Não me lembro exatamente da primeira vez que ouvi falar sobre butô, mas me lembro de ter uma pequena imagem feita na cabeça de algo que era estranho, misterioso, subversivo e japonês.
Diferentemente de muitos brasileiros, eu primeiro ouvi falar da dança butô e somente depois de Kazuo Ohno. Aqui no Brasil, Kazuo Ohno, butô e dança moderna japonesa são coisas que quase se confundem ou se fundem na maioria das vezes. E isso, eu fui me apercebendo devagar.
Por volta de 1996/1997, quando tinha acabado de voltar da minha formação em dança realizada em Lisboa, no estúdio que hoje conhecemos como C.E.M. – Centro em Movimento, dirigido por Sofia Neuparth, comecei a me apresentar com pequenos solos e performances e fui sendo surpreendida por determinadas reações do público:
“Você faz butô?”, “O gestual das suas mãos parecem ser de dança japonesa…”, “Há algo no seu movimento que me lembra o butô. É butô?” E isso era muito estranho para mim.
Sempre respondi que realmente nunca fiz butô, que trabalhava com dança contemporânea, improvisação. Hoje, a única coisa que posso dizer é que o meu querido professor e artista Peter Michael Dietz (com quem estudei durante cinco anos em Lisboa) fez – entre várias outras coisas – parte de uma companhia dinamarquesa, a DanceLab, que trabalha no viés do butô. Mas confesso que, no fim dos anos 90, eu nem sabia exatamente o que seria esse butô tão presente no imaginário dos artistas aqui no Brasil. Comecei a me incomodar com isso e percebi que tinha de me aproximar desse butô, para saber porque havia pessoas que enxergavam essa conexão com o meu dançar.
Tive sorte. Em 1997, conheci o Kazuo Ohno meio de surpresa. Para ser mais exata, conheci um Kazuo presente no frenesi das pessoas que o esperavam encontrar para um workshop e espetáculo, no SESC Consolação, em São Paulo.
Confesso que fiquei muito cética e desconfiada com aquela comoção e sensação de idolatria frente a um artista que boa parte das pessoas ainda não tinha visto. Me perguntava: será que todas estas pessoas realmente conhecem o trabalho do Kazuo? Será que já estiveram com ele mesmo? Ou seria a força do fenômeno “fama que antecede a experiência”? Ou este arrebatamento se deveria ao caráter exótico de um artista vindo lá do Japão, terra distante e já venerada pelo Ocidente, que faz uma dança outra, uma dança “fresca” aos nossos olhos de turista?
Curioso foi o workshop. Parecia que estava tão perto e tão distante do Ohno san. Acho que, por um lado, eu me sentia um pouco à parte do todo porque havia uma sensação mista de deslumbramento, respeito, expectativa pré-concebida na sala, e isso me desconcertava um pouco. Por outro lado, era complicado irmos recebendo algumas instruções mediadas de Ohno para seu filho Yoshito Ohno, de seu filho para o tradutor e finalmente do tradutor para nós, numerosos na sala. Sem contar que a duração do workshop foi curta, curtíssima. Trabalhamos com tudo muito simples, explorando imagens/metáforas, sensação do corpo para o movimento, imaginação, improvisação. Me lembro da imagem de uma flor que desabrocha. Muito simples. Nada muito revelador. Tranquilo. Simples.
Mas à noite, teatro lotado, público “expectando”, momento da apresentação de Kazuo, sempre acompanhado de seu filho Yoshito.
Mudança.
No momento em que o vi dançar realmente pude sentir e conhecer o outro Kazuo, o artista. O seu estar mudou o lugar, mudou concretamente o estar da maioria das pessoas, pelo menos daquelas que foram atraídas e envolvidas pela sua energia sincera, forte e amorosa.
Kazuo vibrava numa sintonia diferenciada, onde a expressão de pessoa, de arte, de comunicação e de existência plena se concretizavam num dançar/ser sincero e belo. E ainda muito mais. Patéticas parecem minhas palavras ao tentar descrever o que seria aquela dança ou o artista. Naquela apresentação, ao mesmo tempo nada “grandiosa” ou “espetacular”, no sentido que costumamos dar a um acontecimento cênico, mas incrivelmente poderosa. Algo que faz a diferença no mundo.
