Esse texto foi publicado originalmente no catálogo da edição 2010 da mostra de performances Verbo, realizada no fim de julho em São Paulo. Ele foi escrito com base no seminário dado pelo autor na edição 2009 da mostra. A publicação completa, com este e outros textos está em formato pdf, está disponível aqui.


Um convite inesperado

A palavra certa é surpreendido: fui pego de surpresa pelo convite feito pela VERBO 09, abrindo a oportunidade de minha participação no seminário VERBO Conjugado, dedicado ao debate sobre a performance no contexto das artes plásticas. Afinal, nos meus anos de trajetória profissional, não me considerava qualificado para tratar dessa temática, não pertencendo sob qualquer viés ao meio das artes ou da crítica de arte.

Minha formação de arquiteto e urbanista me levou a outros caminhos, os da investigação sobre a cidade e seus territórios, os atores sociais que os constituem, em permanentes articulações e tensões, os instrumentos políticos e simbólicos por eles construídos para defender suas posições na cidade. É certo que todos esses elementos são possíveis insumos para a prática da performance, mas evidentemente a VERBO 09 não precisava de mim para tomar consciência disso, pois são muitos os artistas que vêm utilizando referências do espaço urbano, da história da cidade e da política urbana para a construção de suas performances.

Tampouco me parecia que os participantes do seminário precisavam de fundamentação teórica vinda dos estudos urbanos para a realização de seu trabalho. Todos sabemos que teoria demais atrapalha e, além disso, os artistas que trabalham com performance no espaço urbano sabem buscar bastante bem seus referenciais teóricos, quando é o caso. Em suma, justificar minha presença no seminário constituiu-se para mim um grande desafio.

Após algum tempo de reflexão, optei por uma participação de caráter menos analítico, e mais autobiográfico: trazer para o VERBO Conjugado um aspecto de minha experiência de compreensão e registro do território urbano, que vem orientando parte de minha trajetória de pesquisa e intervenção no debate sobre a cidade. Há mais de 15 anos venho pesquisando, por diversos caminhos, as relações entre vivos e mortos no espaço urbano.

Com essa pesquisa, venho mostrando que – ainda que no século XIX os vivos tenham expulsado os mortos do seu convívio cotidiano – nosso dia-a-dia continua permeado de relações com os mortos: corpos e relíquias de santos operando milagres, locais onde ocorreram mortes considerados sagrados ou mal assombrados, lugares de comunicação com o mundo dos mortos… Para onde quer que olhemos, os mortos estão por aí. Com esse trabalho, procuro combater a ideia de que nossa sociedade encontra-se integralmente secularizada: as relações de religião e espiritualidade continuam fazendo-se muito presentes no espaço das cidades.

Recuperar aspectos de minha própria trajetória como pesquisador do território urbano, e colocar minhas reflexões em discussão no seminário, tem para mim uma função de duplo sentido: por um lado, oferecer matéria-prima para aqueles que trabalham com performance, que talvez se interessem por desenvolver ou desdobrar alguma referência que coloco no debate. Por outro lado, refletir sobre os instrumentos pela pesquisa no espaço urbano: registrar, associar, apresentar aspectos da vida urbana que, sem nosso trabalho, permaneceriam escondidos. Esses não são instrumentos tão estranhos ao mundo da performance. São vários os artistas que operam com esses procedimentos.

Iniciando uma viagem rumo aos territórios dos mortos

Iniciei minhas pesquisas nos territórios dos mortos com um objeto bastante singelo: os túmulos coloridos dos cemitérios do interior de São Paulo, que me intrigavam justamente por não se encaixarem em nenhuma das fôrmas a partir das quais eu havia aprendido a analisar a arquitetura. Enquanto estavam claramente desvinculados das formas e instituições eruditas, eram também desligados das modalidades tradicionais ou vernaculares, pois apresentavam uma intensa elaboração de informações vindas de todos os lados, de materiais mais e menos industrializados, de estilos e linguagens também múltiplos. Por outro lado, parecia-me inegável a capacidade de síntese dos elementos à disposição, resultando na produção de formas criativas. Eu percebia também as conversas que as linguagens dos túmulos estabeleciam entre si, revelando modalidades próprias de circulação do saber arquitetônico e decorativo que aconteciam de maneira específica em cada cemitério. Foi com esse objeto de pesquisa que realizei minha pesquisa de mestrado.

