexto, observar a luta de boxe – na qual cada soco se volta para a lutadora que o lançou - pode também sugerir que para as artistas, uma luta contra a outra equivale a lutar consigo mesma.
Considerando que elas não criaram uma coreografia para a câmera, mas um filme baseado em uma ação real, Lerner situa a criação de Conversa com Luvas de Boxe mais próxima a um conceito de live art e não de uma aproximação da videodança. Em entrevista concedida para este artigo, Lerner afirma:
“Trabalhar com filme está sendo uma extensão do que estávamos fazendo [na dança], mas estamos nos questionando sobre qual direção tomar. Nós sabemos que há uma relação cinestésica que é inevitável para nós porque é assim que vemos o mundo. Corpo e movimento são o foco dos nossos filmes até aqui. (…) Muitas pessoas nos questionam se estamos fazendo videodança. Nós não temos o mínimo interesse em fazer videodança. Estamos fazendo filmes.” (LERNER, 2009)[12]
Ela esclarece que seu trabalho com Rosane Chamecki sempre evoluiu de uma ação e não de uma coreografia ou narrativa. Mesmo na trajetória inicial da chameckilerner, suas coreografias eram criadas a partir de uma ação específica, a qual impunha o desenvolvimento da partitura coreográfica da dança.
Considerando que um dos fatores cruciais para a performance e em trabalhos de live art compreende um estado diferenciado de presença incorporado pelo/a performer, Chamecki[13] expande a questão apontando que em seus trabalhos de dança, a chameckilerner sempre buscou reviver em frente ao público o momentum no qual em seus ensaios este estado de presença dos/das performers era inquestionável. Contudo, reincorporar esta presença não é algo facilmente conquistado, e em certos casos, este estado raramente ressurge em trabalhos que são reapresentados. A partir deste ponto de vista, ela compreende que criar para filmes lhes permite capturar esses momentos, os quais de outra forma, se esvaneceriam sem ser testemunhados. Neste sentido, ela pondera que uma performance para vídeo pode, em alguns casos, conter mais presença viva do que uma performance ao vivo.
Com Conversa com Luvas de Boxe, chameckilerner criou uma reinterpretação concisa e eficaz. Intercambiando difusão e definição de territórios para falar de sua prática, as artistas subverteram e recriaram significado para explicitar tanto a fragilidade quanto a força dos conceitos Futuristas em um tempo no qual a violência, a velocidade, a dinâmica e a simultaneidade conquistaram dimensões e influência completamente novas na vida contemporânea.
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Futurist Life Redux foi visto em 16 de novembro de 2009 no Anthology Film Archives, em Nova York, como parte da Performa 09.
Cristiane Bouger é diretora de teatro, dramaturga, performer e vídeoartista. Vive e trabalha no Brooklyn, em Nova York.
[1] Na fonte consultada em inglês, lê-se: “the destructive gesture of freedom-bringers” (MARINETTI, 1909)
[2] Na fonte consultada em ingles, lê-se: “ the world’s only hygiene” (MARINETTI, 1909)
[3] Introdução de RoseLee Goldberg nas Notas de Programa de “Music For 16 Futurist Noise Intoners”. Performa 09 Commission. 12 de novembro de 2009. Na fonte original em inglês, lê-se: “Futurist Manifestos left no part of modern life untouched, probing and provoking, inventing and challenging, and proposing and projecting new ways to eat, sleep, fly and dream.”
[4] De acordo com o programa de Futurist Life Redux, “O filme de 40 minutos Vita Futurista estreou no Niccolini Theatre, em Florença em 1917.” Na fonte original em inglês, lê-se: “The 40-minute Vita Futurista premiered at the Niccolini Theatre in Florence in 1917.” Performa 09 Commission Program, 16 de novembro de 2009.
[5] No Brasil um filme de 40 minutos seria compreendido como médiametragem, mas esta classificação inexiste nos padrões internacionais.
[6] Na fonte original em inglês, lê-se: “of at least eleven independent segments conceived and written by different Futurist artists.” Performa 09 Commission Program, 16 de novembro de 2009.
[7] Futurist Life Redux foi composto de trabalhos realizados por Aida Ruilova, Lynn Hershman Leeson, Michael Smith com Bill Haddad, Shannon Plumb, George Kuchar, Shana Moulton, chameckilerner (com Phil Harder), Ben Coonley, Trisha Baga, Matthew Silver e Shoval Zohar (The Future) e Martha Colburn.
[8] Um trabalho comissionado pela Performa em parceria com SFMOMA e Portland Green Cultural Projects.
[9] O curta integrou o trabalho de dança EXIT, apresentado no The Kitchen, em 2007.
[10] Entrevista conduzida por Cristiane Bouger com Andrea Lerner para este artigo, em dezembro de 2009.
[11] Embora a chameckilerner tenha apresentado o trabalho coreográfico Borbulho (Brasil, 2009) como um projeto especial, seus planos não são retornar à coreografar.
[12] Entrevista conduzida por Cristiane Bouger com Andrea Lerner para este artigo, em dezembro de 2009.
[13] Conversa por telefone com Rosane Chamecki para este artigo, realizada em 17 de abril de 2010.


Port



ola cristiane, I was instigated for the text. but if had this rupture of the dance for the films, the spectacle Borbulhos, presented here in Brazil recently, in the coherence that the artists intend? thanks.
An excellent article. Informative and incisive. I am so curious to see Chamecki and Lerner´s video. Can it be posted on idanca eventually?
Interessante de ter usada os conceitos de Marinetti e os futuristas para inpiracao do trabalho.