Eu poderia parar por aqui. Mas há outros Kazuos que se foram revelando com o tempo. O meu, nosso tempo. E o curioso é que fui conhecendo estes outros Kazuos aqui em São Paulo, longe do Japão, em diversas atividades artísticas, palestras e cursos realizados na Fundação Japão, no SESC São Paulo[1], ou em algum evento relacionado ao butô, e sobretudo, com a pesquisa da professora Christine Greiner e do Centro de Estudos Orientais, que me ajudou a abrir caminhos para novas perguntas, novos desfrutes e enriquecedores olhares sobre: o corpo japonês, o butô, o próprio Kazuo e Tatsumi Hijkata, Min Tanaka e outros artistas deste movimento ligados ao cinema e teatro, à fotografia (Eikoh Hosoe), à literatura e à poesia, e sobretudo, a uma reflexão sobre os contextos cultural-artístico e político-social do butô no Brasil e no mundo.
Não somente eu, mas várias outras pessoas conheceram e vão conhecer ainda um outro Kazuo: o Kazuo Memorável, documentado através de registros em vídeos, fotos e em testemunhos de artistas, pessoas próximas, alunos e admiradores, sem falar do mundo virtual, no próprio site do seu estúdio, no youtube e aqui no idança.
Mas há um Kazuo, que recentemente está mais presente e que me assusta muito mais do que me estranha.
É o “Kazuo Ohno-Selo de Garantia”, que faz parceria com o “Butô -Selo de Garantia”. Não é de agora, mas com o falecimento de Kazuo, temos de observar muito bem como seu nome é e será citado, usado e divulgado.
Agora como nunca ele é selo de garantia, é marca.
Vemos muito disso por aí: no Youtube, nos currículos artísticos, em projetos de pessoas que fizeram um workshop de um dia, uma semana ou um mês e que dizem que dançaram com Kazuo Ohno, ou aqueles que se mascaram com maquiagem branca, fazem movimentos lentos, espasmódicos, “sofridos”, que dançam a vida/morte, o útero/a mãe/natureza, e cedem ao devaneio e aos “impulsos internos” e que por isso, dizem: faço butô. E se por sorte ainda têm “olhos puxados”, daí é garantia total. “É Kazuo, é butô, é de vanguarda? Pode consumir.”
Muita nebulosidade neste momento.
Que tal irmos com calma?
Butô foi um movimento artístico de vanguarda. Surgiu num contexto bastante específico em uma Tóquio pós-guerra, nos anos 50 do século passado, envolvendo artistas da dança, do teatro, da performance, do cinema, da literatura e das artes visuais. A repercussão do movimento foi forte, mas desagradável no Japão, muitos artistas para não passarem fome ou para cuidarem da sua saúde imigraram para o Ocidente, para o lugar onde o butô obteve um forte reconhecimento. Os artistas se adaptaram e se reinventaram em terras estrangeiras.
Mudanças.
Outro momento para o butô. Os artistas mudaram.
Mas o Ocidente ainda não se cansa de etiquetar dançarinos japoneses em “butoh dancers”, mesmo quando os próprios artistas não se vêem como tais.
Agora o butô vê seus precursores Hijkata e Ohno falecidos. E agora temos Kazuo Ohno – Selo de Garantia, ou como já ouvi falar Kazuo Ohno - “uma grife”.
Como se configura o butô hoje em dia?
Será possível se fazer butô hoje em dia?
De que butô estamos falando?
Kazuo Ohno não se interessou em desenvolver um sistema de aprendizado do seu butô, generosamente compartilhava sua experiência de vida e arte com quem quisesse participar de suas aulas abertas e gratuitas. Não pensava em “ensinar butô” a ninguém, e não nos deixando um método seu, como fez Hijikata em seu “butô-kabuki, (…) um possível método de ensino e de formação de jovens artistas”, talvez tenhamos que nos contentar em ficar com vestígios e rastros valiosos, os felizardos que puderam ver Kazuo em cena, guardarão em seus corpos memórias de um lindo Kazuo.