Logo descobri que os autores daqueles túmulos eram pedreiros e mestres-de-obras que mobilizavam seus repertórios para construí-los, usando muitas vezes os mesmos materiais de que dispunham para construir as casas dos vivos. Eu achava que tinha encontrado uma mina de ouro: ‘arquitetos’ formados fora das instituições, que elaboravam em cada túmulo suas próprias sínteses, produzindo algo como estilos próprios, distantes a um só tempo dos estilos eruditos e das tradições vernaculares.

Investigando em profundidade a forma como esses profissionais – autores de uma síntese verdadeiramente brasileira, distante dos modelos importados e colonizados – criavam suas linguagens e edifícios, eu poderia avançar no conhecimento da arquitetura real e majoritária que se constroi nas nossas cidades. Iluminar esses procedimentos significaria ajudar a elucidar aspectos de uma arquitetura nacional e não-tributária das escolas ditas ‘eruditas’.

Hoje a hipótese acima chega a parecer inocente. Não levou muito tempo para que eu descobrisse que minhas hipóteses iniciais eram falhas. Conforme encaminhava o trabalho de campo, visitando mais e mais os cemitérios, entrevistando os artesãos e fotografando suas obras, percebia que aqueles construtores populares não trabalhavam de forma autônoma em relação às representações da elite. Ao contrário, os túmulos dos mais ricos eram os modelos mais frequentes para as reinterpretações populares.

Outro tombo: por mais que perguntasse, jamais consegui encontrar um pedreiro ou mestre-de-obras que reconhecesse em seu próprio trabalho um estilo ou linguagem pessoal, uma síntese autoral específica a partir da qual se posicionaria na comunidade.

Na verdade, todos, sem exceção, diziam que os responsáveis pela forma final dos túmulos eram sempre as famílias dos mortos. “Mas você não dá nenhum palpite?” Nada. No máximo, uma volta pelo cemitério, para a família sem ideias se inspirar e escolher um modelo próximo do que queria. Pior: o trabalho de pedreiro no cemitério nada tinha de prestigiado. Era malvisto na comunidade, confundido com o dos coveiros.

Mas o principal dos golpes foi outro. Percebi que os túmulos que inicialmente chamaram a minha atenção como os mais criativos eram antigos: décadas de 1920, 1940, alcançando a década de 1970. Com algumas exceções, quanto mais contemporâneos, mais os túmulos tendiam para a simplicidade, a horizontalidade, a não-diferenciação.

Estava perdido o meu arquiteto nacional e popular, substituído por alguém que delegava todas as decisões estéticas (e não parecia sofrer nada com isso), que não extraía prestígio algum de sua atividade profissional, e ainda por cima estava deixando de fazer a arquitetura que eu considerava de maior interesse. Em outras palavras: em campo, minhas hipóteses iniciais haviam levado uma surra do objeto de pesquisa.

Não sabia que a dificuldade em reconhecer, em campo, o objeto que eu tinha idealizado era, na verdade, o início de uma nova trajetória, dessa vez orientada por aquilo que a pesquisa realmente mostrava. Fui aos poucos encontrando elementos e relações que me sequestraram da rota inicial e me mostraram novos caminhos, que a primeira abordagem jamais permitiria percorrer.

Em primeiro lugar, os caminhos do tempo, da História. A constatação de que a arquitetura que inicialmente me encantara e estava em vias de desaparecimento despertou-me para o fato de que se tratava de um objeto historicamente constituído. Lancei-me, portanto a uma pesquisa histórica, procurando identificar o recorte temporal que havia viabilizado a produção arquitetônica que me interessava. Acabei trilhando a trajetória da própria constituição dos cemitérios paulistas.

