'Solo', de Maria Hassabi / Foto: Paula Court

Solo

Com estreia no pequeno teatro do primeiro andar do P.S.122 em Nova York, Solo foi o primeiro trabalho de um díptico dirigido e coreografado por Maria Hassabi. A performance integrou o festival Crossing the Line – FIAF Fall Festival 2009, apresentado pelo French Institute Alliance Française.

O díptico revela a continuidade na investigação do trabalho Gloria, de 2007, no qual fisicalidade extrema, imaginário feminino e cultura popular são influências presentes. Em Solo, performado por Maria Hassabi e Hristoula Harakas em noites alternadas, o corpo feminino permanece sendo um aspecto central na concepção coreográfica.

Na noite em que assisti ao trabalho, a coreógrafa era a solista. Quando o público entrou no teatro, Hassabi estava deitada no chão, coberta por uma das extremidades de um tapete persa, colocado ao centro do espaço da performance. A calça e regata utilizadas pela performer eram de cor bege e foram assinadas pelo coletivo ThreeAsFour. A parede de fundo e o chão do espaço apresentavam um bege similar, criando simultaneamente um espaço particular e um lugar não referencial para a coreografia a ser desenvolvida. O design de luz de Joe Levasseur cobria o espaço uniformemente.

A variedade de cores dos tecidos que cobriam cada cadeira da plateia oferecia uma informação confusa. Visto por detrás e entre as cadeiras, o visual quase tropicalista parecia uma escolha descontínua e incoerente em relação à austeridade da composição do design de cena, o qual se fundamentava no tapete persa e no vazio do espaço. No entanto, ao observar as fotografias para este artigo, foi uma grande surpresa perceber que as cores de cada cadeira se relacionavam com as cores do desenho no tapete persa, formando como que uma imagem ampliada de pixels expostos do tapete tradicional. É difícil saber quão frequentemente esta informação pôde ser lida pela plateia. Ainda assim, Hassabi compartilhou um lugar de visualidade comum entre performer e espectadores.

Coreograficamente, Hassabi recodificou o potencial simbólico do tapete persa ao criar movimentos que eram constantemente suspensos em imagens fixas. Ao moldar a forma do tapete em relação ao seu próprio corpo, toda imagem performada compreendia mutabilidade e um desafio físico, intercalando suspensão de movimento e vivacidade em composições e tempo minimalistas.

De acordo com Hassabi, seu díptico é um trabalho sobre o corpo feminino e seu imaginário na cultura popular. Contudo, a relação visual entre a performer e o tapete abriu espaço para pensarmos sobre um espectro mais amplo do imaginário humano. Solo nos permitiu perceber como a forma revela o significado e como nosso background informa o significado que lemos na forma.  Certamente não há nada de novo nesta informação já que a interpretação de um significado e a subjetividade do indivíduo estão intrinsecamente relacionadas. Ainda assim, é bastante satisfatório quando um trabalho de dança nos leva a um território no qual podemos criar, questionar e romper com nossas cognições visuais, abrindo possibilidades para reavaliá-las. Nas imagens evocadas pela performance, eu pude ver reminiscências de Joseph Beuys (I Like America and America Likes Me, 1974), símbolos de poder e monarquia, a relação entre uma mulher e um símbolo fálico, anúncios de alta costura e poder feminino. No entanto, as conexões que apareceram em minha mente com tanta clareza e autoridade provavelmente não são as mesmas que outros espectadores leram com igual valor. O tapete era o código manipulado, no qual a performer operava uma constante transformação. Cada imagem fixada era clara e imperiosa até sua dissolução em uma nova forma.

A dramaturgia assinada por Scott Lyall e Marcos Rosales criou uma narrativa de dissolução que evoluía da simplicidade para a grandiosidade: a performer começava utilizando o tapete como cobertor e no decorrer do trabalho conferia a este, qualidades espaciais através do volume, as quais se revelavam através do enrolar, dobrar e envolver-se dentro do mesmo.

O design de som de James Lo e o design de luz de Joe Levasseur/Hassabi eram na maior parte do tempo constantes, permitindo todo o foco na partitura de movimento.

SoloShow, a segunda parte do díptico

SoloShow / Foto: Paula Court

A segunda parte do díptico de Hassabi foi comissionada pela bienal Performa 09 http://performa-arts.org/, e apresentada aproximadamente um mês após a estreia de Solo, em Nova York. SoloShow foi apresentado no teatro do segundo andar do P.S. 122 e também performado alternadamente pelas duas performers em diferentes noites. Desta vez, assisti a SoloShow interpretado por Hristoula Harakas.

