Gesto / Foto divulgação

Qual o papel que têm mostras, workshops e festivais para incentivo da produção de dança e de sua difusão? A existência de um número cada vez maior de mostras e festivais na cidade de Aracaju, em especial a realização da Semana Sergipana de Dança (leia mais aqui), traduz uma fase rica de produções, ou isso é um chamado por uma maior produção coreográfica? São estas e outras questões que têm tomado o cenário artístico da dança da pequena e quente capital de Sergipe, que vem presenciando o aumento do número de mostras e festivais de dança, além da realização de workshops. Algumas destas perguntas, porém, podem ficar sem respostas, visto que não se pretende esgotar neste texto as várias possibilidades deste assunto, deixando para os leitores, colegas de pesquisa e artistas de dança a ampliação dessa discussão[1].

Para pensar tais questionamentos, o nosso foco de discussões tem como pano de fundo a realização da Semana Sergipana de Dança[2], que neste ano terá sua quarta edição no Teatro Tobias Barreto entre os dias 27 de abril e 02 de maio. Sobre ela, falaremos mais adiante.

Neste texto não iremos trilhar pela análise artística dos trabalhos apresentados, e sim, pela reflexão desse contexto que tem contribuído significativamente para a dança da cidade, pelo menos em termos de visibilidade para estas novas produções.

Dentre os grupos e companhias em atividades observadas neste período estão: Cubos Cia. de Dança; Cia. Contempodança; Espaço Liso Cia. de Dança; Cia. de Danças Árabes Maíra Magno; Nelson Santos Cia. de Dança, Cia. Carpe Diem; Catarse Grupo de Dança; Rosa Negra Grupo de Dança; Cia. Danç’Art de Sergipe, Bosco Imourara; Juventus Grupo de Dança; entre outros.

Eventos de dança em Aracaju

A princípio, elenco aqui quais são os espaços que têm sido tão importantes para a dança em Aracaju: o festival Faz Dança (com última edição em 2008) e o Festival Galeria da Dança (iniciado em 2009), ambos promovidos pela Cia. Contempodança; o Festival Nossa Dança (realizado pelo Departamento de Esportes da Secretaria de Estado da Educação, e organizado pelo professor, bailarino e coreógrafo Bosco Torres entre 2008 e 2009); Festival de Danças (com última edição em 2008) e o Estações Dançar (iniciado em 2009), promovidos pela Cia. Danç’Art de Sergipe; o Workshop Internacional de Dança Contemporânea (realizado desde 2007), organizado pelo bailarino e coreógrafo Everaldo Pereira e sua companhia, a Nu Tempo Dance Company; a Mostra de Dança do Cultart (Centro de Cultura e Arte da Universidade Federal de Sergipe), organizada pela bailarina, coreógrafa e professora Janaína Veloso; além do Festival Nacional de Dança de Aracaju, promovido pelos bailarinos, coreógrafos e professores Klely Perelo e Júnior Oliveira.

Cada um apresentando suas particularidades e similaridades, como a promoção da dança e o crescimento de sua produção, sua difusão, e principalmente, uma preocupação pela melhor qualidade da organização dos eventos em si e de suas companhias, mas evidenciando também uma diversidade de propostas. Todos pensando a dança, diversificando e ampliando esta cada vez mais na cidade, passando pela própria dança contemporânea, pelas danças orientais, danças de rua, ballet clássico, jazz, dança moderna, dentre outros tipos.

Alguns destes grupos se mostram preocupados com a presença da dança no ambiente escolar, como é o caso do Festival Nossa Dança. Pensado inicialmente para divulgar a produção de dança das escolas da rede estadual de ensino, este festival foi, durante suas edições, se ampliando e recebendo trabalhos de grupos e companhias de diversos formatos e propostas, além de receber escolas das redes particular e municipal, incentivando também o surgimento de novos grupos de dança. Em sua maioria, estes eventos também oferecem aulas, oficinas, palestras e workshops, indo além da mostra das coreografias inscritas em sua programação, proporcionando um contato maior entre artistas, alunos, professores, e também uma variedade de linguagens de dança, passando por diferentes formatos coreográficos.

Surgido com um formato simples de evento, a Mostra de Dança do Cultart, buscou incentivar a formação de um público para a dança, além de reunir uma diversidade de linguagens de dança de maneira que os artistas se aproximem e se conheçam melhor. Aos poucos, em suas quatro edições, este evento também realizou oficinas de dança, proporcionando um intercâmbio entre artistas e alunos.

