ArticulAções / Foto: Jonas Ramos

Desde março de 2009, quando foi implantado pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) o Programa de Ciências e Artes do Corpo, e com ele criado o Grupo ArticulAções, Caxias do Sul, na serra gaúcha, vem realizando uma experiência inovadora e instigante. A aproximação de arte e ciência, com enfoque nos estudos do movimento humano, vem mobilizando 10 estudantes do curso de Educação Física, que têm aprimorado o exercício de sua formação a um pensamento pautado pela investigação científica em busca de novas abordagens de suas práticas corporais.

A inovação é desenvolvida pelo Centro de Ciências da Saúde e se articula em dois vetores, um grupo de práticas do movimento e outro de estudos teóricos e avançados em ciências e artes do corpo. O projeto tem coordenação da coreógrafa Sigrid Nora e de Paulo Eugênio Gedoz de Carvalho, diretor do centro. O duo entre teoria e prática tem tomado forma principalmente no Grupo ArticulAções. Selecionados através de testes práticos e entrevistas, estes estudantes recebem bolsa de estudo para trabalhar com profissionais da área do movimento em atividades rítmicas, dança, instalação e aulas teóricas.

O primeiro resultado coreográfico do ArticulAções é a composição cênica idem[variáveis]ibidem. O trabalho é resultado das pesquisas desenvolvidas a partir de movimentos pendulares e citações de outras obras – Loud, do coreógrafo alemão Thomas Plischke, e da coreografia de What We Did Last Summer, do cantor britânico Robbie Williams. A performance foi gerada a partir da organização de diferentes características do movimento humano, observadas, medidas, controladas e manipuladas em uma unidade experimental, que discute como informações extraídas de outros textos e outras fontes se processam e se instalam num discurso corporal para esclarecer, reforçar ou ilustrar o que se quer dizer.

Para se ter uma ideia da performance: na primeira cena aparece aquele brinquedo que alguns chamam de bate-bola, com duas bolas presas por uma corda. Suspensas, uma bate na outra, impulsionadas pelos movimentos da mão de uma intérprete. Cena seguinte, um corpo masculino está em suspensão, preso pelos pés, sendo movido por outro intérprete. Instaura-se uma segunda instância da mesma questão, o movimento pendular. Surge no telão um vídeo do cantor inglês Robbie Williams, no qual ele também aparece pendurado de cabeça para baixo, ao som de What We Did Last Summer. Citação feita, organiza-se o discurso coreográfico de idem[variáveis]ibidem,cuja estreia nacional foi no projeto Primeiro Passo, em fevereiro deste ano, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Em sua estrutura, idem[variáveis]ibidem organiza diferentes possibilidades de apropriação e organização do movimento corporal. O trabalho é composto por quatro variáveis coreográficas, criadas por Magda Bellini, Ney Moares, Verónica Gómez e Sigrid Nora, que também assina a direção artística. Estas quatro variáveis são dançadas numa primeira sequência que, depois, podem ser reorganizadas a partir de um sorteio ou de um pedido do público, gerando novas configurações, dançadas sob o pêndulo do idem e ibidem.

Após a apresentação paulista, no debate coordenado pela pesquisadora Christine Greiner e a crítica de dança Helena Katz, esta indagou aos intérpretes: “Perceberam a encrenca que em que vocês se meteram?” A pergunta se referia à descoberta da potencialidade para outros movimentos, inclusive a dança, dos corpos dos estudantes de Educação Física. A questão contextualiza, também, a discussão sobre habilitações para o exercício e o ensino da dança por esses futuros profissionais.

Os integrantes do grupo descobriram, sim, que estão lidando com um novo momento de suas formações.

Nicole Giovanella, 21 anos, integrante do ArticulAções, que acaba de se graduar no bacharelado em Educação Física, desenvolveu seu trabalho de conclusão, Aptidão Física Relacionada à Saúde (AFS) no Grupo Articulações, a partir desta nova experiência vivida.

- Danço jazz há 15 anos, dou aula e sempre fui apaixonada pela arte e pela dança. Porém, confesso que, durante a minha graduação, pouquíssimas vezes falou-se em arte, em dança, até o surgimento do ArticulAções. Ao ingressar no grupo, percebi que minha visão como profissional de Educação Física mudou significantemente. O surgimento do grupo serviu para apresentar e explicitar as novas oportunidades e possibilidades de atuação no mercado de trabalho, voltadas ao movimento artístico, que até então, era desconhecida pela grande maioria deste grupo em questão – diz Nicole.