Durante os três primeiros séculos da colonização portuguesa no Brasil, as cidades apresentavam uma convivência íntima entre vivos e mortos, sepultados nas igrejas no centro do território e da vida cotidiana. Tal situação estava plenamente vigente até o início do século XIX. Durante o século XIX, vários setores das elites agregam-se em uma série de discursos, que iam da salubridade à decência, todos convergindo no sentido de condenar os costumes tradicionais de morrer e enterrar. A construção social, que em nome da ‘civilização’ segregava os mortos dos vivos, estabeleceu um só lugar para eles na cidade: o cemitério periférico e público.

Mas, resolvendo-se a tensão do ponto de vista urbanístico, surgem novas tensões e contradições. A interface entre vivos e mortos de todas as cores e classes sociais em um só território engendrou novas maneiras de diferenciação entre os vários grupos da sociedade. Entra em cena a arquitetura, mobilizada em todo o seu potencial de atribuir aos túmulos uma posição específica na sociedade.

Mas o esforço que fiz de enxergar e sistematizar a forma arquitetônica híbrida dos túmulos nos cemitérios do interior do estado de São Paulo como criação e não como desvio, não me levou ao encontro de linguagens ‘legítimas’, ‘genuínas’, ‘de resistência’. Ao contrário: de maneira geral, identifiquei um sentido persistente nas criações e apropriações formais. A capacidade propositiva de novas formas – e, portanto, certo controle sobre a obsolescência das antigas – parte quase sempre dos mais ricos em direção aos mais pobres, e o cemitério é campo privilegiado para identificar esse movimento. Tal desigualdade era verdadeiramente incômoda, pois eu resistia a aceitar que os mais pobres tivessem um papel tão periférico no território dos cemitérios. Pude dar uma resposta a essa inquietação, graças à teimosia de alguns mortos, que me perseguiram desde o início do levantamento, aparecendo recorrentemente sem serem chamados e que acabaram por merecer todo um capítulo, o terceiro e último, da dissertação de mestrado. Trata-se de um conjunto de túmulos de ‘santos populares’, presentes em praticamente todos os cemitérios, lugares aos quais a população recorre para pedir favores ou para agradecer por milagres alcançados. Túmulos que constituem espaços de devoção e, em alguns casos, quase de romarias e peregrinações, estabelecendo janelas de interface e comunicação entre o mundo dos vivos e o dos mortos.

Tais relações e territórios colocam em cheque a própria separação radical entre o mundo dos vivos e o dos mortos, conquistada pelas elites ‘civilizadoras’ com tanto esforço no século XIX. A matriz popular, que procurei inicialmente nos pedreiros e artesãos, pareceu em sua maior potência em um lugar que, a princípio, sequer fazia parte do campo de pesquisa: a persistência das antigas interfaces, trocas e comunicação entre o mundo dos vivos e o dos mortos que, percebi, estão longe de terem sido extintas.

A trajetória acima está mais bem explicada em meu livro Cidades dos vivos: arquitetura e atitudes perante a morta nos cemitérios do Estado de São Paulo (Ed. Anna Blume/FAPESP, 2002), que, mais do que aplacar minha curiosidade sobre os territórios dos mortos, levantou novas questões, que desenvolvi em trabalhos posteriores.

As relações entre vivos e mortos: um objeto histórico

Um dos principais saldos da pesquisa sobre os cemitérios do interior do estado de São Paulo foi uma grande inquietação com uma documentação que havia encontrado no percurso de pesquisa. Fontes que eu mal compreendia, mas que mostravam suas potencialidades acerca da produção de conhecimento sobre o território e as cidades.

Tratava-se de não mais que cinco ou seis passagens de documentação dos séculos XVI ao XVIII, nenhuma delas inédita, que revelavam que, em alguns casos, os mortos chegaram antes dos vivos nos princípios da urbanização das cidades paulistas. O cemitério ou o túmulo de um personagem especial parecia não só preceder, mas até mesmo orientar, condicionar, posteriores assentamentos permanentes, alguns dos quais se tornaram grandes cidades.