Para SoloShow Hassabi realizou uma pesquisa de aproximadamente 300 imagens de representações da mulher na história da arte, incluindo pinturas, esculturas, fotografias e stills. A partitura coreográfica resultou desta análise de como o corpo feminino tem sido retratado através dos séculos. Baseada nestas imagens, uma extensa sequência de movimentos foi performada com leves variações de dinâmica.

Como no efeito-espelho criado com as cores das cadeiras da plateia e o padrão do tapete persa em Solo, o segundo trabalho criou uma continuidade espelhada da primeira parte do díptico. A estrutura coreográfica era muito similar nos dois solos. A estaticidade das poses, a fisicalidade extrema e como os movimentos eram mostrados criavam uma clara coerência no padrão exposto, mas desta vez as poses eram mais lânguidas e o esforço menos dramático do que em Solo. Como em Solo, SoloShow começava a ser performado antes da entrada da plateia e o figurino permanecia o mesmo. Contudo, a sensação resultante da primeira parte do trabalho era como a de espiar a intimidade acontecendo naquele espaço específico, enquanto SoloShow apresentava uma estética mais espetacular, ainda que minimalista.

O cenário de Scott Lyall e Hassabi – o qual era composto de um tablado negro –, continuamente nos lembrava da arquitetura do teatro. O peso, estrutura e dimensionalidade do tablado criavam uma relação completamente diferente com a performer, contrastando com as alternâncias entre estrutura plana e volumes maleáveis do tapete oriental utilizado em Solo.

O design de luz assinado em colaboração entre Joe Levasseur e a coreógrafa foi sedutoramente imaginado: os refletores foram cuidadosamente organizados no teto do espaço na forma de um corredor que cruzava o palco na direção plateia-parede de fundo. A microconstelação de refletores elipsoidais formavam um design refinado e harmônico com o cenário.

O figurino bege que em Solo se assemelhava a cor do chão e da parede de fundo esmaecendo os limites entre o corpo da performer e o espaço, criava em SoloShow um forte contraste com a cor negra do tablado e das paredes do teatro.

SoloShow foi um trabalho delicado. Sua força residia na precisão de sua coreografia e na austeridade do design de luz e cena.

Nas performances de Hassabi e Harakas, qualidades como precisão, presença e eficiência estavam continuamente em sintonia. Como definido por Hassabi, as duas coreografias são solos autônomos. Apesar de ambos os solos se sustentarem como trabalhos específicos, SoloSoloShow no entanto, pareceu mais independente da primeira parte do díptico. revelou certa incompletude e a necessidade de seu duplo.

Escrevendo sobre performances em Nova York nos últimos anos, comecei a perceber que o potencial de um trabalho tende a ser mais completamente alcançado quando o/a artista opta por especificidade. Independente da forma de arte ou da intersecção de diferentes mídias que estejam em foco, quando um/a artista faz uma escolha muito clara e específica, algo além do ordinário parece se revelar sobre o conteúdo do trabalho.

Na mesma direção em que escolhas simples podem revelar ideias complexas, o trabalho de Maria Hassabi apresenta a densidade de algo que pode se desdobrar somente através da experiência do/a espectador/a – e não do/a coreógrafo/a.

Hassabi não nos oferece uma alternativa para questionar a visão das representações do corpo feminino e através da sua dança, o corpo da performer torna-se, uma vez mais, o objeto repetindo a visão já retratada pela história da arte. Contudo, ao confiar na experiência e repertório do/a espectador/a, Maria Hassabi nos oferece um trabalho no qual não somos intencionalmente entretidos. Ao invés disso, somos convidados a alargar nossa percepção e questionar as imagens-escultura que ela apresenta com grande propriedade, frente aos nossos olhos.

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Solo foi visto em 4 de outubro de 2009, durante o Crossing the Line – FIAF Fall Festival 2009, apresentado pelo French Institute Alliance Française.

SoloShow foi visto no dia 14 de novembro de, 2009,  dentro da programação da PERFORMA 09.

Cristiane Bouger é diretora de teatro, dramaturga, performer e videoartista. Vive e trabalha no Brooklyn, em Nova York.