Já o Workshop Internacional de Dança de Aracaju busca uma atualização técnica de dançarinos da cidade e também de cidades do interior do estado, resultando numa mostra de todo o processo de trabalho das aulas. A Nu Tempo busca trazer professores e bailarinos para proporcionar aos artistas locais um maior conhecimento técnico e artístico da dança contemporânea, além de outros tipos de dança, como o ballet clássico, por exemplo. Intenção semelhante se encontra na realização do Festival Nacional de Dança de Aracaju, onde os participantes têm a oportunidade de participar de workshops, o que resulta em uma mostra de processo de trabalho, além de mostras de dança contemporânea, ballet clássico de repertório, ballet clássico livre e de jazz. O público desse workshop conta com a participação de alunos de academias, artistas de grupos e companhias, além de artistas de outros estados.

Outra iniciativa que merece a devida atenção é o Faz Dança. Hoje inexistente, este evento cedeu lugar ao Festival Galeria da Dança. Francisco Santana, o “Chiquinho”, como era carinhosamente chamado no meio artístico, lançou o Faz Dança procurando dar oportunidades a estes artistas, grupos, companhias, inclusive a própria Cia. Contempodança, da qual era diretor e coreógrafo. À época em que ele começou a ser realizado (1996), estes artistas pouco tinham oportunidade de apresentar seus trabalhos em teatros, por meio de realização de temporadas, por exemplo (hoje não é tão diferente para os grupos que pretendem se profissionalizar). Paralelamente, a coreógrafa e bailarina Cleanis Silva, diretora e coreógrafa da Cia. Danç’Art de Sergipe, criou o Estação Dançar, já que durante a mesma época mostras e festivais eram quase sempre restritos às academias de dança, com exceção de algumas, que abriam espaços em suas mostras.

'Casulo', da Cia. Contempodança / Foto divulgação

'Casulo', da Cia. Contempodança / Foto divulgação

Um fato que deve ser destacado é a abertura do curso de Dança Licenciatura da Universidade Federal de Sergipe (UFS) no ano de 2007, que vem abarcando uma diversidade de alunos, desde artistas experientes a alunos que estão começando suas práticas nessa área. Muitos destes alunos fazem parte destes grupos e companhias, alguns dos quais são realizadores destes festivais e mostras, como é o caso da Cia. Contempodança, realizadora do Faz Dança e do Festival Galeria da Dança. Estes alunos da graduação em Dança Licenciatura da UFS têm levado discussões para o meio acadêmico, procurando construir e colaborar com um importante debate da dança na universidade.

A situação destes artistas vem melhorando em alguns aspectos, e um deles é a busca pela qualificação técnica e profissional, porém podemos observar que ainda se tem muita coisa por fazer como, por exemplo, o desenvolvimento de políticas culturais que possam promover a sustentabilidade destes grupos nesse contexto. E por mais que tenham suas diferenças, estes festivais vieram como um forte ponto de apoio e incentivo para esta produção. Só para citar um exemplo, o Galeria da Dança organiza sua programação de forma que se percebam as diferenças entre as propostas coreográficas, tanto de escolas de ensino formal e academias de dança, quanto das produções de grupos e companhias de dança. Dessa forma, o festival é organizado direcionando o público para o formato de produção que o evento abarca. Ou seja, escolas e academias de dança têm um determinando público, faixa etária e produção coreográfica, assim como os artistas de dança possuem um determinado tipo de trabalho que pede um certo cuidado ao ser apresentado e apreciado. Com certeza isso acaba direcionando o olhar de quem vê, de quem conhece ou quer conhecer, diferenciando o entendimento não em relação à importância de uma forma de trabalho para outra, mas com intenção de formação de um público que veja cada trabalho da forma como ele precisa ser conhecido e compreendido.

Coincidência ou não, os últimos quatro anos têm demonstrado que a produção de dança em Aracaju tem voltado a crescer, visto que alguns grupos reduziram bastante suas atividades (alguns chegando a ficar inativos nas décadas de 1980 e 1990), assim como têm crescido essa variedade de produção de dança da cidade. Mas isso se deve, principalmente, ao surgimento desses novos grupos e companhias que têm proporcionado uma onda de novas produções coreográficas com um frescor e vigor que há muito não se via na cidade. Os festivais, mostras, oficinas, workshops e apresentações do estado, que ainda se concentram na cidade de Aracaju, parecem se mostrar como co-responsáveis pelo surgimento de alguns grupos, ou mesmo como promotores e incentivadores dessa nova fase de movimentação.