Seria possível? Teriam os mortos participado, por assim dizer, ativamente da urbanização no Brasil? As pessoas e as cidades já teriam se comportado dessa maneira, tão radicalmente diferente das maneiras como nos relacionamos com o território atualmente? Responder a essas perguntas pressupunha um mergulho bem mais intenso no instrumental da História, e foi esse o desafio que encarei em meu processo de doutoramento.

Os caminhos percorridos levaram-me bem mais longe do que havia suspeitado, tanto do ponto de vista geográfico (incluindo uma fundamental passagem por alguns acervos portugueses e espanhois), quanto do ponto de vista acadêmico, exigindo uma radical incursão fora de minha formação e disciplina. Os documentos que tanto me fascinaram eram, na verdade, testemunhos de um mundo que há muito deixou de existir e que

teve seu maior vigor no início da Idade Moderna. Sem haver planejado, voltei meus estudos ao território dos séculos XVI e XVII e tornei-me algo como um especialista nos aspectos territoriais da América Portuguesa, identidade inicialmente um pouco incômoda para um pesquisador tão próximo dos debates do contemporâneo. Ainda assim, encarei esse desafio intelectual com toda a radicalidade.

Para dar conta das minhas inquietações, tive que aprender a me aproximar de um mundo de imensas diferenças com relação ao nosso. Um mundo onde nossas verdades ajudam muito pouco a desvendar, se a ideia for entendê-lo em seus próprios termos. Os principais parâmetros que nortearam o trabalho foram dados pela religiosidade. No início da Idade Moderna era impensável para o homem cristão pensar, percorrer ou produzir o território de forma laica. Um mundo cuja porta de entrada é a total integração entre o religioso e o social, onde não havia dúvida que a força maior de construção do mundo era a providência divina. Deus comandava e controlava todas as coisas. Tudo estava em Suas mãos. A vida material era a revelação de uma dimensão espiritual e divina, sem qualquer questionamento.

Não se tratava de negar que os atores da época tivessem razões econômicas ou de ordem pragmática para seus atos, mas de identificar outra racionalidade, de base espiritual e religiosa, que também orientou a produção do território. Mais do que isso, tratava-se de desfazer uma associação, para nós automática, que define a esfera da espiritualidade como um âmbito ‘simbólico’, primo pobre da esfera do ‘real’ ou do ‘material’, quando analisamos o desenvolvimento territorial em qualquer período. Ao contrário, para o cristão do início da Idade Moderna, conceitos como Deus, Diabo, pecado, céu, inferno, purgatório e outros eram ‘realidades reveladas pela esfera divina e, portanto, mais reais do que os fugazes aspectos temporais de suas vidas’[2] O resultado desse trabalho foi consolidado no livro Sangue, Ossos e Terras: os mortos e a ocupação do território luso-brasileiro (Ed. Alameda/FAPESP, 2009).

Os dois primeiros capítulos do trabalho procuram mostrar que nos séculos XVI e XVII a conformação territorial, tanto na Europa Católica quanto na América Portuguesa, era altamente mediada pelos corpos sagrados dos santos e pelos lugares e relatos de martírios. Não me refiro aqui à representação mais recente e etérea dos santos em imagens gloriosas, mas à presença física de seus corpos na Terra, dos sinais materiais de sua passagem por este mundo antes de partirem para privar da companhia de Deus. Essa investigação foi ganhando mais e mais espaço conforme caminhava o trabalho, e isso aconteceu porque fui me deixando seduzir pela interminável documentação que descobri, cujas problemáticas abriam-se em leques. Trata-se de campo de estudo quase inesgotável, mas o estudo realizado me permitiu afirmar algumas coisas sobre a presença dos corpos dos santos no território.