Talvez o nome do evento “Vestígios do Butô”, realizado em 2004, também no SESC Consolação, nos dê uma boa pista sobre o futuro do butô. E talvez não seja interessante ficarmos procurando por ‘fazedores de butô”, ou nos “herdeiros do butô Kazuo Ohno” (ai que medo!).
Em uma conversa muito interessante como a pesquisadora Christine Greiner, coloquei a dúvida de como olhar para o butô hoje, já que sabemos que não é por copiarmos os movimentos lentos com concentração de energia interna do movimento ou pintar o corpo de branco e lidar com os temas da morte/vida, “dançar uma flor ou pedra” ou seja, copiar uma “estética butô” para se fazer butô.
O que nos resta hoje?
Memórias, vestígios, traduções, aproximações, conversações?!…
Talvez pudéssemos observar trabalhos artísticos que possam dialogar, se conectar, se tocar com a questão do “corpo em crise”, mas querer ser, fazer, ter butô na sua dança? Talvez seja um grande equívoco a ser evitado.
Momento difícil, reconhecer a perda.
Letícia Sekito é diretora e dançarina da Companhia Flutuante. Trabalha com improvisação, criação coreográfica e performance. Formada pelo C.E.M – Centro em Movimento, Lisboa (90-96). Tem interesse na relação entre corpo, cultura e dança. Faz parte do Centro de Estudos Orientais, coordenado por Christine Greiner, e do Centro de Estudos em Dança, coordenado por Helena Katz.
Leia também: Kazuo Ohno morre aos 103 anos

Port



Acho tudo isso uma crise de apropiaçao de algo que nao pertense a ninguem, nao existe motivo para se preocupar com o Butho, nem com a arte Kazuo Ono, cada um que integre como queira e como possa o mestre e sua arte!!!!
Isso nao pertense a ninguem e ao mesmo tempo pertense ao mundo.
Ou ja estao querendo dizer o que é certo ou errado na arte???
Vamos deixar de querrer se apropiar do que nao podemos ter!!! Por isso mesmo Kazuo é considerado mestre, por nao julgar a dança de ninguem, é nisso que devemos seguil-lo
Deixa que cada um chame sua dança do que queira e quem quiser que escute ou veja , Viva e deixe viver!!!!
Gostei da reflexão, Letícia.
Selos na dança???
Na dança oriental, do ventre, especificamente, temos muitos, para todos os bolsos e regiões desse Brasil … e para que servem??? Para criar uma legião de clones …
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Só lamento …
As pessoas não estão preocupadas na arte em si, mas no que “elas podem ser”, e de algum modo ficam procurando alternativas para “provarem” algo que não existe para outras pessoas que pensam como elas! A arte pela arte parece não ter valor, e se engana quem segue essas tendências onde uma estrelinha na testa vale mais do que um auto conhecimento, uma nova aprendizagem e um agregado de novas experiências em qualquer campo das artes…
Como tudo isso me aflige…
http://mariahvoltaire.blogspot.com/
Os rótulos são dados, em qualquer forma de arte, acredito que até por uma necessidade imediata do cérebro de relacionar a informação que ele recebe com algo que ele já conhece. O problema é o que se faz com eles, e acho que a discussão proposta por esse texto é válida.
As interpretações geradas por nossas experiências com a arte podem até convergir pra algo em comum, mas há também uma relação individual com a obra. A pesquisa que cada um desenvolve a partir de um conceito pré-estabelecido, pode resultar em algo diferente do que pretendia o autor original, e isso é uma evolução natural que foge do controle de qualquer artista.
Entendo a preocupação com a criação de um “selo”, uma “grife”, mas isso infelizmente acontece com frequência. Alguns se apropriam indevidamente de rótulos com intenção de usá-los somente pra benefício próprio. Outros utilizam-nos pra passar a frente um ensinamento, ou gerar uma discussão, enriquecendo cada vez mais nossa experiência e nosso conhecimento em torno do assunto.