São, de fato, geradas muitas articulações entre corpo, dança e pensamento a partir deste programa. Outra iniciativa que o projeto contemplou, em outubro do ano passado, foi a atividade denominada Imersão, reunindo pesquisadores da universidade para o debate em torno de novas abordagens e estudos sobre o corpo, com a participação da pesquisadora Christine Greiner. No início de maio, nova frente de atuação. Desta vez, num programa denominado Grupo ArticulAções e Convidados, que estabeleceu inter-relações, aproximou pensamentos, na perspectiva da formação de redes de cooperação.

Além de idem[variáveis]ibidem ser apresentado em duas noites no Teatro Pedro Parenti, em Caxias do Sul, foram reunidos no mesmo palco outras quatro formações da dança caxiense, mais um convidado nacional, o coreógrafo-intérprete Vanilton Lakka, de Uberlândia (MG). Dança moderna, de salão e a fusão entre elementos da dança de rua, clássica e contemporânea do solo Dúbbio, de Vanilton Lakka, deram uma mostra das múltiplas possibilidades de criação do movimento corporal. As duas noites de apresentação foram complementadas pela mesa temática Diálogos, para público e intérpretes refletirem sobre as diversas estéticas corporais, suas conexões e implicações.

O grupo em cena / Foto: Jonas Ramos

O grupo em cena / Foto: Jonas Ramos

Nesta reunião de informações e procedimentos, o Grupo ArticulAções tem se tornado um dos vetores da renovação da dança caxiense, com possíveis ecos estaduais e nacionais. Conjugando grupos e registros diversos, o projeto abre não só uma perspectiva para esse segmento de formação profissional, focando mais do que o desempenho corporal, mas, ao mesmo tempo, dá vigor e inovação às pesquisas artísticas dentro e fora da academia, reorganizando uma nova cartografia para a dança local, que teve momentos de emergência na cena nacional, experimentados nos primeiros oito anos da Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul.

A experiência modificou a compreensão sobre as possibilidades corporais, profissionais e artísticas de Lander Artur da Silva, 27 anos, estudante de Educação Física e integrante do grupo, que tem feito da experiência o mote de sua Prática de Pesquisa, disciplina que, pelo currículo que cumpre na universidade, corresponde ao trabalho de conclusão do curso.

- Há um ano, quando entrei no grupo ArticulAções, não tinha noção da abrangência da dança contemporânea, e na verdade não tinha muito conhecimento. Entrei no grupo com intuito de adquirir experiência em uma área diferente do movimento humano, pois até então trabalhava somente com musculação de academia e treinamento personalizado. Agora, meu trabalho terá como tema “Treinamento de resistência isométrica para membros superiores em bailarinas contemporâneas”. Todas as experiências que estou tendo no grupo deram-me uma nova direção profissional. Dança e Educação Física parecem complementar-se, talvez por serem pluridisciplinares ou por mesclar emoção e sentimento com técnica e treinamento. Após um ano no grupo, percebo mudanças físicas, mentais e culturais em minha rotina, vendo inúmeras possibilidades para meu futuro profissional – avalia e planeja Lander.

Desenvolvido com recursos captados através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, o Programa de Ciências e Artes do Corpo foca, ainda, a perspectiva de fomentar a produção de saberes sob o enfoque da indisciplinariedade, eliminando molduras e promovendo misturas em busca da produção de novos pensamentos artísticos por meio da dança. Esta iniciativa encontrou oportunidade de desenvolvimento através da Universidade de Caxias do Sul que, atenta à potencialidade de inovação dos procedimentos acadêmicos, investe no diálogo entre corpo, ciência e arte.

- O grupo ArticulAções foi proposto com o propósito dos seus integrantes vivenciarem práticas corporais artísticas para, através deste processo, adquirirem a capacidade de aplicar estes fundamentos a favor de um condicionamento físico que atenda à pluralidade de experiências da contemporaneidade para o corpo que dança – diz a diretora artística, Sigrid Nora.

Significativamente, a primeira aparição pública do Grupo ArticulAções foi no programa Raízes: história, memória e movimento (leia aqui a reportagem que o idança fez), realizado em julho de 2009, com debates, exposição e um espetáculo que revisitou coreografias do Grupo Raízes, formação histórica de dança caxiense que nasceu há 25 anos, justamente dentro do campus universitário. Se acreditarmos que dança também é memória em movimento, o pêndulo desta história balança entre tradição e reinvenção.

Carlinhos Santos é jornalista e autor da coluna 3por4 no Jornal Pioneiro, de Caxias do Sul. Especialista em Corpo e Cultura, Ensino e Educação, atualmente curso Mestrado em Educação, estudando corpo e dança, na UCS