O primeiro capítulo trata de alguns mortos muito especiais: os mártires cristãos, cujas trajetórias de sofrimento transformaram os locais de sua morte e sepultamento em lugares investidos de significados excepcionais. Nesse capítulo, reconstruo as relações de identidade entre o culto aos mártires e a ordem territorial cristã, para mostrar que no início da Idade Moderna, a narrativa do martírio era dotada de grande significação, alavancada pelo poder pedagógico das inúmeras mortes de fundo religioso que ocorreram na Europa das Reformas e pela circulação da informação a respeito dos martírios de missionários nas novas regiões. Os martírios foram também eventos pleno de significados para os índios que os portuguesas encontraram na América. O capítulo mostra também a disposição dos missionários – Jesuítas e Franciscanos – a morrer em prol da expansão da fé cristã.

O segundo capítulo trata das relíquias sagradas, os restos materiais dos corpos dos santos, principalmente seus ossos. Diferente dos locais de martírio, que eram fixos e permanentes, as relíquias eram objetos móveis, que podiam ser tratados de maneira bastante diversificada. Podiam adormecer escondidas por séculos até serem redescobertas, e isso aconteceu extensivamente na Península Ibérica nos séculos XVI e XVII, após a reconquista do território pelos cristãos.

Também na América e na Ásia houve esse movimento, principalmente envolvendo as relíquias de São Tomé, apóstolo que teria pregado naquelas terras. O início da Idade Moderna foi provavelmente o período de mais intensa mobilidade das relíquias, por diversos processos que aconteciam simultaneamente: no Norte e Centro da Europa, as reformas protestantes negaram o seu poder de mediadoras entre o mundo divino e o terreno, destituindo as igrejas de suas relíquias e não raro destruindo-as. Na Europa católica, em contraponto, seu culto foi exaltado. Inúmeras relíquias trocaram de mãos e de cidades naquele momento, e as cerimônias de traslado e recebimento de relíquias assumiram um porte grandioso. Os transportes de relíquias se deram também em escala global, pois era fundamental integrar as gigantescas novas terras à narrativa simbólica cristã, e a chegada de relíquias nas colônias eram grandes acontecimentos enobrecedores e até mesmo formadores das cidades na América Portuguesa.

Enquanto os dois primeiros capítulos dão prioridade às maneiras como o clero relacionou-se com o território, a pergunta básica do terceiro capítulo é: quais relações eram promovidas pela Coroa no que diz respeito à territorialidade da morte? Focado nos reis aos quais a América Portuguesa esteve sujeita no século XVI, O corpo do Reino mostra, por um lado, que os procedimentos relacionados aos martírios e ao trânsito e colecionismo de relíquias estavam inteiramente legitimados pelos reis. Por outro lado, verifica o importante processo de territorialização e monumentalização do local de sepultamento dos reis, mostrando a progressiva afirmação da figura real por meio desses mesmos sepulcros, parte integrante de um processo de centralização do Estado. Os túmulos reais foram também fundamentais para a legitimação das cidades capitais – que nesse caso são duas: Lisboa e Madri – o que acabou por produzir uma nova hierarquia territorial para os impérios.

O quarto capítulo, A comunidade dos vivos e dos mortos, mostra que não eram apenas os santos e mártires os mortos capazes de influir sobre a sociabilidade e a organização do território. Os mortos comuns tinham também seus poderes. Nesse capítulo, procuro investigar os laços de dependências e reciprocidades que ligavam vivos e mortos, mostrando a poderosa capacidade de agregação sobre o território que os mortos possuíram no início da Idade Moderna, constituindo-se quase como um grupo social, uma ‘faixa etária’.

A geografia do além fazia parte da vida das pessoas como as ruas, casas e templos da cidade, e existiam vias de acesso claras e amplamente aceitas entre esses dois mundos. Foi dada importância especial ao purgatório, que dentre os territórios do além sem dúvida era aquele que tinha mais interfaces com o mundo dos vivos.

A ocupação católica do Brasil significou também um gigantesco choque de territorialidades fúnebres, talvez o mais profundo que a humanidade jamais assistiu. Os habitantes nativos do Brasil atribuíam significados que não podiam mais ser distintos daqueles que os portugueses davam à morte e ao território.