Kazuo se foi, seu butô se foi com ele … a dança expressionista existe e existirá, cada um pode descobrir a sua, o que lhe faz calar/falar a alma e o corpo.
Todos os agradecimentos pela beleza, reflexão e estranhamento espalhados por Kazuo e o movimento são válidos, sempre será memorável. Acho pertinente o cuidado pelo não taxar disso ou aquilo, os oportunistas aparecerão, no entanto o butô de Kazuo já não existe mais, pelo menos nesse mundo de ver com os olhos. O que não significa que não haja artistas sérios e dedicados desde sempre ao movimento. Bom momento para pensar …
“Disseram que eu era japonesa” era esse o nome de um determinado trabalho da autora do texto? Não me lembro, tampouco da data, só me lembro de uma entrega generoza,cheia de nuances mnemonicas, de uma linda cena, tridimensional, sobre um “Fuji” de isopor embaixo de uma camera….lembro-me do banchá…lembro-me de um casulo de plástico-bolha enrolando um corpo numa performance outra, lembro,lembro,lembro…obrigado Leticia,e todos os japs da dança contemporânea Yamauchi-e seu karadá-,Satie-e seu shogum-,key sawal…e os outro que também bebem desse belo solo nascente Jum Nakao,Felicia Ogawa, Thomy e Rui Otake…quanta coisa bonita, não? Obrigado Greiner, que descortinou tanto dessa “grife” em seus estudos….e obrigado Ohno sensei(eu estava no workshop, e nunca, tinha conseguido falar do assunto, até ler o seu texto!….acho que estou sob esta influência até hj!(risos!)
OI!
Ricardo, o solo “Disseram que eu era japonesa”, é sim da Companhia Flutuante. Dancei de 2004 a 2008. E sabe de uma coisa? Não era banchá, não. Era quentão que eu aprendi a fazer para a apresentação. É justamente uma provocação sobre como a imagem é forte (a imagem de um aparelho de chá “japonês), e as expectativas causadas por esta imagem. Raras as pessoas que perceberam ao beber ou sentir o cheiro da bebida, que não era chá japonês e sim um quentão doce e com cachaça. :0) O plástico bolha aparece no solo “SOLLE”, de 1998 e depois na série “Corpo e plástico”. Visite o meu blog epodemos contiuar a conversar sobre estas performances em específico, se quiser. E fico feliz também de poder falar e compartilhar dos seus comentários.
Paulo, dar rótulos, identificar ou categorizar é algo que fazemos mesmo e é necessário, o importante é não fixar ou prender algo em uma categoria fixa, imóvel e única. Não acha?
Roberta, também compartilho do sentimento de agradecimento e sim temos pessoas muito idôneas também!Continuemos a refletir :0)
Sim, exatamente isso, Letícia! E tentar encaixar tudo em rótulos, ao invés de identificar as singularidades, é muitas vezes perder a oportunidade de abrir a cabeça e se aprofundar no trabalho do artista.
Ótimo texto, Lê. Importante reflexão.
Um beijo de uma admiradora de seu trabalho.
Ótimo texto, Letícia.
O butho não existe mais. É indevido q pessoas afirmem q fazem essa arte por ai. Não é fazendo algumas oficinas ou fazendo oficinas com quem fez oficinas q se apreende a técnica do butho. Isso seria uma apropriação cognitiva no formato de uma apropriação publicitária. Contudo, é viável e válido estudar a estética do butho e se inspirar nela para realizar algumas composições artísticas sem afirmar q tem o seu domínio, assim como faz Antunes Filho.
Oi, Arthur!
Com certeza não há “aula de butô”, inclusive porque relamente não é uma técncia de dança, pelo que tenho pesquisado foi muito mais uma filosofia e posicionamento de vida na arte. lembrando que o Hijikata sistematizou a pesquisa dele, mas não temos acesso fácil a seus cadernos…
Pessoal, obrigada pelos comentários!