Isso significa que essas novas produções, pelo menos as destas novas formações, precisam ser difundidas, divulgadas e apresentadas. Enfim, torná-las conhecidas. E para isso, precisam de espaços, de oportunidades. Questões como condições técnicas, coreográficas e de apoio à montagem e circulação dos seus trabalhos nem entram nessa discussão, já que seria preciso outro momento para conversar sobre isso. Porém, estes mesmos fatores são também determinantes para que esta produção se concentre, quase sempre, dentro dos espaços destas mostras e festivais, restando poucas oportunidades de realização de temporadas independentes. Mas é preciso observar que, em sua maioria, estes eventos são voltados mesmo para academias de dança, grupos de escolas regulares, ou mesmo para grupos que só pretendem apresentar nestas ocasiões, restando a essa nova geração de artistas de dança reduzir seus trabalhos, adaptando-os a estas ocasiões, ou mesmo criando somente com um formato que muitas vezes não condiz com suas ideias e propostas coreográficas.

Perspectivando mudanças necessárias

A abertura que se tem tido dentro destes eventos tem sido de grande relevância para estes artistas, porém a falta de um espaço em que se tenha somente produções desses grupos e companhias veio com a Semana Sergipana de Dança. Em decorrência de sua realização, estas questões ficam mais latentes, precisando de espaços para que possamos pensar e refletir sobre isso, pois se faz muito importante que seja reconhecida tal qual sua grandeza. E ela precisa ser reconhecida como tal, como uma mostra de grupos e companhias independentes do estado de Sergipe. A maioria dos espetáculos é de grupos aracajuanos, e também não se pode dizer que esta mostra seja um “raio x” da dança sergipana. Ela apenas “mostra” o que está sendo feito, mas com um formato em que se pode perceber profissionalismo.

A Semana de Dança vem se expandindo cada vez mais, não só procurando receber um número maior de grupos e companhias de dança, mas aumentando o tempo de participação de todos os espetáculos, saindo do formato de grupos principais e convidados. A partir de 2010 todos têm o mesmo tempo para apresentar seus espetáculos no palco, assim como o número de artistas convidados para performances no foyer também aumentou, além da mostra da diversidade de linguagens de dança.

É importante frisar que esta Semana possibilitou o surgimento de alguns grupos e companhias, as quais estão novamente na programação de 2010, como a Espaço Liso Cia. de Dança, a Cubos Cia. de Dança e o Catarse Grupo de Dança. Além desses, grupos com muito mais tempo de existência, como a Cia. Danç’Art, que em 2010 completou 20 anos de existência, além do Grupo de Dança Entre Nós, com quase 10 anos de atividades, e de artistas com mais de 10 anos de atividades artísticas, alguns retomam seus fôlegos e se reúnem com essa nova geração de artistas de dança do estado para fortalecer esta semana de dança, renovando ou retomando ideias e ideais que por razões diversas (algumas das quais já mostradas aqui), tiveram que ser deixadas para trás.

A 4ª Semana Sergipana de Dança é isso, um espaço aberto, uma oportunidade de conhecimento de parte do que vem sendo produzido em dança no estado. E por menor que seja em relação a outros festivais e mostras do próprio estado, esta mostra já ganhou fôlego para aumentar mais ainda sua programação a partir de 2011, e quem sabe realizando debates em workshops, residências artísticas, oficinas, cursos e uma variedade intercâmbios artísticos com artistas de outros estados também. Por estas razões a dança aracajuana pode estar passando pelo início de mais uma fase rica e produtiva, e a Semana Sergipana de Dança está sendo coloca atualmente como referência em dança no estado, sendo ansiosamente esperada por artistas, professores e público. Temos ainda muito a contribuir. No entanto, para isso, precisamos também de colaboradores, apoiadores e patrocinadores e demais interessados em ajudar a desenvolver esse segmento artístico que parece estar querendo se fortalecer cada vez mais e ganhar novos ares e novos rumos.

Carolina Naturesa é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Dança (PPGDAN) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pesquisadora e artista de Dança, professora de Artes da Secretaria de Estado da Educação de Sergipe, integrante do Rosa Negra Grupo de Dança.

[1] Os questionamentos que tomam conta deste texto fazem parte de processos de observações e reflexões realizados durante o percurso de pesquisa e escrita de minha dissertação, a qual discorre sobre o atual contexto da dança em Aracaju e a formação de identidades em novas companhias de dança contemporânea da cidade, a ser defendida brevemente no Programa de Pós-Graduação em Dança da Universidade Federal da Bahia.

[2] Atualmente como a maior mostra da produção coreográfica de grupos e companhias independentes do estado. Esta mostra foi idealizada e organizada nas três primeiras edições pelo profº Me. Lindolfo Alves do Amaral, diretor deste teatro, tendo angariado apoio da Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe, atuando como promotora da Semana desde a primeira edição, no ano de 2007.