O quinto e último capítulo do livro, Os índios, sua terra e seus mortos, é integralmente dedicado a eles, procurando entender a maneira como os índios, especificamente os Tupi, articulavam em seus próprios termos as relações entre morte e território. Nesse sentido, relaciona aspectos aparentemente díspares, como a pouca importância dada aos locais de sepultura, o nomadismo, a antropofagia e atitudes corporais.

A cidade, os mortos, a história e a VERBO 09

Minha trajetória pelos territórios dos mortos está longe de terminar. Atualmente, estou conduzindo uma pesquisa no IFCH-UNICAMP, com bolsa de pesquisa da FAPESP, sobre a função dos martírios como elemento de sacralização do território, fundamental para a conversão do sertão povoado por índios e demônios ao catolicismo, nos séculos XVI e XVII.

Não me considero um especialista no passado. Pelo contrário, toda essa pesquisa tem como finalidade legitimar formas de construção e ocupação do território baseadas na religiosidade e na espiritualidade, que estão longe de terem sido extintas – talvez estejam até mesmo em ascensão. Eventos contemporâneos como a globalização, os ataques terroristas de 11 de setembro, o crescimento dos chamados ‘fundamentalismos’ no Oriente Médio e em todo o mundo, tornam urgente refletir sobre os filtros que foram sucessivamente sendo impostos à nossa sociedade, como, por exemplo, o do Estado Nacional, o da sociedade regida pela técnica, o da separação entre ciência, política e religião. Reconhecer a potência das lógicas religiosas na disputa e ocupação do território possui um significado que não se encerra em si mesmo. No início do século XXI, lograr conhecer e reconhecer um mundo e uma humanidade cujas ações são motivadas pela religiosidade e pela espiritualidade não é um capricho, mas uma urgência.

Voltando às considerações que fiz no início deste texto, me parece que os percursos que tenho feito apresentam algumas semelhanças com a forma como alguns artistas constroem trabalhos de performance, principalmente aqueles que têm como objeto o espaço urbano e seus agentes.

Uma inquietação com um problema que no início parecia pouco mais do que uma intuição, um esforço de documentação e sistematização, uma perspectiva de intervenção em um debate de caráter mais público, a preocupação em restituir dignidade a inúmeras pessoas cujas vidas foram – e ainda são – estruturadas por valores que para nossos olhos técnicos e contemporâneos podem parecer superados, folclóricos, obscurantistas, pude identificar tudo isso como preocupações que circulam no meio da performance.

O formato que venho encontrando para dar vazão a essas preocupações tem sido eminentemente acadêmico, mas talvez isso se deva muito mais às minhas próprias preocupações, inseguranças, oportunidades e talentos do que a uma maior eficácia do meio da pesquisa em dar respostas aos desafios a que me propus enfrentar. Certamente, uma investigação de caráter mais artístico, mais livre, sobre os mesmos objetos, assuntos e documentos, traria novas possibilidades de problematizar e fazer circular as questões com as quais me preocupo.

Renato Cymbalista é arquiteto e urbanista, mestre e doutror pela FAUUSP. Pesquisador de pós-doutorado do IFCH – UNICAMP no projeto temático ‘Dimensões do Império Português’. Pesquisador (licenciado) do Instituto Polis. Autor de livros e artigos sobre história urbana e política urbana, entre alguns títulos estão ‘Cidade dos vivos : arquitetura e atitudes perante a morte nos cemitérios no estado de São Paulo’ (Anna Blume/FAPESP, 2002); ‘São Paulo, Panorâmica em 360°’ (com Helmut Batista – Panaview, 2006); e ‘Sangue, ossos e terras: os mortos e a ocupação do território luso-brasileiro’ (Alameda Editorial/ FAPESP, 2009).

Leia também: A palavra como suporte para a performance

Performance e reencenação: uma análise de Seven Easy Pieces, de Marina Abramovic