Parabéns pelo texto, Letícia. O texto me instigou a conhecer mais sobre você e seu trabalho.
Acredito que o mais relevante de todo o contexto é analisar o processo evolutivo do butô e o seu impacto fora do Japão, é tocar em alguns pontos muito importantes para entender qualquer dança e o que acontece quando um movimento ganha estabilidade no tempo.
Como você mesmo fala que butô não é uma técnica de dança e sim uma filosofia, uma forma de se posicionar no mundo, na arte e também pelos estudos e reflexões de Christine Greiner surgem diversas perguntas do tipo: “O que fica de uma dança depois da morte de seu criador? Quando uma dança ganha estabilidade no tempo, ela é sempre sistematizada? Para ser transmitida, uma dança precisa, necessariamente, ter um código de movimentos, um repertório de “passos de dança”? É possível pensar na transmissão de uma dança de uma geração para outra, quando as suas instruções não são cinéticas, mas filosóficas? Acredito que são reflexões importantes a serem pensadas e analisadas sobre o futuro do butô.
Oi, Emanuela!
Estas perguntas que você faz são muito boas e dão pano para muitas mangas, né? Espero que haja outras pessoas interessadas nessas reflexões também.
Soube a Christine Greiner foi convidada por uma universidade de Tóquio para jsutamente falar sobre o butô nos dias de hoje agora em novembro de 2010. Quem sabe não temos uma oportunidade de saber em que pé estão as discussões e manifestações artísticas lá, né?
Sobre meu trabalho, no sábado agora, dia 23 de outubro, vou apresentar “O Japão está aqui?”. Se puder ir, conversamos mais pessoalmente também. http://companhiaflutuante.blogspot.com
E como você começou a se interessar pelo assunto do butô?
Abraço.
Oi Leticia!
Entrei por acaso nesse site. Estava pesquisando onde poderia estudar butô no Japão. Na verdade, estou começando a arquitetar uma viagem para conhecer o Japão, e queria unir o útil ao agradável, mas pelo jeito não é no Japão que vou encontrar o butô. E aqui no Brasil/São Paulo, tem alguém que seja legal para estudar butô?
Oi, Samaroni!
Desculpe a demora da resposta.
Ainda está interessado ou já foi de mala e cuia para o Japão ?
Te aconselho a dar uma lida com mais calma nas conversas daqui e nos outros artigos relacionados aqui do Idança sobre butô para poder perceber um pouco melhor do panorama e situação do butô.
Acho que você se confundiu um pouco.
Talvez não tenha ficado claro, mas aqui no Brasil acho ser uma impossibilidade de ter alguém que dê um treinamento de butô. Talvez o que você possa encontrar são pessoas que se sentem atraídas ou que se inspirem com o que foi o movimento do butô.
No Japão você poderia ir conhecer o estudio Kazuo Ohno, em Yokohama, onde agora o filho dele, Yoshito Ono, está dando workshops.
http://www.kazuoohnodancestudio.com/english/lesson/
Outra possibilidade seria com o Min Tanaka, em Yamanashi.
http://www.min-tanaka.com/wp/?page_id=38
Abraços!
Oi Leticia, sou estudante de dança na Fap e nas minhas aulas de Repertório da Dança Moderna estou tendo um pouco de contado com o Butoh, uma técnica que eu não conhecia e ainda não conheço muito bem. Mas quero comentar que suas indagações foram as mesmas que tivemos em sala de aula, como se trabalha essa técnica hoje? Acredito que seus conceitos, sua essência ainda é trabalha e é muito importante dizer que é usada em muitos trabalhos de dança contemporânea e como seu movimento repercutiu no mundo. Eu estou me interessando muito pelo butoh, da maneira que ele é, do trabalho corporal que apresenta, dos temas abordados. Mas quero saber sua visão do que nos resta hoje do butoh, como ele se configura? Enfim, seu texto é mais uma referencia para minhas pesquisas. Obrigada!
Rótulos são necessários? Como querer definir o que é certo ou errado no mundo da Arte? Deveríamos deixar de querer intitular ou definir o que não tem ‘definição’, Kazuo Ohno defende sua arte e não julga outras, sendo que essa deveria ser uma postura digna de todos do mundo da Dança independente de sua técnica de trabalho. As pessoas acabam se preocupando mais com o individual do que o coletivo, ou seja, no SER e não FAZER a arte! É importante entender a evolução da técnica do Butô no Japão e sua repercussão no resto do mundo, é uma filosofia de vida.
Oi, Alana e Julyana!
São colegas de estudos, né? Que bom.
Olha, uma das coisas a se compreender do butô, é que ele não foi uma “técnica” de dança, ou de performance ou de expressão corporal, mas sim um pensamento, uma maneira de enxergar e colocar em discussão os processos do corpo, do corpo em crise, que foram sendo experimentadas durante o processo criativo que incuíam apresentações, performances, mas tudo em um circutio off-off, ou seja, um movimento marginal . O pensamento butô vai além da repercussão na dança, com Tatsumi Hijikata, por exemplo e abarca artistas das artes plásticas, fotógrafos, escritores, cineastas, como pudemos ver na exposição “Revolta da Carne”, onde pudemos ver vários filmes de Tsuji Terayama, poeta, escritor, diretor de filmes.
Seria interessante vocês lerem os outros artigos postados aqui no Idança que estão relacionados ao tema, sobretudo os da Christine Greiner que é uma profunda pesquisadora e conhecedora do Butô. Ela por exemplo, fez uma pesquisa nos arquivos do Hijikata lá no Japão.
Uma das coisas que ela tem apontado por exemplo, seria vermos que outras experiências que estão ligadas `a questão do corpo em crise, poderiam dialogar com o movimento do butô. E sobretudo, eu acho que seria muito prudente, não focar nossa lente de interesse em querer achar um correspondente ou “representante atual” do butô (muito complicado), mas pesquisar desdobramentos, particularidades, afinidades, complementaridades de pensamentos e experiências artísticas que que voltam para o corpo em crise, estados corporais críticos, por exemplo.
Espero que possamos continuar a conversa :0)
Boa pesquisa!!! Bom divertimento!!!
Leticia Sekito
http://www.companhiaflutuante.com
Fico triste com tanta ruminação ocidental, talvez sentir mais e pensar menos nos aproxime do dançar do corpo que dança ,quando é possível assumir, comer a poesia.comecei pela dança dançando e fazendo muitas perguntas que eram afogadas em muito exercicio fisico, exaustão , quando tentava entender todo o processo mergulhava nos limites do corpo e o corpo fala e isso talvez nos aproxime do buto ancestral que se veste de diversas roupagens para enganar está no corpo na vida na aceitação do caos
OI, Gilberto!
Não fique triste não. Este espaço aqui é para conversarmos, discutirmos, trocarmos ideias, experiências, comunicarmos e tudo isso acontece no corpo, né? Comemos batata frita como comemos poesia e é pelo sentir, pelo corpo. Pensamos, imaginamos, analisamos com o corpo também, né? Podem sem sintonias diferentes mas é tudo corporal. Isso de separar corpo d emente de cérebro de sentimento é um legado que já está sendo atualizado. E não tem a ve com ser ocidente. Afinal, é muito generalista dizer “ocidental” como “oriental”. Cabe tanta coisa em cada uma destas partes, né?
Kazuo pensava muito, anotava muito, escrevia muito, capinava muito, observava e analisava a natureza muito e tudo junto na dança, na vida também.
Eu gosto de estudar, ler, analisar, comer morango fresquinho, abraçar gente carinhosamente, fazer aikido, ler Damásio. Tudo dá prazer. Integrar as possibilidades, os diferentes tipos de conhecimento, de dúvidas e inquietações.
O legal é irmos descobrindo os caminhos, reconhecendo e se divertindo no dançar e inclusive aceitando os diversos caminhos percorridos por tanta gente neste mundo, né?
Abraço